Pra você, jovem jornalista…

Eu fiquei lá menos de dois anos. O suficiente pra perceber que estava cercada por uma das equipes com mais gente boa por baia da qual eu participei. Redações são cheias de vaidades. A do Jornal da Tarde, não. Fiz amigos que agora levo pra vida toda nesse lugar que deixou de existir hoje, 31 de outubro de 2012, depois de 46 anos. O JT, um símbolo do jornalismo brasileiro, que ajudou São Paulo a ser melhor, mostrando defeitos, qualidades e curiosidades da maior cidade do País, acabou. Deixaram acabar… A equipe era chamada de Família JT. Isso diz muito.

Entre fotos e vídeos de despedida do último fechamento, não consegui não chorar ontem. E sem estar presente (fisicamente), eu pensava em tudo o que eu gostaria de dizer para os meus amigos que escreviam e editavam os últimos textos, definiam as imagens e a montagem das páginas. Mas em cada nova mensagem postada no Facebook, tinha uma turminha dali que não saía da minha cabeça: os jovens jornalistas e estagiários.

Quando me formei (e lá se vão dez anos), eu não fazia muita ideia de por onde começar quando segurei o diploma na mão. No primeiro ano, tive mais medo do jornalismo, de não dar conta dele, do que alegria. Era muita ansiedade pra fazer dar certo. Foi quando entrei no Curso de Focas do Estadão (uma espécie de trainee de três meses do Grupo Estado). Foi o que me abriu portas para entrar no concorrido mercado da capital. Nesses anos todos aqui, desde 2001, quatro veículos no currículo, sempre fui daquelas que acordava feliz na segunda-feira sabendo que iria trabalhar com o que eu escolhi. Eu via sentido em ser jornalista.

Durante o curso, fiquei duas semanas no JT. Uma porque me mandaram. Outra porque tinha uma semana livre, pedi pra voltar e deixaram. E se nas outras editorias a gente fazia no máximo notinha, o editor de Variedades me permitiu escrever duas matérias inteiras – e ainda assinar!! Era demais para um coração foquinha!! Uma matéria sobre a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e outra sobre o livro “Cobras Criadas”, de Luiz Maklouf. Acabei de olhar pra minha estante. Continua ali, na penúltima prateleira.

Muito tempo se passou até eu voltar. E aí… fui feliz de verdade. Fiquei brava muitas vezes. Dei chilique, dei risada (mais do que chilique). Implorava espaço na diagramação para meus textos (e o pessoal sempre me ajudava). Descobri que podia escrever de um jeito diferente do que eu estava acostumada até então (é um pouco esse que vocês acompanham aqui no blog). Fiz reportagens que vou me orgulhar pra sempre, que eu sei que fizeram diferença na vida das pessoas, que me escreveram/ligaram e disseram “muito obrigada por me ajudar a contar minha história”.

E foi sobre isso que escrevi ontem pra oito jovens talentosos que acabaram acompanhando tão de perto esse fim, que é triste pra toda imprensa, mas deixa um vazio maior pra quem foi parte do JT. O que eu disse a eles (e aproveito pra dizer pra todo jornalista iniciante que puder ler agora) foi “não desistam”. Jornalismo parece ter se tornado uma profissão ingrata. Demissões, referências que se vão… Mas eu acredito de verdade que é cíclico. Tem períodos melhores, outros piores, e não acho que é só um problema dessa profissão.

O que eu percebo que TEM que mudar é a nossa postura diante da realidade da profissão. Temos um sindicato fraco. E muitos de nós são cada vez mais burocráticos e desapaixonados. Sei que estamos longe de ganhar bem como engenheiros, que somos obrigados a presenciar cortes constantes e, provavelmente, estamos entre os profissionais mais esgotados do mundo (deadline apertado, plantão, pescoção). Não justifica sermos uma classe desunida. Porque, pra mim, também não adianta ser solidário depois que acaba (ou quando está na iminência de acabar). Temos todos que bater pé junto, antes da situação sair do controle.

Mas enfim, minha geração (eu me incluo, claro), não conseguiu enxergar essa necessidade, não encontrou um jeito de mudar. Peço, jovens jornalistas, perdão pela nossa incapacidade. Deixamos esse desafio pra vocês que estão chegando. E eu só reforço de novo um “não desistam” porque eu sei que vocês podem. Quem sabe ainda não vemos juntos outros símbolos como o JT nascerem? Eu acredito mesmo que a gente consegue.

Crédito da imagem: Alex Silva (foto)/ Viviane Jorge (capa)

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Ideias para ir além

Dizem que a internet é um território livre, em que se encontra todo e qualquer tipo de informação (para o bem e para o mal). Mas reza a lenda que para ser ouvido (lido) na rede os textos devem ser enxutos, rápidos, pra não cansar o leitor e não fazê-lo perder tempo, reforçando a ideia de que o mais importante da vida hoje é a velocidade. Não importa se a rapidez precariza suas relações, seu cotidiano. Seja rápido. Leia rápido. Trabalhe rápido. Se atualize rápido. E nem pense em parar pra respirar! Que preguiça que eu ando disso…

É burro a gente acreditar que avanço tecnológico (muitíssimo bem-vindo, que fique claro) significa se escravizar pra ter, saber e viver tudo AGORA. É humanamente impossível. E cá entre nós, não é nem realmente necessário. Só nos torna uma legião de zumbis superficiais.

Quando finalmente resolvi criar o “Fale ao Mundo”, lembrei de alguns comentários que ouço sobre o uso da internet desde sempre: “Faça posts curtos”. “Foque em apenas um tema”. “Atualize a cada minuto”. “Dê o máximo de informação o quanto antes ao público”. Será? Até acredito que, dependendo do site, essas “verdades” aí tenham algum sentido. Mas não sempre. Não pra tudo.

A prova disso é que, após sair do último veículo que trabalhei, em julho, continuei escrevendo crônicas, algo que eu tinha iniciado lá alguns meses antes. Sem me preocupar muito em ter outro lugar específico pra publicar o que eu sentia e queria dizer, usei meu mural no Facebook pra postar os textos, sem maiores pretensões. E sempre muita gente leu. Sempre muita gente curtiu e comentou. E nunca eram textos curtos. Nunca eram informações enxutas. Sempre foram ideias para irmos além do que o cotidiano frenético nos permite observar. Ideias e situações que fazem parar pra pensar mesmo.

Então, me desculpem, mas não vou escrever pouco se acredito que tenho muito a dizer. Acho um erro subestimarem tanto o leitor, com base no discurso de que as pessoas só querem cada vez mais informações rápidas. Isso é apenas parte da comunicação. Não ela por inteiro. Há também um desejo enorme por conteúdos que as ajudem a enxergar outras possibilidades no mundo, a refletir.

Até desafio as empresas midiáticas, que no fundo mal sabem bem pra onde estão indo, mergulhadas em pesquisas disso e daquilo e pouco atentas às necessidades humanas, a reverterem o processo. Ao invés de oferecerem apenas aquilo que levanta a audiência (e aí entra qualquer coisa, qualquer bobagem mesmo), criem mais espaços para textos, imagens, infográficos, que ajudem o leitor a ampliar suas possibilidades para debater, sentir, mudar. Muita gente já cansou desse excesso de conteúdo fraco. Muito mais gente vai cansar. Passou da hora de voltarmos a oferecer qualidade. E se vocês, empresas, não fizerem isso, alguém vai fazer… Sem nem precisarem de sua ajuda… E olha, talvez até essa seja a maior graça…

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

Porque tem dia que dói…

Como levantar da cama quando a primeira coisa que vem à cabeça ao abrir os olhos é um sofrimento? Ao invés de começar logo o dia, sua única vontade é de chorar. Ou você não chora, mas fica estático, imóvel, como se não houvesse nada lá fora importante o suficiente pra te tirar da inércia e seguir em frente. Talvez você até consiga tomar banho, se vestir, tomar um café, mesmo que tudo pareça indiferente. Mesmo que seja automático e com um vazio no peito difícil de explicar.

Não tem jeito. Por mais alegrias que a gente encontre no nosso caminho, a dor também faz parte dele. Minha avó materna repetia muito o ditado “depois da tempestade sempre vem a bonança”. O duro é que depois da bonança, a tempestade, teimosa, retorna. É o ciclo natural da vida, sim. Mas como fazer o coração (e mesmo o corpo) compreender que, simplesmente, faz parte? Porque tem dia que dói… E dói tanto que a dor chega a ser física. Falta o ar direito. Falta força pra arrumar a postura. Falta vontade de andar, de comer.

Dói ver alguém que você ama doente. Dói ser obrigado a dizer adeus quando perdemos para a morte. Dói ser enganado, ver a mentira jurada como verdade, a palavra que deveria ser sincera sendo dissimulada. Dói ser alvo de injustiça (e ver injustiças). Dói saber que aquela não será mais a sua mesa de trabalho. Dói ver o dinheiro faltar (especialmente se há filhos para criar). Dói o fim do que parecia ser perfeito. Até aquele último e-mail, mensagem, que você mandou e nunca foi respondido, confirmando como sentimentos podem ser descartáveis. E quando alguém se distancia quando você mais precisa? Dói, pelos mais variados motivos e das mais diversas formas. Os arrependimentos, as decepções, as perdas em geral, as saudades…

Mas como me disse um amigo, quando eu me sentia muito triste: “Tem dia que dói. Sei bem como é… Mas não precisa doer todo dia e nem o dia todo. Momentos assim ajudam a colocar tudo numa outra perspectiva.” Eu acrescentaria que ajudam a moldar nosso caráter.

Então, se a dor é inevitável, que ela nos leve a compreender que sua dura presença não passa de uma transformação. E que ela só está ali para darmos mais valor quando o lado bom chegar novamente. Porque tem dia que dói. E é melhor assim. Conheço uma pessoa que diz: “Nunca tive grandes alegrias, mas também nunca tive grandes tristezas.” Nada pode ser mais triste do que passar neutro pela vida, sem emoção. Por isso, que venha sempre a dor para entendermos de verdade a felicidade.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna (de Renata Maneschy)

Muito prazer, escritora

Eu sempre digo que todo mundo tem mais de um talento. Nem sempre temos a oportunidade de desenvolver todos eles, porque a responsabilidade do dia a dia chama pra ganhar dinheiro, sobreviver… E acaba sobrando bem pouco tempo pra se dedicar ao que, muitas vezes, é quem a gente é de verdade.

2012 não anda suave… Tive perdas, grandes tristezas, decepções, um choque de realidade. Mas esse ano também vai ser marcado por uma chance maior que eu me dei na vida. Contra a opinião de muitos, a descrença de outros, e o apoio de poucos, eu parei. Cheguei no limite do estresse – e fui arrancada à força daquilo que eu tanto acreditei, mas que já parecia mais aqueles namoros mornos, quando você ainda até gosta da pessoa, só que não é mais apaixonado. Destino? Então, com a ajuda dele, o destino, eu parei. Parei pra descobrir quem é a Suzane de verdade que foi engolida pela rotina.

“O que te motiva? O que faz sentido pra você, minha cara? Se você viver mais dez anos, onde vai querer estar?”, perguntava pra mim o reflexo no espelho. E aí, depois de parar, de sofrer, de ouvir o que as pessoas tinham a dizer (de bom e de ruim), de observar as reações delas ao modo como eu coloco nas palavras o que vai no meu coração (e no de muita gente), eu consegui entender, a princípio, duas coisas.

A primeira, cujo processo já está em andamento com o mestrado, é ser professora universitária. Me critiquem. Há quem ache ser uma profissão menor num país que não tem o devido respeito por essa figura. Eu não ligo. Talvez seja até influência de família (minha mãe e minhas tias são professoras). Mas o que eu sei é que, pra mim, faz sentido. Faz sentido ajudar as pessoas a pensarem o mundo e a se prepararem pra ele (independentemente se vão ou não seguir a profissão pra qual estão estudando). Eu quero preparar gente. Com valores melhores do que se vê por aí. Com menos preconceitos. Com mais atitude. Provavelmente, às vezes, vai ser ingrato. Não tenho ilusão. Mas eu acredito, de verdade, que o lado positivo vai prevalecer (até porque também vou aprender, já que se trata de uma relação de troca de ideias, de experiências).

A segunda questão que eu entendi (e essa, por incrível que pareça, foi mais difícil de assumir) é que escrever é o que eu sei fazer de melhor até aqui. Gosto bastante de imagem, de vídeo, de fotografia. Mas lidar com isso ainda é mais farra mesmo. Até acredito que, em algum momento, essa questão visual vai ganhar espaço. Não ainda. Porque agora é a hora de usar tudo o que eu aprendi em mais de uma década (questionar, lançar um olhar diferente, contar uma história) como base pra construir quem eu sou de verdade. Me expressar por meio de uma crônica, lançar opiniões pessoais à crítica de todos é um desafio. Quando eu colocar o dedo na ferida mais profunda de cada um em parágrafos, darei também a vocês o direito de me julgarem. Mas… é o que eu sei fazer. É o que eu gosto de fazer. Essa sou eu.

E agradeço muito aos que estão lendo este texto agora. Porque foi com os comentários de vocês que, no fim, eu tomei coragem. Por isso, obrigada. Já aproveito pra dizer que o nome “Fale ao Mundo” foi escolhido não só pra eu dizer o que eu acho. Em algum momento (aviso quando), vocês vão “falar ao mundo” por aqui também. Porque tem muita gente interessante, cheia de histórias interessantes, e com muito a ensinar.

Me autointitular é que ainda é um processo. Semana passada fui ao médico. Tinha que preencher uma ficha e lá estava o campo “profissão”. Fiquei na dúvida. Porque professora ainda não sou. Mestranda não é profissão (apesar de dar um trabalhão). Então, respirei fundo, peguei a caneta e escrevi “escritora”. E tive que morder o lábio pra conter o sorriso que eu dava pra mim mesma… Muito prazer. Essa sou eu. Escritora. Pronta pra falar ao mundo.

P.S.: Meu agradecimento especial a quem me ajudou a colocar o Fale ao Mundo em prática: Renata Leal (pelo blog), Leandro Ortunes (pelo visual e criação da fanpage no Facebook), Ana Flora Toledo (pela série de fotos que ainda entrarão aqui) e Gilberto Amendola (por ceder a foto deste primeiro post).