O machismo nosso de cada dia

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Pra mim, beira o inacreditável e me revolta. Espero que a vocês também. Segundo dados do Mapa da Violência 2012, produzido pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (CEBELA), e divulgados esta semana, de 1980 a 2010 foram assassinadas no País cerca de 91 mil mulheres, 43 mil só na última década. Com uma taxa de 4,4 homicídios em 100 mil mulheres, o Brasil ocupa um vergonhoso sétimo lugar entre 84 países. Esses assassinatos foram provocados por maridos, namorados, companheiros, pais, irmãos.

Outros dados da Agência Patrícia Galvão, criada em 2009 para divulgar notícias sobre os direitos femininos, mostram que 91% dos homens consideram que bater em mulher é errado em qualquer situação. Mas isso não deve deixar ninguém tranquilo. Significa que 9% dos homens ainda acham que é sim razoável ser violento com uma mulher.

Uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido alguma vez algum tipo de violência por parte de algum homem. É fundamental lembrar que humilhações, terror psicológico, também é caracterizado como violência. Eu já sofri isso. Muitas (eu disse MUITAS) amigas e conhecidas minhas também. E não é porque somos fracas, ignorantes, desinformadas sobre nossos direitos. Simplesmente, às vezes, a situação toma uma proporção complexa demais, da qual não se sabe mais como sair.

Em geral, quando os primeiros sinais de machismo aparecem, estamos apaixonadas. O ciúmes dele parece só uma prova de amor, de preocupação. Não é. Possessividade, controlar cada passo que você dá, achar que você está sempre mentindo. Nada disso é cuidar, querer bem, também estar apaixonado. Manipular, fazer parecer que é sempre você a culpada pelos problemas da relação, também não.

Quando vem um grito, achamos que, talvez, ele tenha ficado um pouco nervoso só. Ele promete que aquilo não vai se repetir. Mas se repete. Primeiro, espaçadamente. Depois, com frequência. Até que se torna corriqueiro. E você já está fragilizada e com medo das ameaças, que tanto podem ser um “eu vou te matar se você me deixar, vou te arrebentar se contar para alguém”, ou “você não é boa em nada, não é nem bonita, não é competente, você faz tudo errado, vai achando que você vai encontrar alguém que te aguente como eu”, entre outras tantas bizarras justificativas.

Lembrando que não precisa ser um tapa na cara pra caracterizar violência física. Empurrões, apertar o braço até deixar roxo, te puxar a força, entre outras coisas, é tudo violência. E não adianta a gente dizer que basta a mulher sair de casa ou colocá-los pra fora. Para muitas, especialmente mulheres que vivem na pobreza, a questão financeira pesa. Com salários ainda mais baixos do que os dos homens ou sem qualificação e experiência profissional, a saída é mais difícil de ser encontrada.

A pergunta é: o que leva esses caras a imaginarem que têm autoridade, esse direito de fazerem sua vontade e opinião valerem à força? Nós. Somos nós, com nossas pequenas atitudes machistas do dia a dia, que reforçamos uma consciência coletiva de que eles são superiores, podem mais.

Somos nós, que rimos de piadinhas machistas. Que aceitamos ganhar menos por funções iguais. Que fazemos o prato de um marmanjo e lavamos suas cuecas até o dia que ele sai de casa pra casar. Ou aceitamos continuar lavando a roupa que ele leva no fim de semana mesmo depois de ir morar sozinho. Que damos o pedaço de bife maior ou deixamos eles almoçarem primeiro. Que temos orgulho do filho pegador – e ai da filha que for “galinhar”! Que acreditamos ainda piamente que meninos devem usar azul e meninas, rosa. Que meninos não podem dançar balé e que meninas não podem jogar futebol. Que homem que defende uma opinião com firmeza é “assertivo” e mulher que defende opinião com firmeza é “histérica”. Que homem com namorada mais jovem é natural e mulher com namorado mais jovem é uma velha sem noção. Que homem que chega a um doutorado é um gênio e mulher que também carrega esse título não tem vida pessoal e enfia a cara nos livros. Que mulher realizada é aquela que acha marido – e aqui cabe um sonoro “antes só do que mal acompanhada”.

Quantos não são os homens, muitos bem jovens, que ainda acreditam que merecem mais prazer do que uma mulher na cama? Ou que ela nem merece e está ali só pra satisfazer sua vontade? Ah, sim… Mulher que gosta tanto ou mais de sexo do que homem não vale nada. Se ela usa uma saia curta, maquiagem, salto alto, é amiga de rapazes só pode ser uma vagabunda. Mulher que viaja sozinha pelo mundo? Só pode ser vadia.

Homens que agem assim (ou pior) são escrotos, babacas, no fundo um bando de inseguros que não botam fé em si mesmos. Mulheres que agem assim são recalcadas. E, por isso, reforçam o machismo pra que outras não possam viver tudo aquilo que, lá no fundo, nos seus desejos mais secretos, elas também gostariam de viver. Ah, você só sai com cara que tem carro? As primeiras perguntas que você faz pra sua amiga que começa a namorar é “qual o carro dele”, “qual o cargo dele”, “ele paga toda a conta”? São esses os requisitos que te fazem sair com alguém? Ah, você condena a prostituição??? Puxa… Então, tá…

Outro dia uma amiga me contou de uma conhecida que diz para a filha de 15 anos: se sair com um cara que não aceitar pagar toda a conta do restaurante é pra ligar pra ela, a mãe, ir buscá-la. Isso, minha cara. Ensine sua filha a trocar o corpo por um jantar. Não há problema algum em aceitar gentilezas. O problema é fazer isso parecer a regra do bom relacionamento. Fazer parecer que isso é valorizar uma mulher. Aí, você vê um bando de garotas com namorado/marido pagando tudo e sem nenhuma voz de decisão, de escolha, na relação. Aceitando as humilhações que facilmente acontecem a partir daí. Vale acrescentar que nem todos os relacionamentos em que a mulher não trabalha são desiguais. E isso pode acontecer por mil motivos, inclusive a opção do casal de que é o melhor para a criação dos filhos. Mas quem entra numa relação acreditando que o homem banca tudo porque é sua obrigação ou mulher não tem que trabalhar porque ela não foi feita pra isso, pode se dar muito mal (ambas as partes).

Machismo masculino é inaceitável. Machismo feminino é inaceitável e constrangedor. Para eles, existe a Lei Maria da Penha. Para elas, é sempre tempo de tomar vergonha na cara – e ser a mulher que sempre quis ser de verdade.

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A xenofobia nossa de cada dia

Uma das principais características do Brasil é sua diversidade cultural. Com uma formação fortemente marcada pela imigração, é difícil encontrar um brasileiro que não tenha no sangue de tudo um pouco. Quem se detém por breves minutos observando aqueles que transitam numa calçada de um lugar como a Avenida Paulista, vai se deparar com fisionomias que poderiam ser vistas em qualquer parte do planeta. Somos uma grande e bonita mistura. É essa uma das nossas maiores riquezas.

Me espanta, então, perceber que nós (justo nós!), filhos, netos e bisnetos de imigrantes, estejamos também dando indícios de um dos preconceitos que mais me assustam no mundo: a xenofobia, que é a aversão a estrangeiros, mais especificamente a imigrantes. Ela cresce. E é um retrocesso grave aceitar e defender aquilo que já levou a grandes extermínios no decorrer da história da humanidade.

O fato recente que mais causou comoção mundial foi o atentando na Noruega, ocorrido em 22 de julho de 2011. O atirador Anders Breivik, um nacionalista radical, detonou uma bomba no centro da capital, Oslo, deixando oito mortos. Na sequência, abriu fogo contra jovens num acampamento, matando 69 pessoas. Breivick, que é de extrema direita e recebeu sua sentença de prisão com um sorriso no rosto e fazendo a saudação nazista, com o braço direito erguido, justificou seu ato como “uma maneira de proteger o país de uma invasão muçulmana e da política de imigração favorável ao multiculturalismo”.

Ficamos em choque com o caso. Levamos as mãos à boca pronunciando um “que horror” quando vemos notícias como a do atirador norueguês. E é para ficar realmente aterrorizado com uma atitude movida por uma aversão ao outro. Que aqui chegou ao extremo, claro. Mas quem disse que atitudes menores como um olhar atravessado, a demonstração de um incômodo pela presença de quem vem de fora e até se achar no direito de humilhar não são graves?

Rosa (troco aqui o nome dela para preservar sua identidade) é manicure em um salão de um bairro nobre de São Paulo. Ela é boliviana. Tem 20 e poucos anos. Está na capital há dois. Rosa é tímida. Olha pra baixo quase o tempo todo quando anda e conversa. Considera que tem uma situação mais favorável do que amigos e familiares que também imigraram para o Brasil, mas foram parar nas confecções em que se trabalha até 14 horas por dia, em condições precárias. Alguns desses estabelecimentos já foram punidos por trabalho escravo. Alguns regularizaram a situação dos trabalhadores. Muitos outros ainda lucram com base na exploração.

Me interesso pela história de Rosa porque um dos temas que estudo no mestrado de Ciências Sociais é imigração. Mas é complicado arrancar mais informações. Entendo, porém, todos seus motivos em uma das poucas explicações que me deu. “Tenho medo do jeito que muita gente me olha. Também evito falar muito por causa do meu sotaque. Já fui mal tratada várias vezes, mas prefiro não falar disso… Prefiro que não me notem. Só preciso trabalhar em paz para ter dinheiro e dar alguma coisa boa para minha família”.

O medo de Rosa é de nós, cosmopolitas viajados, estudados, informados, que vivemos em São Paulo. É compreensível que Rosa prefira ser invisível a ser olhada com desprezo por alguém que acredita ser superior a ela por uma questão de nacionalidade, aparência. Fiz o teste num domingo em que eu passava pela estação Palmeiras-Barra Funda do metrô, em frente ao Memorial da América Latina. Aos domingos, muitos imigrantes latinos se reúnem lá. Os olhares de desprezo existem SIM. O incômodo com o diferente também era bem fácil de perceber. E a única coisa que os imigrantes faziam eram proporcionar algum mínimo lazer às suas famílias. Não cometiam nenhuma ilegalidade, nenhuma infração. Eles, apenas, existiam ali.

Numa conversa recente com amigos, eu quase caí da cadeira na mesa do bar quando uma conhecida disse que o Brasil não tinha que aceitar pobres de países vizinhos justo na hora que os pobres daqui tinham ascensão social. Que era melhor colocar minas terrestres nas fronteiras do país pra “pegar essa gente”. Um amigo meu rapidamente a lembrou que ela teve uma irmã que morou cinco anos nos Estados Unidos, trabalhando com faxina e em restaurante. “Sua irmã não era a pobre da vez num país desenvolvido? Então?”

A sujeita tentou justificar dizendo que a irmã dela foi trabalhar com o que ninguém queria, subemprego e, além de tudo, era trabalhadora. Foi aí que entrei na história e perguntei: “E por que você parte do princípio de que essas pessoas que chegam ao Brasil em busca de uma vida melhor também não são trabalhadoras? E que emprego será que elas vão roubar? Não será justamente aqueles que os brasileiros também já não querem mais fazer, como faxina? Fico muito feliz em perceber que o brasileiro pode estudar cada vez mais e conseguir funções melhores. É uma grata consequência do desenvolvimento. Mas é uma mesquinharia, pra não dizer coisa pior, que você imagine ser aceitável defender o território com ‘minas terrestres’. Te conheci agora. Prefiro acreditar que foi só um pensamento mal construído da sua parte.” Ela ficou bem sem graça. Não voltou atrás, porém, na absurda ideia das minas porque “tem que botar medo mesmo pra funcionar”.

Vejam bem, não defendo aqui a total falta de controle das nossas fronteiras e nem a ilegalidade. Mas não enxergo problema nenhum em receber pessoas de outros países para ocuparem postos que não estão sendo preenchidos por falta de mão de obra entre os brasileiros. E isso acontece nos dois extremos: onde é necessário gente muito qualificada e onde não é necessário quase estudo para desenvolver a função.

Tenho outros exemplos recentes e assustadores, infelizmente, mas nem dá pra escrever. Se não, o post não vai acabar! Mas que fique claro aqui que as consequências da xenofobia só podem ser negativas: medo, desigualdade, violência. E que a gente também pare pra pensar que tipo de pessoas somos, que desejamos ser, num mundo de tão intensa e interessante troca cultural. Só espero que não se proliferem aqueles de nós que acreditam que matar alguém com um mina terrestre é solução aceitável.

Crédito da imagem: Creative Commons

O racismo nosso de cada dia

Na semana em que se comemorou o Dia da Consciência Negra e em que o ministro Joaquim Barbosa tornou-se presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), eu ouvi, de duas pessoas diferentes, aqueles comentários racistas difíceis de acreditar que ainda existam num país de tamanha diversidade como o Brasil.

Enquanto eu almoçava em um restaurante em Pinheiros, bairro nobre da capital paulista, me chamou a atenção a conversa de dois homens na casa dos 50 anos. Falavam sobre o futuro dos filhos quando um deles foi enfático. “Meu filho só me dá orgulho, não tenho do que reclamar do moleque. Ele só me deu um susto uns meses atrás. Tava ficando com uma neguinha. Mandei parar. Não tenho nada contra preto. Tenho muitos colegas que são. Mas pra namorar, essas coisas, não combina”. Os demais na mesa pareceram concordar.

Dias antes, no metrô, uma mulher de seus 40 anos comentou sobre a notícia que tinha lido no dia anterior, de que há um número maior de europeus vindo morar no Brasil. “É bom. Vem gente inteligente e pra dar uma esbranquiçada nesse povo.” Ela falava com seriedade. Um rapaz negro, de uns 20 e poucos anos, olhou indignado. Colocou os fones verdes no ouvido que antes descansavam no pescoço. Preferiu, sabiamente, música a escutar ofensa. Eu, no lugar dele, não sei se teria tanto sangue frio. Aliás, me arrependi profundamente de não ter sido rápida no raciocínio e dar uma resposta atravessada pra essa senhora antes de seguir meu caminho.

Nosso racismo é velado. Adoramos posar de multiculturalistas, de estarmos de braços abertos à diversidade. Mas o exemplo do homem que acredita que seu filho não tem que se “misturar” é emblemático. Não são poucos os que pensam “amizade pode, casar, não”. E eu realmente não consigo entender que sentimentos sejam contidos por etnia. Se acontecer é porque não é verdadeiro. Eis que temos aqui um apartheid afetivo?

Uma vez perdi um pouco a paciência com uma amiga negra que sempre se atrasava porque demorava absurdamente pra se arrumar. Foi quando ela me disse: “Su, sou vaidosa demais mesmo. Mas eu também não posso sair de qualquer jeito na rua. Não permito que me tratem mal.” Achei um baita exagero. Até o dia que fomos na feira comer pastel, de chinelos, shorts e regata. No momento em que minha amiga se afastou um pouco até outra banca pra ver quanto estava a caixa de morango, a feirante me entregou os dois pasteis dizendo que achava interessante amizade entre patroa e empregada. Respondi, meio em choque, meio num tom de voz baixo demais pela confusão mental que aquela observação inacreditável provocou: “ela é minha amiga, uma grande amiga”. A feirante pediu desculpas, ficou sem graça.

Nunca mais briguei com minha amiga atrasada pra ela se arrumar como achava que deveria. Há poucos meses, uma outra amiga disse quase a mesma coisa. “Eu não entro em shopping sem salto alto, arrumada e maquiada”. Passaram cinco anos entre um episódio e outro, e essas meninas ainda precisam usar a aparência pra se defenderem da ignorância alheia.

Acredito que exemplos como o do ministro Joaquim Barbosa, que chegou ao topo de sua carreira com estudo, trabalho, dedicação e caráter (que muito homem branco que se acha tão digno por aí não tem), ajudem muito a diminuir pensamentos tão equivocados. Claro que ter artistas e esportistas negros que também alcançaram reconhecimento é importante. E temos muitos, que são brilhantes. Mas é fundamental que negros ocupem espaços significativos em profissões que exigem diploma. Porque aumenta a presença deles, de igual pra igual, no dia a dia, no ambiente profissional, na sala de aula, no restaurante, no avião, na balada, no resort, no salão de beleza, no parquinho da pracinha, no condomínio – e por aí vai.

Eu não concordo completamente com a lei de cotas do jeito que está (que já se aperfeiçoou muito desde sua criação, em 1991). De acordo com decreto assinado pela presidente Dilma Rousseff, em 15 de outubro deste ano, 50% das vagas em universidades federais devem ser reservadas a alunos vindos das escolas públicas. Isso eu concordo e acho sensacional. Mas aí, essa reserva é dividida em 25% só para pretos, pardos e indígenas. É uma parte que considero meio complicada… Porque existe mesmo um abismo ainda nos bancos escolares e no mercado de trabalho. Mas é desfazer uma injustiça criando outra, continuar reforçando um tipo de desigualdade entre os alunos da escola pública.

Acredito que é mais uma questão de vergonha na cara dos governos (todos, federal, estaduais e municipais) de investir o que é necessário em educação pública de qualidade. Como isso, porém, acontece a passos mais lentos do que o necessário (muito também pelos famosos desvios de verbas), a lei de cotas atual é indispensável.

Pra terminar, acredito que o ator Morgan Freeman deu um recado bem dado no vídeo que circulou na internet nos últimos dias (esse é legendado): http://www.youtube.com/watch?v=BOvQnvwbJXw . Quando o apresentador do programa americano “60 Minutes”, pergunta o que o artista acha do Mês da História Negra, o equivalente nos Estados Unidos ao nosso Dia da Consciência Negra, e o chama de black man, Freeman mostra porque passou da hora de superarmos essa separação tacanha que a sociedade insiste em fazer. E que, infelizmente, me parece ainda leva pelo menos mais uma geração para deixar de existir.

Crédito da imagem: Winkler + Noah/ Cultura Inquieta

Palavras doces e exemplos marcam nossa história

Eu sempre achei ela linda. Eu e todo o colégio. Patrícia era, além de uma menina bonita, gentil, delicada, de sorriso fácil. É como me lembro dela. E me pareceu que continua assim. Percebi esta semana, quando fez um comentário em relação a um dos textos aqui do blog, que meu irmão havia compartilhado no Facebook. A conversa dos dois girou em “como ela escreve bem!”, “tá no sangue”, “lembro da Suzane pequenininha, de cachinho”.

Patrícia era amiga do meu irmão nos tempos de escola. Eles têm quatro anos a mais que eu. Sempre que a via, corria pra dar oi, puxar papo. O retorno era carinhoso, paciente. O que eu mais queria era ser bonita como ela. Mas o cabelo desgrenhado, os dentinhos tortos (obrigada, ortodontista), o corpinho magrelo não me permitiam imaginar que eu realmente pudesse ter alguma beleza futura como Patrícia. Mas eis que, um dia, por volta dos meus 10 anos, ela diz para meu irmão (eu estava do lado): “sua irmã é tão lindinha”. E passou os dedos nos tais cachinhos desgrenhados, sorrindo pra mim.

O meu raciocínio foi rápido: “se a moça mais bonita do colégio tá dizendo que eu sou linda… é porque é verdade!!!!!” Patrícia nunca fez ideia do choque de autoestima que me deu naquele dia. Em geral, as pessoas naturalmente gentis, do bem, nem se dão conta de como os gestos simples delas podem provocar revoluções na vida de outros.

Eu tive a sorte de, ao longo do meu caminho, encontrar muita gente com essa energia. Foram elas que me levantaram nas muitas vezes que pensei em desistir de algo. Foram elas que, com seus exemplos, me mostraram que eu também podia muita coisa!

Denise, por exemplo, é uma amiga de muitos anos da minha mãe. E eu sempre a adorei.  É dona de um abraço macio (que me lembro bem até hoje), de um sorrisão sempre estampado no rosto (mesmo quando nem tudo vai bem) e de um alto astral contagiante. Quando eu era criança e ela chamava no portão de casa “Suuu”, eu corria de onde estivesse, saltava o sofá e me pendurava na janela pra gritar “Deeeee”. E lá vinha o sorrisão acompanhado do abraço macio.

Foi por causa dela que entendi que era importante estudar inglês. Naquela época, a única pessoa próxima que eu conhecia que falava o idioma era Denise. Como ela viajava muito, já visitara vários países, eu pensava que, pra viajar esse tanto, eu também tinha que aprender inglês! Ela falava muito de Londres, de como gostava da cidade. Fui ficando curiosa, comecei a imaginar em que momento da vida eu iria a Londres. Se realmente iria. E quando me dei de presente de 30 anos uma viagem pra lá, eu consegui várias vezes me lembrar de Denise contando sobre os lugares por onde EUZINHA estava andando naquela hora!

Um pouco antes dessa viagem, conheci um senhor, com quem convivi pouco, mas que se tornou outra pessoa a fazer diferença na minha vida. Ibraim era pai de um amigo que trabalhou comigo. Ele leu uma reportagem que fiz sobre os estudos de uma cientista americana que sofreu um derrame. Assim como ele. A pesquisadora conseguia comprovar o poder do pensamento positivo e dos exercícios físicos no processo de recuperação.

Era um período difícil pra mim, em que eu me questionava se meu trabalho como jornalista valia tanto o esforço. No meio da minha crise pessoal/profissional, recebi uma carta de Ibraim. Ele agradecia pela reportagem. Disse que recuperou o ânimo de viver, voltou a se dedicar à fisioterapia e até a viajar depois de ler aquele texto. Ibraim estava decidido a vencer os efeitos do derrame. Nos tornamos amigos, começamos a trocar cartas, fui até visitá-lo em sua cidade, Bariri, no interior de São Paulo. No dia que seu filho me ligou, há pouco mais de um ano, dizendo que ele havia falecido, chorei sentida pela perda do amigo que me ajudou tanto a seguir em frente.

Palavras doces e exemplos marcam nossa história. Provavelmente, você também teve, em algum momento, alguém que o elogiou, encorajou, acreditou na sua capacidade, te estendeu a mão. Todos nós tivemos. Só, às vezes, num cotidiano tão frenético, acabamos deixando de fazer esse exercício gostoso de lembrar dessa pessoa importante. E também de fazer isso por quem convive conosco ou que por algum motivo cruza o nosso destino.

Hoje eu fiz. Chegou a minha hora de ser meio Patrícia… Saí do salão, com escova e umas mechas acobreadas no cabelo. Parei pra almoçar. Na mesa da frente, uma menininha, de uns seis anos, me encarava. Sorri pra ela, que sorriu de volta, meio tímida. Ganhei um “você é linda”. Devolvi um “você é muito mais linda do que eu”. Além de outro sorriso, recebi dela, que veio até minha mesa, uma bala (já meio derretida do calor). Agradeci. Ela correu de volta, rindo e envergonhada. Demos tchau uma pra outra, cada uma com a autoestima devidamente em dia. Uma cena que será sempre relembrada quando eu experimentar outra bala de hortelã. Espero que fique na memória dela também. Com o mesmo gostinho. E a ajudando a acreditar em si mesma.

Crédito da imagem: David Turnley/Cultura Inquieta

Um mês de Fale ao Mundo!

Com exatos 200 seguidores na fanpage do Facebook, 5.198 acessos, muitos compartilhamentos e comentários bacanas, o blog Fale ao Mundo completa seu primeiro mês de vida hoje!!! Obrigada, pessoal!! É muito bom saber que tem tanta gente interessada nessas ideias que vou escrevendo aqui, que não estou só nas minhas angústias, alegrias, dúvidas e certezas. Lembrem sempre que o blog é pra vocês!

E quem ainda não curtiu a fanpage, vai lá: @Fale ao Mundo!! Um dia excelente pra todos nós!! Bjão ♥ ♥ ♥

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

‘On the rocks’ ou ‘cowboy’? E o dilema de clicar em ‘enviar’

Você chega da balada/jantar/festa/bar. Seja o que for. Mais uma madrugada que você chega sozinho(a). Mas ele(a) estava lá… Você viu de perto de novo. Abraçou de novo pra cumprimentar. E só. De novo. E ficou olhando de longe. De novo.

Você chega da balada/jantar/festa/bar. Tá com sono até. Mas corre pra rede social checar as fotos dele(a) mais uma vez. Só que você bebeu um pouco além do normal. Não é porre. É aquele pilequinho que deixa a gente até mais corajoso. O poder do álcool.

Você chega da balada/jantar/festa/bar. E começa a escrever uma mensagem. Mas é A mensagem. Aquela que tem tudo aquilo que você sempre quis dizer e nunca teve atitude suficiente pra mandar. “É de você mesmo que eu gosto”. “Penso em você todos os dias desde que te conheci”. “Você é o primeiro e o último pensamento do meu dia”. “Ainda sinto sua falta”. “Vamo tentar! O máximo que vai acontecer é não dar certo e a gente volta a ser amigo e tal…”. Essa última frase é sempre meio mentirosa. Quem garante que a amizade continua se um rombo no coração for aberto? Mas isso não importa agora.

Você chega da balada/jantar/festa/bar. Tá tudo lá, escrito já. Hora de clicar em “enviar”. A coragem começa a faltar. O poder do álcool. “Por que fui tomar água quando cheguei? Deve ter diluído o álcool no sangue e meu fio de determinação também”, você pensa.

Você chega da balada/jantar/festa/bar. Whisky. On the rocks. Precisa de gelo. Sou meio fraco(a) pra whisky. Tem que ser o clássico ‘on the rocks’. Se não, não vai. Tá tudo lá. A mensagem pronta. Lida umas dez vezes pra garantir que está emocionante, apaixonante, sem ser cafona (o que, convenhamos, vai ser difícil). Mais um gole, acompanhado de uma leve careta (pelo menos no meu caso é sempre assim).

Você chega da balada/jantar/festa/bar. É a hora. Mais um gole. O gelo derreteu um pouco. No copo. Você sente o corpo feito um iceberg de tanto medo. Você aproxima a setinha em “enviar”. Clica, vai! Dane-se o mundo! Esquece os poréns! Clica A-GO-RA!

Você chega da balada/jantar/festa/bar. Último gole. Gelo no copo todo derretido. Diluiu o whisky. E a coragem. A setinha se afasta do “enviar”. Você copia e cola a mensagem em outro lugar. Sai da rede social. Antes, mais uma olhadinha na foto dele(a). Desliga o computador. De amanhã em diante, o whisky será sempre ‘cowboy’, puro. Pra ver se dilui a covardia…

Crédito da imagem: site Casal Sem Vergonha

Quando até a tristeza da morte tem beleza

Meus amigos costumam me chamar de otimista. Eu sempre tento (e quase sempre consigo) enxergar o lado bom te tudo o que me acontece. Não se trata de usar óculos com lentes cor-de-rosa. Mas de saber dar valor e a exata dimensão ao que, no fim, realmente importa. Momentos especiais, pessoas queridas, conquistas bonitas… Não significa que não passei por traumas, tristezas, decepções. Mas meu filtro interno é para as coisas boas. São aquelas que prevalecem na minha memória – e me ajudam a seguir em frente quando algo não vai como o esperado.

Um amigo meu ficou me olhando meio em choque quando eu disse, entre um gole e outro no capuccino e mais uma garfada na torta de maçã, que vejo beleza até na morte. Perder alguém que a gente ama é uma dor imensa, não há dúvida. Mortes violentas, inesperadas, são dos piores sofrimentos que se pode experimentar (se não, o pior mesmo). Logo, porém, ele entendeu o que eu quis dizer…

Quando chega essa época, relembro a perda da minha avó materna, que foi dia 21 de novembro, e do meu avô paterno, na virada de 23 para 24 de dezembro. Ambos se foram há seis anos, com esse pequeno intervalo entre um adeus e outro. No ano seguinte à morte dos dois, em 2007, participei da cobertura do acidente da TAM, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Em minutos, aqueles passageiros deveriam estar em solo firme, reencontrando a família, os amigos. Em minutos, seus corpos carbonizaram numa das mais traumáticas cenas que essa cidade já presenciou.

A mim coube, no dia seguinte, me aproximar de familiares das vítimas na porta do IML para tentar que eles contassem um pouco sobre a pessoa que perderam, se estavam recebendo o auxílio necessário da companhia aérea e (a mais ingrata das tarefas) que dissessem sobre qual era o sentimento em relação àquilo tudo.

Se tem algo que vou me orgulhar pra sempre como jornalista é de nunca ter forçado a barra pra conseguir uma história. Três famílias concordaram em falar comigo, mas abordei umas vinte antes, sempre pedindo desculpas por pedir a atenção deles naquela hora tão absurdamente difícil. As três famílias que me deram depoimentos queriam muito conversar. O espaço que eu oferecia a elas nas páginas de uma revista por intermédio do nosso contato foi recebido como um meio de desabafo, de expressão da revolta que sentiam, de tentarem, contando o que estavam vivendo, que situações como aquela não se repetissem.

Foi a primeira vez que chorei junto com um entrevistado. Porque era impossível, pra mim, ficar passiva diante de uma jovem mãe de três filhos pequenos que acabava de se ver viúva. Eu não lembro como, nem em que momento, mas de repente segurava as mãos dela, deixando o gravador de lado, quase sem palavra nenhuma pra consolar, só pedindo perdão por fazê-la contar sobre uma perda tão dilacerante. E ela, voz embargada, agradecia por eu estar ali e ajudá-la a mostrar sua dor para que nunca fosse esquecida e causasse incômodo nas autoridades.

Saí destruída. Tive menos espaço para escrever do que acredito que aquelas três histórias mereciam. Passei duas semanas sonhando que um avião com meus pais caía. Isso era julho. Veio novembro, e o primeiro aniversário de morte da minha vó. E a primeira vez que percebi, entendi, que a morte tem sua beleza quando existe a chance real de uma despedida… Minha vó, na hora da morte, tinha a filha, o genro, e a esposa do neto (que era como uma neta) ao lado dela no hospital, no último suspiro. Ela sofreu, a gente sabe. Sentia muita dor. Já se mostrava muito cansada. Mas foi embora cercada daquela mistura única de afeto com saudade presente nessa hora.

Lembrei que, antes de fecharem seu caixão, dei um beijinho na testa fria dela. O funcionário do velório disse que alguém precisava colocar a renda que a cobria para a parte de dentro. Num gesto automático, como se fosse óbvio, natural, o esperado, sem ninguém designar, eu e minha cunhada, uma de cada lado, começamos a ajeitar o tecido no caixão. Era meu último carinho com minha vó, que ajudou a me criar.

Na vez do meu vô, lá estávamos todos nós: filhos, netos, sobrinhos, amigos da família. Há quanto tempo já não ouvíamos mais o som da sanfona dele? Há quanto tempo a saúde debilitada já não permitia mais que ele estivesse de fato ali conosco? Mas a gente sempre esteve com ele, até o fim. Me arrependo de nunca ter dito o quanto eu me orgulhava dele, de sua história de migrante nordestino que construiu casa, família, com dignidade, e ensinou os filhos a também agirem assim. Falei depois, em pensamento. Espero, de coração, que alguma vez ele tenha me escutado.

A perda traumática é destruidora. A perda com a chance de um último afago, de um último olhar, tem sua beleza. Foi o que aprendi comparando as experiências que tive e a história daquelas três famílias.

E por mais que a gente chore, sinta dor, a chance da despedida eterna de alguém especial é uma das coisas mais bonitas que o ser humano pode viver… Porque significa que uma pessoa muito importante esteve na sua vida. Ela faz parte das suas lembranças. Algumas, provavelmente duras. Mas outras tantas, são as mais doces. A tristeza da morte tem sua beleza, incluindo aí o ensinamento que ela nos dá para que estejamos prontos a celebrar sempre cada novo dia. E é por isso que meu filtro interno sempre será para as coisas boas.

Crédito imagem: Suzane G. Frutuoso (Notre Dame/Paris)