A melancolia do viajante

“Sinto que comecei a mergulhar naquilo que chamo de melancolia do viajante, uma profunda sensação de deslocamento que de vez em quando se abate sobre mim durante algumas horas quando estou num país estrangeiro. O prazer de ser a observadora de repente revela sua outra face, a de uma ansiedade incorpórea. Enquanto estou nas suas garras, fico calada. Fico pensando no fato de que a maioria daqueles que amo não faz a menor ideia de onde eu estou e de que minha ausência entre eles não é notada. Eles continuam seus dias, indiferentes à falta da minha presença (…) Por que estou aqui, neste lugar que não é meu? Tenho a impressão de estar numa estranha sobrevida, de ser um espectro soprado pelo vento. Desconfio que, subjacente a essa sensação de deslocamento, esteja o medo da morte. Quem somos e onde estamos quando não somos ninguém?”

Não, gente. Não fui eu quem escreveu tudo isso aí acima. Mas eu queria ter escrito. Porque era exatamente assim que eu me sentia na hora que li. É o trecho de um livro chamado “Bella Toscana”, que minha mãe me emprestou para eu ler durante a viagem que fiz pela Itália, em setembro. “Leitura fácil, agradável, que fala do lugar onde você vai… Nada genial, mas pra ajudar a esquecer um pouco os problemas”, ela me disse. É a história de um casal de americanos que compra uma casa na Toscana e que sai viajando de carro por terras italianas. Ela é escritora. E essa é a continuação de “Sob o sol da Toscana”, mais famoso porque também se tornou filme.

Nunca tinha passado tanto tempo da vida sozinha. Das outras vezes que viajei estava acompanhada, ou encontrei amigos ou familiares no local de destino. Tinha no máximo ficado cinco dias só. Talvez seja porque me aperfeiçoei na arte de conversar mentalmente comigo mesma (e de tirar fotos de mim mesma também). Ou por passar dias apenas falando meia dúzia de palavras como “per favore”, “grazie”, “ciao”, “buon giorno”, sem grandes debates ou frases.

Mas nunca passei noites sonhando tanto, com tanta gente e de um jeito tão real.Teve uma noite inteira sonhando que eu brincava com meu sobrinho e com o filhinho de uma amiga (que eu via no sonho já um menininho; ele ainda é bebê). Uma outra sonhei com um amigo; a gente conversava, conversava, conversava um milhão de coisas, mas lembro mais de falarmos de uma viagem (que não era a que eu estava fazendo). Noite seguinte sonhei com todos os meus primos, como se estivéssemos numa festa (e aí eu soube no dia seguinte que uma prima muito amada está grávida).

Teve um dia que fui subir quase 500 degraus de uma catedral pra chegar na cúpula. Passei mal no meio do caminho! A pressão caiu. Um casal de brasileiros me ajudou. A noite, sonhei que meus pais me levavam a um hospital. Minhas duas avós, já falecidas, estavam junto.

“Estás muy sola, niña…” Essa era a conclusão de Lucia, uma mexicana, terapeuta holística, que estava no mesmo hotel que eu em Florença. O marido dela, o psicólogo Máximo (filho de italianos) concordou com a esposa. Conversamos sobre meus sonhos e como eles eram intensos naqueles dias. Lucia disse crer que os espíritos se encontram durante o sono. E muita gente teria vindo ao meu encontro para eu me sentir menos só e permanecer feliz durante a viagem. Máximo disse que, por estar sozinha, minha mente trabalhava para eu buscar as lembranças das pessoas queridas, e assim amenizar algum tipo de sensação negativa que eu pudesse experimentar.

Pra mim, as duas explicações têm sentido. Não desconfio de nenhuma delas. Acho inclusive que elas se completam… Até porque, tenha sido pela alma ou pelo inconsciente, meus sonhos só reforçaram a certeza de que tenho na vida muita gente amada ou importante pelos mais diversos motivos. E que as carrego dentro de mim aonde eu vá. A “melancolia do viajante”, que identifiquei no trecho do livro, no fim, era só saudade…

Crédito da imagem: Renata Maneschy/Kit Básico da Mulher Moderna

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2 respostas em “A melancolia do viajante

  1. Eu sempre viajei sozinho, por opção, por gostar de estar sozinho no mundo. Por isso mesmo, em muitas das minha viagens, eu me perguntava (me praguejava) por que é que eu estou aqui sozinho? Porque eu não chamei ninguém? Por que eu sou assim? Bem, primeiramente uma das grandes sortes de se estar sozinho é que você tem bastante tempo e espaço para responder aos seus dilemas. Segundo, eu acho que eu sempre procurei de alguma forma esse limite entre ser eu normal e ser eu louco, quão sozinho eu precisaria ficar pra enlouquecer completamente? Tem uma música da Alanis Morisette que diz: “Well, we’re never gonna survive unless we get a little crazy”. Acho que é por aí. Apesar de meus amigos sempre me dizerem que eu sou louco de gostar de viajar sozinho, eu acho que eu não sou é louco o suficiente ainda, há nas pequenas loucuras que eu faço quando estou viajando sozinho um sabor de auto-descoberta, ás vezes também em sonho, que vale qualquer saudade, qualquer falta, qualquer arrependimento. 🙂

    • Daniel, esse é o espírito! Entendo perfeitamente como vc se sente. É bem assim que me sinto também. E nada como um tempo a sós na nossa própria companhia para as descobertas mais profundas sobre o que somos e o que desejamos de verdade. Na real, acredito que todo mundo deveria viver essa experiência pelo menos uma vez, de ficar sozinho em outra cultura, longe de tudo e de todos. E a saudade… é só porque tem gente querida pra gente abraçar na volta… :o)
      Bjão

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