Horizonte infinito de uma alma imoral

Eu acredito profundamente em duas coisas que todo mundo deveria fazer: terapia e morar um tempo fora. Seríamos mais bem resolvidos, menos preconceituosos, mais críticos aos problemas, menos preocupados com a vida alheia, mais donos de si, menos acomodados. Quando você se joga nas duas experiências, nunca mais será o mesmo. Na verdade, há grandes chances de você ser alguém realmente melhor. Porque seu horizonte se torna infinito. As limitações passam a não existir (ou pelo menos parte considerável delas). Você entende que sempre pode ir mais longe do que foi até agora.

A vantagem de enfrentar seus demônios no divã é que você se livra de culpas (suas e as que te fizeram acreditar que são suas). O processo é complexo. Tem aquelas verdades duras de processar. Mas é uma libertação de padrões que, em algum momento, nos disseram ser os corretos, os que deveriam ser seguidos. Você entende que a noção de certo e errado pode ser bem elástica. O que é errado pra você pode não ser pra mim. E o contrário também faz sentido. Claro que atos como matar sempre serão condenáveis e… será?

Se foi um assassinato, fruto da violência, não há o que questionar. Existe, porém, a morte por legítima defesa. Uma vez escrevi uma reportagem sobre pais que mataram os próprios filhos. Eles chegaram ao desespero máximo depois de anos como vítimas dos filhos, que se tornavam agressivos ao consumirem álcool e drogas. Eram constantemente xingados, humilhados. Apanhavam com socos e pontapés. O que pode ser pior para um pai ou uma mãe do que perder aquele que foi amado incondicionalmente? Eu diria ser obrigado a tirar a vida dele. Conheci três casos assim.

É só um exemplo de como nem sempre a realidade é preto no branco. E, por isso, a gente tem que aprender que a história de cada um é diferente da do outro. Respeito. Tolerância. Eu sei. Não é fácil não julgar. Mas pra quê, se no fundo todos temos uma “alma imoral”? Esse é o título de um livro do rabino Nilton Bonder, uma das pessoas mais brilhantes e coerentes que já entrevistei na vida. Também assisti no teatro a peça de mesmo nome. Entre outros temas, o livro fala de como o ser humano consegue ser infiel a si mesmo. Só para vocês entenderem, coloco aqui dois trechos da obra:

“A proposta da imutabilidade é mais do que indecorosa: ela violenta um indivíduo. Ela propõe que continuemos a fazer o que foi feito no passado.”

“Existe em nós uma tendência de querer agradar a nós, aos outros e à moral de nossa cultura. Com isso, vamos gradativamente nos perdendo de nós mesmos.”

Ser uma “alma imoral” assumida em meio aos costumes é um desafio. Mas ser uma “alma imoral”, que finge ser cheia de moral o tempo todo, beira o patético. Eu prefiro o desafio. Então, há a terapia, que amplia nossas possibilidades de olhar o mundo, e cujo efeito é multiplicado quando se “conhece” o mundo de fato.

É aí que entra o morar fora. Quando você vive o “outro”, em outro lugar, nunca mais haverá uma “aderência” a sua sociedade sem comparação e reflexão. Não é fácil ser crítico. Pode ser doloroso até. Mas isso o torna um ser humano muito mais interessante do que a média.

Vivendo em outro país, a gente realiza o exercício de compreensão do diferente. Questiona até o que achávamos tão bom e perfeito. A antropóloga americana Ruth Benedict, cuja obra tive o prazer de conhecer recentemente no mestrado, foi especialista em levar seus leitores a enxergarem culturas justapondo familiar e exótico de tal forma que ambos acabavam por trocar de lugar. O culturalmente próximo torna-se bizarro e arbitrário. O culturalmente distante, lógico e direto (como disse sobre a obra da autora outro antropólogo, Clifford Geertz). Menos soberba. Mais bom-senso.

Ninguém precisa ser esnobe de, após uma temporada no exterior, bradar o tempo todo como tudo “importado” é melhor. Não é nada disso. O objetivo é a empatia. Estar aberto à aceitação do comportamento oposto ao seu. Entender que não existe melhor ou pior. Existe o diferente. Há espaço pra essa diversidade. Não compreendeu ainda? Bom, melhor marcar sua sessão de psicanálise. E comprar uma passagem pra bem distante.

Crédito da imagem: Quark Expedition

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2 respostas em “Horizonte infinito de uma alma imoral

  1. Muito bom, Suzane! Entra aí também a distinção entre o “ser crítico” e o “ser preconceituoso”. Quem faz uma crítica, independente do tema, leva em conta seu repertório pessoal, sua “bagagem”. Essa bagagem pode ser adquirida das mais diversas formas, inclusive viajando. Mas também é uma soma de nossa educação, da sociedade em que fomos criados e de outros tantos fatores que engessam, aprisionam.
    Ainda não tive a oportunidade de morar fora, mas comecei a terapia há uns quatro, cinco meses e os resultados superaram minhas expectativas. É incrível expandir seu “quintal” para outros territórios. Algumas vezes doloroso, mas sempre recompensador…
    Abraços

    • Bianca, eu também comecei pela terapia. Só depois morei quatro meses fora. Eu acredito que nem precisa ser uma enorme temporada no exterior. Meses já te ajudam a ampliar de maneira significativa sua compreensão das culturas, tradições, diferenças. Viajar sempre que possível é bem legal. Também acho que educação e a sociedade em que estamos inseridos são influências significativas. Mas eu acredito que qualquer regra que venha daí e que não reflita aquilo que realmente somos existe pra ser quebrada… 😉
      Bjinhos pra ti! E parabéns por dar esses passos importantes que ampliarão ainda mais seu “quintal”! 🙂

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