Todo meu respeito aos ateus

Quem me conhece bem sabe que eu sou daquelas que acende vela para o anjo da guarda, reza quando acorda, sou chegada num passe, volta e meia pede uma força pra São Jorge e, quando o bicho pega, em última instância, troca uma ideia direto com Deus – porque eu sempre acho que Ele tem mais o que fazer. Então, não peço ajuda pra qualquer coisa.

E já fui ver de perto tudo quanto é religião. Visitei igreja católica romana, católica ortodoxa, evangélica de diferentes segmentos, centro espírita, terreiro de umbanda, mesquita, sinagoga, templo budista… Tenho amigos de todas essas crenças (e de outras). Pra mim, entender como funcionam as religiões sempre foi uma maneira de compreender também as pessoas, suas escolhas e suas posturas.

Nada disso, porém, me faz acreditar que seja possível trocar sessões de quimioterapia por uma novena. Ou que um passe espiritual coloca fim a uma depressão. Ou que fazer oferenda pra santo é capaz de tirar alguém de uma cama de hospital. Eu não questiono aqui o poder da fé, independentemente de como ela é manifestada, como um impulso pra acreditarmos na cura, em dias melhores. É comprovado (cientificamente) que oração, crença numa força maior, são aliados importantes em processos de recuperação. Mas sem a ciência, o espiritual, sozinho, não dá conta da matéria.

Ser religioso também não faz alguém necessariamente um ser humano de caráter. Fui criada na religião católica. Cansei de sair da missa, não dar cinco minutos, e as pessoas, que louvaram tanto, já começavam a falar mal umas das outras (é bem fácil ver isso em cidades menores). E aqueles que não perdem um culto, mas enganam descaradamente, são desonestos? E não. Não adianta meditar, ser médium, ser casto, não beber, não fumar, realizar cinco orações diárias, dar dinheiro para as obras de caridade do padre/pastor/rabino, colocar a farofa bonitinha na encruzilhada, se você nem cumprimenta o porteiro, se não trata bem seus funcionários, se é um pai/mãe ausente, se é arrogante e se acha dono da verdade.

Por isso tudo, gosto cada vez mais dos ateus. Quase todos os que eu conheço (há uma exceção) são livres de hipocrisias, são mais abertos ao convívio com pessoas diversas, parecem aceitar melhor que ninguém está livre de falhar. Eles sabem enxergar os potenciais do ser humano como algo interno, não como um presente divino. Geralmente, é gente legal, que não julga os demais pelo comportamento.

Eles estão saindo do armário, especialmente nas metrópoles como São Paulo, onde a diversidade é mais bem aceita. Mas nossa sociedade, pra tudo que não é padrãozinho, ainda é bem chinfrim. Os ateus sofrem bastante preconceito, como se fossem seres inacabados, sem coração, sem sentimentos. Tudo bobagem. Eles podem ser os melhores amigos do mundo. São aqueles que te ajudam a enxergar as situações de uma maneira racional – o que não significa sem afeto.

Não conheço nenhum ateu que não seja inteligente. Graças a muitos deles a medicina avançou, as ciências exatas e humanas chegaram a descobertas fundamentais, a tecnologia está a serviço de todos e a criatividade ultrapassa todas as barreiras. Há uma lista interminável de grandes figuras, em tempos diferentes da História, cujo ateísmo não as impediu de fazerem o bem, de causarem enormes transformações em suas áreas: o cientista Albert Einstein, o empresário Bill Gates, o artista Charles Chaplin, o músico David Bowie, o vocalista do Pearl Jam Eddie Vedder, o escritor James Joyce, a atriz-diva Katharine Hepburn, a política chilena Michelle Bachelet, etc. Só para citar alguns. Tem mais aqui: http://ateuativo.wordpress.com/ateus-famosos/. Viu quanta gente que não precisou crer num algo a mais do universo pra fazer coisas boas na nossa sociedade?

Eu acredito numa força maior que me ajuda a seguir pelos melhores caminhos, a fazer escolhas. E olha que minha fé já foi testada… Não tenho uma explicação exata para o que eu sinto. Só sei que, pra mim, faz sentido. Mas é isso: pra MIM. Um amigo ateu me disse outro dia: “Não preciso escolher as pessoas do meu convívio porque elas pensam e sentem o mesmo que eu”. Tá aí. Essa é uma postura bem de ateu. E é assim que eles ganham a cada dia todo o meu respeito. Acho até que vou pedir a Deus pra encontrar mais gente assim por aí.

Credito da imagem: Cultura Inquieta

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6 respostas em “Todo meu respeito aos ateus

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