No corpo, o que vai na alma

“Fica quieta, para de gritar! Tá me fazendo passar vergonha!”. Minha prima quis morrer com o meu escândalo no estúdio na hora que o tatuador escrevia nas minhas costas a palavra que escolhi pra carregar em mim a vida inteira. Foram os sete minutos mais longos da minha existência de quase 34 anos. Além da dor, eu mal respirava com ela enterrando minha cara na maca pra ver se eu calava a boca. “Se você se mexer vai ficar tudo torto”, ela dizia, entre uma bronca e uma risada.

Eu sempre curti tatuagem. Gosto da ideia das pessoas usarem a pele pra expressarem sentimentos, a personalidade. Tenho amigos que se tornaram verdadeiros gibizinhos. Acho que existem alguns exageros, mas isso no meu jeito de enxergar a situação. Pra mim, cada um faz o que quer com a própria imagem. Não vou discriminar ninguém por aparência – e me espanta que muita gente ainda o faça.

A tatoo, por décadas, esteve associada à marginalidade e à rebeldia. Foi difundida no Ocidente, a partir do século 18, por marinheiros ingleses que a conheceram ao entrarem em contato com os polinésios (que usavam a palavra tatau ao mostrarem seus desenhos pelo corpo). E como marinheiro bom de verdade marcava presença constante em tabernas, prostíbulos e guetos, logo outros frequentadores desses locais aderiram à moda (inclusive criminosos). Pronto. Estava feita a associação da tatuagem com a malandragem – ou com coisa pior.

Mas a arqueologia já encontrou provas de que a tatuagem é parte da História da humanidade há milhares de anos. No Egito, entre 4 mil e 2 mil antes de Cristo, a tatoo era essencial para homens e mulheres ficarem bonitões diante da sociedade. Tribos indígenas por todo o mundo também sempre usaram os desenhos corporais para marcarem rituais, fases da vida. A evidência mais antiga, porém, foi encontrada com a descoberta do Homem de Otzi, em 1991, nos Alpes, na fronteira entre a Áustria e a Itália. A múmia masculina estava muito bem conservada, graças à neve, com seus 5300 anos! E tinha 57 tatuagens!

Hoje, basta uma manhã na praia, uma hora na academia, a espera na fila do cinema e até uma reunião de trabalho na qual as roupas são mais informais pra constatar que tatuar o corpo é um traço marcante da nossa cultura contemporânea. Tem modelo pra todos os gostos. Pessoas de todas as idades se rendem a ela. Há estúdios e tatuadores superprofissionais, que usam tecnologia de ponta e produtos de extrema qualidade. Isso é bem importante na hora de entregar seu corpinho nas mãos dos caras.

Desisti várias vezes de fazer por falta de grana. Melhor assim. Porque tive muito tempo pra pensar o que eu gostaria realmente de tatuar. Sempre pensei que tinha que ser algo que representasse um valor pessoal meu. Nunca gostei muito de desenhos fofos (flores, borboletas, e afins). Tribais também não. Me animei com a onda das frases que tinham um significado especial para as pessoas. E foi aí que eu entendi porque as tatoos fazem tanto sucesso atualmente: num momento de mudanças tão rápidas, onde situações e relações são tão efêmeras, há uma busca por nossa identidade, que parece perdida em meio à velocidade da modernidade.

O que poderia ser melhor, então, do que colocar no corpo aquilo que vai na alma? A palavra que representa sua essência e se tornará permanente diante de outros olhares? Assim, escolhi ‘Liberté‘. Liberdade. Em francês porque gosto da sonoridade. Não em português porque seria mais longo – e a dor seria pior! Liberté que me lembra sempre um propósito maior. De escolhas. De pensamentos. De caminhos. De atitudes. De opiniões. Não só pra mim. Mas pra todos nós. Dizem que quanto mais liberdade, menos segurança. Dei tantos passos seguros na vida e acabei deixando de me reconhecer em muitos deles. Hoje, tenho menos segurança material, é verdade. Mas talvez eu nunca tenha me sentido tão segura de mim.

Crédito da imagem: Ana Flora Toledo

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6 respostas em “No corpo, o que vai na alma

  1. Tatuagens têm significados muito especiais. Tenho duas, por enquanto. As duas pela família: a letra A e a outra pela minha ascendência celta. Pretendo fazer mais algumas. Agora…morrer de dor por sete minutos de tatuagem e nas costas?!?!?! Fraquinha você!!! Nunca faça no pé! A minha durou três horas e meia e até dormi. A tatuadora pensou que eu tinha desmaiado e eu tirando um cochilo! rs
    Ficou linda a sua tattoo. Que venham as próximas!

    • hahahaha!! doeu sim!!! muito!! rsrsr… acho até que parei por aqui mesmo… rs…
      eu não sabia que você tinha, Ana! Que legal!!
      Uma amiga da minha mãe, depois de vencer um câncer grave, fez uma fênix… Gosto muito dessa questão do significado, de representar valores, momentos importantes, ciclos… Bjão

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