Quando até a tristeza da morte tem beleza

Meus amigos costumam me chamar de otimista. Eu sempre tento (e quase sempre consigo) enxergar o lado bom te tudo o que me acontece. Não se trata de usar óculos com lentes cor-de-rosa. Mas de saber dar valor e a exata dimensão ao que, no fim, realmente importa. Momentos especiais, pessoas queridas, conquistas bonitas… Não significa que não passei por traumas, tristezas, decepções. Mas meu filtro interno é para as coisas boas. São aquelas que prevalecem na minha memória – e me ajudam a seguir em frente quando algo não vai como o esperado.

Um amigo meu ficou me olhando meio em choque quando eu disse, entre um gole e outro no capuccino e mais uma garfada na torta de maçã, que vejo beleza até na morte. Perder alguém que a gente ama é uma dor imensa, não há dúvida. Mortes violentas, inesperadas, são dos piores sofrimentos que se pode experimentar (se não, o pior mesmo). Logo, porém, ele entendeu o que eu quis dizer…

Quando chega essa época, relembro a perda da minha avó materna, que foi dia 21 de novembro, e do meu avô paterno, na virada de 23 para 24 de dezembro. Ambos se foram há seis anos, com esse pequeno intervalo entre um adeus e outro. No ano seguinte à morte dos dois, em 2007, participei da cobertura do acidente da TAM, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Em minutos, aqueles passageiros deveriam estar em solo firme, reencontrando a família, os amigos. Em minutos, seus corpos carbonizaram numa das mais traumáticas cenas que essa cidade já presenciou.

A mim coube, no dia seguinte, me aproximar de familiares das vítimas na porta do IML para tentar que eles contassem um pouco sobre a pessoa que perderam, se estavam recebendo o auxílio necessário da companhia aérea e (a mais ingrata das tarefas) que dissessem sobre qual era o sentimento em relação àquilo tudo.

Se tem algo que vou me orgulhar pra sempre como jornalista é de nunca ter forçado a barra pra conseguir uma história. Três famílias concordaram em falar comigo, mas abordei umas vinte antes, sempre pedindo desculpas por pedir a atenção deles naquela hora tão absurdamente difícil. As três famílias que me deram depoimentos queriam muito conversar. O espaço que eu oferecia a elas nas páginas de uma revista por intermédio do nosso contato foi recebido como um meio de desabafo, de expressão da revolta que sentiam, de tentarem, contando o que estavam vivendo, que situações como aquela não se repetissem.

Foi a primeira vez que chorei junto com um entrevistado. Porque era impossível, pra mim, ficar passiva diante de uma jovem mãe de três filhos pequenos que acabava de se ver viúva. Eu não lembro como, nem em que momento, mas de repente segurava as mãos dela, deixando o gravador de lado, quase sem palavra nenhuma pra consolar, só pedindo perdão por fazê-la contar sobre uma perda tão dilacerante. E ela, voz embargada, agradecia por eu estar ali e ajudá-la a mostrar sua dor para que nunca fosse esquecida e causasse incômodo nas autoridades.

Saí destruída. Tive menos espaço para escrever do que acredito que aquelas três histórias mereciam. Passei duas semanas sonhando que um avião com meus pais caía. Isso era julho. Veio novembro, e o primeiro aniversário de morte da minha vó. E a primeira vez que percebi, entendi, que a morte tem sua beleza quando existe a chance real de uma despedida… Minha vó, na hora da morte, tinha a filha, o genro, e a esposa do neto (que era como uma neta) ao lado dela no hospital, no último suspiro. Ela sofreu, a gente sabe. Sentia muita dor. Já se mostrava muito cansada. Mas foi embora cercada daquela mistura única de afeto com saudade presente nessa hora.

Lembrei que, antes de fecharem seu caixão, dei um beijinho na testa fria dela. O funcionário do velório disse que alguém precisava colocar a renda que a cobria para a parte de dentro. Num gesto automático, como se fosse óbvio, natural, o esperado, sem ninguém designar, eu e minha cunhada, uma de cada lado, começamos a ajeitar o tecido no caixão. Era meu último carinho com minha vó, que ajudou a me criar.

Na vez do meu vô, lá estávamos todos nós: filhos, netos, sobrinhos, amigos da família. Há quanto tempo já não ouvíamos mais o som da sanfona dele? Há quanto tempo a saúde debilitada já não permitia mais que ele estivesse de fato ali conosco? Mas a gente sempre esteve com ele, até o fim. Me arrependo de nunca ter dito o quanto eu me orgulhava dele, de sua história de migrante nordestino que construiu casa, família, com dignidade, e ensinou os filhos a também agirem assim. Falei depois, em pensamento. Espero, de coração, que alguma vez ele tenha me escutado.

A perda traumática é destruidora. A perda com a chance de um último afago, de um último olhar, tem sua beleza. Foi o que aprendi comparando as experiências que tive e a história daquelas três famílias.

E por mais que a gente chore, sinta dor, a chance da despedida eterna de alguém especial é uma das coisas mais bonitas que o ser humano pode viver… Porque significa que uma pessoa muito importante esteve na sua vida. Ela faz parte das suas lembranças. Algumas, provavelmente duras. Mas outras tantas, são as mais doces. A tristeza da morte tem sua beleza, incluindo aí o ensinamento que ela nos dá para que estejamos prontos a celebrar sempre cada novo dia. E é por isso que meu filtro interno sempre será para as coisas boas.

Crédito imagem: Suzane G. Frutuoso (Notre Dame/Paris)

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6 respostas em “Quando até a tristeza da morte tem beleza

  1. Que beleza de texto! Visão espetacular de vida e de morte, de presença e de ausência física de alguém… Bjão Menina do Mundo….

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