Palavras doces e exemplos marcam nossa história

Eu sempre achei ela linda. Eu e todo o colégio. Patrícia era, além de uma menina bonita, gentil, delicada, de sorriso fácil. É como me lembro dela. E me pareceu que continua assim. Percebi esta semana, quando fez um comentário em relação a um dos textos aqui do blog, que meu irmão havia compartilhado no Facebook. A conversa dos dois girou em “como ela escreve bem!”, “tá no sangue”, “lembro da Suzane pequenininha, de cachinho”.

Patrícia era amiga do meu irmão nos tempos de escola. Eles têm quatro anos a mais que eu. Sempre que a via, corria pra dar oi, puxar papo. O retorno era carinhoso, paciente. O que eu mais queria era ser bonita como ela. Mas o cabelo desgrenhado, os dentinhos tortos (obrigada, ortodontista), o corpinho magrelo não me permitiam imaginar que eu realmente pudesse ter alguma beleza futura como Patrícia. Mas eis que, um dia, por volta dos meus 10 anos, ela diz para meu irmão (eu estava do lado): “sua irmã é tão lindinha”. E passou os dedos nos tais cachinhos desgrenhados, sorrindo pra mim.

O meu raciocínio foi rápido: “se a moça mais bonita do colégio tá dizendo que eu sou linda… é porque é verdade!!!!!” Patrícia nunca fez ideia do choque de autoestima que me deu naquele dia. Em geral, as pessoas naturalmente gentis, do bem, nem se dão conta de como os gestos simples delas podem provocar revoluções na vida de outros.

Eu tive a sorte de, ao longo do meu caminho, encontrar muita gente com essa energia. Foram elas que me levantaram nas muitas vezes que pensei em desistir de algo. Foram elas que, com seus exemplos, me mostraram que eu também podia muita coisa!

Denise, por exemplo, é uma amiga de muitos anos da minha mãe. E eu sempre a adorei.  É dona de um abraço macio (que me lembro bem até hoje), de um sorrisão sempre estampado no rosto (mesmo quando nem tudo vai bem) e de um alto astral contagiante. Quando eu era criança e ela chamava no portão de casa “Suuu”, eu corria de onde estivesse, saltava o sofá e me pendurava na janela pra gritar “Deeeee”. E lá vinha o sorrisão acompanhado do abraço macio.

Foi por causa dela que entendi que era importante estudar inglês. Naquela época, a única pessoa próxima que eu conhecia que falava o idioma era Denise. Como ela viajava muito, já visitara vários países, eu pensava que, pra viajar esse tanto, eu também tinha que aprender inglês! Ela falava muito de Londres, de como gostava da cidade. Fui ficando curiosa, comecei a imaginar em que momento da vida eu iria a Londres. Se realmente iria. E quando me dei de presente de 30 anos uma viagem pra lá, eu consegui várias vezes me lembrar de Denise contando sobre os lugares por onde EUZINHA estava andando naquela hora!

Um pouco antes dessa viagem, conheci um senhor, com quem convivi pouco, mas que se tornou outra pessoa a fazer diferença na minha vida. Ibraim era pai de um amigo que trabalhou comigo. Ele leu uma reportagem que fiz sobre os estudos de uma cientista americana que sofreu um derrame. Assim como ele. A pesquisadora conseguia comprovar o poder do pensamento positivo e dos exercícios físicos no processo de recuperação.

Era um período difícil pra mim, em que eu me questionava se meu trabalho como jornalista valia tanto o esforço. No meio da minha crise pessoal/profissional, recebi uma carta de Ibraim. Ele agradecia pela reportagem. Disse que recuperou o ânimo de viver, voltou a se dedicar à fisioterapia e até a viajar depois de ler aquele texto. Ibraim estava decidido a vencer os efeitos do derrame. Nos tornamos amigos, começamos a trocar cartas, fui até visitá-lo em sua cidade, Bariri, no interior de São Paulo. No dia que seu filho me ligou, há pouco mais de um ano, dizendo que ele havia falecido, chorei sentida pela perda do amigo que me ajudou tanto a seguir em frente.

Palavras doces e exemplos marcam nossa história. Provavelmente, você também teve, em algum momento, alguém que o elogiou, encorajou, acreditou na sua capacidade, te estendeu a mão. Todos nós tivemos. Só, às vezes, num cotidiano tão frenético, acabamos deixando de fazer esse exercício gostoso de lembrar dessa pessoa importante. E também de fazer isso por quem convive conosco ou que por algum motivo cruza o nosso destino.

Hoje eu fiz. Chegou a minha hora de ser meio Patrícia… Saí do salão, com escova e umas mechas acobreadas no cabelo. Parei pra almoçar. Na mesa da frente, uma menininha, de uns seis anos, me encarava. Sorri pra ela, que sorriu de volta, meio tímida. Ganhei um “você é linda”. Devolvi um “você é muito mais linda do que eu”. Além de outro sorriso, recebi dela, que veio até minha mesa, uma bala (já meio derretida do calor). Agradeci. Ela correu de volta, rindo e envergonhada. Demos tchau uma pra outra, cada uma com a autoestima devidamente em dia. Uma cena que será sempre relembrada quando eu experimentar outra bala de hortelã. Espero que fique na memória dela também. Com o mesmo gostinho. E a ajudando a acreditar em si mesma.

Crédito da imagem: David Turnley/Cultura Inquieta

Anúncios

4 respostas em “Palavras doces e exemplos marcam nossa história

  1. É verdade, Suzane. E é tão raro recebermos palavras de incentivo que pouco delas nos lembramos, preferindo recordar-se das que tentaram nos pôr para baixo – essas em maior abundância, sempre. Muito oportuno esse seu texto, e faço disso um mantra a partir de agora: valorizar aquilo que me faz bem, e mandar a um lugar bem feio o que pretende me derrubar.

  2. Tempos idos, com ótimas recordações…vc falando agora da sua casa…me vi lá nos tempos de criança…sua avó sempre muito carinhosa, nos recebendo muito bem!!! Costumo dizer que o que vale da vida, é a vida que a gente leva!!!

    Bjs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s