O racismo nosso de cada dia

Na semana em que se comemorou o Dia da Consciência Negra e em que o ministro Joaquim Barbosa tornou-se presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), eu ouvi, de duas pessoas diferentes, aqueles comentários racistas difíceis de acreditar que ainda existam num país de tamanha diversidade como o Brasil.

Enquanto eu almoçava em um restaurante em Pinheiros, bairro nobre da capital paulista, me chamou a atenção a conversa de dois homens na casa dos 50 anos. Falavam sobre o futuro dos filhos quando um deles foi enfático. “Meu filho só me dá orgulho, não tenho do que reclamar do moleque. Ele só me deu um susto uns meses atrás. Tava ficando com uma neguinha. Mandei parar. Não tenho nada contra preto. Tenho muitos colegas que são. Mas pra namorar, essas coisas, não combina”. Os demais na mesa pareceram concordar.

Dias antes, no metrô, uma mulher de seus 40 anos comentou sobre a notícia que tinha lido no dia anterior, de que há um número maior de europeus vindo morar no Brasil. “É bom. Vem gente inteligente e pra dar uma esbranquiçada nesse povo.” Ela falava com seriedade. Um rapaz negro, de uns 20 e poucos anos, olhou indignado. Colocou os fones verdes no ouvido que antes descansavam no pescoço. Preferiu, sabiamente, música a escutar ofensa. Eu, no lugar dele, não sei se teria tanto sangue frio. Aliás, me arrependi profundamente de não ter sido rápida no raciocínio e dar uma resposta atravessada pra essa senhora antes de seguir meu caminho.

Nosso racismo é velado. Adoramos posar de multiculturalistas, de estarmos de braços abertos à diversidade. Mas o exemplo do homem que acredita que seu filho não tem que se “misturar” é emblemático. Não são poucos os que pensam “amizade pode, casar, não”. E eu realmente não consigo entender que sentimentos sejam contidos por etnia. Se acontecer é porque não é verdadeiro. Eis que temos aqui um apartheid afetivo?

Uma vez perdi um pouco a paciência com uma amiga negra que sempre se atrasava porque demorava absurdamente pra se arrumar. Foi quando ela me disse: “Su, sou vaidosa demais mesmo. Mas eu também não posso sair de qualquer jeito na rua. Não permito que me tratem mal.” Achei um baita exagero. Até o dia que fomos na feira comer pastel, de chinelos, shorts e regata. No momento em que minha amiga se afastou um pouco até outra banca pra ver quanto estava a caixa de morango, a feirante me entregou os dois pasteis dizendo que achava interessante amizade entre patroa e empregada. Respondi, meio em choque, meio num tom de voz baixo demais pela confusão mental que aquela observação inacreditável provocou: “ela é minha amiga, uma grande amiga”. A feirante pediu desculpas, ficou sem graça.

Nunca mais briguei com minha amiga atrasada pra ela se arrumar como achava que deveria. Há poucos meses, uma outra amiga disse quase a mesma coisa. “Eu não entro em shopping sem salto alto, arrumada e maquiada”. Passaram cinco anos entre um episódio e outro, e essas meninas ainda precisam usar a aparência pra se defenderem da ignorância alheia.

Acredito que exemplos como o do ministro Joaquim Barbosa, que chegou ao topo de sua carreira com estudo, trabalho, dedicação e caráter (que muito homem branco que se acha tão digno por aí não tem), ajudem muito a diminuir pensamentos tão equivocados. Claro que ter artistas e esportistas negros que também alcançaram reconhecimento é importante. E temos muitos, que são brilhantes. Mas é fundamental que negros ocupem espaços significativos em profissões que exigem diploma. Porque aumenta a presença deles, de igual pra igual, no dia a dia, no ambiente profissional, na sala de aula, no restaurante, no avião, na balada, no resort, no salão de beleza, no parquinho da pracinha, no condomínio – e por aí vai.

Eu não concordo completamente com a lei de cotas do jeito que está (que já se aperfeiçoou muito desde sua criação, em 1991). De acordo com decreto assinado pela presidente Dilma Rousseff, em 15 de outubro deste ano, 50% das vagas em universidades federais devem ser reservadas a alunos vindos das escolas públicas. Isso eu concordo e acho sensacional. Mas aí, essa reserva é dividida em 25% só para pretos, pardos e indígenas. É uma parte que considero meio complicada… Porque existe mesmo um abismo ainda nos bancos escolares e no mercado de trabalho. Mas é desfazer uma injustiça criando outra, continuar reforçando um tipo de desigualdade entre os alunos da escola pública.

Acredito que é mais uma questão de vergonha na cara dos governos (todos, federal, estaduais e municipais) de investir o que é necessário em educação pública de qualidade. Como isso, porém, acontece a passos mais lentos do que o necessário (muito também pelos famosos desvios de verbas), a lei de cotas atual é indispensável.

Pra terminar, acredito que o ator Morgan Freeman deu um recado bem dado no vídeo que circulou na internet nos últimos dias (esse é legendado): http://www.youtube.com/watch?v=BOvQnvwbJXw . Quando o apresentador do programa americano “60 Minutes”, pergunta o que o artista acha do Mês da História Negra, o equivalente nos Estados Unidos ao nosso Dia da Consciência Negra, e o chama de black man, Freeman mostra porque passou da hora de superarmos essa separação tacanha que a sociedade insiste em fazer. E que, infelizmente, me parece ainda leva pelo menos mais uma geração para deixar de existir.

Crédito da imagem: Winkler + Noah/ Cultura Inquieta

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3 respostas em “O racismo nosso de cada dia

  1. Sou muito a favor das cotas. Não acredito no argumento de que a injustiça do racismo estaria sendo reparada com outra injustiça. Se achamos que os negros foram prejudicados desde sempre nesse país por conta do nosso racismo, cotas são reparação, e não uma injustiça com os brancos. Nesses anos todos os brancos foram privilegiados, agora está ocorrendo um equilíbrio, só isso.
    E mesmo se fosse, seria uma injustiça menor do que passar a vida inteirinha sem ser atendida por um médico negro, um advogado negro, ver um engenheiro negro trabalhando. Na hora em que eu for atendida por um médico negro, vou me sentir orgulhosa de ter vivido na época em que nossas injustiças históricas começaram a ser reparadas. Só começaram, claro, que falta muita coisa.
    Claro que defendo a maior qualidade no ensino público básico, mas se for só isso, estaremos jogando mais uma geração de jovens negros, que estudaram em escolas de merda, na rua da amargura. Não concordo com isso não.
    Por fim, essa fala do Morgan Freeman me incomoda. Do ponto de vista individual, ele está certíssimo, mas do coletivo… hummm, tenho minhas dúvidas. Ele meio que invalida lutas do movimento negro… não sei, não curto.

    • Eu gosto da fala do Morgan Freeman porque, naquele momento, naquela entrevista, a cor da pele dele não interessava. Não era o que estava em questão. Não acredito que seja invalidar as lutas do movimento negro, mas apenas saber em que momento isso deve vir à discussão ou não. Ele não estava ali, sendo entrevistado, porque é negro. Ele estava sendo entrevistado porque é bom ator, tem uma carreira interessante, é um ser humano com qualidade e defeitos – e ser negro não era o ponto principal. Fora que já devem ter perguntado aquelas coisas pra ele mil vezes e o cara tem o direito de ficar de saco cheio… rs…

      • claro, é isso que eu disse. individualmente, a fala é perfeita. Mas ela está sendo usada por muita gente para justificar opiniões contrárias aos direitos dos negros, como se fosse um certificado de autenticidade: se o Morgan Freeman falou é pq é assim. A gente sabe q não é, né?

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