A xenofobia nossa de cada dia

Uma das principais características do Brasil é sua diversidade cultural. Com uma formação fortemente marcada pela imigração, é difícil encontrar um brasileiro que não tenha no sangue de tudo um pouco. Quem se detém por breves minutos observando aqueles que transitam numa calçada de um lugar como a Avenida Paulista, vai se deparar com fisionomias que poderiam ser vistas em qualquer parte do planeta. Somos uma grande e bonita mistura. É essa uma das nossas maiores riquezas.

Me espanta, então, perceber que nós (justo nós!), filhos, netos e bisnetos de imigrantes, estejamos também dando indícios de um dos preconceitos que mais me assustam no mundo: a xenofobia, que é a aversão a estrangeiros, mais especificamente a imigrantes. Ela cresce. E é um retrocesso grave aceitar e defender aquilo que já levou a grandes extermínios no decorrer da história da humanidade.

O fato recente que mais causou comoção mundial foi o atentando na Noruega, ocorrido em 22 de julho de 2011. O atirador Anders Breivik, um nacionalista radical, detonou uma bomba no centro da capital, Oslo, deixando oito mortos. Na sequência, abriu fogo contra jovens num acampamento, matando 69 pessoas. Breivick, que é de extrema direita e recebeu sua sentença de prisão com um sorriso no rosto e fazendo a saudação nazista, com o braço direito erguido, justificou seu ato como “uma maneira de proteger o país de uma invasão muçulmana e da política de imigração favorável ao multiculturalismo”.

Ficamos em choque com o caso. Levamos as mãos à boca pronunciando um “que horror” quando vemos notícias como a do atirador norueguês. E é para ficar realmente aterrorizado com uma atitude movida por uma aversão ao outro. Que aqui chegou ao extremo, claro. Mas quem disse que atitudes menores como um olhar atravessado, a demonstração de um incômodo pela presença de quem vem de fora e até se achar no direito de humilhar não são graves?

Rosa (troco aqui o nome dela para preservar sua identidade) é manicure em um salão de um bairro nobre de São Paulo. Ela é boliviana. Tem 20 e poucos anos. Está na capital há dois. Rosa é tímida. Olha pra baixo quase o tempo todo quando anda e conversa. Considera que tem uma situação mais favorável do que amigos e familiares que também imigraram para o Brasil, mas foram parar nas confecções em que se trabalha até 14 horas por dia, em condições precárias. Alguns desses estabelecimentos já foram punidos por trabalho escravo. Alguns regularizaram a situação dos trabalhadores. Muitos outros ainda lucram com base na exploração.

Me interesso pela história de Rosa porque um dos temas que estudo no mestrado de Ciências Sociais é imigração. Mas é complicado arrancar mais informações. Entendo, porém, todos seus motivos em uma das poucas explicações que me deu. “Tenho medo do jeito que muita gente me olha. Também evito falar muito por causa do meu sotaque. Já fui mal tratada várias vezes, mas prefiro não falar disso… Prefiro que não me notem. Só preciso trabalhar em paz para ter dinheiro e dar alguma coisa boa para minha família”.

O medo de Rosa é de nós, cosmopolitas viajados, estudados, informados, que vivemos em São Paulo. É compreensível que Rosa prefira ser invisível a ser olhada com desprezo por alguém que acredita ser superior a ela por uma questão de nacionalidade, aparência. Fiz o teste num domingo em que eu passava pela estação Palmeiras-Barra Funda do metrô, em frente ao Memorial da América Latina. Aos domingos, muitos imigrantes latinos se reúnem lá. Os olhares de desprezo existem SIM. O incômodo com o diferente também era bem fácil de perceber. E a única coisa que os imigrantes faziam eram proporcionar algum mínimo lazer às suas famílias. Não cometiam nenhuma ilegalidade, nenhuma infração. Eles, apenas, existiam ali.

Numa conversa recente com amigos, eu quase caí da cadeira na mesa do bar quando uma conhecida disse que o Brasil não tinha que aceitar pobres de países vizinhos justo na hora que os pobres daqui tinham ascensão social. Que era melhor colocar minas terrestres nas fronteiras do país pra “pegar essa gente”. Um amigo meu rapidamente a lembrou que ela teve uma irmã que morou cinco anos nos Estados Unidos, trabalhando com faxina e em restaurante. “Sua irmã não era a pobre da vez num país desenvolvido? Então?”

A sujeita tentou justificar dizendo que a irmã dela foi trabalhar com o que ninguém queria, subemprego e, além de tudo, era trabalhadora. Foi aí que entrei na história e perguntei: “E por que você parte do princípio de que essas pessoas que chegam ao Brasil em busca de uma vida melhor também não são trabalhadoras? E que emprego será que elas vão roubar? Não será justamente aqueles que os brasileiros também já não querem mais fazer, como faxina? Fico muito feliz em perceber que o brasileiro pode estudar cada vez mais e conseguir funções melhores. É uma grata consequência do desenvolvimento. Mas é uma mesquinharia, pra não dizer coisa pior, que você imagine ser aceitável defender o território com ‘minas terrestres’. Te conheci agora. Prefiro acreditar que foi só um pensamento mal construído da sua parte.” Ela ficou bem sem graça. Não voltou atrás, porém, na absurda ideia das minas porque “tem que botar medo mesmo pra funcionar”.

Vejam bem, não defendo aqui a total falta de controle das nossas fronteiras e nem a ilegalidade. Mas não enxergo problema nenhum em receber pessoas de outros países para ocuparem postos que não estão sendo preenchidos por falta de mão de obra entre os brasileiros. E isso acontece nos dois extremos: onde é necessário gente muito qualificada e onde não é necessário quase estudo para desenvolver a função.

Tenho outros exemplos recentes e assustadores, infelizmente, mas nem dá pra escrever. Se não, o post não vai acabar! Mas que fique claro aqui que as consequências da xenofobia só podem ser negativas: medo, desigualdade, violência. E que a gente também pare pra pensar que tipo de pessoas somos, que desejamos ser, num mundo de tão intensa e interessante troca cultural. Só espero que não se proliferem aqueles de nós que acreditam que matar alguém com um mina terrestre é solução aceitável.

Crédito da imagem: Creative Commons

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2 respostas em “A xenofobia nossa de cada dia

  1. Suzane, querida. Confesso que, quando li o título, achei um pouco extremo falar em xenofobia por parte do brasileiro, povo tido como hospitaleiro. Por isso mesmo resolvi ler o texto.
    E não é que eu tinha me esquecido dos tantos casos que já ouvi sobre o trabalho escravo de estrangeiros nas confecções do Brás? E na falta de emprego que africanos encontram ao desembarcarem no porto de Santos clandestinamente, então? Muitos passam a morar nas ruas.
    Quantos milhões de “Rosas” pelo país desejam ser esquecidos, quando deveriam ser incluídos, respeitados?
    Obrigada por lembrar-nos!

    • Infelizmente, Bianca, é uma realidade nossa também. E que vai aparecendo com mais frequência, num detalhe de uma conversa aqui, outra ali… Repare e, é uma pena dizer, vc vai encontrar. Só espero que a xenofobia esteja entre bem poucas pessoas. E que não aumente. Bjão pra ti!

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