Pelo meu direito de optar por relações melhores

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O único som que eu ouço quando levanto de manhã é dos meus próprios passos pelo assoalho de madeira até a cozinha. Preparo meu café da manhã e fico uns dez minutos sentada no meu sofá de 2,10 metros por 1,80, olhando pela janela o dia começar. É nessa hora, por exemplo, que eu penso nos temas que vou escrever aqui pra vocês. Estou sozinha ali. Não solitária. É um dos momentos do meu dia que eu paro e percebo o quanto hoje sou dona de mim. E o quanto isso me traz a sensação de (finalmente!) me sentir bem resolvida.

Foram anos para chegar a uma autoestima bem construída (a terapia ajudou bastante). Isso não quer dizer que eu não tenha medo, dúvidas, não sinta tristeza, essas coisas da vida – que são normais se você é um ser humano normal. Mas consigo dar aos problemas a exata dimensão que eles têm. E aí estão incluídos os relacionamentos. Já fui daquelas que curtiam meses de fossa pelo fim de um namoro. É claro que se acontece eu ainda fico chateada. Talvez até role uma lágrima. Mas não vai passar de três dias. O lado bom de endurecer com as experiências difíceis é que você compreende o que realmente vale seu choro. Pra mim, só perder uma pessoa querida pra morte vale meu sofrimento. De resto, tudo se resolve e o tempo cura (com a idade, cura ainda mais rápido).

Então, pra vim ficar ao meu lado, tem que somar. Tem que me deixar mais feliz do que eu já sou. Não virar um problema. Não me faltam aqueles conselhos batidos de “quem escolhe demais acaba sozinha”. E daí? O máximo que pode acontecer, se eu não me casar, é ficar namorando pra sempre! Não me parece má ideia! Aliás, já tá mais do que provado que casamentos na frente de juiz, padre/pastor/ou o que for, testemunhas, festão, não são garantia de sucesso, de “felizes para sempre”.

Não estou dizendo que nunca vou querer isso pra mim. Até gosto bastante da ideia da festa porque eu sou festeira. Acho bonito receber uma benção. Tem uma energia legal reunir gente querida para um ritual que sinaliza uma nova fase. A questão é que esse nunca foi meu objetivo maior de vida. Eu consigo enxergar uma existência plena sem passar por essa experiência. E isso incomoda as pessoas, que insistem que seria a única saída pra sermos completos. Não é. Tenho uma família que me ama, amigos especiais, saúde, planos, projetos interessantes. Consigo ver um futuro cheio de possibilidades. Acompanhada ou não.

Quando eu era menina e estudava em colégio de freiras, meu grupo de amigas vivia fazendo uma brincadeira de onde cada uma passaria a lua-de-mel quando casasse. Secretamente, eu me via nos lugares citados no jogo (Itália, França, Egito, Grécia, e por aí vai) indo estudar, trabalhar fora… Mas nunca casada. Eu não falava nada porque ter seus 13 anos e já não enxergar no casamento a razão da sua vida me transformaria num ser bizarro entre os demais. Preferi ficar quieta. Naquela época.

Eu acredito mesmo que na busca pelo casamento as pessoas esquecem do mais importante: escolher alguém pra estar ao seu lado numa mistura única de melhor amigo e de amante. Pra mim, tem que ser assim. Já vi gente casando porque: a) “sei lá, a gente já namora há muito tempo…”; b) “vai ser com ele mesmo porque eu não tô a fim de ficar procurando mais tempo”; c) “não o(a) amo, mas quero ter filhos”; d) “não quero mais trabalhar, casar é a melhor opção”; e) “ué, dá pra casar e continuar uma vida de solteiro, ficando com outras pessoas, basta tomar cuidado”; f) “me vestir de noiva, casar na igreja sempre foi meu sonho, nunca me importou muito com quem, sinceramente”.

Nenhuma das alternativas me parecem razoáveis. Busca-se compromisso, mas muito pouco comprometimento. Há quem deseje fidelidade e não se importe com a lealdade. E nada disso significa aceitar que se brinque com o coração do outro de maneira irresponsável. Leveza e liberdade numa relação nada têm a ver com mentira e enrolação.

Outra coisa que me incomoda é a ideia de que relacionamento bom é relacionamento grude e padrãozinho. Eu realmente não sei qual o problema se alguém quer casar e viver em casas separadas. Não acredito que namoros à distância estejam fadados ao fracasso. Há uma forte tendência de jovens casais que antes moravam sozinhos e, na hora que casam, optam por cada um ter seu quarto. Juro que eu – dona de uma cama de casal na qual durmo toda esparramada – entendo.

Nossa incapacidade de estar aberto ao que o destino oferece e insistir nos padrões conhecidos só limita nossas ações. É claro que a gente tem que correr atrás do que quer. Eu só acho que tem quem ande querendo muito pouco, e muitas vezes pelos motivos errados, só porque aprendeu que deveria ser assim e pronto. Mania de idealização é um veneno que causa angústias e decepções. Mas você consegue se safar dessa. Basta não esquecer que enredo bom é o inédito.

Crédito da imagem: Um milhão de beijos (de Renata Maneschy)

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4 respostas em “Pelo meu direito de optar por relações melhores

  1. Sabe Su, acho que tanto no tema casamento como gravidez a gente cai num mesmo ponto, o fato de a maioria das pessoas nao entenderem que quando algumas pessoas optam por fazer aquilo que elas julgam ser o mais ideal pra si do que pra sociedade, que isso nao è errado ou certo, mas apenas diferente. Aceitar a diferenca é que é dificil. Muitas pessoas vivem no comodismo, é mais facil seguir as “tradicoes” e assim nao sabem lidar com o diferente….. Eu prefiro fazer o que considero ser bom pra mim, que vai me fazer feliz, mesmo que nao seja o que os outros esperem! Um beijo… Ana

    • Aninha, eu também acredito mesmo que o melhor caminho é sempre a gente seguir o coração, e não o que a sociedade diz ser o ideal. Até porque, quanta coisa dizem por aí que é ideal só pra se manter aparências. E eu acho que deve ser muito triste viver assim… Você tá certa! Ser feliz de verdade é mais importante do que “parecer” feliz! Brigada pelo comentário! Bjokas

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