Pelo meu direito de postergar a maternidade

maternidadedepois

Já sofri bullying em chá de bebê. Uns seis anos atrás fui numa festa dessas da prima de um ex-namorado. Quem ali não tinha no colo uma criancinha, ou estava grávida ou estava louca pra ficar. Menos eu. Percebendo que me faltava o que dizer na conversa sobre fraldas, amamentação, babás, escolinha, roupinhas – e que eu não demonstrava grande empolgação sobre os temas – uma das convidadas (da turma que planejava pra breve ser mãe), me questionou: “E você, querida? Quando pretende ter os seus?”

Ao ouvir um “não faço ideia e, na verdade, não ando muito preocupada com isso” (juro que eu falei com simpatia e um sorriso de gente legal no rosto), rolou aquele constrangedor silêncio de cinco segundos. Até que outra moça, já com seu bebê fofo nos braços, me perguntou em choque: “Mas você NÃO tem vontade de ter filhos?” Naquele momento, passei a ser o foco de atenção de quase todo mundo. E respondi que, até então, a vontade não tinha aparecido (já tensa apertando os dedos uns contra os outros, como faço ao me ver pressionada).

Dali em diante, recebi todo tipo de justificativa pra alguém entrar de cabeça na maternidade. Eu só escutava, apertando ainda mais meus dedos. Me vi numa cilada na qual, se eu dissesse claramente o que eu pensava naquela hora, seria crucificada. Mulheres afastariam seus filhos de mim o mais rápido possível, como se eu fosse o anticristo. Preferi engolir quieta o suco de abacaxi, que quase não descia tamanho o nó na garganta. E a enxurrada de motivos-maravilhosos-para-ser-mãe continuava. Até que uma delas passou do limite.

“Na minha opinião só não se dedica à maternidade quem é egoísta, só pensa em si mesma, é individualista e…” Eu nem conseguia mais ouvir direito o que ela dizia porque o sangue subiu, minha gente. Tenho mil defeitos, mas egoísta e individualista eu não sou. E aí soltei o verbo: “Pra mim é egoísta quem tem filho só pra fingir a historinha da família feliz e larga a criança com uma babá o dia inteiro”. Fuzilada por olhares maternos indignados (ou a quem a carapuça serviu), dei mais uns 15 minutos e caí fora. Chorando. Eu não queria ter dito aquilo. Apesar de ser uma grande verdade pra muita gente, sei que não é isso que toda mulher pretende ao ser mãe.

Desconfio daquela conversa de que você vai ouvir seu instinto materno falar mais alto, que o relógio biológico vai fazer você querer ser mãe a qualquer preço. Se o meu falou, eu estava distraída e não ouvi. Mas acredito que, no meu caso, tem mais a ver com o fato de que sempre tive muitos projetos pessoais nos quais encaixar uma criança no meio não seria justo. Com ela. Não estou criticando as mães que precisam trabalhar. Cada um ajeita a vida como quer ou pode. Minha mãe trabalhou sempre e isso não fez de mim alguém mais ou menos equilibrada.

A questão é que não posso admitir que me julguem alguém melhor ou pior porque ainda não tenho filhos, porque escolhi me realizar individualmente (e não de maneira individualista) antes de embarcar nesse desafio. Porque é desafio sim. Deve ter um milhão de coisas boas que te fazem jamais se arrepender de ter seu bebê. Mas não é a o sonho perfeito que a propaganda de fraldas mostra na tevê.

Tenho uma amiga que é umas das pessoas mais sinceras que conheço. Ela é uma grande mãe e sinto até que se tornou uma pessoa melhor depois da maternidade. Só que ela não escondeu as durezas da gravidez de ninguém. Um dia, me disse claramente que nunca, em nenhum minuto, deixou de amar o filhinho dela. Mas que não era feliz todo dia. “Tem dias que você se sente infeliz”. Imagina a angústia de saber se está fazendo as escolhas certas ou não na hora de cuidar do bebê? Outra amiga disse que poucas coisas na vida da mulher podem ser mais constrangedoras do que estar no meio da rua e começar a vazar leite no seu peito, deixando a blusa toda molhada. “Dá vontade de morrer!”, disse ela.

Kate Middleton tá aí, passando mal a ponto de ficar internada no início da gravidez, mostrando que a maternidade tem suas agruras. É um direito meu postergar minha hora de ser mãe até que eu me sinta realmente preparada e feliz com essa escolha. De esperar encontrar um cara que tenha os mesmos valores que eu pra criar bem um serzinho que vai cair nesse mundo que não anda fácil. Já tive uma amiga que ouviu do médico que era melhor ela engravidar de qualquer um porque o corpo não esperaria a carreira dela deslanchar. Francamente!

Os avanços da medicina provam que dá sim pra viver a maternidade mais tarde com segurança. E se eu resolver ser mãe aos 40, por exemplo, e não quiser usufruir do que há de melhor na ciência, sempre existe a adoção. E isso é muito bem resolvido na minha cabeça. Se eu julgar que os riscos de uma gravidez são consideráveis para o bebê, tenho certeza que serei uma grande mãe de coração. Quantas mães adotivas são tão melhores do que as biológicas…

Criança é uma das maiores alegrias da vida (sei bem porque tenho um sobrinho que amo profundamente). Mas a maternidade não pode virar uma arma nas mãos de mulheres que se acham tão superiores às outras que ainda não são mães. Ou talvez elas façam esse terrorismo todo justamente porque, no fundo, não se sentem tão boas e nem tão realizadas assim.

Crédito da imagem: site Casal Sem Vergonha

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12 respostas em “Pelo meu direito de postergar a maternidade

  1. É isso mesmo, Suzane. Concordo totalmente com sua frase “Pra mim é egoísta quem tem filho só pra fingir a historinha da família feliz e larga a criança com uma babá o dia inteiro”. Veja o que escrevi a respeito, em março deste ano:
    Familia margarina *
    Ter filhos pra ocupar o carrão. Ter filhos pra poder vestí-los com as melhores roupas. Ter filhos pra exibir uma bela barriga de grávida. Ter filhos pra poder encomendar o carrinho de bebê em Miami. Ter filhos pra sair bem na foto. Ter filhos pra estampar a carinha deles no Facebook e anunciar ao mundo que eles são amados. Ter filhos pra ter. Porque a vida é ter.

    Deus, salve essas pobres crianças. E pare o mundo que eu quero descer!

    *Inspirada no bate-papo filosófico com Rosely Sayão, na TV Cultura, noite de 11/3/2012
    Postado por Kagê às 17:12
    in kagiulietti.blogspot.com.br

  2. Algumas mulheres se acham pessoas melhores que as outras por terem filhos, enquanto que essa benção na verdade é uma obrigação, é um dever, que deve ser cumprido com amor, mas também com a mesma seriedade que as outras coisas. Acho péssimo essas mulheres que ainda vivem na idade média achando que todas devem seguir o modelo tradicional. O mundo mudou tanto, evoluiu, mas algumas pessoas não percebem. Já pensou se vc simplesmente não pudesse ter filhos? Tenho algumas amigas que simplesmente não conseguem engravidar, nem mesmo com as novas tecnologias, então elas tem menos valor do que eu que estou no segundo filho?
    Realmente o amor materno é algo único, mas não quer dizer que toda mulher tenha que ser mãe, pq não é fácil. Eu confesso que muitas vezes é um fardo, pois as cobranças são muitas, e mulher adora pegar na chibata, imagina quando é mãe? Acho que o primordial é o respeito as escolhas do ser humano, a trajetória de cada um.

    • Carmem, é isso. Respeito às escolhas de cada um. Como isso falta nesse mundo! Como cria sociedades mais desequilibradas e como machuca as pessoas! Espero que mais mulheres (e homens!) entendam que as experiências das pessoas são apenas diversas… Brigada pelo comentário, querida! Bjão e bom fds!

  3. Desconfio que fui lembrada nesse texto, rsrsrs. Bom, vc sabe o que eu penso nisso. Dou o maior apoio pra quem não quer ter filhos, até compro a briga de amigos em caso de constrangimento excessivo. É o que me falta ser chamado de egoísta por não ter filho… Francamente. Se as pessoas não tivessem filhos por pressão social teríamos um mundo, no mínimo, menos tenso. Pq só enfrenta numa boa as dificuldades de criar um filho (criar um é difícil pra cacete), sem se amargurar, quem quis muito ter um. Claro que quem teve filho por acidente pode ser um ótimo pai ou ótima mãe, pode se descobrir na maternidade/paternidade, acontece.
    Até proponho um teste. Se vc, qdo pensa em ter filho, fica achando que vai sentir muita falta da sua vida social/profissional e isso te angustia, adie. Não tá na hora. E pode ser que a hora não chegue. Não é o fim do mundo. (eu sinto uma falta louca da minha vida social, aliás, mas não sofro diariamente por isso). Ai, poderia escrever horas sobre isso. Melhor parar aqui 🙂

    • hehe… sabia que você se reconheceria… 😀
      concordo com todas suas observações, querida… e é essa maldita pressão social (pra tudo!) que só atrapalha a vida das pessoas e pode machucar muito…
      bjão e bom fds!

  4. Oi Suzane,
    Nossa, que texto ótimo! Sabe, eu tenho me irritado muito com essa questão da maternidade. Sou casada, mas não estamos planejando filhos no momento, e não é porque a gente não goste de crianças, pelo contrário, somos tios muito queridos, mas pelo fato de que não é o momento nas nossas vidas. Eu tenho vontade de ser mãe um dia, mas na minha atual situação de trabalho eu não tenho coragem de ser. Eu não moro perto do meu trabalho, pego trânsito todos os dias, e eu simplesmente não quero deixar uma criança o dia todo numa escolinha. Não penso abdicar da profissão, mas gostaria de dividir melhor o tempo da maternidade com a carreira.
    Outra coisa que me cansa muito, é ter que ficar respondendo pra família, amigos, que não pretendemos ter filhos por ora! Gente, qual o problema? Cada um tem seu tempo, dá pra respeitar a vontade do outro?
    E só pra finalizar, não gosto quando as mães olham pra você e falam: “Você não entende porque você não tem filhos”. Esta frase pra mim é a “arma” que você citou no seu texto, é me colocar num nível tão abaixo pelo simples fato de não ser mãe.
    Acho que meu comentário ficou meio longo, mas tenho me sentido engasgada com a maternidade e as mães superiores!
    Abraços,

    • Oi, Adriana! Realmente essa frase “você não entende porque não tem filhos” é das mais crueis e injustas!
      Acho que, no fundo, com tudo o que você escreveu, seu objetivo é ser uma mãe responsável de verdade, que consiga dar a seu filho a atenção que julga a ideal (e não que os outros definam se é suficiente ou não e bla bla bla). Você tá certa! No seu absoluto direito! Aliás, eu acho mesmo que só cuida demais da vida do outro quem não tá satisfeito com a própria vida! Tenho certeza que quando você for mãe (se assim desejar) vai ser das melhores porque já mostra a preocupação essencial, que é o bem-estar do seu filhotinho… E pode sempre escrever o quanto quiser!! Estamos aqui pra trocar ideia mesmo!! Bjão e bom fds!

  5. Excelente! A maternidade é assim mesmo, dias felizes outros terríveis… Me encaixo na “turma” das mulheres que falam as “verdades” sobre ser mãe. E acredite, sou imensamente criticada sobre isso quando estou em grandes rodas de mães, mas quando estou a sós com uma ou outra mãe, o papo é bem diferente. Pode acreditar!

    • Paula, é mesmo uma pena que mais mulheres deixem de falar também sobre as dificuldades. Tenho certeza que isso diminuiria culpas e a pressão que todo mundo faz as mães sentirem… Obrigada pelo comentário!! Bom dia! Bjão

  6. Adorei o seu texto e super me identifiquei com você. Também estava distraída enquanto o dom da maternidade tocava deseperado sininhos pra me fazer ter vontade de ser mãe. Me sinto um ET quando confesso que não sinto necessidade alguma de formar a família feliz por apenas formar… E concordo quando diz que egoísta é quem pensa em ter o filho sem se preocupar com a forma como irá cuidá-lo. Não possuo nem um animal de estimação porque sei que não teria tempo para cuidá-lo, o que dizer de um filho… Também tenho um blog e escrevi a respeito do que sinto com relação a esse negócio de ter filho só por ter… Fui crucificada após isso! HAHAHA!!!

    • Oi, Francielle! Olha, o mais bacana desse post foi mostrar que, definitivamente, não estamos sozinhas!!! Às vezes, é só uma questão de dar a cara pra bater primeiro e mais gente tomar coragem pra dizer também como se sente. É uma pena que você tenha sido crucificada… Sinal de que ainda tem muita gente por aí com uma visão limitada do mundo, do que é ser feliz. Eu também continuo ouvindo a fatídica pergunta “e quando, afinal, você vai ter filhos?”, como se eu fosse uma aberração! rsrsrsr… Mas vamos deixar pra lá, nem vale o esforço de grandes explicações… Porque eu tenho certeza que os planos que traçamos pra nós mesmas é muito mais interessante – e ele não exclui filhos, apenas, posterga a maternidade!
      Bjão pra você! Obrigada pelo comentário e um lindo 2013 pra ti!!

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