Então, você alcançou o sucesso. Tem certeza?

sucesso?

Eu nunca me senti tão perto do fracasso. Pra quem sempre teve metas de curto, médio e longo prazo, e assim conseguiu conquistar muita coisa que a sociedade julga sinal de sucesso, é surpreendente que nos últimos seis meses eu mal soubesse o que seria da minha vida nos próximos dois dias. Basicamente, sabia que deveria frequentar as aulas do mestrado em Ciências Sociais. Mas todo o resto se tornou etéreo. Fora do jornalismo (como parte dos primeiros reflexos do fim do Jornal da Tarde, onde eu trabalhava), decidi que se o destino estava me dando essa chance era chegada a hora de me presentear com um período sabático.

Essa parada essencial na minha rotina permitiu mais tempo aos estudos (que é a preparação para uma nova fase profissional, ainda adiante). Mas também viajar, cuidar da minha saúde (que andava por um fio), ajudar a cuidar da saúde de pessoas queridas, dedicar um tempo precioso aos amigos em cafés, almoços e jantares. Me reaproximar de gente que importa. E pensar com calma sobre quem realmente sou e como, a partir de então, eu me colocaria na vida.

Hoje, me sinto perto do fracasso não porque me sinto uma fracassada. Meu sabático vem sendo uma das decisões mais sensatas que já tomei. Mas me sinto tão perto do fracasso porque as pessoas fazem questão de dar valor às outras por causa de cargos, posições, status, ao que aparentam e ao que elas têm. Dizer pra quem quiser ouvir “parei para rever o que fiz até aqui, o que deve permanecer, o que deve ser resgatado e o que deve mudar” é quase um escândalo. Eu dou valor ao trabalho. Acredito que é uma das maneiras de atingirmos nossa plenitude como seres humanos. Não proponho aqui que saiam todos pedindo demissão e vivam como se no dia 21 de dezembro o mundo acabe mesmo – porque não vai. Até porque é com dinheiro que se sobrevive.

Só que me parece urgente que as pessoas dêem mais atenção a chamados internos, aqueles que muitas vezes apenas nossos pensamentos conhecem. Claro que temos contas a pagar. Mas será que precisamos de TANTAS contas assim? Lógico que construir uma carreira, um negócio, traz realização. Mas será que não é melhor aprender a dividir reconhecimento e responsabilidade com sócios ou delegando tarefas, e ter mais tempo para si mesmo e para a família? Quem não gosta de se ver bem diante do espelho, com um visual legal? Mas pra quê se enrolar em cartões de crédito pra ter um guarda-roupa abarrotado? E comprar a própria casa é pra maioria de nós um sonho especial. Será, no entanto, que ela precisa ser enorme, exigindo mais recursos para ser quitada? Ah, sim… Criar filhos custa caro. Não estaríamos, porém, educando uma geração inteira para acreditar que só se realiza e tem valor quem consome o máximo de coisas materiais?

Ontem, um amigo me contou que foi mandado embora há poucas semanas. E optou também por passar uns meses se dedicando à família. Não viajava há anos. Trabalhou em muitos Natais. No próximo dia 23, embarca num cruzeiro com a mulher e a filhinha de oito anos. Depois, vão pegar o carro e passar janeiro percorrendo o litoral norte de São Paulo. Enquanto a gente conversava, me contou que acabara de sair da cozinha. “Fiz aqueles biscoitos natalinos bem comuns entre os americanos, sabe? Fiz até um em formato de árvore de Natal.” Sabe quando você fala com a pessoa pelo telefone e consegue perceber que ela está sorrindo? “Minha filha disse que sou o sucesso dos biscoitos de Natal”, disse ele. O que pode ser melhor do que ser um sucesso pra quem nos ama e por um motivo simples?

Dia desses bateu um receio de como será a vida nos meses que se aproximam. Em relação a tudo. Trabalho, dinheiro, amor, família, opções, escolhas. O questionamento é parte (por vezes dolorosa) do sabático. Foi quando lembrei de uma coisa que minha avó (já falecida), me disse uma vez, quando eu estava bem triste, com sua inconfundível voz de fado português: “Mantenha a fé, filha… Não te entristeças. Às vezes, a vida nos faz dar um passo atrás para depois darmos dois à frente. Vais conseguir. Tenhas paciência…”

Dei vários passos atrás desde julho. Isso se eu considerar o que a sociedade afirma ser o sucesso. Pra quem gosta de mim de verdade, quem conseguiu compreender ou já passou por um sabático, o que diz a sociedade não é o que vale. Para essas pessoas especiais (a quem eu deixo aqui meu “muito obrigada”), eu simplesmente nunca estive tão à frente da maioria. E é esse o reconhecimento que agora me basta.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

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6 respostas em “Então, você alcançou o sucesso. Tem certeza?

  1. Aconteceu exatamente a mesma coisa comigo no segundo semestre desse ano. Porém, agora já estou começando a dar o primeiro passo pra frente novamente 😀

  2. VC, como sempre está certa… Há muito tempo percebi que viver em função de obter ‘sucesso’ com vistas a bens materiais é um vazio sem fim. Como é comum as pessoas se aproximarem da gente pela nossa posição social e confortos materiais que podemos proporcionar; e como elas se afastam quando isso vai, porventura, embora… Vejo pessoas frustradas por não terem aquele carrão do comercial da TV, aquela cobertura no melhor bairro, aquelas joias irresistíveis, e não se importar com o tesouro que de repente têm tão perto de si: o amor sincero dos que lhe querem bem.

    • É mesmo triste, Carlos, que as pessoas demorem tanto pra se darem conta disso. Ou, de repente, nem nunca percebem e não entendem porque se sentem incompletas, vazias… Que mais pessoas tenham a possibilidade de repensarem suas vidas! Obrigada por acompanhar o blog!! Bjão e ótima semana!

  3. Muito bom. Houve um período, não faz muito tempo, em que eu trabalhava demais – no magistério geralmente a carga de trabalho não é das mais suaves, porém eu exagerava com 60 horas semanais em sala de aula, projetos e ainda levava muito serviço para casa. Era um ritmo insano e tudo isso para que? Dinheiro, claro. E pelo “sucesso”, pois trabalhava em um projeto de formação de professores e corria tudo bem.

    No entanto perdi muita coisa. Perdi saúde, perdi relacionamento, perdi momentos que poderiam ser melhores aproveitados nos finais de semana ensolarados em uma cidade litorânea ao lado de quem se ama. Nem preciso dizer que aquela loucura de horas e horas dedicando ao trabalho não valeu a pena.

    Só depois de tudo ruir é que reduzi o meu ritmo de trabalho. Algumas pessoas diziam que eu estaria dando “um passo para trás”. Respondia que em muitos casos “um passo para trás” pode significar passos largos para uma vida melhor.

    Parabéns pelo seu texto! Um abraço.

    • É bem assim mesmo, Jaime… Quando decidimos repensar a vida e tudo o que vai perdendo o sentido, as pessoas costumam tentar mostrar que errada é a sua tentativa de mudança, que é você quem não se encaixa nos padrões da sociedade. Mas se tem tanta gente se questionando, fica claro que o que não tá bem são esses tais padrões (muito trabalho, muito dinheiro, pouco tempo de qualidade). Acredito, porém, que cada vez mais gente vai aprendendo a importância dessa transformação, de focar em valores melhores… Obrigada por acompanhar o blog! Bom dia! Bjão

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