A imprensa e o poder que ela te dá

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O poder é seu. Todo seu. Você pode desligar a televisão ou mudar de canal. Ouvir apenas música no rádio. Acessar sites com os conteúdos específicos que te interessam. Passar batido pela banca de jornais e revistas. A escolha é sua. Você não precisa acompanhar a intensa cobertura de mais uma tragédia. Mas eu acredito mesmo que você deveria… Porque a imprensa incomoda pra que ninguém se acomode.

Eu sei… Concordo que tem muito veículo, programa, carregando nas tintas. Apelando para o sensacionalismo. Mas nós sabemos, eu e você, quais são eles. E basta não dar audiência, se assim cada um desejar. Só é bom lembrar que o sensacionalismo existe porque há quem se interesse. Não é pouca gente. Nem é o seu caso, certo? Você só quer assistir/ler o jornal diário sem ter que saber de mais sequestros, assassinatos, assaltos, desigualdade… Aí, sou obrigada a te contar um segredo… O problema não é o jornalismo. É a sociedade em que a gente vive. É a sociedade que se acomoda porque não gosta de ser incomodada.

Mas você vai insistir comigo: por que continuar noticiando os desdobramentos de dramas como o que envolve hoje a cidade gaúcha de Santa Maria? Pra quê? Eu te devolvo a pergunta com outra pergunta… Será que se você soubesse dessa história apenas por meio de uma nota rápida, anunciada no jornal, que 235 jovens morreram numa boate que pegou fogo, você se comoveria? Talvez, surgisse um pensamento breve de “ai, que tristeza tão grande”. Mas eu acho que a maioria de nós consideraria mais um fim trágico entre muitos outros.

Quando obrigados a observar cenas de desespero, de salvamentos, de medo, de revolta, de perda, junto com informações que detalham a dor, somos impactados. Primeiro, ficamos perplexos. Depois, sentimos profundamente, nos colocando no lugar daqueles que estão sofrendo. Daí em diante, alguns colocam a mão na massa pra ajudar de alguma maneira. Outros, rezam. Alguns, cobram mudanças para que situações assim não mais aconteçam ou pelo menos diminuam. Há quem prefira ignorar, o que é um direito. Mas boa parte de nós compreende que esse não pode ser mais um fim trágico entre muitos outros. Uma transformação é urgente.

O noticiário de hoje, em todo o Brasil, destacou reforços na fiscalização das casas noturnas. Governos municipais, agora, exigem alvarás de funcionamento em dia e planos de emergência rigorosos. Descobri que dois lugares que frequento em São Paulo não tinham alvará. Minha segurança estava em risco e eu nem desconfiava. Será que se a tragédia de Santa Maria não ganhasse à exaustão destaque na imprensa nossos governantes teriam se mexido? Olha, eu acho que não…

A imprensa te fala da tragédia. E te ensina quais são seus direitos civis e humanos. Onde, como e com quem você pode reclamar por eles. Conta o que fazer para melhorar sua saúde. Explica quais são as tendências de mercados, de comportamentos, das artes. Ajuda a entender como sair do vermelho. Mostra o mundo grande que nos cerca – e como temos cuidado mal dele.

A imprensa também erra. A imprensa, muitas vezes, poderia fazer melhor do que faz. Eu, que sou parte da imprensa, tenho minhas críticas a ela. Mas garanto que não falta gente na profissão empenhada em querer o melhor para o público. Porque a imprensa convive com a simbólica expressão “o quarto poder”. O que a maioria de nós deseja de verdade, no entanto, é que o empoderado seja você.

Crédito da imagem: Diário de Santa Maria

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A dor

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Um dia de céu cinza. Uma garoa que vai e volta. O tempo hoje não poderia ser diferente… Ele parece ter se vestido especialmente para nos fazer parar pra pensar… Até o silêncio entre as pessoas parece maior do que o comum. É incomum para uma segunda-feira… Mas essa é uma segunda-feira de luto. Como outras que já vivemos. Como lutos constatados em outros dias da semana também. Porque o fim da vida não escolhe data. O que é possível escolher, determinar, é o nosso comportamento. E por que esperamos a tragédia para nos chocar? Para exigirmos segurança, fiscalização, punição? Por que, ainda, insistimos em aprender pela dor?

Universitários. Tantos sonhos interrompidos. Aquela alegria de viver ao máximo, tão característica da juventude, chegou ao fim cedo demais para moças e rapazes que se divertiam numa balada na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Um incêndio… improvável? Ou não? Não tenho coragem de culpar os músicos da banda que dispararam um sinalizador no palco, dando início ao fogo. Quantos aniversários eu e você já fomos nos quais a última moda é colocar sobre o bolo uma vela cujas faíscas são fortíssimas e chegam alto? Queremos apenas uma festa bonita… Simplesmente, não paramos pra pensar quanto o material em volta é inflamável.

Somos bem ruins em medir consequências. Somos fracos, acomodados. Não brigamos o bastante para que as coisas funcionem direito. Para que existam saídas e planos de emergência suficientes em locais públicos. Sou contra a rigidez de ideias que se transformam em preconceitos, como vocês já devem ter percebido. Mas ninguém em sã consciência é contra a rigidez quando se trata de normas de segurança.

Eu diria que prezamos mal por um bem precioso: nossa vida e a vida de quem nos é essencial. Numa onipotência desmedida, achamos que nunca acontecerá conosco… Não estou defendendo aqui que a gente se tranque em casa, deixe de aproveitar os momentos, porque violência e incertezas estão à espreita. É justamente o contrário. Temos que brigar para que situações de perigo sejam minimizadas e para que as de alegria sejam vividas ao máximo. A falha sempre vai existir. Somos falíveis. É natural que seja assim. A falha, porém, pode ser bem menos constante.

Mas, então, deixamos pra lá… E vem a dor. A dilacerante. Aquela com a qual se lida ao perder, sem mais nem menos, do nada, de uma maneira jamais imaginada, um amor. O maior de todos os amores, no caso de pais e mães que são obrigados a fechar o caixão de um filho, de uma filha. Mesmo não sendo alguém próximo a nós, mesmo que a tragédia esteja longe de nós, como não se emocionar ao ver na tevê, na internet, o desespero de familiares debruçados no caixão de seus jovens? Como não sentir o coração apertar ao perceber que sim, poderia ser seu filho, seu irmão, seu melhor amigo?

A essas famílias, que de agora em diante são obrigadas a conviver com um trauma (talvez, não superável), meus mais sinceros sentimentos. A nós, que temos agora um nó na garganta e a sensação de impotência… passou da hora de sermos realmente uma sociedade combativa. Ou ainda abaixaremos a cabeça, consternados, com muitas tragédias.

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Quem puder ajudar Santa Maria a enfrentar esse drama, a cidade precisa de enfermeiros, auxiliares, psicólogos, psiquiatras. Contato: Bia, no telefone (55) 9155-2087. Informações sobre mortos e feridos: (55) 8416-1460.

Crédito da imagem: Lauro Alves/Zero Hora

Meu top 5 de viajante!!!

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Já contei pra vocês aqui o quanto eu adoro viajar. Como dizia um post que compartilhei no meu mural do Face esses dias, viajar não é um luxo. É uma necessidade. Eu PRECISO ver pelo menos um lugar novo por ano. No mínimo. Pode ser outra cidade (mesmo que pequenininha). Mas fico radiante quando é outro país, com uma cultura absolutamente diversa da minha, onde se fala outro idioma. Em terras estrangeiras, percebo meus sentidos mais apurados. Visão, audição, olfato, tato… As sensações são aguçadas. Na verdade, não sei se isso é coisa minha… Mas é como se minha mente ficasse em alerta para o bombardeio de novidades que só as viagens podem proporcionar.

Viajar, pra mim, é uma prioridade. Acredito profundamente nos benefícios de gastarmos nosso rico dinheirinho mais com experiências, menos com objetos. E ainda não descobri experiência mais gratificante do que pegar mala/mochila e partir em direção a mais um destino. Hotel não tem que ser nada caro. Fico tranquila onde tiver uma cama confortável e um chuveiro bom. Melhor quando é super bem localizado (nas metrópoles, o ideal é sempre estar próximo a uma estação de metrô).

Nesses meus anos de viajante (que começaram ainda na adolescência), aprendi que meu coração pode não bater forte por um lugar que sempre sonhei visitar. Eu adoro todos os lugares! Vejo vantagem em todos onde fui. Mas temos aquela mania de idealização. Assim, por exemplo, suspirei a cada esquina que eu virava em Paris. A cidade é toda linda! É incrível! Se você não foi, tem que ir, sabe… Mas… meu coração não disparou. Em compensação, não esperava nada demais de Bruxelas (que era só meu caminho entre Amsterdam e Paris). E fiquei impressionada, lamentando não passar mais um dia além do previsto. Surpresas de viagens… São deliciosas…

Então, o tempo (e mais carimbos no passaporte) me fez compreender o que transforma um destino num lugar especial: afeto. Alguma coisa precisa me emocionar, ir além do simples deslumbramento. É bem subjetivo. Não é a emoção de chorar. É a história, as pessoas que vivem ou viveram ali. É olhar em volta e dizer a si mesmo “eu moraria aqui fácil”. Minhas andanças renderam um top 5. Os cinco lugares que mais me impressionaram e/ou onde me senti bem ao infinito. Talvez você nem concorde comigo. E é assim mesmo que tem que ser. Como eu disse, as sensações em um destino são subjetivas. Por isso, nunca faço uma viagem só porque alguém disse que gostou do lugar. Claro que levo em conta opiniões. Mas tem que ser aquela história de deixar a intuição traçar sua rota também. E esse texto tá ficando enorme! Vamos ao top 5! E me digam qual é o de vocês!!

1) Londres, Inglaterra
Abracei minha amiga na estação de metrô, vindo direto do aeroporto. Ela estava na terra da rainha com o marido para o mestrado. Almoçamos na casa deles e logo depois tiveram que ir trabalhar e estudar. Era fim de tarde e não quis esperar nem mais um minuto pra ver o lugar do qual ouvia sempre uma amiga da minha mãe falar. Enfrentei sozinha o horário de pico do metrô. Me perdi um pouco entre as linhas, mais pelo excesso de pessoas (porque o mapa do “underground” era fácil de entender). Quase 19h. Subi as escadas da estação correndo a tempo de pisar no último degrau e ouvir o sonoro “beeemmm” do Big Ben. Sempre quis presenciar o som da badalada cheia do relógio mais famoso do mundo (o nome, na verdade, é da torre em que o relógio se encontra). Definitivamente, eu estava em Londres. Os ônibus vermelhos de dois andares estavam lá. Os táxis pretos com volante à direita também. O Tâmisa. A garoa fina no dia cinzento de 16 graus. Um pessoal elegante e educado. Pubs cheios. Sim, eu poderia assistir um balé no Royal Opera House! Comecei a andar meio sem rumo pelas ruas próximas. Tudo parecia tão familiar… Tão… meu lugar. “Se existem mesmo outras vidas, eu devo ter passado alguma delas aqui”, pensei. A sensação de “fazer sentido” estar ali não me abandonou nos oito dias seguintes. Uma frenética Londres me trouxe paz de espírito.

2) Rio de Janeiro, Brasil
É lindo. E é lindo demais!!! É uma delicadeza para os olhos o entrosamento da natureza com a cidade. Tem seus problemas, como toda cidade grande tem. Mas… é maravilhosa realmente. E está aqui, no nosso quintal, ao nosso alcance. Na última década fui inúmeras vezes ao Rio. Como tive a sorte de fazer amizade com cariocas e de ter amigos muito queridos se mudando pra lá, há uns quatro anos vou todo ano. Não dá pra cansar de admirar os contornos do Pão de Açúcar, de mergulhar na quietude do Jardim Botânico ou do Parque Lage, de caminhar ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas ou no calçadão de Ipanema. Mas o meu lugar preferido é a Urca. Casas lindas, com vista pra Baía de Guanabara. Praia Vermelha (linda, pena que sujinha – mas dá pra tomar uma água de coco admirando a paisagem). Pista Claudio Coutinho (uma bela caminhada entre micos e com o mar quebrando nos paredões de pedra do morro da Urca). De novo, a tal paz de espírito, como a que senti em Londres.

3) Berlim, Alemanha
Eis um lugar que não estava nos meus planos logo de cara quando decidi que viajar seria uma constante em minha vida. Fui para Alemanha em 2007, graças a uma bolsa de intercâmbio para jovens jornalistas, oferecida pelo governo alemão. Três semanas conhecendo de perto a cultura do país. Desde o primeiro momento, Berlim me intrigou com uma mistura de seriedade e contemporaneidade. De construções históricas (de diferente períodos) dividindo espaço com uma intensa vida artística, expressa por diferentes linguagens. A cidade é linda. Os museus são impressionantes. Mas o que dá a Berlim uma atmosfera tão marcante é sua história. Pedidos de perdão pelo Holocausto, que matou milhares de judeus, estão por toda parte. Quantas vezes meu coração apertou por lá… Em muitas calçadas é possível observar pequenas placas de bronze em frente às casas. Nelas, nomes dos membros das famílias que moraram no local, data de nascimento, data de falecimento – e o campo de concentração onde morreram. Estive em um deles, o de Oranienburg, a poucos quilômetros de Berlim. A tristeza era inevitável enquanto a guia mostrava fornos onde corpos eram incinerados e dormitórios escuros em que as pessoas ficavam empilhadas. Tive que sair de um deles pra tomar ar. Me senti fisicamente mal, com muita dor de cabeça. Desde então, qualquer exposição, livro, foto, filme sobre esse período me deixa perturbada. Mas também pude colocar as mãos no que restou do Muro de Berlim. Curiosamente, o que era símbolo de opressão se tornou símbolo de liberdade e de restituição de direitos.

4) Lisboa, Portugal
Solar. Pra mim, ela é assim. As duas vezes que estive em Lisboa (a primeira num mês de julho; a segunda num final de maio) estava muito, muito sol, com um céu de um azul brilhante. Nunca choveu. Familiaridade do idioma. Simpatia instantânea que eu ganhava dos portugueses ao explicar que parte da minha família mora na cidade. Minha mãe nasceu em Torres Vedras, distrito de Lisboa. Tios e primos vivem lá. Na primeira vez, fiquei um mês inteiro. Conheço cada canto, cada ladeira (porque, minha gente, eu ando, viu?). Amo os bondes. Amo a vista do Castelo de São Jorge. Amo sentar ao lado da estátua de Fernando Pessoa e ficar só olhando o movimento… Observar o horizonte diante do rio Tejo (nem dá pra ver o outro lado!). Lembra a sensação de “esse lugar me pertence”, que comentei antes? Em Lisboa o meu são os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian (criada por uma ilustre família armênia), um espaço cultural com museu, teatro e biblioteca. E comida! Lisboa é sinônimo de excelente comida – e excesso dela, já que minha família não entende que pra se alimentar a gente tem que sentir fome! Nada disso! Comida é pra festejar, acompanhar a boa conversa… Comida é demonstração de afeto. Minha Lisboa é sol, vento de leve e afeto.

5) Roma, Itália
A beleza da capital italiana não me deixou de queixo caído. A cidade é bonita, urbanisticamente falando. Mas outros lugares impressionam mais nesse quesito. Não é beleza certinha que faz de Roma um lugar especial pra mim. Primeiro, é a sensação de “vida” em todos os cantos. Gente rindo e falando alto. Gente brigando porque alguma coisa não funcionou direito. Gente. Muita. Romanos descolados, italianos de outras partes, paquistaneses inúmeros e turistas. Muitos! Flashes disparando a toda hora e… ruínas. Foi entre o que restou de uma Roma antiga que eu encontrei a Roma que despertou meus sentidos. Visitar o Coliseu debaixo de chuva, num clima meio soturno… e pensar em todas as mortes de gladiadores que aconteceram ali. Pensar nos gritos da multidão que assistia o espetáculo sangrento. Na frente do Coliseu, ficam as ruínas do Fórum Romano e, um pouco mais à esquerda, as do Palatino (onde a cidade teria sido fundada). Dá pra ter uma boa ideia de como era a cidade em épocas de imperadores, séculos e séculos atrás. Era grandiosa. As construções eram gigantescas. E colocar as mãos em paredes seculares e caminhar onde se formou a civilização que contribuiu para o desenvolvimento do direito, da arte, da política, da arquitetura, da tecnologia e da linguagem, é de arrepiar.

Crédito da imagem: Photography

“Mulheres Ricas”. Mas pode chamar de vergonha alheia

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Não julgo o que as pessoas gostam de assistir na televisão. “Cada louco com a sua mania” é um bom ditado pra definir as escolhas televisivas de cada um. Eu, por exemplo, me amarro em canal de oferta. Não compro nada. Mas fico fácil uma hora vendo quanto custam sofás, pisos de madeira, imóveis, carros, joias, roupas… “Ah, isso é bonito!”, “Nossa! Que cor péssima!”, “Apartamento decorado… tsc, tsc, tsc… Enganando o povo no tamanho”, são algumas das observações mentais que faço pra mim mesma.

No momento, estou fascinada pelo Pinguino Turbo Freeze, um ar condicionado portátil da Polishop. “Chegam os dias quentes e você fica sonhando com um ar condicionado em cada cômodo de sua casa? Apresentamos Pinguino Turbo Freeze, o ar condicionado que esfria de verdade!”, anuncia o locutor. Diversão garantida!

Logo, tô nem aí pra quem curte reality show. Conheço muita gente inteligente que acompanha os BBBs da vida porque deseja, justamente, ver algo que não acrescente nada no seu dia. Só ter alguma coisa pra relaxar depois do expediente. Nada pra pensar muito profundamente quando chega em casa cansado. Desde que a pessoa não vicie e não deixe de incluir no cotidiano leitura, cinema, encontros com os amigos, tempo com a família, cursos, e assim por diante, tudo bem. Eu, particularmente, acho perda de tempo. No entanto, como também deve ter quem ache a mesma coisa da minha mania de ver as ofertas, fico quieta.

Lembro que acompanhei as duas primeiras edições do Big Brother. Mas naquela época (lá se vão dez anos) ainda era interessante observar o que acontecia no programa. Os participantes eram mais “originais”. Eu achava curioso ser espectadora de uma espécie de experiência das relações humanas, num ambiente onde as características pessoais (negativas e positivas) se exacerbavam com o confinamento. Observar os limites comportamentais das pessoas. Tinha algo de psicologia que me chamava a atenção.

Aí, a cada edição, os participantes foram aprendendo a “atuar” diante das câmeras. O perfil sarado(a)-bonito(a)-esquentado(a) praticamente virou regra. E tudo ficou artificial demais e sem graça, com discussões inúteis, muito narcisismo e até uma certa violência em vários dos embates.

Mas quando a gente acha que nada pior pode ocupar espaço na programação, aparece uma bizarrice batizada de “Mulheres Ricas”. O primeiro já era de chorar de desespero. Como, no mundo em que a gente vive, pode ter um pessoal que acredita que a maior contribuição que possa dar à sociedade é mostrar seu estilo de vida nababesco, enquanto há quem conte moeda pra sobreviver? Era o que eu me perguntava ao assistir alguns dos programas da primeira temporada.

Essa semana, resolvi assistir um dos capítulos desta segunda etapa. Quando uma delas disse pra outra “ser sincero não é chique”, entre outras pérolas, percebi que o programa não só tem um conteúdo muito ruim, mas se presta a um completo desserviço.

O que me preocupa é que se o programa está no segundo time de ricaças é porque a audiência é boa. Se a audiência é boa ou tem quem se identifique ou tem quem almeje o estilo de vida apresentado. Ser rico todo mundo quer, óbvio. Essa história de que dinheiro não traz felicidade é uma falácia. Só dinheiro não resolve nossos problemas, mas dá sim conforto, segurança, traquilidade e realiza sonhos. Eu poderia comprar o Pinguino Turbo Freeze! Ele custa R$ 3,5 mil…

Mas ter dinheiro e usufruir dele é uma coisa. Outra é ostentar sem noção e por vaidade pra milhares de pessoas verem. E se mostrar o que você tem é uma massagem no ego, sinto informar que seu ego anda frágil e sua autoestima precisa urgente de um divã. As mulheres ricas do programa (algumas, nem tão ricas assim – e viva o marketing!) são, no mínimo, um mal exemplo.

O único ponto forte da atração é reforçar a certeza de que dinheiro não é sinônimo de educação e elegância. Além das participantes corresponderem à definição de “vergonha alheia”, elas conseguem ser cafonas ao cubo, muitas vezes no estilo de se vestir e quase sempre nas atitudes. Algumas delas são empresárias de sucesso, profissionais talentosas, geram muitos empregos, se dedicam a trabalhos sociais. Juro que me questiono qual vantagem enxergaram numa exposição pública tão inútil.

No caso das que não nasceram em famílias abastadas e já experimentaram dificuldades financeiras, estariam elas tentando “sambar na cara da sociedade” pra mostrar que vieram do nada e “venceram”? De novo, quem sente necessidade de agir assim precisa cuidar da saúde emocional. Isso não é normal.

E alguém precisa avisar a essas senhoras que valorizar a beleza é completamente diferente de se maquiar feito o palhaço Krusty (aquele de “Os Simpsons”, esse sim um bom programa, que vem antes de “Mulheres Ricas”, no mesmo canal).

Fica minha proletária dica… Não adianta ter cartão de crédito ilimitado. Não adianta ter balha na agulha pra espalhar Pinguino Turbo Freeze pela casa toda (em todas as casas – da cidade, da praia, do campo). Não adianta desfilar dia e noite com uma taça de champanhe cara na mão. Não adiantaria nem beber ouro líquido – porque o espírito continuaria uma miséria. Grana nunca vai encobrir falta de conteúdo.

Crédito da imagem: Divulgação/Band

Minha humilde crítica à trilogia “50 tons de cinza”

50tons

Sei que já falaram um monte sobre o livro. Que mulheres ao redor do mundo se apaixonaram perdidamente pela história do milionário-traumatizado-controlador-possessivo Christian Grey e da jovem-inocente-virgem-corajosa Anastasia Steele. Mas eu arrisco dizer que “Cinquenta tons de cinza”, da escritora E L James, chega agora a uma nova etapa, depois de vender 67 milhões de exemplares (2,4 milhões só no Brasil).

Além da trilogia (completada com “Cinquenta tons mais escuros” e “Cinquenta tons de liberdade”) estar prestes a se tornar filme, se você não leu o livro ainda alguma amiga vai te empurrar os três volumes com argumentos convincentes. E você vai ficar tão curiosa que vai ceder. Enquanto isso, seus amigos meninos não sabem mais o que fazer para se defenderem das comparações com Christian Grey.

Eu já tinha lido partes do primeiro livro, logo que foi lançado, e achei machista. Um enredo em que o sujeito determina como a namorada deve se comportar ou não, que na cama ela tem que se submeter a desejos, digamos, diferenciados e dolorosos, não me pareceu nem um pouco uma mensagem interessante num mundo em que homens ainda se acham com mais direitos do que as mulheres, incluindo aí o direito de tratá-las com violência.

A série de estupros recentes na Índia (que sempre aconteceram e começam a vir à tona), a menina paquistanesa Malala que sofreu um atentado do Taliban porque queria estudar, e o número crescente de denúncias com base na lei Maria da Penha no Brasil provam que, mais do que reflexo de uma cultura local, o machismo é bem universal – e também muito perpetuado pelas próprias mulheres que adoram criticar o comportamento das outras (e que lá no fundo elas gostariam de se sentirem livres para fazerem o mesmo).

Mas aí “50 tons” se tornou um fenômeno avassalador. Um dia, numa troca de mensagens via Facebook com um amigo, em que falávamos sobre o livro e sobre machismo, ele disse: “Me revolta as mulheres dizerem que amam esse cara e a tamanha submissão da protagonista”. Fiquei intrigada. Porque sabia que os homens estavam incomodados, mas não imaginava que seria tanto. No outro extremo, minha amiga, uma mulher inteligente e que, como eu, critica toda e qualquer atitude machista, adorou a trilogia e passou quase um dia inteiro me dizendo que eu PRECISAVA ler e praticamente jogou nos meus braços os livros. Pensei: “Pode render um post polêmico. Vamos lá”.

Sim, gostei da história, que é daquelas que você praticamente não consegue parar de ler. A autora constrói muito bem o suspense de um capítulo para o outro, sempre dando pequenas pistas que vão explicando porque raios Christian Grey age do jeito que age, de onde vem o trauma dele. A trama psicológica que o envolve desperta interesse. A história tem ritmo, o que funcionará bem no cinema. É o mesmo princípio de outros grandes sucesso literários que se transformaram em blockbusters: “Harry Potter”, “Crepúsculo” e mesmo “Comer, rezar, amar”.

Não, o texto não é nada brilhante. E, sinceramente, não acredito que tudo que a gente leia tenha que ser poético e intelectualizado. Eu leio, até por causa do mestrado, autores com teorias complexas e textos pesados. Isso não me impede de curtir uma leitura fácil por lazer. Detesto os intelectualóides de plantão que dedicam a vida a rebaixar os livros que são um sucesso estrondoso e conquistam um novo público. Gente chata.

Mas a maior polêmica em torno de “50 tons” é a de que seria uma espécie de pornô para as mulheres. Mais feminino, menos explícito do que o que se conhece de pornografia. E aqui eu tenho que ser sincera com vocês, garotas: só pode achar a relação de Christian e Anastasia picante quem tá com a vida sexual morna ou zerada. É verdade que algumas passagens do livro dão algumas ideias e tal. Mas gente… é brincadeira classificar o livro como pornografia. Tirando uma chicotada mais tensa ou outra, nada do que é descrito ali é demais. O erotismo do livro só reflete uma sexualidade plena. E é assim que deve ser! Minha humilde opinião… Se você “aprendeu” muita coisa, que bom. Coloca em prática. Conversa com o parceiro pra sugerir umas “novidades”. E tenha em mente que você pode fazer tudo aquilo e muito mais!

Poréeem… Nem é o sexo a grande estrela do livro. O que conquista a mulherada é um princípio muito, muuuuito antigo: romance em doses cavalares. Bem no estilo daqueles livrinhos que sua mãe ou avó comprava na banca de jornal com títulos como “Julia”, “Sabrina”, com heroínas virginais e heróis salvadores. A única diferença é que “50 tons” é contemporâneo. No decorrer da história, Christian, graças ao amor de Anastasia (que é uma moça forte, no fim das contas), muda para melhor, cura seus traumas. A possessividade dele ganha uma explicação plausível.

Por trás do controle sobre ela existia a freudiana ideia de “proteção”, que entra década sai década a maioria das pessoas continua a enxergar como uma obrigação masculina em relação à amada. O que me incomodou é que essa proteção não é só física e emocional. Mas também financeira. O velho inconsciente de que o homem tem que prover. E como a mulher é “frágil” demais, ela precisa que ele “cuide” dela pelo dinheiro e ela “cuide” dele mantendo casa e família em harmonia. Cuidar de quem a gente ama é super gostoso. Desde que seja recíproco e não uma regra determinada por convenções sociais.

No fim de tudo, “50 tons” é apenas um romance (em que o cara repara o novo corte de cabelo dela! Rá!), com trama psicológica que desperta curiosidade, uma cena quente aqui, outra ali… E um final digno de Walt Disney. O amor salva e supera tudo. E quem sou eu pra dizer que a gente não deve suspirar por um desfecho feliz?

Crédito da imagem: Ralph Gibson/ Cultura Inquieta

“On the road” pelos meus amigos

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Amo os meus amigos. Muitos deles são a prova de que os ditados “amigos são a família que a gente escolhe” ou “amigos são uma segunda família” têm um significado profundo. Amo colocar o pé na estrada. Ônibus, carro, avião, trem, navio, balsa, jangada… Não importa o meio. O que importa é chegar ao destino. Seja um novo destino. Seja um destino recorrente que sempre me faz feliz. Seja um destino conhecido antes e que continua a evocar lindas lembranças.

E como o mundo é grande e as pessoas precisam ir atrás daquilo que desejam, muitos dos meus amigos mais queridos foram (re)começar a vida em outras cidades, estados, países. E não importa onde eles estejam: se me pedirem pra visitá-los, eu vou. Dou meu jeito. Às vezes, demoro um pouquinho. Mas vou. Porque eu acredito de verdade que poucas coisas são mais preciosas na nossa existência do que essa gente especial que cruza nosso caminho e vira irmão/irmã – ou meio pai/mãe, ou meio filho/filha. Esse povo que te faz abrir o coração, que te dá bronca quando você precisa ou que abaixa a orelha quando é você que tá dando a bronca. Que sempre vai te abraçar apertado. Que te faz parar pra pensar em tanta coisa…

Quarta-feira acordei às 6h da manhã, enfrentei cinco horas de viagem e fui parar láaaa na divisa de São Paulo com o Paraná. Ainda no ônibus que encostava na rodoviária, olhando pela janela, vi minha amiga da época de faculdade. Senti até meu olho brilhar. Sorrisos de orelha a orelha, demos o tal abraço apertado da amizade. E era tanto assunto, tanta novidade pra contar, tanta história engraçada pra recordar, que a gente só parava de falar quando a fofa bebê dela, de quase seis meses, precisava dormir. Ficou a sensação de que foi tão pouquinho tempo… Mas também ficou a promessa de que, dessa vez, não demoraremos tanto pra nos reencontrarmos.

Eu recomendo que você vá buscar o abraço apertado dos seus amigos, não importa onde eles estejam. Se a grana tá curta, use as novas tecnologias a favor da amizade enquanto não dá pra ir pessoalmente. Mas não espera o momento ideal. Ele nem existe. Eu já falei isso aqui e vou falar de novo: não ensaie a vida. Somos finitos. Gostaria de ter passado mais dias com minha amiga, mas eu não sabia exatamente quando eu teria esses dias a mais. Então, fui. Fiquei meio cansadinha, mas nada que uma boa noite de sono e um alongamento não resolvam. E o carinho que recebi dela (e que você vai receber dos seus amigos também) foi revigorante.

Amigos de verdade são grandes presentes que, na correria diária, a gente até esquece o quanto são essenciais. O fim de semana tá aí. Aproveita pra dizer isso a eles! Liga, manda um e-mail ou uma carta enooorme, relembrando os momentos bons e as roubadas das quais vocês se safaram juntos. Ou das horas difíceis em que um esteve ao lado do outro. Se puder falar ao vivo, corre lá na casa dele. Só não deixa a distância (ou a preguiça) enterrar essa que é uma das melhores invenções da humanidade: a amizade e seus fortes laços de aço.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

Novos meios de reforçar a velha desigualdade

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Saí do cinema perto das 21h. Pouco depois desse horário, cheguei ao ponto de ônibus para voltar pra casa. O trajeto é curto. Uns 15 minutos. Estava no nobre bairro de Perdizes, na capital paulista. Mais umas vinte pessoas aguardavam a condução. Um ônibus para. Pela porta de trás, aberta para os passageiros descerem, o adolescente sai rápido, meio despencando na calçada. Ele salta, tropeça e corre.

Uma moça bem jovem grita “Ladrão! Ele roubou meu celular!”. Ela abandonou a bolsa no ônibus e saiu em disparada atrás do garoto, desnorteada. Em menos de dois segundos um outro rapaz começou a correr junto pra segurar o cara. E eu… também! Fomos os três em direção a ele. E quando já estávamos bem perto, o adolescente virou pra nós, levantou a camiseta e mostrou a arma dentro da bermuda. Paramos na hora, claro. Ele riu e foi embora. Eu ainda gritei: “marginal, filho da puta!!!”.

Até agora me pergunto o que deu em mim. Agi completamente pelo instinto. Rapidamente, meu cérebro calculou que não era o certo, conforme tudo o que aprendemos em sociedade. Logo, eu deveria “evitar” aquilo. E quando vi minha ação sendo frustrada por algo que meu inconsciente entendeu ser mais forte do que minha capacidade, paralisei. Agradeço por não ter sido eu a vítima do roubo – já que minha mente acredita que é do BOPE.

Além de passar o resto da noite me sentindo culpada pelo que fiz (afinal, ele poderia reagir e alguém sair machucado, inclusive eu), questionei tanto como as coisas chegaram a tal ponto. Eu chamei um adolescente de marginal pelo ato cometido. Mas será mesmo que ele é um marginal? Será que a mãe dele não vale nada (que foi o que eu quis dizer ao xingá-lo)? O que será que ele sentiu quando eu gritei aquilo? O que o levou a fazer isso?

Não estou dizendo que o rapaz não mereceria ser punido. Sabemos, porém, quanto o sistema carcerário do país é vergonhoso, colocando ladrão de galinha com assassino na mesma cela. Errou, tem que pagar. Mas e regenerar? Há inúmeros exemplos pelo mundo que comprovam que tirar pessoas do crime é possível. Mesmo no Brasil temos alguns presídios-modelo, onde os presos trabalham, estudam, fazem cursos e apresentam bons resultados em readaptação social.

Não é a regra porque a regra é encarcerar todo tipo de gente, independentemente do crime cometido, como se fossem selvagens. Você deve estar aí dizendo que eles são mesmo “animais” e devem pagar. O problema é que muitos deles não são. Mas passam a ser. Simplesmente porque ficam sem saída e precisam sobreviver num mundo cão. Eu sei porque já fiz reportagem em presídio e vi gente verdadeiramente arrependida, pedindo aos céus apenas uma chance de recomeço.

E o que nós, cidadãos “corretos” e pagadores de impostos, que andamos na linha, temos a ver com o “delinquente” que roubou um smartphone? Somos sim vítimas da violência. Mas esquecemos que a violência vem da desigualdade. O governo não cumpre como deveria seu papel não só ao falhar em segurança, mas também ao falhar em aspectos sociais. E nós também falhamos quando fazemos nossa vida girar em torno de bens materiais, da ideia de status e do “ter” para “ser”.

Com a economia estável nos últimos anos, muito mais gente teve acesso a bens e serviços. E isso é ótimo! Merecemos usufruir. Batalhamos não só pra pagar contas. Mas nossa sociedade criou um bizarro ciclo vicioso. Como cresceu a parcela da população que pode adquirir uma série de coisas, quem já tinha poder de compra passou a querer se “diferenciar”. Ser igual a maioria? Jamais! As empresas sacaram essa roda viva e inundou o mercado com serviços e locais exclusivos.

Um bom exemplo são os cartões de crédito. Em shows e peças de teatro, clientes do cartão X têm direito a comprar primeiro os ingressos. E o resto dos pobres mortais que se matem na fila pra conseguir a entrada e ver sua banda preferida. Os cartões também dão direito a furar fila, inclusive ao embarcar em aviões. O executivo de seus 40 e poucos anos passa na frente da velhinha. Eu já vi. De verdade: precisamos tanto desse ínfimo momento V.I.P. para nos sentirmos alguém especial? Se você respondeu sim, meu caro, há um problema sério de autoestima a ser resolvido.

A desigualdade vai sendo reforçada por novos meios. E como somos bem fraquinhos da cabeça, almejamos essa exclusividade também. Vamos a outro exemplo… Shoppings de luxo, como os que existem em São Paulo em número cada vez maior, geram empregos. Ok. E não há nada de errado em comprar lá se você pode. O duro é você achar que é melhor que a maioria por fazer isso. Um lugar onde quem não tem carro não entra (a não ser funcionários) é, no mínimo, uma aberração. Na São Paulo-universo-paralelo você encontra esse lugar.

Como será que essa informação é processada na cabeça do sujeito que perde quatro horas do seu dia só pra se deslocar de casa para o trabalho e vice-versa, esmagado dentro de ônibus, trens e metrôs? Que enfrenta dias de fila pra garantir vaga para o filho na escola? Ou que tem que parar de estudar para trabalhar? Que passa por um, dois, três prontos-socorros implorando por atendimento médico?

Como será que isso funciona na cabeça de um jovem que acorda com pelos menos um corpo estendido por semana na rua em que mora? Essa era a realidade de um rapaz que entrevistei uma vez. Ele morava na favela de Paraisópolis, vizinha do bairro Morumbi. Como explicar para esse jovem que as novidades tecnológicas, a moda, o bom e o melhor que estão logo ali, no bairro ao lado, não são para seu bico?

Tememos a violência. Sofremos com suas consequências. Muitos de nós choram ou choraram a perda de uma pessoa querida atingida por um tiro sem mais nem menos. Mas poucos de nós se mobilizam para minimizá-la. Se você não sabe como ou não quer se engajar num projeto social, por exemplo, ao menos estenda a mão para uma pessoa em situação menos privilegiada que a sua. Incentive-a aos estudos, ao trabalho. A trate com respeito e igualdade. Lhe dê valor pelo que faz, seja lá o que for. Quanto a você, pense bem antes de acreditar que seu carro ou sua bolsa o transformam em alguém com mais direitos. Você não é especial por isso. O que te faz um ser humano de bem é ter caráter.

Crédito da imagem: Andrew McConell/Cultura Inquieta