Aprendendo a pedir ajuda. E a aceitar gentilezas

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Eu estava toda feliz aquele dia por ajudar uma amiga muito querida. Enrolada com as contas, cheia de dificuldade para gastar menos do que ganhava, ela se sentou comigo à mesa de sua sala, desanimada com a situação financeira. Dei início a uma conversa franca sobre como ela usava o dinheiro de uma maneira emocional, que precisava urgentemente aprender a economizar e que tudo seria possível sem abrir totalmente mão do lazer. Tenho talento para economia doméstica! E fizemos contas e mais contas até encontrarmos as possibilidades. Ela se mostrou aliviada ao ver que poderia realizar as mudanças necessárias. E, por enquanto, está indo bem.

Mais tarde, comentei com um outro amigo o quanto me sentia satisfeita ao ajudá-la. De saber que consegui levar alguma tranquilidade e esperança numa hora bem caótica. Foi então que ele fez uma observação que bateu em mim como se eu estivesse levando um tapão na testa. “Viu? Todo mundo gosta de ajuda. Menos você.” Fiquei uns cinco segundos muda antes de pronunciar um espantado “Eu? Mas por quê?” No fundo, sem querer admitir, sabia que ele estava certo. Tenho mesmo dificuldade de pedir ajuda. Basicamente, só tem duas amigas muito próximas a quem peço algum favor e só quando não consigo de jeito nenhum resolver.

Pra me deixar desconcertada de vez, ele disse: “O problema é que só descobrimos que você precisa da gente quando sua saúde física e emocional está por um fio”. Me encolhi, fazendo um beicinho, olhos meio arregalados, comovida com a preocupação dele e me dando conta de que sim, também tenho meus momentos de fragilidade. Não sou infalível. E eu nunca tinha parado pra pensar a respeito.

Nem sei dizer a vocês quando foi que começou. Desde muito cedo me vi independente, tomando minhas próprias decisões. Nunca como um ato de rebeldia. Mas sendo persuasiva. Porque aprendi a construir bem meus argumentos quando queria alguma coisa. Junto com meu jeito responsável, ganhei a confiança dos meus pais. Logo, botando as manguinhas de fora, passei apenas a transmitir a decisão que eu havia tomado. Depois de alguns cabelos arrancados e, finalmente, percebendo que eu era sensata nas minhas escolhas, eles relaxaram.

Com o tempo, isso fez de mim não só independente. Mas auto-suficiente. Até demais. Passei a suportar minhas angústias praticamente sozinha e, heroicamente, a acolher as de amigos e familiares. Não por egoísmo deles, não. Mas porque simplesmente eles não tinham como saber o que acontecia comigo. Ninguém tem essa obrigação se a gente não fala! E como é bem natural eu ser mais pra otimista e sorrir bastante, posso praticamente me transformar num enigma! Nem dá pra desconfiar!

Só que um dia a casa cai. E a minha desmoronou num tsunami de problemas que apareceram em sequência. Na marra, quase a contragosto, vou aprendendo a pedir ajuda. Ainda não é fácil. Mas sozinha eu não aguento. Não dessa vez. Às vezes, sinto minhas bochechas corando ao fazer um pedido a alguém. Até pra minha mãe – que aliás anda repetindo o mantra “filha, a gente te ajuda”, cada vez que me liga. Tô melhorando, pessoal. Mesmo. É muito bom ver quanta gente querida tá disposta a nos estender a mão… Que dizem “ó, tô aqui”. E saber que, cara, elas estão de verdade do meu lado, para o que der e vier! Isso eu nunca vou esquecer…

Aí, já achando que estou à beira do sucesso no meu processo de seja-humilde-peça-ajuda, travo uma conversa com meu irmão no telefone. Conto como foi meu fim de semana e de uma situação em que não me deixaram rachar a conta no restaurante. E lá vem mais uma gongada: “E por que você nunca pode aceitar uma gentileza?” Três segundos muda. Tento articular a frase. “Eeeuuu?? Quem falou que eu nunca aceito gentileza?!!” Ele começou a dar exemplos de coisas que fiz e falei algumas vezes provando que, é, aceitar gentileza não é meu forte e anda de mãos dadas com minha dificuldade de pedir ajuda.

Não é que eu não goste de gentilezas. Mas fico sem graça, acho que tô dando trabalho, sei lá… Confesso até que, em dias de autoestima oscilante, chego a me perguntar se mereço… Pior é que nunca nem trabalhei a questão na terapia porque, simplesmente, não era uma questão na época. E já deixei o divã há alguns anos. Depois de me auto analisar, entendi que a dificuldade com a gentileza é recente. Gosto de ser gentil, mas não sei bem recebê-la de volta. Preciso, agora, descobrir os motivos… Ainda não sei dizer a vocês… Só desconfio.

Pelo menos, o mais importante, é entender que tenho muito o que melhorar. E que os caminhos existem. Descobrir nossas limitações e carências, desvendar medos e atitudes rígidas, não é lá muito confortável. A transformação completa precisa de atitude. Mas a conscientização já é um passo fundamental para vivermos mais em paz. Agora, é fazer da certeza um hábito.

Crédito da imagem: Clockblock (Cultura Inquieta)

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8 respostas em “Aprendendo a pedir ajuda. E a aceitar gentilezas

  1. Sei, não, Suzane… Esses seus relatos, tão sinceros e expositivos, podem ser uma espécie de válvula de escape a essa sua dificuldade de pedir ajuda e receber gentilezas. Talvez inconscientemente você mostre aqui sua fragilidade e reconhecimento, na quase impossibilidade de verbalizar. Isso não é errado, sou um tanto assim também, mas mais por vergonha do que por outro motivo. Porém, fui percebendo que certas cargas não são pra gente mesmo, e aí um ‘help’ nunca é demais; e deixar-se levar pelas almas benfazejas nem sempre nos expõe a riscos desnecessários…

    • Carlos, muita gente já veio me dizer o quanto as coisas que escrevo as ajudam de alguma maneira. E o que eu sempre digo a elas é que escrever, dividir tudo isso, me ajuda muito também! É uma troca mesmo… Aprendemos todos juntos! E sim, temos que entender que “nenhum homem é uma ilha”. Bjão

  2. Cada vez q leio..me identifico mais. Pelo fato de morar sozinha, me tornei muito independente. Muitas circunstancias da vida me mostraram que a vida eh uma troca. Se damos pq nao aceitamos uma ajuda? Ainda bem q se tem amigos e familia p o alerta. Nunca eh tarde para aceitarmos uma mao amiga neh….pouco nos conhecemos…mas sempre q precisar eh so gritar ta rs bj

    • Sei como você se sente, Natália! Quando as pessoas me dão esse retorno, de se identificarem com o que escrevi, sinto como se eu tivesse turma! rsrsrs… Somos da mesma turma, então… 😉
      Obrigada por participar do blog! Bjão

  3. Uau!! Só cheguei aqui no seu texto depois de 3 anos da postagem, mas se encaixou como uma luva! Ainda não sei bem lidar com isso, mas agora estou distante de casa e com alguma frequência tenho que pedir favores para familiares ou amigos, claro, não sem antes pedir desculpas por incomodar, mas tenho que pedir de qualquer jeito e a sensação não é boa! Me sinto maluca…kkkk
    Obrigada pelo seu relato! bjo

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