Novos meios de reforçar a velha desigualdade

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Saí do cinema perto das 21h. Pouco depois desse horário, cheguei ao ponto de ônibus para voltar pra casa. O trajeto é curto. Uns 15 minutos. Estava no nobre bairro de Perdizes, na capital paulista. Mais umas vinte pessoas aguardavam a condução. Um ônibus para. Pela porta de trás, aberta para os passageiros descerem, o adolescente sai rápido, meio despencando na calçada. Ele salta, tropeça e corre.

Uma moça bem jovem grita “Ladrão! Ele roubou meu celular!”. Ela abandonou a bolsa no ônibus e saiu em disparada atrás do garoto, desnorteada. Em menos de dois segundos um outro rapaz começou a correr junto pra segurar o cara. E eu… também! Fomos os três em direção a ele. E quando já estávamos bem perto, o adolescente virou pra nós, levantou a camiseta e mostrou a arma dentro da bermuda. Paramos na hora, claro. Ele riu e foi embora. Eu ainda gritei: “marginal, filho da puta!!!”.

Até agora me pergunto o que deu em mim. Agi completamente pelo instinto. Rapidamente, meu cérebro calculou que não era o certo, conforme tudo o que aprendemos em sociedade. Logo, eu deveria “evitar” aquilo. E quando vi minha ação sendo frustrada por algo que meu inconsciente entendeu ser mais forte do que minha capacidade, paralisei. Agradeço por não ter sido eu a vítima do roubo – já que minha mente acredita que é do BOPE.

Além de passar o resto da noite me sentindo culpada pelo que fiz (afinal, ele poderia reagir e alguém sair machucado, inclusive eu), questionei tanto como as coisas chegaram a tal ponto. Eu chamei um adolescente de marginal pelo ato cometido. Mas será mesmo que ele é um marginal? Será que a mãe dele não vale nada (que foi o que eu quis dizer ao xingá-lo)? O que será que ele sentiu quando eu gritei aquilo? O que o levou a fazer isso?

Não estou dizendo que o rapaz não mereceria ser punido. Sabemos, porém, quanto o sistema carcerário do país é vergonhoso, colocando ladrão de galinha com assassino na mesma cela. Errou, tem que pagar. Mas e regenerar? Há inúmeros exemplos pelo mundo que comprovam que tirar pessoas do crime é possível. Mesmo no Brasil temos alguns presídios-modelo, onde os presos trabalham, estudam, fazem cursos e apresentam bons resultados em readaptação social.

Não é a regra porque a regra é encarcerar todo tipo de gente, independentemente do crime cometido, como se fossem selvagens. Você deve estar aí dizendo que eles são mesmo “animais” e devem pagar. O problema é que muitos deles não são. Mas passam a ser. Simplesmente porque ficam sem saída e precisam sobreviver num mundo cão. Eu sei porque já fiz reportagem em presídio e vi gente verdadeiramente arrependida, pedindo aos céus apenas uma chance de recomeço.

E o que nós, cidadãos “corretos” e pagadores de impostos, que andamos na linha, temos a ver com o “delinquente” que roubou um smartphone? Somos sim vítimas da violência. Mas esquecemos que a violência vem da desigualdade. O governo não cumpre como deveria seu papel não só ao falhar em segurança, mas também ao falhar em aspectos sociais. E nós também falhamos quando fazemos nossa vida girar em torno de bens materiais, da ideia de status e do “ter” para “ser”.

Com a economia estável nos últimos anos, muito mais gente teve acesso a bens e serviços. E isso é ótimo! Merecemos usufruir. Batalhamos não só pra pagar contas. Mas nossa sociedade criou um bizarro ciclo vicioso. Como cresceu a parcela da população que pode adquirir uma série de coisas, quem já tinha poder de compra passou a querer se “diferenciar”. Ser igual a maioria? Jamais! As empresas sacaram essa roda viva e inundou o mercado com serviços e locais exclusivos.

Um bom exemplo são os cartões de crédito. Em shows e peças de teatro, clientes do cartão X têm direito a comprar primeiro os ingressos. E o resto dos pobres mortais que se matem na fila pra conseguir a entrada e ver sua banda preferida. Os cartões também dão direito a furar fila, inclusive ao embarcar em aviões. O executivo de seus 40 e poucos anos passa na frente da velhinha. Eu já vi. De verdade: precisamos tanto desse ínfimo momento V.I.P. para nos sentirmos alguém especial? Se você respondeu sim, meu caro, há um problema sério de autoestima a ser resolvido.

A desigualdade vai sendo reforçada por novos meios. E como somos bem fraquinhos da cabeça, almejamos essa exclusividade também. Vamos a outro exemplo… Shoppings de luxo, como os que existem em São Paulo em número cada vez maior, geram empregos. Ok. E não há nada de errado em comprar lá se você pode. O duro é você achar que é melhor que a maioria por fazer isso. Um lugar onde quem não tem carro não entra (a não ser funcionários) é, no mínimo, uma aberração. Na São Paulo-universo-paralelo você encontra esse lugar.

Como será que essa informação é processada na cabeça do sujeito que perde quatro horas do seu dia só pra se deslocar de casa para o trabalho e vice-versa, esmagado dentro de ônibus, trens e metrôs? Que enfrenta dias de fila pra garantir vaga para o filho na escola? Ou que tem que parar de estudar para trabalhar? Que passa por um, dois, três prontos-socorros implorando por atendimento médico?

Como será que isso funciona na cabeça de um jovem que acorda com pelos menos um corpo estendido por semana na rua em que mora? Essa era a realidade de um rapaz que entrevistei uma vez. Ele morava na favela de Paraisópolis, vizinha do bairro Morumbi. Como explicar para esse jovem que as novidades tecnológicas, a moda, o bom e o melhor que estão logo ali, no bairro ao lado, não são para seu bico?

Tememos a violência. Sofremos com suas consequências. Muitos de nós choram ou choraram a perda de uma pessoa querida atingida por um tiro sem mais nem menos. Mas poucos de nós se mobilizam para minimizá-la. Se você não sabe como ou não quer se engajar num projeto social, por exemplo, ao menos estenda a mão para uma pessoa em situação menos privilegiada que a sua. Incentive-a aos estudos, ao trabalho. A trate com respeito e igualdade. Lhe dê valor pelo que faz, seja lá o que for. Quanto a você, pense bem antes de acreditar que seu carro ou sua bolsa o transformam em alguém com mais direitos. Você não é especial por isso. O que te faz um ser humano de bem é ter caráter.

Crédito da imagem: Andrew McConell/Cultura Inquieta

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Uma resposta em “Novos meios de reforçar a velha desigualdade

  1. Arriscar a vida (os dois, assaltante e assaltado) por causa de um smartphone ou qualquer outra porcaria de bem material? Olha, Suzane, fui pessoalmente assaltado apenas uma vez (fui vítima de furtos, quando não há contato entre vítima e algoz), mas, quando bancário, por duas vezes a agência em que trabalhava foi roubada e eu, responsável que era pelo cofre, me vi no papel do cortês cicerone dos meliantes à casa-forte onde estava o dinheiro desejado por eles. Sabe, fiquei, com o perdão da palavra feia, “puto” com o gerente que, depois, me advertiu por ter entregue a grana e mais fulo ainda quando o cara da seguradora, aproveitando a nossa fragilidade e um momento de distração, enfiou algumas cédulas remanescentes em seu próprio bolso. Eu, sinceramente, não entendo o desejo insuportável de muitos por coisas materiais bestas. Se um garoto desses roubasse algo para comer, uma roupa no varal alheio para se proteger do frio, um leite para o bebê faminto, até entenderia. Mas, poxa, roubar uma droga de um tênis importado, um celular moderníssimo, um relógio caro… Só pela vaidade idiota de ter algo que em condições normais teria muita dificuldade para obter eu acho extremamente triste, porque, como você observa, os excluídos da sociedade não devem se conformar e a qualquer custo buscam a ilusão de ao menos em imagem pertencer a esse mundo inalcançável. Não vou tecer tratados sociológicos sobre o tema, porque isso me cansa, mas, do ponto de vista meramente empírico, sou daqueles a quem o necessário basta… Mas esse sou eu.

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