Minha humilde crítica à trilogia “50 tons de cinza”

50tons

Sei que já falaram um monte sobre o livro. Que mulheres ao redor do mundo se apaixonaram perdidamente pela história do milionário-traumatizado-controlador-possessivo Christian Grey e da jovem-inocente-virgem-corajosa Anastasia Steele. Mas eu arrisco dizer que “Cinquenta tons de cinza”, da escritora E L James, chega agora a uma nova etapa, depois de vender 67 milhões de exemplares (2,4 milhões só no Brasil).

Além da trilogia (completada com “Cinquenta tons mais escuros” e “Cinquenta tons de liberdade”) estar prestes a se tornar filme, se você não leu o livro ainda alguma amiga vai te empurrar os três volumes com argumentos convincentes. E você vai ficar tão curiosa que vai ceder. Enquanto isso, seus amigos meninos não sabem mais o que fazer para se defenderem das comparações com Christian Grey.

Eu já tinha lido partes do primeiro livro, logo que foi lançado, e achei machista. Um enredo em que o sujeito determina como a namorada deve se comportar ou não, que na cama ela tem que se submeter a desejos, digamos, diferenciados e dolorosos, não me pareceu nem um pouco uma mensagem interessante num mundo em que homens ainda se acham com mais direitos do que as mulheres, incluindo aí o direito de tratá-las com violência.

A série de estupros recentes na Índia (que sempre aconteceram e começam a vir à tona), a menina paquistanesa Malala que sofreu um atentado do Taliban porque queria estudar, e o número crescente de denúncias com base na lei Maria da Penha no Brasil provam que, mais do que reflexo de uma cultura local, o machismo é bem universal – e também muito perpetuado pelas próprias mulheres que adoram criticar o comportamento das outras (e que lá no fundo elas gostariam de se sentirem livres para fazerem o mesmo).

Mas aí “50 tons” se tornou um fenômeno avassalador. Um dia, numa troca de mensagens via Facebook com um amigo, em que falávamos sobre o livro e sobre machismo, ele disse: “Me revolta as mulheres dizerem que amam esse cara e a tamanha submissão da protagonista”. Fiquei intrigada. Porque sabia que os homens estavam incomodados, mas não imaginava que seria tanto. No outro extremo, minha amiga, uma mulher inteligente e que, como eu, critica toda e qualquer atitude machista, adorou a trilogia e passou quase um dia inteiro me dizendo que eu PRECISAVA ler e praticamente jogou nos meus braços os livros. Pensei: “Pode render um post polêmico. Vamos lá”.

Sim, gostei da história, que é daquelas que você praticamente não consegue parar de ler. A autora constrói muito bem o suspense de um capítulo para o outro, sempre dando pequenas pistas que vão explicando porque raios Christian Grey age do jeito que age, de onde vem o trauma dele. A trama psicológica que o envolve desperta interesse. A história tem ritmo, o que funcionará bem no cinema. É o mesmo princípio de outros grandes sucesso literários que se transformaram em blockbusters: “Harry Potter”, “Crepúsculo” e mesmo “Comer, rezar, amar”.

Não, o texto não é nada brilhante. E, sinceramente, não acredito que tudo que a gente leia tenha que ser poético e intelectualizado. Eu leio, até por causa do mestrado, autores com teorias complexas e textos pesados. Isso não me impede de curtir uma leitura fácil por lazer. Detesto os intelectualóides de plantão que dedicam a vida a rebaixar os livros que são um sucesso estrondoso e conquistam um novo público. Gente chata.

Mas a maior polêmica em torno de “50 tons” é a de que seria uma espécie de pornô para as mulheres. Mais feminino, menos explícito do que o que se conhece de pornografia. E aqui eu tenho que ser sincera com vocês, garotas: só pode achar a relação de Christian e Anastasia picante quem tá com a vida sexual morna ou zerada. É verdade que algumas passagens do livro dão algumas ideias e tal. Mas gente… é brincadeira classificar o livro como pornografia. Tirando uma chicotada mais tensa ou outra, nada do que é descrito ali é demais. O erotismo do livro só reflete uma sexualidade plena. E é assim que deve ser! Minha humilde opinião… Se você “aprendeu” muita coisa, que bom. Coloca em prática. Conversa com o parceiro pra sugerir umas “novidades”. E tenha em mente que você pode fazer tudo aquilo e muito mais!

Poréeem… Nem é o sexo a grande estrela do livro. O que conquista a mulherada é um princípio muito, muuuuito antigo: romance em doses cavalares. Bem no estilo daqueles livrinhos que sua mãe ou avó comprava na banca de jornal com títulos como “Julia”, “Sabrina”, com heroínas virginais e heróis salvadores. A única diferença é que “50 tons” é contemporâneo. No decorrer da história, Christian, graças ao amor de Anastasia (que é uma moça forte, no fim das contas), muda para melhor, cura seus traumas. A possessividade dele ganha uma explicação plausível.

Por trás do controle sobre ela existia a freudiana ideia de “proteção”, que entra década sai década a maioria das pessoas continua a enxergar como uma obrigação masculina em relação à amada. O que me incomodou é que essa proteção não é só física e emocional. Mas também financeira. O velho inconsciente de que o homem tem que prover. E como a mulher é “frágil” demais, ela precisa que ele “cuide” dela pelo dinheiro e ela “cuide” dele mantendo casa e família em harmonia. Cuidar de quem a gente ama é super gostoso. Desde que seja recíproco e não uma regra determinada por convenções sociais.

No fim de tudo, “50 tons” é apenas um romance (em que o cara repara o novo corte de cabelo dela! Rá!), com trama psicológica que desperta curiosidade, uma cena quente aqui, outra ali… E um final digno de Walt Disney. O amor salva e supera tudo. E quem sou eu pra dizer que a gente não deve suspirar por um desfecho feliz?

Crédito da imagem: Ralph Gibson/ Cultura Inquieta

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26 respostas em “Minha humilde crítica à trilogia “50 tons de cinza”

  1. Acho que não vou ser capaz de ler o livro por aquela coisa de que “é livro de menina, menino não pode ler” – é uma bobagem infinita né, embora também seja pelo fato de que tenho 5 livros na fila dos que tenho que ler urgentemente e não consigo sair do primeiro. Mas se sair o filme eu vou ver. Por enquanto, curti tua resenha sobre.

    • Querido Victor, eu acho o máximo um homem admitir que vai ao cinema assistir a “50 tons”. Independentemente de não concordar com uma série de coisas que a história apresenta, acredito mesmo que vale a pena vocês, rapazes, procurarem entender o que tanto esse enredo despertou a curiosidade feminina. Só os caras bem resolvidos têm essa disposição. 😉

      Vou aproveitar e escrever aqui nesse comentário uma coisa que esqueci de colocar no texto e que também não gostei. Anastasia, desde o dia em que perde a virgindade, tem orgasmos múltiplos e estratosféricos. Cá entre nós, quem tem uma vida sexual minimamente saudável, sabe que não é sempre assim que a situação funciona, não. Mais ainda quando se está conhecendo o próprio corpo e a própria sexualidade. Pode ficar a impressão, pra muitas mulheres, que são elas que têm algum problema de não conseguirem chegar ao orgasmo com facilidade. E isso depende de muuuita coisa. Não ter orgasmo nunca é algo a ser discutido com ginecologista, terapeuta… Por outro lado, uma relação pode ser super prazerosa sem que necessariamente sempre se chegue ao orgasmo. Nesse quesito, estamos precisando de mais informação, compreensão e prática sobre aquilo que engloba uma relação sexual positiva. O brasileiro adora dizer que é bom de cama. Sei… Se nossa sociedade consegue classificar “50 tons” de pornografia (tem lugar que até proibiu a venda) é porque a gente ainda tem muito pra aprender – e estamos bem longe do satisfatório.

      • Olá, tudo bem? Li os três livros, realmente é um tipo de literatura que não consegui parar de ler. Com relação a Anastacia, é bem isso o que mencionou, pois nem todas as mulheres chegam aos fantásticos orgasmos tantas vezes assim. O livro não é um tipo de pornografia, ao meu ver, é só um romance, que quando chegamos ao final do livro, queremos ler mais e mais. Com certeza vou querer assistir o filme.

      • Oi, Elaine! Obrigada pelo comentário! O que o primo do seu marido disse foi apenas a expressão do machismo tão presente na nossa sociedade falando mais alto. Infelizmente, isso ainda acontece. Mas quanto mais discutirmos temas como sexo de maneira honesta e sem frescura, mais bem resolvidos seremos. Bom dia! Bjão

  2. Querida Suzane, confesso que demorei um pouco para entender toda a celeuma em torno desses livros, e li alguns comentários a respeito e este seu me foi bastante esclarecedor. Eu não pretendi ler a tal obra, e, depois do que escreveu, quem sabe o leia, porque não sou afeito a tecer comentários bondosos ou maldosos sem pleno conhecimento do assunto. Bem, baseando-me apenas no que li sobre os tons, penso que se os livros de alguma forma trazem alguma contribuição à desmistificação das relações íntimas entre as pessoas já valeram. Infelizmente, ainda há muito tabu nesse assunto, muito preconceito, muito pudor (falso ou verdadeiro), mentalidades retrógradas e, pasmem, perseguições de todo tipo, sabemos todos disso. Em minha concepção, duas pessoas, que se amem ou apenas se curtem, têm mais é que viver o momento do sexo da maneira mais plena que puderem, sem amarras, sejam elas éticas, morais, religiosas etc… Com o consentimento de ambos, nada é proibido…

      • E olhem só, um primo de meu marido, disse que não era para deixar eu ler o livro, porque era pornográfico!!Pasmem!!!, quem não leu não pode tecer comentários. É claro que há alguns pontos quentes no sexo, mas não é pra tanto.

  3. Ainda não li a trilogia, mas já me indicaram dizendo que são ótimos como romance erótico e que realmente tratava-se de uma “júlia” ou “sabrina” melhorada, mais contemporânea. Como eu li todas as Julias e Sabrinas e adorava todos aqueles homens misteriosos, acho que vou adorar!!! Mas sobre o machismo presente no livro e tão característico em nossa sociedade, acredito que muito tenha a ver com o cunho religioso, porque a Bíblia diz isso: que o homem veio para prover e proteger a mulher. Que ele é a autoridade do lar e a mulher tem que ser submissa. Este é o retrato da nossa sociedade, inclusive na própria literatura, que faz tanto sucesso por aí!!!! As pessoas se identificam. Porque estranhar, são concepções religiosas e de vida, entranhadas em nossa sociedade. Há quem concorde, outros não. Há que ache estas situações convenientes, outras clamam por liberdade.

    • Oi, Andrea! Obrigada pelo comentário! Entendo o que vc quer dizer sobre o machismo e a ligação com a religião… Mas eu sou sempre contra toda e qualquer situação em que alguém acredite ter “direitos” sobre o outro… Se alguma opressão, seja lá qual for, vem de “tradições” que nós reformulemos as tradições… 😉
      Bjão e aparece sempre aqui!

  4. EU AMEI MUITO OS PRIMEIROS LIVROS MAIS QUANDO CHEGOU NO ULTIMO EU ME DECEPÇONEI MUITO BEM QUE FALAO EH UM LIVRO ONDE NAO ACONTECE NADA VARIAS PARTES SAO CORTADAS EU FIQUEI SUPER SABER EU TAVA ESPERANDO UM FINAL GLORIOSO EH VEM AKILO EU SO ESTOU FALANDO UMA COISA UMA DITA MESMO QUE EU SEJA UMA MENINA SO VOU FALAR TOMARA QUE NO FILME TENHA OS PROTAGONISTAS FALANDO AS PARTES CORTADAS TUDO AKILO SEJA RESOLVIDO E FEITO DIREITINHO
    POQ EH UM ABSURTO VC NAO SABE DE QUANTOS MESES ELA TAVA QUANDO ELE FOI VER O NENEIM NA ULTRA E EU NOA ENTENDI ELA TAVA GRAVIDA DE NOVO INTAO PFV EXPLIQUEM AS PARTES CORTADAS VOLTEM E QUASE NAO TEM AS PARTES QUENTES SENTI FALTA DISSO NO LIVRO MAIS EH MUITO BOM BJOS E MUITO OBRIGADA POR LEREM O MEU COMENTARIO SE POSSIVEL SE NAO GOSTEM OU SIM ME RESPONDAO

    • Oi, Thais! Obrigada pelo comentário! O último livro é mais aventura mesmo, né? Não tem nada de instigante… rs…Mas até gostei do final. Sabe que vai ter o filme? Fica de olho. De repente, você curte mais. Bjão

  5. Impressionante, vc disse exatamente tudo o q eu penso a respeito do livro. Pra mim é um Júlia ou Sabrina do século XXI, não achei ruim, mas vai contra tudo o q as mulheres vem lutando para mudar com relação ao machismo, enfim, li e gostei, tb vou assistir o filme

    • Monica, é bom saber que mais gente percebeu a mesma coisa. E, enfim, que seja mera diversão e não algo que cale fundo na alma da mulherada, que precisa mesmo é lutar cada vez mais contra o machismo. Obrigada pelo comentário! Bjão

  6. Gostaria so de saber uma coisa.na triologia do cinquenta tons.fala sobre a Anastasia.e como ela conduz, sua vida.
    No final do terceiro livro e o que ele pensa e suas vontades ,quando anastasia vai entrevista -lo no seu escritorio.ele começa a imaginar o que ele quer fazer com ela.sera que vai ser lançado o livro na versão dos seus pensamentos para com ela.
    Pq eu acho que deveria ter falado no livri seus pensamentos

  7. Só li verdades! Como você bem falou, é um livro machista e me deu frio na espinha. Tomei conhecimento da obra através de uma amiga minha que tinha dito que encontrou um livro P-E-R-F-E-I-T-O, cai na besteira de ler kkkkk. Foi engraçado ver ela me perguntando com os olhos brilhando se eu tinha amo o Grey kkkk, vez ou outra ela me vêm com livros semelhantes a esses, ela tem coleçoes desses livros. Nao ha como negar que a leitura é envolvente, mas não faz o meu tipo.
    Ps: Já li muito Julia, Sabrina, Momentos Íntimos e outros. Eu confesso :3 kkkkkk

  8. Olá, li os dois primeiros livos e estou lendo o terceiro e a minha opinião é que por mais erótico é uma apresentação de sexo com sadomasoquismo e orgasmos surpreendentes, o que eu vejo a respeito da Ana é que o desconhecido traz para para ela a curiosidade que muitas de nós mulheres queremos encontrar no nosso parceiro. Dai a autora ter conseguido a atenção das leitoras e até mesmo leitores que simplesmente deixam suas imaginações vagarem, por falta de coragem de buscarem o desconhecido na hora de amar. Até o momento estou gostando da leitura que mostra uma irrealidade fantástica e faz com que algumas leitoras busquem em seus parceiros maneiras de se realizarem sexualmente sem tantos floreios, buscando a simplicidade e a espontaneidade, poi vejo no livro, tudo muito metódico, onde as punições infligidas a Ana sempre uma violência ao corpo e ao psicológico, pois depois do supremo orgasmo, ela sempre pensa em desistir, mesmo com todo glamour na história.
    Jôsy/PE

  9. Olá Suzane, eu adorei seu ponto de vista e me fez entender o porque gostei tanto da história. Realmente lembra muito as histórias de Sabrina e etc. Eu simplesmente não consegui mais dormir, ate concluir a série inteira. E eu amei o livro por conta do amor dos dois protagonistas e não pela parte sexual presente. As vezes , essa parte fica ate um pouco secundária, diante da loucura frenética de Grey por Anastasia. Acho que nos dias atuais , por conta de tantos relacionamentos superficiais, as pessoas se identificam com a história porque querem afirmar pra si mesmas, que ainda existem verdadeiros relacionamentos com amor forte e duradouro e que leva o outro a mudança pra melhor. Apesar das diferenças, o amor vence tudo. Obrigada mais uma vez pelo excelente texto! Sucesso Suzane!

    • Oi, Isabelle!
      Estamos mesmo vivendo tempos de relações superficiais demais, e também acredito que é uma das explicações para o sucesso da série de livros. Concordo com você, ainda, quando diz que o amor forte é capaz de vencer! 🙂 Que em 2015 mais histórias de amores melhores e felizes sejam contadas por aí… Na ficção, mas principalmente na vida real, né? Um lindo ano pra você, com saúde e felicidade! Bjos, Suzane 🙂

  10. Boa noite. Parabéns pelo seu comentário sobre o livro. Estou lendo o último e é uma leitura muito boa mesmo. Acho muito engraçado quando falam desse negócio de submissão feminina e machismo.GENTE…É APENAS UMA OBRA DE FICÇÃO! Não existe um jovem de 28 anos quadribilionário, que se apaixona por uma mulher pobre! E é difícil pensar numa jovem de 21 anos que faz faculdade de jornalismo, ou literatura, sei lá, que ainda não tem um aparelho de celular moderno. É só ficção. Recomendo a leitura.

  11. Eu amei, gostei da proteção que ele(Christian) faz questão de dar a ela,e gostei mais ainda do fato de que ela(Ana) não fica deslumbrada com o poder aquisitivo dele,continua lutando pela sua independência e direito de escolha, apesar de ama lo ela não perde sua voz no relacionamento e ele por amor aos poucos vai aceitando e diminuindo seu excesso de zelo.
    Ainda​ estou na metade do volume dois,mas já curti,estou ansiosa pelo desfecho no livro e no cinema.

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