“Mulheres Ricas”. Mas pode chamar de vergonha alheia

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Não julgo o que as pessoas gostam de assistir na televisão. “Cada louco com a sua mania” é um bom ditado pra definir as escolhas televisivas de cada um. Eu, por exemplo, me amarro em canal de oferta. Não compro nada. Mas fico fácil uma hora vendo quanto custam sofás, pisos de madeira, imóveis, carros, joias, roupas… “Ah, isso é bonito!”, “Nossa! Que cor péssima!”, “Apartamento decorado… tsc, tsc, tsc… Enganando o povo no tamanho”, são algumas das observações mentais que faço pra mim mesma.

No momento, estou fascinada pelo Pinguino Turbo Freeze, um ar condicionado portátil da Polishop. “Chegam os dias quentes e você fica sonhando com um ar condicionado em cada cômodo de sua casa? Apresentamos Pinguino Turbo Freeze, o ar condicionado que esfria de verdade!”, anuncia o locutor. Diversão garantida!

Logo, tô nem aí pra quem curte reality show. Conheço muita gente inteligente que acompanha os BBBs da vida porque deseja, justamente, ver algo que não acrescente nada no seu dia. Só ter alguma coisa pra relaxar depois do expediente. Nada pra pensar muito profundamente quando chega em casa cansado. Desde que a pessoa não vicie e não deixe de incluir no cotidiano leitura, cinema, encontros com os amigos, tempo com a família, cursos, e assim por diante, tudo bem. Eu, particularmente, acho perda de tempo. No entanto, como também deve ter quem ache a mesma coisa da minha mania de ver as ofertas, fico quieta.

Lembro que acompanhei as duas primeiras edições do Big Brother. Mas naquela época (lá se vão dez anos) ainda era interessante observar o que acontecia no programa. Os participantes eram mais “originais”. Eu achava curioso ser espectadora de uma espécie de experiência das relações humanas, num ambiente onde as características pessoais (negativas e positivas) se exacerbavam com o confinamento. Observar os limites comportamentais das pessoas. Tinha algo de psicologia que me chamava a atenção.

Aí, a cada edição, os participantes foram aprendendo a “atuar” diante das câmeras. O perfil sarado(a)-bonito(a)-esquentado(a) praticamente virou regra. E tudo ficou artificial demais e sem graça, com discussões inúteis, muito narcisismo e até uma certa violência em vários dos embates.

Mas quando a gente acha que nada pior pode ocupar espaço na programação, aparece uma bizarrice batizada de “Mulheres Ricas”. O primeiro já era de chorar de desespero. Como, no mundo em que a gente vive, pode ter um pessoal que acredita que a maior contribuição que possa dar à sociedade é mostrar seu estilo de vida nababesco, enquanto há quem conte moeda pra sobreviver? Era o que eu me perguntava ao assistir alguns dos programas da primeira temporada.

Essa semana, resolvi assistir um dos capítulos desta segunda etapa. Quando uma delas disse pra outra “ser sincero não é chique”, entre outras pérolas, percebi que o programa não só tem um conteúdo muito ruim, mas se presta a um completo desserviço.

O que me preocupa é que se o programa está no segundo time de ricaças é porque a audiência é boa. Se a audiência é boa ou tem quem se identifique ou tem quem almeje o estilo de vida apresentado. Ser rico todo mundo quer, óbvio. Essa história de que dinheiro não traz felicidade é uma falácia. Só dinheiro não resolve nossos problemas, mas dá sim conforto, segurança, traquilidade e realiza sonhos. Eu poderia comprar o Pinguino Turbo Freeze! Ele custa R$ 3,5 mil…

Mas ter dinheiro e usufruir dele é uma coisa. Outra é ostentar sem noção e por vaidade pra milhares de pessoas verem. E se mostrar o que você tem é uma massagem no ego, sinto informar que seu ego anda frágil e sua autoestima precisa urgente de um divã. As mulheres ricas do programa (algumas, nem tão ricas assim – e viva o marketing!) são, no mínimo, um mal exemplo.

O único ponto forte da atração é reforçar a certeza de que dinheiro não é sinônimo de educação e elegância. Além das participantes corresponderem à definição de “vergonha alheia”, elas conseguem ser cafonas ao cubo, muitas vezes no estilo de se vestir e quase sempre nas atitudes. Algumas delas são empresárias de sucesso, profissionais talentosas, geram muitos empregos, se dedicam a trabalhos sociais. Juro que me questiono qual vantagem enxergaram numa exposição pública tão inútil.

No caso das que não nasceram em famílias abastadas e já experimentaram dificuldades financeiras, estariam elas tentando “sambar na cara da sociedade” pra mostrar que vieram do nada e “venceram”? De novo, quem sente necessidade de agir assim precisa cuidar da saúde emocional. Isso não é normal.

E alguém precisa avisar a essas senhoras que valorizar a beleza é completamente diferente de se maquiar feito o palhaço Krusty (aquele de “Os Simpsons”, esse sim um bom programa, que vem antes de “Mulheres Ricas”, no mesmo canal).

Fica minha proletária dica… Não adianta ter cartão de crédito ilimitado. Não adianta ter balha na agulha pra espalhar Pinguino Turbo Freeze pela casa toda (em todas as casas – da cidade, da praia, do campo). Não adianta desfilar dia e noite com uma taça de champanhe cara na mão. Não adiantaria nem beber ouro líquido – porque o espírito continuaria uma miséria. Grana nunca vai encobrir falta de conteúdo.

Crédito da imagem: Divulgação/Band

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5 respostas em ““Mulheres Ricas”. Mas pode chamar de vergonha alheia

  1. É como você disse, Suzane: se há audiência, é porque há pessoas interessadas em ver isso, ou seja, há oferta porque há demanda (ou vice-versa). Infelizmente, a TV, a publicidade, a educação, enfim, quase todos os segmentos da vida sabem trabalhar com os desejos, os sonhos, a ilusão: a catarse.

    • Não acho um problema trabalhar com os sonhos. O problema é que tipo de sonhos as pessoas têm. E não acredito que seja apenas culpa da publicidade. É mais embaixo, Carlos. Acredito ter mais sentido ser algo ligado à falta de qualidade da educação brasileira mesmo…
      Bjão

  2. Nossa! Amei o post! Eu tenho uma preguiça só de pensar nesse programa, confesso que tenho uma antipatia muito grande por ele. Acho meio desnecessário ver tanta ostentação. Acho até que esse tipo de programa reforça a desigualdade social. Sou muito mais o Pinguino Turbo Freeze, hahaha!
    Um beijo

    • Adriana, obrigada por compartilhar comigo a simpatia pelo Pinguino Turbo Freeze! hahahaha!!
      Sim, também acho que reforça a desigualdade… É o tipo de coisa que nossa sociedade não tá precisando.
      Bjão

  3. Sim, Suzane, de acordo. Penso, empiricamente, é claro, que a educação foca a formação de pessoas que vão buscar ser bem-sucedidas, o que significa consumidoras. A escola não foca a formação de cidadãos, conscientes de seu papel na manutenção desse planeta com harmonia e respeito. Digo, apenas por meio de observação e sensação, que o ‘cidadão’, seja qual for sua formação ou estrato social, quer é tirar vantagem, sobressair-se e garantir o seu antes de tudo. Programas como esse apenas reproduzem o que a sociedade pratica o tempo todo: o egoísmo, vaidade exacerbada, exibicionismo. Estou opinando baseado em seu texto, porque, juro, nem sabia que existia esse tal programa.

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