A dor

tragédiasantamaria

Um dia de céu cinza. Uma garoa que vai e volta. O tempo hoje não poderia ser diferente… Ele parece ter se vestido especialmente para nos fazer parar pra pensar… Até o silêncio entre as pessoas parece maior do que o comum. É incomum para uma segunda-feira… Mas essa é uma segunda-feira de luto. Como outras que já vivemos. Como lutos constatados em outros dias da semana também. Porque o fim da vida não escolhe data. O que é possível escolher, determinar, é o nosso comportamento. E por que esperamos a tragédia para nos chocar? Para exigirmos segurança, fiscalização, punição? Por que, ainda, insistimos em aprender pela dor?

Universitários. Tantos sonhos interrompidos. Aquela alegria de viver ao máximo, tão característica da juventude, chegou ao fim cedo demais para moças e rapazes que se divertiam numa balada na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Um incêndio… improvável? Ou não? Não tenho coragem de culpar os músicos da banda que dispararam um sinalizador no palco, dando início ao fogo. Quantos aniversários eu e você já fomos nos quais a última moda é colocar sobre o bolo uma vela cujas faíscas são fortíssimas e chegam alto? Queremos apenas uma festa bonita… Simplesmente, não paramos pra pensar quanto o material em volta é inflamável.

Somos bem ruins em medir consequências. Somos fracos, acomodados. Não brigamos o bastante para que as coisas funcionem direito. Para que existam saídas e planos de emergência suficientes em locais públicos. Sou contra a rigidez de ideias que se transformam em preconceitos, como vocês já devem ter percebido. Mas ninguém em sã consciência é contra a rigidez quando se trata de normas de segurança.

Eu diria que prezamos mal por um bem precioso: nossa vida e a vida de quem nos é essencial. Numa onipotência desmedida, achamos que nunca acontecerá conosco… Não estou defendendo aqui que a gente se tranque em casa, deixe de aproveitar os momentos, porque violência e incertezas estão à espreita. É justamente o contrário. Temos que brigar para que situações de perigo sejam minimizadas e para que as de alegria sejam vividas ao máximo. A falha sempre vai existir. Somos falíveis. É natural que seja assim. A falha, porém, pode ser bem menos constante.

Mas, então, deixamos pra lá… E vem a dor. A dilacerante. Aquela com a qual se lida ao perder, sem mais nem menos, do nada, de uma maneira jamais imaginada, um amor. O maior de todos os amores, no caso de pais e mães que são obrigados a fechar o caixão de um filho, de uma filha. Mesmo não sendo alguém próximo a nós, mesmo que a tragédia esteja longe de nós, como não se emocionar ao ver na tevê, na internet, o desespero de familiares debruçados no caixão de seus jovens? Como não sentir o coração apertar ao perceber que sim, poderia ser seu filho, seu irmão, seu melhor amigo?

A essas famílias, que de agora em diante são obrigadas a conviver com um trauma (talvez, não superável), meus mais sinceros sentimentos. A nós, que temos agora um nó na garganta e a sensação de impotência… passou da hora de sermos realmente uma sociedade combativa. Ou ainda abaixaremos a cabeça, consternados, com muitas tragédias.

*******************

Quem puder ajudar Santa Maria a enfrentar esse drama, a cidade precisa de enfermeiros, auxiliares, psicólogos, psiquiatras. Contato: Bia, no telefone (55) 9155-2087. Informações sobre mortos e feridos: (55) 8416-1460.

Crédito da imagem: Lauro Alves/Zero Hora

Anúncios

4 respostas em “A dor

  1. O que dizer, Suzane? Apenas mais uma constatação de como o consumidor é tratado neste mundo. O afã pelo lucro desmedido sem o devido respeito ao cliente pode provocar injustiças, mal-entendidos, mas quando se lida com vidas, isso é inaceitável. Mais um Bateau Mouche a nos entristecer. Mais um avião explodindo a nos causar revolta e desespero. Agora, claro, autoridades vão vir a público vociferar a intensificação da fiscalização, o caça à bruxas será desencadeado, propineiros ficarão de orelhas em pé… É preciso não deixar barato. Temos a lei para se fazer cumprir, mas ela não funciona sozinha, ir atrás é necessário, dá trabalho, dor de cabeça, encheção de saco, mas não se pode aceitar que as relações de consumo sejam aviltadas pela certeza da impunidade. Esse país precisa deixar de ser o país do jeitinho, responsabilidade é fundamental, seja para proteger o direito de receber o que comprou, ainda mais para proteger uma vida. Nada mais…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s