Top 5 dos lugares que visitei e chorei

Luz da manhã

Há uma semana contei pra vocês quais foram as cinco cidades que mais me impressionaram entre os 14 países onde já coloquei meus pezinhos. Além deles, há outros cinco lugares que me emocionaram tanto que não consegui segurar as teimosas lágrimas. São destinos que muita gente também conhece, nada fora do comum. Mas que, pra mim, tiveram um significado maior, abalaram meu coração. Ou pelo momento que eu vivia. Ou pela própria história. Ou por testar minha resistência física e emocional.

São lugares que resultaram em enredos que dá pra contar pelo resto da vida, sabe? E essa é uma das maiores bonitezas das viagens: permitir experiências inesquecíveis, inclusive aquelas que você se sentiu vitorioso depois de se safar do que poderia virar uma grande roubada. Me contem os cinco destinos que fizeram vocês chorarem também? Porque a jornada do outro, pra mim, é sempre uma grande viagem…

1) Capela Nossa Senhora da Medalha Milagrosa (Paris, França)
A dica era da mãe da minha amiga, que me acompanhava naquela viagem. Depois de passarmos por Amsterdam e Bruxelas, chegamos na linda e poética Paris. Fizemos o circuito turistada direitinho antes de incluir lugares nem sempre tão comuns ao turista. Tia Cecília, mãe da Re, queria medalhinhas da Capela Nossa Senhora da Medalha Milagrosa. Acordamos um dia cedinho e fomos até lá. Encontramos umas brasileiras, mãe e filhas, também procurando a capela. Pelo endereço que tínhamos, julgamos que era ali. Uma igreja pequena, mas quieta demais, sem movimento… Erramos. O silêncio daquele espaço, porém, parecia o preparo necessário para o que ainda estava por vir… Me rendeu a foto que está aqui no post. A luz da manhã invadindo a igreja pelos vitrais. Seguimos e encontramos a capela, de onde saiam pessoas com lágrimas nos olhos. Me senti… estranha. Chegamos na hora da missa. Havia um melódico francês nas canções do coral e no sermão do padre. Uma decoração delicada, com a imagem da santa imponente ao centro. Fui sentindo um nó na garganta. A Re foi fazer fotos. Encostei na parede, ao fundo da capela, e comecei a chorar. De soluçar. Não vou sempre na missa. Sou criada no catolicismo, mas nem me digo católica. Acredito em Deus. Rezo. E é isso. Mas ali tinha uma energia diferente, protetora, como se alguém me acalentasse… Minha tia estava no hospital aqui no Brasil. Ela faleceu mais ou menos um mês depois que voltei. Pensei muito nela naquela hora. Conversei com ela em pensamento. Um lencinho de papel me foi estendido. A Re tinha voltado, ficou ao meu lado, até eu parar de chorar. Acabou a missa. “Vamos, Su?”. Me chamando, minha amiga me tirou do transe. Tirei três fotos só. Não conseguia me concentrar pra fotografar. Vai ver foi por isso que tive a chance de me inspirar pra fazer uma foto bonita antes, na outra igreja. Ali, eu não conseguia. Compramos medalhinhas. A minha é uma em tom verde esmeralda. Está na correntinha que uso sempre que vou viajar.

2) Jüdisches Museum (Museu Judaico – Berlim, Alemanha)
Eu tinha uma tarde livre em Berlim, em meio ao intercâmbio para jovens jornalistas oferecido pelo governo da Alemanha a brasileiros. Uns 14 graus. Era outubro. Mas o céu era azul com sol. Sabia que o passeio seria “pesado”. E não tinha como escapar. Não pra mim, que entendo melhor o mundo e as pessoas quando consigo mergulhar fundo na história, nos fatos. Corriqueiros ou dolorosos. Nada como sentir pra compreender. Ao Museu Judaico tive que ir sozinha. Ninguém se animou em me acompanhar. Passeio pesado… E a gente já tinha conhecido naqueles dias muita coisa desse período de horror que foi o Holocausto. Mas eu precisava sentir pra compreender. Mais. A entrada dava uma boa ideia do que me aguardava. Um corredor amplo, com paredes sombreadas por uma luz baixa, nas quais eram projetados os nomes de judeus vítimas do nazismo. Fui andando devagar pra ouvir com calma uma gravação com vozes femininas, masculinas e infantis. Pronunciavam os nomes das vítimas, assim como eram projetadas nas paredes. Comecei a chorar ainda ali. “Vamos, Suzane. Coragem”, disse pra mim mesma. Objetos de uso pessoal, roupas, documentos, diários, livros, fotos, vídeos. Três horas de imersão numa época de tristeza profunda. Chorei de novo na saída. O vento gelado secou rápido meu rosto.

3) Estátua da Liberdade (Nova York, EUA)
Quando digo que chorei ao dar de cara com a Estátua da Liberdade tem gente que ri de mim. Eu não ligo. Eu também não esperava que fosse assim. Achei que só visitaria mais um ponto turístico e tal. Entramos no barquinho para chegar até a ilha onde fica a imponente moça esverdeada. Era a Re de novo comigo. Prestes a comentar com minha amiga “ih, que baixinha ela é”, o barco diminui a velocidade. Uma leve curva e ficamos bem de frente pra estátua. O guia anuncia: “ela é o símbolo de todos aqueles que deixaram suas terras em busca de liberdade, de uma vida melhor, de dias melhores para seus descendentes”. Pessoal, eu desabei. Teve gente que começou a olhar pra mim, sem entender nada. “Su?”, perguntou a Re, com olhar de “que foi?” Na hora, eu lembrei dos meus avós, dos meus tios e da minha mãe, que saíram de Portugal e vieram para o Brasil justamente acreditando em uma vida melhor para aqueles que chegariam depois (eu, incluída). Fiquei toda dengosa no passeio. Quis ver a ilha em detalhes e passar mais tempo lá do que eu imaginava. Como eu não me dei conta que seria assim? Afinal, o nome dela é “Liberdade”, uma das invenções mais especiais da humanidade, mesmo que a gente não faça uso (ou bom uso) dela sempre, como deveria ser…

4) Lençois Maranhenses (Maranhão, Brasil)
Uma das vantagens de ser jornalista é poder viver experiências bem diversas do nosso cotidiano. Corrida de aventura é um esporte radical – e não é para os fracos. Você tem que pedalar, nadar, correr, pular obstáculo, escalar, remar, se achar no meio de mata, de duna, de mar revolto… Cansei só de lembrar. Já cobri um circuito desses onde tive o privilégio de passar por uma rota que cortava Piauí, Maranhão e Ceará. Foi tenso. Mas foi incrível. Eu não fazia as atividades dos atletas. Pra imprensa era menos intenso. Tinha que chegar onde eles estavam atravessando os locais mais improváveis, menos confortáveis, nos horários mais ingratos, num sol de rachar e nem sempre com comida e água suficientes pra aguentar o tranco. Mas nada foi mais difícil do que a parte nos Lençois Maranhenses. O lugar era deslumbrante! Não era bem até onde vai o turista… É o meio do nada, em locais mais afastados. Pra mim, eu estava no deserto. Foram horas e mais horas de espera pra falar com os atletas que eu acompanhava paras as entrevistas. Aquela areia quente, fofa, batendo no rosto com o vento. Não aguentava mais carregar o equipamento que eu precisava no trajeto. Não aguentava mais o calor. Era tudo insuportável. Estendi uma canga que tinha na mochila, sentei, cruzei os braços sobre as pernas e chorei. De cansaço. O fotógrafo, meu amigo, colocou a mão na minha cabeça e disse “Calma, Su. Tá difícil, mas vai dar certo”. Ele saiu um pouco de perto de mim e logo depois voltou, me entregando uma latinha de energético gelada! A marca era uma das patrocinadoras da corrida e mandou um helicóptero, lá no meio da nada, com energéticos pra galera. Sobrevivi. E hoje tenho certeza que foi uma das reportagens mais legais da minha vida.

5) Toronto Pearson International Airport (Toronto, Canadá)
“O que você está fazendo no Canadá?!” O sujeito tinha uns dois metros e berrava comigo. Com meu passaporte na mão e um outro cara, mais baixinho, me olhando atravessado do lado dele, eu estava numa sala minúscula, sendo filmada e com a conversa sendo gravada. No fim do meu intercâmbio nos Estados Unidos, resolvi ir até o Canadá passear. Meu visto de estudante me dava direito a um mês de férias, mesmo depois de ter o diploma na mão. Eles diziam que não. Eu não poderia mais voltar a Houston porque meu visto não me permitia todo esse trânsito. Eu tentei argumentar (foi quando descobri que sob pressão falo inglês bem melhor). E eles insistiam que não. Pra voltar ao Brasil, só saindo direto do Canadá. Mas a maior parte das minhas coisas ainda estavam no Texas e eu não tinha grana pra comprar uma passagem direto de Toronto pra São Paulo. Só estava no intercâmbio graças a uma bolsa de estudos. Disse que, então, eu queria falar com o cônsul brasileiro. “Hoje é sábado, mocinha. Saia agora do aeroporto e vá ao consulado na segunda-feira”. O dois metros já não berrava comigo. Claro, eu estava aos prantos. Deve ter se comovido um pouco. O drama todo foi pós 11 de Setembro. Passar por segurança de aeroportos era uma piração sem fim. E parece que eles precisavam achar X suspeitos por dia. Foi um tal de gente barrada pelos motivos mais esdrúxulos… Minha sorte é que eu tenho primos morando em Toronto. Logo, tinha onde ficar no fim de semana. O cônsul brasileiro (que, infelizmente, não lembro o nome) deu um show de eficiência. Foi super gente boa comigo. Brigou com diplomatas canadenses e americanos por telefone, na minha frente. Foi meu herói! Em dois dias, conseguiu o visto que me exigiam. Mesmo ele sabendo que não havia nada errado com minha documentação. “Você está certa, querida. Mas não adianta. Às vezes, a gente tem que fingir que entende o incompreensível pra seguir em frente.” Nunca esqueci dessa frase. Deu tudo certo.

Crédito da imagem: Suzane G. Frutuoso

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11 respostas em “Top 5 dos lugares que visitei e chorei

  1. Su, quando li o assunto do seu post, eu logo imaginei:” Deve ter algo na Alemanha”….. aquela viagem foi tão intensa, né? Boas lembranças da gente lá tomando café da manhã com nosso elegante “pai” ouvindo quebra nozes no rádio…..saudades daquele tempo! Bjs, querida!

    • Ci, muita saudade!! Lembrei de você várias vezes quando escrevi esse post e o da sexta-feira passada! Porque Berlim tá entre as cinco cidades mais incríveis que já visitei… Foi uma experiência especial, mais ainda porque ganhei uma amiga tão querida como você… Bjo grande pra você e um beijinho na sua pequena linda! Bom fds!

  2. Nossa Suzane, amei a sua materia (claro que chorei tambem……..) Muito legal…… e recordar e viver…. Fiquei lembrando dos meus micos tambem. bjs

  3. A mas eu adoreeeeiiii esse post! Viajar é mesmo uma delícia e proporciona experiências incríveis!!! Eu sou super medrosinha e já fico tensa para passar por detector de metais! Imagina então nessa situação no aeroporto!!! E chorar de cansaço é o que há! Mas o melhorr de tudo isso, é que depois a gente lembra e sempre pensa “eu sobrevivi”…só amadurecimento e crescimento! Só que agora, mor vontade de viajar né…¬¬

    • Rs… fico tão feliz em te despertar mais um pouquinho essa vontade boa que é a de viajar!! 🙂
      Eu nunca tinha escrito sobre essas histórias de viagem que vivi, sabe… só contava… tô gostando disso! Vai ter mais post de viagem “top 5”!!!
      Bom fds, querida! Bjão

  4. Oi Suzane,

    Adoro os posts de viagens! Eu não me aguento e tenho que comentar também! Meu top 5 de lugares de que fizeram chorar:

    1) Cape Reinga – Nova Zelândia: É o ponto mais ao norte da NZ, encontro do Oceano Pacífico com o Mar da Tasmânia. Um lugar mágico e místico, é de lá que os maoris acreditam que nossas almas partem para a vida eterna! Eu me emocionei muito ao chegar lá.
    2) La Casa Batló – Barcelona: Eu sou arquiteta e fã do Gaudí. Não contive minhas lágrimas quando cheguei na casa Batló.
    3)Catedral de Florença (Duomo) – Florença: eu estava andando pelas ruas de Florença olhando o mapa e procurando o Duomo, de repente eu levantei os olhos e vi na minha frente, foi incrível, as lágrimas rolaram imediatamente!
    4) Coliseu – Roma: foi como a experiência do Duomo, dei de cara com o Coliseu, enorme, imponente, eterno..
    5) Lagoas altiplânicas – deserto do Atacama – Chile: um dos lugares mais incríveis que eu já estive! Lindo, lindo, lindo!

    Beijo e até as próximas viagens!

      • Foram 15 países (16 com o Brasil)! Américas, Europa, África e Oceania! São tantos outros que tenho na lista, hehehe! Mas já tenho duas viagens agendadas: 1)Portugal e Açores, e 2)Grã-Bretanha. Eu sempre digo que não há um lugar no mundo que eu não queira conhecer, existem aqueles que são prioridades, mas se eu tiver oportunidade quero conhecer o mundo inteiro!
        Bjão e boa semana pra vc também!

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