A difícil tarefa de se divertir aos 30 num atrasado século 21

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Acabo de voltar da academia usando uma das minhas camisetas preferidas. Ela é preta, com uma frase escrita em prateado fosco: “Prefiro Toddy ao tédio”. A ideia, da escritora Ledusha Spinardi e adotada pelo cantor Cazuza como um de seus lemas, casa bem com o meu estado de espírito quase constante. Mas o divertido de usá-la é a cara que as pessoas fazem quando lêem a mensagem. Olham pra camiseta, pra mim, pra camiseta e pra mim de novo. Tentam disfarçar um pouco com aquele olhar de rabo de olho, sabe? Acho graça. Queria muito saber o que elas estão pensando… A instrutora da academia, que começou essa semana, fez o mesmo movimento camiseta-eu-camiseta-eu ainda mais vezes quando disse a ela que completei 34 anos no domingo.

Tendo a acreditar cada vez mais que as pessoas acham “estranho” você continuar se divertindo e sendo espirituoso depois de uma certa idade. É como se após os 30, principalmente, diversão tivesse que se resumir a coisas como um cineminha, teatro, passeios com a família (Não está formada ainda? Como assim?), talvez um jantar com amigos. E adoro tudo isso! Mas minha gente… eu gosto de uma festa. Pra dançar, pra brindar, pra cantar alto junto com a banda, pra entrar a madrugada. Sim, porque parto do princípio de que se eu posso ficar acordada até tarde por causa de insônia, trabalho e estudos, eu também posso virar a noite pra me divertir. É justo.

Me dar o direito de, por vezes, aproveitar a vida como se eu tivesse dez anos a menos é saudável. Não faz, nunca fez de mim um ser humano pior. Tenho certeza que sou boa filha, irmã, tia, amiga. Me considero uma profissional bem responsável e cuidadosa com meu trabalho. E já tive retornos positivos de que se trata de uma verdade, não arrogância minha. Nunca fui aluna nota dez em tudo. Minhas notas variaram quase sempre entre 8 e 10 – e tá mais do que ótimo! Me sobrou mais tempo pra trocar ideias com as pessoas, sair por aí, descobrindo o mundo além das teorias. Não entendo a vida tediosa. O que não significa que eu não aja com seriedade quando assim for necessário.

Se divertir depois dos 30 se tornou uma tarefa complexa no nosso atrasado século 21. Avançamos em muitas áreas como tecnologia e medicina. Mas em comportamento… Inclusive, há uma assustadora onda de jovens extremamente conservadores. Não tô dizendo que todo mundo tem que pirar, viver sem regra alguma, numa anarquia. Ser jovem, porém, deveria ser a fase em que estamos mais abertos a compreender diferenças, a entender a diversidade, a respeitar e ouvir o outro com atenção pra ver o que mais é possível aprender. O que eu percebo é uma molecada reaça, pronta a criticar envenenadamente qualquer um que opte por cair fora de padrões.

Quando eu era adolescente também tinha gente desse naipe. A diferença é que hoje há muito mais informação disponível (internet, TV a cabo, cinema) e oportunidades de experiências (como o intercâmbio) que deveriam abrir a mente da galera, servir de parâmetro. Alguém me diz o que tá acontecendo, afinal? Tem gente querendo refundar o ARENA!!!! O partido de extrema direita da época da ditadura militar!!! Existem grupos neonazistas espalhados pelo país!!!! Eles defendem as ideias de Hitler, de raça pura!!! Tô falando de gente de 20 e poucos anos.

Fora aqueles (e aquelas) com atitudes machistas desde cedo. Quando teve a Marcha das Vadias, um menino de uns 18 anos que tá no meu Facebook escreveu: “Conheço muita mina que deveria participar dessa tal marcha. Bando de puta”. É tão cabecinha que não entendeu nem o princípio do protesto – justamente evitar, minimizar, atitudes e pensamentos como o dele. No mínimo foi dispensando por uma garota mais inteligente do que ele. Pra mim, existe alguma falha bem grave no desenvolvimento da nossa sociedade ainda a ser descoberto. Não é possível.

Enquanto isso, minha tarefa é dizer pra você, não importa sua idade, que sim, você pode e deve se divertir muito! Tem que aproveitar a vida porque ela tem prazo de validade – e nem sabemos pra quando. Pode ser pra breve. Dar mais risada, abraçar mais, beijar mais. Nunca esqueço uma vez que fui num bar com uma amiga e na mesa ao lado um grupo de quatro senhoras, lá pelos 70, entornavam muito mais copos de chopp do que nós duas. E elas riam. E falavam mal dos maridos. E falavam com orgulho dos filhos. E falavam com doçura dos netos. E planejavam viagens. E relembravam as viagens já realizadas. Até que comentaram de uma festa à fantasia que foram nos anos 60, no Rio de Janeiro. Uma delas diz: “Foi a festa que a gente deu mais que chuchu na serra!” E caíram todas na gargalhada. Eu e minha amiga nos entreolhamos, sorrisos incontidos, e brindamos por uma juventude animada a ser lembrada com tanta alegria na velhice. Acompanhada de amigos eternos.

Crédito da imagem: blog Casal Sem Vergonha

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4 respostas em “A difícil tarefa de se divertir aos 30 num atrasado século 21

  1. Puxa, que coincidência. Vou comentar o mesmo que escrevi para uma amiga no Facebook há apenas alguns dias. Quando eu era criança, achava que quando eu fosse adulta não existiria mais gente racista, pq eles estariam velhinhos ou mortos. E aí chega essa juventude ultra reacionária para acabar com meu sonho… Acho deprimente ver gente mais nova que eu sendo tão patrulhadora do comportamento alheio (além de muitas outras coisas bem ruins).

  2. Minha amiga, bem vinda ao clube!! Eu estou com 52 e voce deve imaginar o que eu ouco, e muitas vezes ate na academia. rsrsrsrs e concordo plenamente com o seu texto: diversao nao pode se resumir a cineminha nao…. Eu quero e muito mais, e nao paro de correr atras de “COISAS NOVAS” sempre – independente da minha idade fisica, pois a mental hahahaha so Deus sabe. bjs

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