Modernidade e corações partidos

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Eu descia a rua perto da universidade onde faço mestrado um pouco mais lentamente do que o meu normal. Olhei breve para o alto e vi a lua cheia, entre nuvens. Meus olhos se encheram de lágrimas – de novo. Mais freio nos meus passos, freio que vinha da tristeza, de um questionamento interno sobre em que eu poderia ter errado, sobre em que poderiam ter errado comigo… Se eram erros de fato ou apenas ruídos breves que se instalam para a destruição necessária daquilo que será renovado depois, num sentido melhor. Se era o exagero das ilusões ou a intensidade da magia.

Meus devaneios e minha vergonhosa pena de mim mesma foram interrompidos por uma voz doce e surpresa: “Suzane, querida!”. Ao me virar pra trás, encontrei a professora de psicologia que tanto me ajudou em muitas reportagens que escrevi na última década sobre comportamento. Na correria diária, acabava falando com ela mais por telefone. Já não nos encontrávamos pessoalmente há uns quatro anos, por aí. Ela se hospedara num hotel perto da universidade, para uma palestra. Já não mora mais em São Paulo.

Diante da alegria do reencontro e de me questionar se eu estava bem, ao observar meu rosto choroso, a professora perguntou se eu já havia jantado. Disse que procurava um bistrô ali naquela rua. Eu sabia qual era. E entre voltar pra casa e ficar amuada e ter uma conversa interessante com alguém que já me ajudou tanto na vida e parecia querer companhia, fiquei com a segunda opção.

Falamos de tudo. Viagens, gastronomia, estudos, teses… Eu meio que me esquivava de falar de relacionamentos, especialidade dela. Não queria sentir que me aproveitava da situação para uma consulta gratuita! Mas foi inevitável. Com um pouco do que venho estudando em sociologia, relacionamos a ideia de efemeridade da modernidade, na qual as coisas perdem valor rápido demais, e como isso tem impacto e se reflete nas relações pessoais hoje. Lembrei logo da teoria de “sociedade líquida” do meu muso, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (já falei dele pra vocês aqui outras vezes). E nessa teoria ele inclui o “amor líquido”, indicando a fragilidade dos laços humanos. Conexões demais, poucos vínculos, desinteresse em superar as desavenças, basicamente. Como o smartphone de seis meses é facilmente descartado porque há outro no mercado super recente, o mesmo acontece com parcerias. Não há paciência para cultivar nada porque tudo é descartável. Inclusive pessoas.

A observação da minha amiga professora sobre uma história que contei a ela me ajudou a entender porque algumas situações tomam o rumo que tomam. Reproduzo aqui, entre aspas, porque acredito que muitos de vocês também já se viram em situação semelhante. E a fala dela jogou uma luz forte sobre meus pensamentos confusos. Talvez, jogue no de vocês:

“A tecnologia é uma das coisas mais incríveis que o ser humano inventou. Mas como tudo na vida, ele exagera no uso do que é positivo e acaba transformando em algo negativo. E, infelizmente, a tecnologia virou arma para relacionamentos duradouros. Qualquer mensagem do sexo oposto na página do Facebook do parceiro vira fonte de ciúmes, por exemplo. Mas pra mim, nada é pior do que discussões online. Seja por e-mail, mensagem de rede social, sms… Mensagens eletrônicas não demonstram sentimento, entonação de voz. Você não sabe se a pessoa está falando com você de forma doce ou ríspida. Se está brigando ou falando numa boa. Se está só triste ou puta da vida. Pra piorar, muitas vezes a mensagem nem chega por alguma falha no sistema. E vem a certeza no outro de estar sendo ignorado, desrespeitado, traído, deixado de lado. Entenda: não se discute relações por meios eletrônicos. Por maior que seja o desgaste, a decepção, a braveza e se queira urgência em respostas é pessoalmente que desentendimentos devem ser tratados. É necessário o esforço pelo encontro. Porque vem o olho no olho, o carinho na mão, a fala clara com compreensão, o abraço apertado, os pingos nos is com todos os lados, visões e sentimentos de ambos. Relação, seja no começo, no meio ou por décadas, só funciona por esse caminho.”

Depois do choque de realidade, alguns segundos pensativa e de entender que escolhi a pior opção pra tentar resolver uma situação, lá vieram as lágrimas de novo, brilhando contra a luz da velinha no centro da mesa, caindo na minha quiche de queijo brie, praticamente intocada (eu, que gosto tanto de comer, fico sem fome quando me sinto triste). E como quando a gente tá no inferno tem mais é que abraçar o capeta, resolvi perguntar mais uma zilhão de opiniões dela. Mais esclarecimentos, mais segundos pensativa. Antes de ir embora, resolvi perguntar se ela consegue realmente organizar sentimentos tão bem, se sempre foi assim. Mais aspas:

“Tive a sorte de conhecer meu marido quando não existiam redes sociais e internet (risos). Mas nossa história foi muito criticada. Porque eu o conheci, beijei, transei e fui morar junto com ele em duas semanas. Todo mundo dizia que daria errado. Estamos juntos há 22 anos. Temos nosso filho. Brigamos muito no começo, muito mesmo. Mas nunca fomos dormir brigados. Não tinha internet. Então, não discutíamos virtualmente. Só olhando pro outro, fosse com raiva, medo, tesão, paixão, aquela mistura de querer terminar mas sem no fundo querer. Mas tudo isso porque sempre foi um perto do outro. Nada substitui um abraço, mesmo que tenso, em que você consegue sentir a respiração e o coração dele batendo forte junto ao seu.”

De novo, meus segundos muda. Cheia de compreensão agora de tanta coisa. Não chorei mais. Minha pobre quiche já tinha lágrimas suficiente. Ela continuava praticamente intacta. Pedi para embrulhar, pra comer em casa – e engolir literalmente minhas lágrimas. Porque se não der pra decidir, seja o que for, olho no olho no presente, que fique de lição para o futuro.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

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Dúvida, essa corrosiva

nãoquebrar

Descobrir uma mentira é uma das dores mais insuportáveis e incompreensíveis que o ser humano pode experimentar. Ao mesmo tempo, uma verdade amarga, aquela que vai direto na cara, tira nosso chão. Confunde tudo o que parecia compreendido, lúcido, concreto e… amável. Mentira descoberta e verdade amarga se completam. Uma puxa a outra. Uma reforça a outra. Uma é a clarividência daquilo que a outra mascarava.

Mas entre elas – e até sem elas – existe um outro tipo de sofrimento, que ainda não é dor, nem sempre acaba sendo dor, mas dói por criar uma oscilação dos sentimentos. É um jogar de ácido no coração: a dúvida, essa corrosiva. A fantasia de que podemos controlar nosso destino é permanente. E quando ela é confrontada pela realidade, pela obviedade de que nem sempre, mesmo fazendo o melhor, não temos a certeza de algo, a dúvida corrói. Em tudo.

No amor que a gente não se sabe se é correspondido. No tratamento que precisa de tempo pra surtir efeito. No trabalho pelo qual não temos um retorno (nem positivo e nem negativo) e do qual dependemos muito. Na empresa que não confirma, afinal, se haverá demissões e quando. Naquele dinheiro que não parece chegar nunca para aplacar a dívida que cresce. “Será que consigo pagar o aluguel até semana que vem?”, pergunta uma ansiosa e triste voz interior. Como é difícil…

O cuidado é saber quando a dúvida é ou não doentia. Se ela é fruto de uma mania de perseguição, de um pessimismo, de uma postura de vítima diante da vida. A dúvida pode ser um ressoar de sensações que remetem a uma situação desconfortável, assustadora, repressora, traumática do passado. Ou ela surge quando lidamos com cenários em que até o mais equilibrado dos mortais se sente na corda bamba. Relações em que uma das partes diz uma coisa e faz outra, ou diz uma coisa e depois diz outra completamente oposta, não ajudam muito a ter dúvidas dissipadas. Na real, só quebram (ou deixam de construir) confiança.

Se o seu modus operandi é duvidar até da própria sombra, cuidado. Você pode querer tanto se defender daquilo que hipoteticamente te machucaria que acaba se fechando, se afastando do convívio das pessoas. Ou elas do seu. No outro extremo, se você não cumpre o combinado ou confunde as pessoas com palavras (mesmo que não seja por mal), alguns desejos podem ser colocados à prova, andar pra trás… Se essa não é a intenção, sempre existe a chance de repensar algumas ações.

A dúvida é um destilar de veneno lento. Mas ela tem antídoto – disso eu tenho certeza! O importante é a gente não deixar ela se espalhar e estilhaçar três coisas essenciais na vida: confiança, promessas e corações.

A sorte de ouvir as opiniões de Felicianos, Malafaias e Bolsonaros

direitoshumanos

Calma, gente! Não se assustem com o título deste post. Eu não enlouqueci. Continuo acreditando que todo tipo de preconceito deve ser banido, reprimido, criticado e peitado. Que sua liberdade de expressão acaba na hora que você se acha no direito de desrespeitar alguém colocando suas verdades mais estapafúrdias como absolutas, daquelas que humilham e denigrem a imagem do outro, que passam por cima de direitos básicos. Mas por mais inacreditáveis e chocantes que possam ser as opiniões de gente tão limitada que existe por aí, elas têm um lado muito bom: mostrar claramente com quem estamos lidando na sociedade.

Me questiono (e você também, caso seja uma pessoa sensata) há dias como um sujeito chamado Marco Feliciano se tornou presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados Federais. Um sujeito que cada vez que abre a boca deixa vir à tona uma das mais significativas representações daquilo que temos de pior em machismo, homofobia, intolerância religiosa, racismo… O retrato do que há de mais atrasado e que mais fere, justamente, os direitos humanos. Politicagens à parte (que é o que o levou ao cargo), até dói saber que um perfil desses não só pode chegar longe no nosso país, como sua mentalidade ecoa entre muitos cidadãos. Que ele é o reflexo, junto com Bolsonaros e Malafaias, do que muitos de nós creem ser o “certo”.

Por mais revoltantes, porém, que sejam as imbecilidades proferidas por esse bando e seus infelizes seguidores, agradeço profundamente por viver num tempo em que eu possa saber exatamente quem são eles. Pra efeito de comparação, milhares de judeus e centenas de gays, ciganos e testemunhas de jeová foram enviados para campos de concentração na Segunda Guerra Mundial por pessoas de seus convívios. Existiam, claro, aqueles que se declaravam a favor e que colaboravam com o nazismo. Mas muitas das vítimas acabaram traídas por vizinhos e colegas de trabalho que não afirmavam abertamente o apoio ao regime insano de Hitler, optando por agir na surdina.

Viver numa democracia nos permite o acesso à informação variada, que possa ser amplamente comparada. Numa democracia com redes sociais, internet, expandimos nosso saber e aumentamos o alcance de nossos posicionamentos. E, principalmente, construindo o conhecimento com liberdade e ajuda da tecnologia somos capazes de nos prepararmos para nos defendermos dos absurdos tão corriqueiros da intolerância. Por isso, temos sorte em ouvir e saber quem é o indivíduo que se julga acima do bem e do mal para atacar o outro. Podemos atacar de volta. Podemos nos unir para tirá-lo de onde ele chegou. Podemos vencê-lo.

Pra terminar, vou dividir com vocês alguns pensamentos de autores com os quais pude tomar contato graças a uma disciplina que estou cursando no mestrado. O tema principal é a alteridade, que é a capacidade de compreender que todo ser humano interage e é interdependente do outro. E que nessa interação apreendemos o outro em sua dignidade, direitos e diferenças. O foco dos debates na aulas são preconceitos, racismo e xenofobia.

Infelizmente, compreendi que preconceito é a rejeição total do outro. Para o preconceituoso, não existe nem o interesse pela “conversão” de uma pessoa diferente dele. Na sua mente desequilibrada, o diferente dele é sempre inferior. Para o filósofo, economista e psicanalista grego Cornelius Castoriadis, o que o racista, por exemplo, deseja é a morte do diverso. Mas que tanto ódio do outro pode também ser um ódio de si mesmo inconsciente. Ele ressalta a necessidade de fortalecermos um movimento que indique o quanto “os seres humanos têm valor igual (…) e que a coletividade tem o dever de lhes conceder as mesmas possibilidades efetivas(…)”. Para o sociólogo francês Alain Touraine, as barreiras só são superadas “por seres capazes de se comunicar entre si graças, ao mesmo tempo, à razão e ao respeito pelo caráter universal dos direitos individuais”.

Se pra você é tão difícil entender que o diferente não é pior, se você tem orgulho de um Feliciano respondendo por direitos humanos, só posso lamentar. Mas continue! Continue deixando clara sua fantasia de acreditar ser melhor do que alguém. Assim, sempre saberei onde você está – e ficarei pronta a te desafiar.

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P.S.: Na noite desta segunda (25), a partir das 18 horas, artistas, políticos, religiosos e ativistas de diversos movimentos sociais se reunirão no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro, para realizarem um ato pedindo pela saída do presidente Marco Feliciano (PSC-SP) da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM).

Focar demais no outro: você está fazendo isso errado

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Nada pior do que conviver com aquela pessoa que se acha o centro do mundo (como eu contei no post de quarta-feira). Focar demais em si mesmo é sinônimo de insegurança, arrogância, egoísmo. Mas debandar para o outro extremo também não é nada saudável. Abrir mão da própria personalidade, gostos e crenças em nome de um relacionamento é roubada, seja no amor, na amizade e até no trabalho. Tem gente que começa a namorar e se transmuta, tornando-se um doentio reflexo do parceiro. Há quem se converta no retrato fiel do grupo com o qual convive, incapaz de divergências para não correr o risco de não mais ser aceito. E caso mude de grupo seus valores mudarão junto. Não raro, o indivíduo passa a apenas enxergar defeitos e tecer críticas àqueles que eram parte de seu cotidiano – e antes tão perfeitos.

Uma coisa é capacidade de adaptação, o que pra mim é uma característica super positiva. É estar aberto a conhecer, ouvir e entender o que mais tem por aí, e até experimentar novas possibilidades de vida, de prazeres, de saberes. Por que não provar uma gastronomia diferente, um passeio inusitado, uma conversa com gente de realidades diversas das nossas? É enriquecedor. Completamente o oposto de se ver dependente, anulado e incapaz de organizar qualquer plano sem o aval do outro. Relações que chegam a esse patamar tendem a uma perigosa ligação – e quando rompida, a parte que se fundiu até desaparecer, vai sofrer. E vai ser muito.

Cuidar do outro, é bom lembrar, não é se anular. Só cuidar do outro é. Sair com os amigos dele(a) não é se afastar dos seus. Sair só com eles é. Ter projetos a dois é uma delícia! Sonhar apenas o sonho do outro pode virar pesadelo… Deixar o parceiro escolher um filme, um restaurante, sugerir um programa, não é ficar sem opinião. Mas se você vê escorregar pelas mãos o direito de opinar no que vocês farão juntos, fique alerta. Isso é grave e não vai acabar bem, não. Quem não está disposto a dialogar, trocar ideias para que acordos em comum se concretizem, tanto apenas para mandar quanto apenas para obedecer (numa insana tentativa de agradar), empurra o relacionamento para o fracasso. Ou para um relacionamento duradouro daqueles em que as feridas abrirão, custando pra cicatrizar – se cricatrizar.

Focar demais no outro traz uma angústia disparada pela eterna dúvida “estou agradando ou não?”. Porque a ânsia pela dedicação extrema é cansativa, a perfeição nunca será alcançada e você sentirá frustração. Em algum momento você “errará” e é natural. Caso o parceiro seja uma pessoa dentro da normalidade vai até achar a atenção em demasia sufocante. Focar demais no outro e esquecer da sua vida é falta de amor próprio. E só é amado e admirado quem tem amor pra dar – desde que sobrando pra si mesmo em doses saudáveis.

Crédito da imagem: Casal Sem Vergonha

Focar demais em si mesmo: você está fazendo isso errado

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Quem nunca se sentiu entediado – até desrespeitado – por um amigo ou familiar que só sabe falar de si mesmo? Ele é a maior vítima do mundo. Ou seus programas são os mais legais. Ou seus problemas são mais importantes. Ou suas vitórias, viagens, relacionamentos, trabalho são, de longe, o que há de mais fascinante na face da Terra. Ah, sim… Provavelmente, ele sabe mais do que qualquer um sobre qualquer assunto. Nada incomum ele ter certeza absoluta de que está… certo. Sempre. Cansa. E como.

Se seus interlocutores vêm participando de conversas com você respondendo só de vez em quando “ahã” e tentando dar aquela educada (ou não) guinada no tema, cuidado. Você corre o risco de ser conhecido (pelas costas mesmo) como alguém que só sabe falar e não ouvir. Que só se preocupa com seu mundinho. Que é egoísta demais para olhar ao redor e entender que você não é a estrela de um show em que as pessoas têm a obrigação de adorá-lo. Sei que vai ser difícil ler isso, mas tenho que te dizer com todas as letras: não, você não é mais especial do que ninguém. Você é mais um entre tantos de nós, com seus defeitos e qualidades, com suas alegrias e tristezas, com seus desejos e escolhas.

Focar demais em si mesmo, pra mim, é sinal de insegurança. Quem muito precisa chamar a atenção sofre de um ego oscilante e frágil – e pela segunda vez na semana vou lembrá-los de que terapia tá aí pra ajudar, meu povo! Acredito que é um comportamento também ligado à educação recebida em casa. Vale pra quem é pai e mãe parar pra avaliar quão mimados seus filhos estão sendo. Nada contra o elogio saudável por uma tarefa, por exemplo, que é um meio de construção positiva da autoestima. Mas reforçar que uma criança tem razão o tempo todo e que ela pode tudo só cria um serzinho mala – que lá na frente se transformará num arrogante sem limites, um tirano.

Não duvido que sua vida tenha bastante coisa interessante pra você dividir. Eu sempre achei que as melhores histórias surgem justamente das experiências de quem tá ali, do nosso lado, cujo cotidiano parece tão simples… Todos nós tivemos grandes momentos, passagens marcantes. Significa que é bacana falar do que enfrentamos, sofremos, vimos, encontramos pelo caminho. Mas o exercício de ouvir o que o outro enfrentou, sofreu, viu e encontrou em sua jornada é enriquecedor. Não só aprendemos mais, com diferentes olhares e perspectivas. Nos reconhecemos. E quem prefere continuar se achando a última bolacha recheada do pacote acaba é falando sozinho.

Crédito da imagem: Um Milhão de Beijos

Coragem para dividir nossos demônios

Rodin

Todo mundo carrega traumas. Em maior ou menor proporção, temos lá no fundo da alma nossas dores e rancores. Algumas pessoas têm bastante facilidade pra resolverem essas questões, levantarem a cabeça e seguirem em frente, sem nunca mais se abalarem com o que ficou pra trás. Outras, amargam mágoas pela vida – um desperdício precioso de tempo, a meu ver. E existem aqueles que conseguiram sim superar grandes sofrimentos, mas que ainda oscilam quando algo relembra um momento difícil. Não acho que isso é ser mal resolvido. Acredito que é uma atitude sensível e humana, desde que não volte a paralisar seu cotidiano, seus planos, seus desejos.

É comum a oscilação emocional relacionada a um trauma quando decidimos dividí-lo com alguém, depois de meses, anos. O problema é fazer isso de um jeito atrapalhado, no meio de uma briga, ou quando acabamos transformando uma simples conversa numa discussão porque nem a gente entende direito o que está sentindo naquela hora. Quem nunca enfiou os pés pelas mãos ao querer dizer uma coisa e fazer outra? Dificuldade de comunicação é quase regra nos relacionamentos que fracassam. E vamos admitir que sim, a culpa pode ser sua, minha… Quem tá do nosso lado não tem que adivinhar o que nos incomoda. Aprender a falar, por mais que seja doloroso, é essencial. Se a pessoa gosta de você de verdade também vai parar pra ouvir. Principalmente, ela não vai desistir de ouvir até o fim.

Não é fácil se encher de coragem pra dividir nossos demônios. Especialmente, quando eles estavam ali, abafados, sem se manifestar há uma longa data. Especialmente, em relacionamentos que estão no começo. Porque não se sabe ainda qual será o rumo da história. Porque não se tem certeza de qual o timing pra revelar uma tristeza. Porque há quem veja o carregar de uma tristeza como fraqueza. Porque há quem não admita a fraqueza no outro, esperando que ele seja o sinônimo da perfeição, da alegria constante, da despreocupação. Mas ninguém é assim, não custa lembrar… Pelo menos não alguém normal!

Eu sempre gosto de ressaltar o quanto terapia é fundamental pra gente se encontrar, se aceitar, se compreender – e entender os desafios que nos foram impostos, naturalmente, ao longo do caminho. Sem querer procurar culpados. Sem querer se vitimizar diante de tudo. Acredito mesmo que todos nós, em algum momento, deveríamos nos dedicar a essa “autobusca”. Independentemente da necessidade do divã, fica a dica pra quem foi escolhido por uma pessoa querida pra ser seu ouvinte de uma lembrança dolorosa: você é tão especial que mereceu um voto de confiança. Depois de escutar o que ela tem a dizer, abrace apertado. Será suficiente pra que os demônios retornem pra onde devem ficar – o passado.

Crédito da imagem: Suzane G. Frutuoso (Museu Rodin/Paris)

Torcendo pra pagar a língua. Mas eu acho que não…

papa

Temos, então, um novo papa. Ele veio como piada pronta para aqueles que torciam por um brasileiro como novo chefe da Igreja Católica Apostólica Romana. O cardeal Dom Jorge Mario Bergoglio é argentino. E comentários engraçados à parte, o que me interessa mesmo é o que o pontífice vai realizar de fato. Ou não. O que ele vai mudar para melhor. Ou não.

O papa Francisco escolheu o nome do santo conhecido pela humildade, São Francisco de Assis, que optou pela pobreza, deixando pra trás uma vida de privilégios numa família abastada. O novo papa já demonstrou atitudes humildes, como abrir mão de adornos dourados nas roupas que deverá usar e um crucifixo de aço (nem de prata é) para carregar junto ao peito.

Faz sentido se ele é um jesuíta. Faz mais sentido ainda se ele é um sujeito minimamente consciente de que vive numa Itália e numa Europa mergulhadas em crise econômica, assim como sua oscilante Argentina natal. E muito mais se ele tiver sempre em mente que em nome de Deus deve-se buscar ajuda e soluções para aqueles que vivem na miséria, em meio a guerras ou todo tipo de sofrimento. Que em nome de Deus é preciso mais mãos estendidas ao próximo, menos discursos preconceituosos, menos politicagem e disputas de poder.

Ah, o poder… E quanto ele pode subir a cabeça, até do mais santo dos homens? Qual ser humano estará livre do prazer mundano de saber que seu desejo é uma ordem? Espero, de coração, que o papa seja forte o bastante pra suportar a tentação e fique longe das más companhias – que também se escondem por trás de batinas, livros sagrados, orações, reflexões. Em qualquer religião. Porque ser religioso não necessariamente nos transforma em alguém melhor de verdade.

Claro, ele não é só o papa. Francisco passa a ser também um chefe de estado, que representa o Vaticano. Logo, terá que lidar com política – e conchavos, acordos, preciosismos… Provavelmente, corrupção. Haverá tempo de ouvir o povo e seus anseios? De estar realmente próximo da comunidade? De tentar compreender que muitos de nós gostaríamos de continuar acolhidos pela Igreja, mas nos sentimos rejeitados, renegados, reprimidos por comportamentos e escolhas que não prejudicam os demais, nem colocam em dúvida nosso caráter, nem impedem que estejamos prontos a praticar o bem?

Por mais boa vontade que o papa Francisco tenha, eu acho que a politicagem da instituição vai prevalecer. Tem muita gente lá dentro disposta a manter as posturas mais preconceituosas da Igreja Católica. Sim, ela tem suas regras e quem quiser ser parte de seu mundo que as obedeça. Mas ela não pode humilhar, diminuir, segregar. E quantos de nós já não vimos isso na missa de domingo? Eu já vi. Você também, pode admitir.

Espero estar errada. Minha torcida é pra que eu pague a língua e papa Francisco traga novos ares e compreensão ao universo do catolicismo e da religião em geral. Mas eu acho que não… Não, de repente, porque ele não queira. Mas porque a ganância e a ignorância é inerente a muitos de nós que cercam aqueles que que desejam mudar. É uma batalha pesada. Boa sorte, Francisco. Você vai precisar.

Crédito da imagem: Divulgação