Hoje só amanhã (ou tem dia que a gente precisa parar)

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“Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…/ Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã…/ E assim será possível; mas hoje não…” As palavras do poeta português Fernando Pessoa invadiram logo a minha mente, um pouco depois que abri os olhos. Eu ainda estava deitada na cama, camisola de cetim, janelas fechadas… O que me acordou foram os acordes da guitarra do vizinho do apartamento de cima. Talvez você não ache agradável despertar ao som de “Back in Black”, do AC/DC… Mas meu vizinho toca bem. Ele nunca me incomoda. E no sábado me fez um favor ao me “chamar” com sua guitarra pra mais de 10h30 da manhã.

A música que vinha lá do alto já mudara para “Highway to Hell” quando decidi levantar e observar meu estado físico diante de um espelho de corpo inteiro que tenho no corredor. Humm… Não tão bom… A cara de doente ainda estava lá. Por causa de uma gripe perdi o aniversário de uma amiga querida na sexta-feira a noite, enquanto dava baixa no PS do hospital perto de casa (a segunda vez em uma semana). “Pelo menos consegui dormir”, pensei, ao analisar os olhos menos fundos, mas sentir o nariz ainda congestionado – e perceber levemente os vincos que agora começam a se formar no meu colo. Ah, as rugas que a gente nem lembrava que poderiam aparecer. Cuidei do rosto, do pescoço, usei cosméticos caros. Mas sempre esqueci o colo. Droga. Talvez ainda dê tempo de salvar, quem sabe. Deixa pra lá que o mais importante agora é me livrar da gripe.

“Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…”, Pessoa insistia comigo, entre um gole de café e outro na minha caneca amarela com flores vermelhas pintadas à mão. Ele me convenceu. Tem dia que a gente precisa parar. O mês de fevereiro foi intenso. De coisas boas, é verdade. Viagens, festas, novas pessoas, novos trabalhos, volta às aulas do mestrado. Mas veio tudo de uma vez. E foi tanta alegria, eu quis tanto aproveitar tudo freneticamente, que o corpinho não aguentou. Eu acredito mesmo que quando a gente não para por bem o universo vai lá e te faz parar na marra. No meu caso, o universo ainda sussurrou Pessoa e AC/DC pra eu ficar quieta no meu canto pelo menos um dia.

Passei, então, o sábado inteiro de camisola na minha cama desarrumada. Li uma revista que comprara há uns dias. A matéria de capa vem com o título “Viva do seu jeito” (tão sugestivo para meu atual momento). Li mais um capítulo da biografia da bailarina Isadora Duncan (revolucionária fundadora da dança moderna). Li mais um pouco do livro que será tema da aula de hoje a noite, “Vidas Líquidas”, do meu muso da Sociologia, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Ele diz: “A existência transformada em efemeridade (…) Ao lado do efêmero vem o medo de ficar pra trás, de não acompanhar a fluidez e a velocidade dos eventos e produtos, de se tornar dispensável (…) de se tornar ninguém”. Ah, Bauman, com todo respeito que tenho por você, sai pra lá. Eu te entendo e concordo com a teoria. Mas hoje não me importo em ficar pra trás. De me tornar ninguém. Preciso descansar.

Assisto ao filme “Capitão América – O Primeiro Vingador”, na tevê a cabo. Mesmo que eu pareça uma derrotada pra sociedade, largada em casa sem enfrentar o mundo, me sinto feliz. Tem o Capitão América ali na tela salvando o planeta. Hoje eu só quero salvar a mim mesma. “Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…” Acho graça do quanto as pessoas têm medo de serem julgadas ao revelarem que tiveram um dia que pode ser considerado inútil aos olhos de muitos. A gente tá sempre querendo mostrar eficiência. Postamos fotos que indicam o quanto nossa vida social é intensa, divertida, incrível! Comemoramos nossas vitórias no Face e depois ficamos contando quantas “curtidas” ganhamos. Mas acho tão humano quando admitimos que hoje não deu, hoje tô o pó, hoje tô acabado.

A gente sempre acredita que é demonstrando felicidade absoluta (fake, muitas vezes) que a sociedade nos aceitará. Demonstrando nosso sucesso pleno (fake, de novo, muitas vezes) que seremos vistos como vencedores. Demonstrar fraqueza, jamais! Mas deixa eu te contar um segredo: uma hora você não aguenta fingir tanta perfeição. Vai enlouquecer de vez. Ou até ficar firme no seu “show” – mas atraindo para teu lado pessoas que não gostam de você de verdade, apenas daquilo que você representa. Pensa bem se vale a pena. Melhor cair doente como eu, admitir que nem sempre dá pra suportar o tranco, e que felicidade mesmo é ter a liberdade de curtir uma gripe sem ter que ser infalível. Tem dia que a gente precisa parar. Sem se preocupar com o que os outros vão pensar.

Credito da imagem: Blog Casal Sem Vergonha

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