Um problema além das drogas

chorão

Eu não quis escrever antes sobre a morte do Chorão, vocalista do Charlie Brown Jr., pra ver quanto de bobagem e desrespeito surgiria na boca do povo, cheio de teorias rasas. Sim, ninguém pode negar que o uso de drogas pesadas foi o principal motivo a tirar a vida de um cara que era um talento. Mas tem muito mais por trás desse fim trágico, com elementos que são parte do cotidiano de muitos de nós. E até, arrisco dizer, uma parcela de culpa nossa.

Cocaína é sentença de morte – da qual muitos poucos se safam. Só que pra chegar nela a pessoa já passou por algumas situações que vou chamar aqui de estágios de desequilíbrio. E teria Chorão experimentado tais estágios por que era um marginal louco (como ouvi numa conversa durante um churrasco ontem)? Não. Ele realmente era um sujeito doente que precisava de tratamento. Sua perturbação emocional acabou turbinada pelo álcool, cuja venda é lícita. Juntou ainda com o uso de remédios controlados para a ansiedade, receitados por um médico. Uma bomba relógio. Mas tudo ao alcance de qualquer um. Com o aval da sociedade.

Você não toma seu whisky, sua cerveja, seu champanhe? Não ingere substâncias pra emagrecer, pra dormir, pra ganhar músculos, pra ter pique durante o dia? Você não se entope de refrigerante? Dependendo da maneira como tudo isso é utilizado, da quantidade, da sua compulsão, não poderíamos também considerá-las drogas? Qual nossa moral pra acusar um jovem que levantou multidões com sua música e sua poesia de marginal louco? Chorão era um dependente químico. Aviso aos ignorantes que se trata de uma patologia, que pode surgir na minha, na sua família. Com uma pessoa que você ama.

Pra mim, o problema da sociedade é você, preconceituoso que acusa de marginal um artista pouco depois de sua morte, com a família do cara ainda lidando com a dor da perda. O pior é que eu sei que “você” são muitos em cada canto desse país, se dedicando arduamente à sua hipócrita existência, fingindo perfeição, acreditando que aquilo que você consome ou sua posição social te transforma em alguém respeitável, “de bem”, de… caráter? Duvido.

Aqueles que adoram julgar deveriam focar energia em procurar entender quanto a pressão social pode ser o gatilho de um enorme estresse emocional. E como cada um, de acordo com sua história, possibilidades, meio em que convive, pré-disposição orgânica, procura uma determinada válvula de escape. Num mundo por vezes tão cruel, competitivo, falso, interesseiro, a tábua de salvação pode ser aquilo que te tira da realidade… Drogas, comida, bebida, sexo, jogos… Nada disso é exclusivo a uma celebridade. Porque o sofrimento de não se sentir compreendido, de se sentir deslocado, de não se sentir suficientemente bom, entre tantas outras dores, pode ser parte da vida de um estudante, de uma dona de casa, de um CEO, de uma médica, de um policial, de uma criança, um adolescente, um adulto.

Se você se acha tão imune e poderoso a tristezas da alma e da mente, se acredita ser tão superior a alguém num estado frágil, que precisa de ajuda, eu lamento. Você deve ser frio demais para fazer alguma diferença no mundo – bem ao contrário de Alexandre Magno Abrão…

Crédito da imagem: Divulgação

Anúncios

4 respostas em “Um problema além das drogas

  1. Suzane, você colocou em palavras tudo que eu estava pensando nos últimos dias. Não só a respeito das barbares que falaram da morte do Chorão, como também sobre julgamentos preconceitos embasados em uma moral duvidosa que tenho ouvido nas ruas, redes sociais e corredores da faculdade. Julgar é fácil, tentar compreender um ser humano é que é difícil.

  2. Marginal não! Mas exemplo de conduta para nossos filhos acharem lindo, também não!!!! Temos que discernir. E quem usa drogas o faz porque quer, não culpemos os outros. Cada um é culpado por si mesmo e se auto autoajudar, desculpe, só depende dele mesmo. Convivi com isso e sei o quão doloroso é ouvir que a pessoa que você ama é marginal. Mas ele vira, sim, um marginal. Fica a beira da sociedade para tudo. E é difícil, quase impossível ter forças para voltar. Mas infelizmente, ninguém pode fazer nada além, se a própria pessoa não encontrar forças. A Prova está nessa juventude cheia de vida que se mata. Nao o julguemos. Mas também não tiremos sua propria culpa. Ele não sabia que drogas não mata? Convivi com um droghado onde eu e ele fomos ao fundo do poço. Vendi tudo o que eu tinha, sim, pois ele não tinha mais nada, e vendia tudo o que eu trabalhava para adquiriri. Se tornava violento e ficava apenas uma semana sem drogas ao siar do hospital. Depois voltava a nos destruir. Você acha que isso foi minha culpa? Você acha que a errada ainda era eu ou a sociedade? Vamos encarar? Nunca o chamei demarginal, acho que não é por aí, mas cansei de passar a mão na cabeça e aguentar desaforos e violência, podia tê-lo denunciado, nunca fiz pois sabia que ele estava mal. Além disso, meu amigo, é se matar também. É por isso que digo, se a pessoa não encontrar forças para aceitar a ajuda e muita força, quem tá de fora não poderá fazer por ele. Eu usei drogas e saí, graças a Deus e a inha super força de vontade. O mundo é curel para todos, amigo, imagine se todo mundo ao passar por perrengues faça isso?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s