Coragem para dividir nossos demônios

Rodin

Todo mundo carrega traumas. Em maior ou menor proporção, temos lá no fundo da alma nossas dores e rancores. Algumas pessoas têm bastante facilidade pra resolverem essas questões, levantarem a cabeça e seguirem em frente, sem nunca mais se abalarem com o que ficou pra trás. Outras, amargam mágoas pela vida – um desperdício precioso de tempo, a meu ver. E existem aqueles que conseguiram sim superar grandes sofrimentos, mas que ainda oscilam quando algo relembra um momento difícil. Não acho que isso é ser mal resolvido. Acredito que é uma atitude sensível e humana, desde que não volte a paralisar seu cotidiano, seus planos, seus desejos.

É comum a oscilação emocional relacionada a um trauma quando decidimos dividí-lo com alguém, depois de meses, anos. O problema é fazer isso de um jeito atrapalhado, no meio de uma briga, ou quando acabamos transformando uma simples conversa numa discussão porque nem a gente entende direito o que está sentindo naquela hora. Quem nunca enfiou os pés pelas mãos ao querer dizer uma coisa e fazer outra? Dificuldade de comunicação é quase regra nos relacionamentos que fracassam. E vamos admitir que sim, a culpa pode ser sua, minha… Quem tá do nosso lado não tem que adivinhar o que nos incomoda. Aprender a falar, por mais que seja doloroso, é essencial. Se a pessoa gosta de você de verdade também vai parar pra ouvir. Principalmente, ela não vai desistir de ouvir até o fim.

Não é fácil se encher de coragem pra dividir nossos demônios. Especialmente, quando eles estavam ali, abafados, sem se manifestar há uma longa data. Especialmente, em relacionamentos que estão no começo. Porque não se sabe ainda qual será o rumo da história. Porque não se tem certeza de qual o timing pra revelar uma tristeza. Porque há quem veja o carregar de uma tristeza como fraqueza. Porque há quem não admita a fraqueza no outro, esperando que ele seja o sinônimo da perfeição, da alegria constante, da despreocupação. Mas ninguém é assim, não custa lembrar… Pelo menos não alguém normal!

Eu sempre gosto de ressaltar o quanto terapia é fundamental pra gente se encontrar, se aceitar, se compreender – e entender os desafios que nos foram impostos, naturalmente, ao longo do caminho. Sem querer procurar culpados. Sem querer se vitimizar diante de tudo. Acredito mesmo que todos nós, em algum momento, deveríamos nos dedicar a essa “autobusca”. Independentemente da necessidade do divã, fica a dica pra quem foi escolhido por uma pessoa querida pra ser seu ouvinte de uma lembrança dolorosa: você é tão especial que mereceu um voto de confiança. Depois de escutar o que ela tem a dizer, abrace apertado. Será suficiente pra que os demônios retornem pra onde devem ficar – o passado.

Crédito da imagem: Suzane G. Frutuoso (Museu Rodin/Paris)

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2 respostas em “Coragem para dividir nossos demônios

  1. É assim mesmo, mas não é fácil falar, e o irônico é que eu muitas vezes tive essa honra de ser escolhido por pessoas queridas para escutar e dizer, mas estar do outro lado não é a mesma coisa. E não é por falta de gente de confiança e disposta a ouvir, porque tenho muitas. Mas foi bom ter lido mais este excelente texto teu.

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