A sorte de ouvir as opiniões de Felicianos, Malafaias e Bolsonaros

direitoshumanos

Calma, gente! Não se assustem com o título deste post. Eu não enlouqueci. Continuo acreditando que todo tipo de preconceito deve ser banido, reprimido, criticado e peitado. Que sua liberdade de expressão acaba na hora que você se acha no direito de desrespeitar alguém colocando suas verdades mais estapafúrdias como absolutas, daquelas que humilham e denigrem a imagem do outro, que passam por cima de direitos básicos. Mas por mais inacreditáveis e chocantes que possam ser as opiniões de gente tão limitada que existe por aí, elas têm um lado muito bom: mostrar claramente com quem estamos lidando na sociedade.

Me questiono (e você também, caso seja uma pessoa sensata) há dias como um sujeito chamado Marco Feliciano se tornou presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados Federais. Um sujeito que cada vez que abre a boca deixa vir à tona uma das mais significativas representações daquilo que temos de pior em machismo, homofobia, intolerância religiosa, racismo… O retrato do que há de mais atrasado e que mais fere, justamente, os direitos humanos. Politicagens à parte (que é o que o levou ao cargo), até dói saber que um perfil desses não só pode chegar longe no nosso país, como sua mentalidade ecoa entre muitos cidadãos. Que ele é o reflexo, junto com Bolsonaros e Malafaias, do que muitos de nós creem ser o “certo”.

Por mais revoltantes, porém, que sejam as imbecilidades proferidas por esse bando e seus infelizes seguidores, agradeço profundamente por viver num tempo em que eu possa saber exatamente quem são eles. Pra efeito de comparação, milhares de judeus e centenas de gays, ciganos e testemunhas de jeová foram enviados para campos de concentração na Segunda Guerra Mundial por pessoas de seus convívios. Existiam, claro, aqueles que se declaravam a favor e que colaboravam com o nazismo. Mas muitas das vítimas acabaram traídas por vizinhos e colegas de trabalho que não afirmavam abertamente o apoio ao regime insano de Hitler, optando por agir na surdina.

Viver numa democracia nos permite o acesso à informação variada, que possa ser amplamente comparada. Numa democracia com redes sociais, internet, expandimos nosso saber e aumentamos o alcance de nossos posicionamentos. E, principalmente, construindo o conhecimento com liberdade e ajuda da tecnologia somos capazes de nos prepararmos para nos defendermos dos absurdos tão corriqueiros da intolerância. Por isso, temos sorte em ouvir e saber quem é o indivíduo que se julga acima do bem e do mal para atacar o outro. Podemos atacar de volta. Podemos nos unir para tirá-lo de onde ele chegou. Podemos vencê-lo.

Pra terminar, vou dividir com vocês alguns pensamentos de autores com os quais pude tomar contato graças a uma disciplina que estou cursando no mestrado. O tema principal é a alteridade, que é a capacidade de compreender que todo ser humano interage e é interdependente do outro. E que nessa interação apreendemos o outro em sua dignidade, direitos e diferenças. O foco dos debates na aulas são preconceitos, racismo e xenofobia.

Infelizmente, compreendi que preconceito é a rejeição total do outro. Para o preconceituoso, não existe nem o interesse pela “conversão” de uma pessoa diferente dele. Na sua mente desequilibrada, o diferente dele é sempre inferior. Para o filósofo, economista e psicanalista grego Cornelius Castoriadis, o que o racista, por exemplo, deseja é a morte do diverso. Mas que tanto ódio do outro pode também ser um ódio de si mesmo inconsciente. Ele ressalta a necessidade de fortalecermos um movimento que indique o quanto “os seres humanos têm valor igual (…) e que a coletividade tem o dever de lhes conceder as mesmas possibilidades efetivas(…)”. Para o sociólogo francês Alain Touraine, as barreiras só são superadas “por seres capazes de se comunicar entre si graças, ao mesmo tempo, à razão e ao respeito pelo caráter universal dos direitos individuais”.

Se pra você é tão difícil entender que o diferente não é pior, se você tem orgulho de um Feliciano respondendo por direitos humanos, só posso lamentar. Mas continue! Continue deixando clara sua fantasia de acreditar ser melhor do que alguém. Assim, sempre saberei onde você está – e ficarei pronta a te desafiar.

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P.S.: Na noite desta segunda (25), a partir das 18 horas, artistas, políticos, religiosos e ativistas de diversos movimentos sociais se reunirão no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro, para realizarem um ato pedindo pela saída do presidente Marco Feliciano (PSC-SP) da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM).

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