Acabou

acabou

Parta do seguinte princípio: acabou. Eu sei… Dói… Não é nisso que você quer acreditar. Não é isso o que diz o seu coração. O que ele pergunta é “como”, “por que tão rápido” ou “por que depois de tanto tempo”, “por que sem uma conversa esclarecedora que poderia colocar tudo nos eixos”. Os questionamentos repetem inúmeras vezes na sua cabeça, martelam acompanhados do choro convulsivo. Respira. Não pira. Deixa a alma retomar a calma…

Eu sei… Você vai manter a esperança… Vai dizer a si mesmo que ele(a) vai voltar, claro! Vai se arrepender, vai pensar melhor, vai sentir saudade. Pode ser que sim… Mas talvez, não. E, eu sei que dói, mas é com o não que você deve permanecer agora. Não se iluda. O “nunca mais” é a grande probabilidade no momento. Não, eu não sei o dia de amanhã. Mas eu sei que você está sofrendo hoje. Pra superar esse hoje tão amargo só aprendendo, a duras penas, que seu amanhã é novamente sozinho(a). Ele(a) não está mais lá. Deixa a alma retomar a calma…

Eu sei… Você tá com pena de si mesmo… E é legítimo. Então, tá. Te dou um dia pra ser esse trapo humano, com o cabelo por lavar, nenhuma vontade de comer, jogado(a) na cama, sem forças pra lutar, olhando o celular a cada cinco minutos (quem sabe um sms?), curtindo aquela gripe forte que apareceu porque o choque foi tão grande e inesperado que sua imunidade despencou. Um dia só. Deixa a alma retomar a calma…

Eu sei… Você só consegue lembrar das horas felizes… Controle seus pensamentos. Pare de pensar. Simplesmente, pare. Como? Não sei… Porque eu só sei que é mesmo difícil tamanho desprendimento. Chora mais um pouco, vai… Afinal, te dei um dia de pena de si mesmo. Curta sua fossa. Acredite um pouquinho que você não pode imaginar o mundo sem ele(a). Depois tente, se possível, recordar as outras vezes que você achou que aquele amor anterior também não seria esquecido. Foi, não foi? Então… Deixe a alma retomar a calma…

Mas e se dessa vez… Bom, se era pra ser, vai ser. Só que quando um não quer, dois não brigam, não ficam juntos, não curtem juntos, não planejam juntos. E um não tá querendo. Chore mais um pouco. Deixe a alma retomar a calma e… tenha carinho por você, acima de tudo. Olhe no espelho. Veja se você merece estar nesse estado. Justo você! Não… Lembra do seu valor, que é enorme? Cuide-se, respire, tente dormir… O sonho pode ter se tornado pesadelo. Mas até dos pesadelos a gente acorda. Você vai acordar e compreender que o sonho ruim tinha algum significado.

Agora, se é noite, assoe o nariz, enxugue as lágrimas, deite e durma. Se é manhã, assoe o nariz, enxugue as lágrimas, tome um banho e enfia a cara nos compromissos. Acabou mais uma parte da sua história, que ainda tem muita coisa boa pra acontecer, tenho certeza. Amanhã é outro dia. E prometa que você partirá pra esse novo dia lembrando o quanto é especial. Deixe a alma retomar a calma… pra chegar a clarividência.

P.S.: “Bem-aventurados os corações flexíveis pois eles nunca se partirão.” ~ autor desconhecido

Crédito da imagem: Casal Sem Vergonha

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6 meses de Fale ao Mundo: os sentimentos de todos nós – e meu “muito obrigada”

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Ter metade do coração triste – mas a outra muito feliz. E é pela metade feliz que eu dou meu respirar mais fundo agora pra escrever. Porque se tem alguém que merece hoje meu carinho, meu respeito, minhas palavras mais doces são vocês, que lá atrás, há seis meses (e no decorrer deles), acreditaram profundamente, tantas vezes mais do que eu, nesse espaço de ideias, de emoções, de polêmicas, de sonhos em comum. Hoje, o Fale ao Mundo, completa meio ano! Parece que foi ontem, não? Eu sei! E quanta coisa já conversamos. Quantas vezes já choramos texto abaixo. Demos boas risadas. Descobrimos. Analisamos. Nos reconhecemos, nos encontramos, percebemos pensamentos iguais e tanta gente que pensa como a gente. Também brigamos e discordamos – o que eu acho genial! Ninguém nunca tem a verdade absoluta. E aprender a ouvir e a refletir é um dos sinais mais claros de que estamos evoluindo, pelos menos um pouquinho, como seres humanos.

Acabei de reler quase todos os posts do blog… Foi terapêutico. Escolhi quinze deles, entre os mais antigos, para publicar durante esta semana, a partir de hoje. Não são, necessariamente, os mais compartilhados, comentados, curtidos… Mas são aqueles que, de alguma maneira, falam de situações que todos nós, em algum momento, vivemos. Que servem pra todo mundo. Que serviu pra mim muito nessa hora que reli o que eu mesma escrevi – e que me ajudou a, vejam vocês, recordar o meu valor. Porque tem dias que a gente esquece (mesmo escrevendo constantemente sobre isso). Mas as palavras estão lá. A nossa troca de ideias também. Tudo reforçando que os dias melhores sempre voltam, por mais difícil que seja enxergar de imediato.

Em seis meses, recebi muitos elogios. O que me deixou mais feliz, no entanto, foi o quanto tantos de vocês se identificaram e disseram “é isso mesmo que eu tô sentindo”, “obrigada por me ajudar a ver dessa maneira”, “você me entende”. E olha, a recíproca é super verdadeira. Saber que vocês estão aí, do outro lado, me acompanhando nas alegrias, nas tristezas, nas rebeldias e nas revoltas, é o que dá sentido pra seguir em frente. O blog nasceu pela insistência dos amigos que afirmavam “você é uma escritora!”, “você tem que dividir esse seu jeito de ver o mundo!”. Morrendo de medo, acreditei ser escritora. Hoje, consigo me ver inteiramente nesse papel, mesmo que eu precise manter outras atividades para levá-lo adiante. Eu diria que é a parte de mim mais verdadeira. E descobri minha parte mais verdadeira graças ao apoio de quem vem comigo em cada post.

Já me disseram que eu me exponho demais em cada texto. Que seria um erro pessoal da minha parte. Afinal, pego muito das histórias que acontecem/aconteceram comigo pela vida ou com pessoas próximas a mim pra dar de exemplo sobre diversos aspectos do nosso cotidiano. Além claro, das minhas opiniões pessoais que, uma vez expressadas, me fazem dar a cara pra bater. Eu não ligo. Simplesmente, porque ninguém é invencível. É bom mostrar e perceber que nossas dores e conquistas são próximas. Saber que eu sofro, conforta um pouco seu sofrimento. Saber que eu consigo algo, te desperta o desejo de ir atrás também. E vice-versa. Nos completamos.

Então, a vocês, meus queridos, meu muito obrigada. Pela leitura, pela troca de ideias, pela companhia. Por darem mais sentido aos meus dias e me provarem que o Fale ao Mundo, de alguma maneira, ajuda as pessoas a acreditarem mais em si mesmas, a se emocionarem, a aprenderem um jeito ou outro diverso de enxergar ao redor. Obrigada por compreenderem que minha matéria-prima é não só a escrita, mas o que vem do nosso coração. Não é algo que agrade a qualquer um. Mas quem precisa de qualquer um quando se tem queridos sensíveis como vocês… E ainda vamos muito longe!

P.S.: A partir da semana que vem voltam os posts inéditos, ok? Pra ver quais foram os posts antigos escolhidos para comemorar os seis meses de Fale ao Mundo tem que curtir a fanpage do Facebook. Quem não curtiu ainda, vai lá! Obrigada! 🙂

Crédito da imagem: Suzane G. Frutuoso. Tratamento da imagem: Ligia Aguilhar

Faxina, casinha arrumada e uma boa vibe

faxina e vibe

Em tempos de PEC das Domésticas sou obrigada a revelar um talento pessoal, talvez maior até do que a escrita: sou boa de faxina. Cozinho ok. Detesto passar roupa. Lavar louça até que não é martírio. Nada, porém, me deixa mais realizada do que esfregar chão, aspirar pó, espanar móvel, deixar pisos com cheirinho de eucalipto. Pode rir. Pode achar bizarro. Mas a satisfação de ver tudo limpo é inexplicável. E olha que eu tô em boa companhia! Descobri que Luiza Brunet e Ivete Sangalo também são fanáticas por faxinar! Amam um balde, um rodo, um esfregão. Tenho turma.

Não bastasse a alegria de ver tudo em ordem, fazer faxina (eu já tinha notado há algum tempo) me ajuda a controlar emoções. Cientistas já publicaram várias pesquisas indicando que a atividade física realmente equilibra nossos sentimentos. Raiva, ansiedade, euforia, melancolia… A oscilação de sensações diminuem com os exercícios. Eu faço yoga, caminhada, musculação. Também sinto os efeitos positivos de me mexer. Mas aquele pano úmido deslizando em movimentos circulares pelo vidro da janela, ah, me deixa em êxtase… Pra desestressar, há quem corra, quem nade, quem pedale. Eu, faxino.

Além do bem-estar, limpar a casa tem um outro lado especial (sim, especial!), que funciona muito quando estou triste… É quase uma terapia. Ponho pra tocar alto aquela música de fossa e lá vou eu, esfregando, chorando, espanando, soluçando… A mágoa vai afogando e começo a prestar atenção em cada objeto que seguro. Porque tudo – tudo mesmo – que eu tenho dentro do meu kinder apê é de enorme valor sentimental. Representa o carinho de alguém, um momento bonito, uma conquista. São presentes dados pelos mais queridos. São presentes que eu me dei porque mereci. Não tem nada caro, nenhum móvel de designer, nada disso. Tem afeto. Tem boa vibe.

Não sou eu quem estou me gabando da energia bacana do apezinho, não! Uma amiga já disse que o legal da minha casa é, justamente, ter cara de… casa. E é verdade. Quando olho em volta percebo aconchego. Daqueles que você sente na casa da mãe, da vó, da tia… Tenho fotos das pessoas que amo, fotos que eu mesma tirei em viagens, cartas de amigos, quadros (alguns vieram do meu quarto de menina, da casa dos meus pais). Meus cds antigos estão lá… Parados, mas lá, como trilha sonora da minha vida… Meus livros, que me ensinaram e me emocionaram tanto… Tenho pequenas porcelanas portuguesas, pequenos cristais italianos… Minhas plantinhas… Meus paninhos bordados de enfeitar mesa e outros móveis… Minha geladeira cheia de ímãs que me lembram tanto o que eu já vi pelo mundo… O aviso dos ventos no terraço, com seu som melodioso, é capaz de espantar meus demônios. Os budas me protegem, assim como dois deuses indianos que tenho na parede, representando prosperidade e integridade.

Não é uma questão de ser materialista. Mas de lembrar que objetos são parte da nossa memória afetiva…

O resultado é a alegria de saber que as pessoas gostam de vir aqui. Dizem que se sentem melhor depois de uma tarde com café e bolo no meu sofá. Nem tudo está do jeito que eu queria. Muito do que era pra ser provisório se transformou em definitivo porque a grana encurta vez por outra… Mas tá bom. A casinha é bonitinha, mesmo com uma parede ou outra pra pintar. Me recorda o que e quem tenho de melhor na vida, que sou querida. E talvez por isso eu goste tanto de faxinar ela. Cuidar do lugar que vivo é como cuidar das minhas relações. A organização doméstica mantém em paz o meu coração, limpa as dores dele…

Crédito da imagem: Casal Sem Vergonha

Trate bem a quem te quer bem

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Não. Você não tem licença pra machucar. Não importa se o seu dia foi difícil, se riscaram seu carro, se você discutiu com alguém, se a comida no restaurante da firma estava péssima. Nem se a porta giratória do banco não desemperrou até você tirar tudo o que tinha dos bolsos. Nem se você levou uma fechada no trânsito. Se pegou muito trânsito. Não interessa se suas contas entraram no vermelho, se você está gripado, se seus planos deverão ser refeitos. Seus traumas de vida também não justificam ataques gratuitos às pessoas. Menos ainda àquelas que te querem bem.

Todos nós temos momentos complicados. Qualquer ser humano normal enfrenta oscilações de humor. Mas rompantes de grosseria e mudanças drásticas de atitudes impedem os demais de saberem como agir, como agradar, como chegar perto, como compreender sentimentos. É emocionalmente desgastante lidar com quem sempre acha um jeito de se sentir ofendido. E que não dá a mínima para o quanto ofende. Que não percebe que muitas das reações das quais é alvo estão diretamente ligadas às ações que antes direcionou à quem reagiu.

O mais triste é que, quase sempre, a fantasia de se achar no direito de humilhar é voltada justamente contra as pessoas que mais querem o bem e a felicidade do indivíduo. São familiares, amigos, parceiros dispostos a suportar situações desagradáveis porque, por amor e carinho, focam no que a pessoa tem de melhor. Porque todo mundo tem qualidades e um lado bom – mas não adianta transformá-lo, de repente, de novo, mais uma vez, no que há de mais obscuro.

Tenho um amigo que durante anos sofreu uma série de humilhações do pai. Nada do que ele fazia era suficientemente bom. O pai sempre o comparava com seus amigos – destacando, claro, aquilo que julgava fraqueza diante dos outros. Ele também se achava no direito de agredir verbalmente o filho. Era recorrente lembrar quanto de dinheiro já havia gasto desde que o rapaz nascera, quão estorvo ele era. Esse pai nunca se desculpou com meu amigo. Com presentes (roupas, livros, viagens, eletrônicos) é que uma espécie de “desculpas” meio que aparecia. O presente era entregue ao filho com um sorriso no rosto, como se nada tivesse acontecido.

Por muito tempo, meu amigo acreditou que esse era o jeito do pai amá-lo. Não aprendera de outra forma, coitado… Mas ele foi crescendo. Se tornou um profissional de sucesso e um cara querido pelos amigos. Chegou a ajudar financeiramente a família. O pai, porém, continuava ressaltando, quando desejasse, o quanto ele era incapaz. Voltava, então, a presentear o filho. Meu amigo cansou. Ele restringiu o convívio com o pai a algumas festas obrigatórias de família. Diz que assim, pelo menos, vive mais em paz. O pai, com frequência, telefona em tom carinhoso reclamando uma visita do rapaz. Mas a relação deles nunca mais será a mesma.

Uma hora colocar panos quentes na ferida aberta deixa de funcionar.

Trate bem a quem te quer bem, antes que seja tarde. Tratar bem de verdade, é bom lembrar, nada tem a ver com coisas materiais. Mas com gestos, tantas vezes simples. É um carinho na mão durante o café da manhã – preparado com o que o outro mais gosta! Uma mensagem de boa sorte no primeiro dia no emprego novo. Aquele beijo inesperado. Pegar pela mão pra caminhar na praia. Cuidar de todos os detalhes quando o outro está doente. É respeitar. É não constranger. É conversar pra compreender. É, principalmente, dar valor e preservar. É olhar com honestidade além de suas próprias limitações e não permitir que elas levem pra longe de você relações que são preciosidades.

Crédito da imagem: Casal Sem Vergonha

Uma perda de identidade coletiva

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A primeira disciplina que frequentei no mestrado foi Fundamentos de Sociologia, indispensável para quem não vem da área de ciências sociais (minha formação é em comunicação). Em Fundamentos aprendi mais sobre as teorias dos fundadores da sociologia, os considerados clássicos: o francês Émile Durkheim e os alemães Max Weber, Karl Marx e Friedrich Engels. Apesar de minha maior empatia com os ideais de Weber (que um dia explico aqui pra vocês), é inegável que o contato com as teses marxistas são essenciais e fascinantes pra quem deseja compreender a sociedade. Mesmo que muito do que ele tenha escrito já seja revisto e complementado por novos cenários da contemporaneidade. Marx foi pioneiro ao descrever a situação dos trabalhadores na Inglaterra – e mostrou o quanto o mundo do trabalho poderia ser cruel e injusto com a predominância da exploração de uns em detrimento do enriquecimento de outros.

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que acredito profundamente que aqueles que se esforçam no trabalho, dão duro, fazem a diferença, são criativos, determinados, inovadores e dispostos a realizar o melhor merecem sim usufruir de seu empenho. Merecem sim ganhar mais que aqueles que trabalham sem vontade, são encostados, só fazem mais do mesmo e têm no bater ponto a preocupação exclusiva. Merecem abrir seus próprios negócios e prosperarem muito. Isso não significa que empresas tenham o direito de tratar seres humanos como apenas mais um número, mais um mero detalhe de um processo macro.

Ninguém é inocente de achar que o desejo principal de um empresário não seria o lucro. E seu desejo é legítimo. Mas será mesmo que ele pode sugar a vida de seus colaboradores para não mexer em seus ganhos? Se aproveitar daqueles que são apaixonados pelo que fazem para os encarcerarem 12, 14 horas por dia, ou além, dando a eles a falsa ideia de que são tão bons e por isso só ganham mais e mais responsabilidades – quando na real o objetivo é fazer o sujeito acumular tarefas para não contratar mais funcionários e, assim, manter de forma equilibrada a divisão das atividades? Quão ordinária não é a inversão de um jogo que justifica para um profissional que a perda de sua qualidade de vida está diretamente ligada ao seu sucesso?

Esse é o drama de quem permanece numa companhia depois de muitas demissões. Ele sobrevive aos cortes. Mas se for minimamente sensível passa a se perguntar: por quê? O profissional que não entra no facão fica confuso sobre seu valor. Arrasado ao ver colegas indo embora. Aliviado por manter seu ganha pão. Acuado com a impossibilidade de não mais poder questionar, debater e exigir melhores condições de trabalho. Sua identidade é esfacelada. Porque a profissão é sempre parte da imagem que projetamos no mundo. Quando, porém, viramos reféns da oscilação (e queda) da área que escolhemos, quem somos nós?

A perda de identidade é coletiva. Atinge os que permanecem na empresa, sem saber o dia de amanhã. Atinge os que foram expulsos dos quadros de empregados, sem saber quando e se uma nova colocação será possível. Em profissões como jornalismo, que enfrenta uma de suas maiores crises, sem saber bem para onde correr diante das novas tecnologias, a perda de identidade coletiva está acontecendo agora, neste exato momento. Somos milhares vendo o mercado minguar, em busca de planos B (e C e D e o que aparecer). Observamos com tristeza que aquela reportagem bem feita, aquele texto bem escrito e o reconhecimento pelo trabalho bem executado já é quase coisa de outsider, de veículo alternativo, que a gente faz por prazer, pra preservar algo da nossa essência. Mas amor sozinho não paga contas…

Vejo amigos jornalistas completamente perdidos. Não são mais o João da Silva da revista tal ou Antônio Santos do jornal x. Sentem como se tivessem ficado sem parte do sobrenome. Percebem que toda a beleza de durante anos se prepararem para refletir e informar sobre os acontecimentos sociais não mais importa. É valor sem espaço pra ser valorizado. O trabalho dignifica o homem?! Sou obrigada a dizer que os atuais rumos do mercado de trabalho, especialmente em jornalismo, não me parecem ser dignos… O que há em formação é uma coleção de homens de alma danificada.

Crédito da imagem: Oleg Dou (Cultura Inquieta)

Essa mania que a gente tem de fazer sempre tudo igual

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Eu não queria perder minha yoga aquele dia. Já sabia que, com uma semana cheia de novos compromissos de trabalho e de estudo, perderia uma aula. Não gosto de me exercitar a noite. Sempre prefiro a atividade física logo cedo, depois de acordar. Mas ou eu iria na yoga às 18h ou deixaria minha prática de lado durante sete dias! Cheguei em casa, comi uma fruta, me troquei rápido e fui, mesmo cansada.

No caminho entre meu prédio e a academia, percebi um novo bairro. Engraçado que o trajeto é corriqueiro. Só nunca o faço no final da tarde. E tudo parecia tão variado. Como de fato era! Outras pessoas circulavam por ali. Crianças voltavam da escola. Uma galera diferente indo malhar. Um pouco mais de barulho de carros, já que era final de expediente e muitos saíam do serviço. As lojas iluminadas. O céu carregado em um tom de azul que é meu preferido pra ele… Ainda não é o azul profundo da noite, mas é mais escuro, num meio termo com a claridade. E, lá ao longe, ficam as nuvens entre um avermelhado e um dourado. Lindo.

A aula de yoga também foi diferente. O professor deixou as luzes da sala apagadas. Só com alguma claridade que vinha das janelas e da porta de vidro. Foi mais aconchegante. Me concentrei melhor. Posicionada de frente para uma das janelas, eu podia ver o céu se transformando e a noite chegando em definitivo. Fiquei feliz em ter ido. No caminho de regresso pra casa, novas sensações ao olhar meu bairro de outra perspectiva.

A gente tem uma mania boba de querer fazer sempre tudo igual. Claro que precisamos de alguma rotina pra vida funcionar, ter um mínimo de organização. Mas como é bom se permitir experimentar o diferente! E que pode acontecer até por meio de uma simples mudança de horário ou jeito de realizar as coisas. Ninguém precisa radicalizar (se bem que tem momento que isso é fundamental… enfim, assunto pra outro post). Mas a ciência, inclusive, já comprovou que ao agir às vezes de uma maneira que não é a usual, o cérebro trabalha pra compreender a informação diferente que recebe. Ele é estimulado. Provavelmente, foi o que ajudou a intensificar minha concentração na yoga.

No último fim de semana, fui com amigos para uma cidade do interior de São Paulo. Saí da rotina completamente. Pela primeira vez passei a noite numa barraca. Baguncei os horários das refeições pra aproveitar a piscina. Parei pra ver o sol se por do alto de uma pedra que dava pra um vale. Conversei com gente nova, com profissões e cotidianos diversos do meu. Meu cérebro devia estar dando uma festa, jogando confete e serpentina pra cima, com música no último volume, de tanta informação fresquinha. Passei uma manhã inteira estudando um texto longo e denso do mestrado debaixo de uma árvore, deitada numa rede. No geral, estudo na mesa de casa ou da biblioteca. Alcancei tamanha compreensão do texto que já penso se não compensa colocar uma rede e investir em mais plantas ainda para meu terraço aqui do apê.

Enfrentar o novo, por menor que ele seja, pode causar alguma insegurança. Mas olha, você não tem nada a perder. Se não é algo que coloque sua vida ou a de outra pessoa em risco extremo, tenta. O máximo que vai acontecer é você não gostar. Aí, basta não fazer mais. Só desconfio que as vantagens serão maiores – e o prazer de quebrar a rotina, mesmo que aos pouquinhos, vai superar seus temores e a monotonia da certeza.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

Essa mania de achar que alguém tem inveja de você (e costuma ser bem o contrário)

inveja

Das coisas que eu acho chatas no mundo, poucas são tão irritantes quanto a mania que algumas pessoas têm de se considerarem constantemente invejadas. É aquele povo que fica falando que “o lugar tá com uma vibe ruim”, “fulano tem uma energia negativa”, “ciclana fica me copiando”, “ela faz tudo pra ser igual a mim”, “ele deseja o que eu tenho”, e por aí vai. Não desacredito na inveja. Não descarto sua influência num ambiente e nem sua interferência nas relações. Simplesmente porque é uma característica do ser humano. Ela é parte da nossa obscuridade emocional. Um sentimento natural, que só se torna problema de fato dependendo da dose.

A inveja pode até ser útil quando serve pra impulsionar vontades e fazer com que se corra atrás de objetivos. Claro, isso é melhor se for apenas efeito de admiração, de se espelhar no outro de maneira saudável. Só que nem sempre é assim e muita gente segue em frente é graças mesmo a um incômodo no peito pela vitória alheia. Também não significa que a pessoa seja do mal, não tenha boa índole. Nada disso. Psicologicamente, pode existir algum desequilíbrio, a falta do desenvolvimento de crenças positivas sobre seu valor que bloqueiam a capacidade de olhar aquilo que se tem e se conquistou com orgulho, com amor próprio. É o eterno achar de grama do vizinho mais verde.

O curioso pra mim, no entanto, é que o discurso da inveja costuma vir justamente daqueles que mais a sentem. Pode reparar. Quem muito diz que o outro sente inveja disso e daquilo é um tremendo invejoso. Carrega uns muitos recalques pela vida. Fica desconfortável quando alguém conta que um amigo, conhecido ou familiar “comprou”, “ganhou”, “viajou”, “foi”, “fez”, “conseguiu” o que ele desejaria também.

Aí, surge mais um comportamento intrigante: o minimizar da conquista do “concorrente”. A festa dele sempre vai ser a melhor, o relacionamento é o perfeito, o lugar que ele compra roupa é incomparável, o restaurante que frequenta é o badalado, o lugar em que estudou é mais reconhecido, o destino onde passou férias é mais exótico e os planos futuros, ah, são muito ousados, garantia de sucesso! Tudo do invejoso é melhor nas rodas de conversa. Dos demais nunca é tão bom assim.

A tentativa aqui é de rebaixar ao máximo aquele de quem se sente a inveja pra parecer melhor, mais vencedor, mais satisfeito, mais feliz, mais bem-resolvido. Fachada. Só te coloca pra baixo quem teme sua capacidade. Quem tem certeza de que não consegue fazer igual ou melhor. Quem sabe que tem mais limitações do que gostaria. Pessoas de bem consigo mesmas, satisfeitas com os rumos da própria vida, ficam genuinamente contentes por verem os que estão a seu redor crescendo, seja profissionalmente ou pessoalmente. Não perdem tempo remoendo as sensações amargas do velho olho gordo.

No geral, basta dar de ombros pra turma da inveja. A não ser que você seja vítima de um invejoso capaz de te prejudicar, transformando a admiração torta em raiva. Fofocas, calúnias, bullying, difamação são situações realmente ruins que podem, sim, nascer da inveja. Nesse caso, não tenha medo de tomar medidas enérgicas contra o invejoso que extrapola, inclusive judiciais. Mas também não esquente a cabeça se for algo menor. Porque, no fundo, o invejoso e seu modo de agir são sacados por muita gente. A rotatividade das amizades é alta (ninguém aguenta). Um exagero aqui, outro ali, e logo ele deixa de ser levado a sério por todo mundo. Vai, obviamente, continuar se vangloriando. Só que uma hora, apenas para as paredes.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta