João, o menino que me ensinou o amor incondicional

tia

“O vóoooo!!! Cadê a madrinha pra gente brincar de aventura no quintal?” Um leve sorriso apareceu no meu rosto. Deitada na cama de solteira do meu quarto de menina, que meus pais preservam na casa deles, ouvi a pergunta feita por uma vozinha doce, de quem tem pressa de se divertir – porque a vida tá aí pra isso! Era perto das 16h e eu tirava um cochilo depois do almoço: bacalhau ao forno para a Sexta-feira Santa. Meio sonolenta, levantei. O amor incondicional me chamava.

Eu ainda não sou mãe. A relação mais próxima com algo que me faz desconfiar do que pode ser a maternidade é a que tenho com meu sobrinho. João já logo completa oito anos. É lindinho, cabelo aloirado, boquinha de coração, magrinho, branquelinho. Sorri com os olhinhos castanhos. Ama futebol, videogame, aquele tal daquele boneco Max Steel (quem tem um menino dessa idade na família sabe o que é). Agora, anda empolgado com os primeiros golpes no karatê. Toda semana, por telefone, me conta as novidades da sua vidinha cheia de cor e já com compromissos como festinhas, cinema e visitas à casa dos amiguinhos.

O bom de ser tia é que você ama, muito, incondicionalmente. Não precisa, no entanto, fazer o papel diário do “come tudo!”, “calça já o sapato!”, “tá na hora de fazer lição!”, “chega de computador por hoje!”, “vai dormir a-go-ra!”. Eventualmente, você até faz. Mas a regra não é essa. Ser tia tem um lado de amizade e companheirismo. Tem a magia de ser também responsável pelo sobrinho, mas de um jeito mais encantador… Minhas tias foram assim pra mim. As lembranças que tenho delas na minha infância são sempre relacionadas a brincadeiras, fantasias, alegrias, comidas gostosas… Muito carinho. Muita sensação de ser amada – como ainda hoje, quando dou um abraço em cada uma.

A primeira vez que eu e João nos encontramos foi ainda na maternidade. Ele acabara de nascer e sair do centro cirúrgico num bercinho transparente, berrando. Eu, olhava meio assustada pra ele. Amassadinho, meio roxinho, meio vermelhinho. Tinha cabelo, pelo menos. Levei uma bronca master do médico porque bati uma foto da carinha dele com flash (esqueci, gente!) e o menino começou a gritar mais.

Aí, algum desavisado me deixou sozinha com ele e minha cunhada (dopada da anestesia) a sós no quarto. Ele berra mais. Ela diz pra mim, meio grogue, “pega ele no colo”. Eu não sabia o que segurar primeiro. A cabeça caía pra um lado, o braço pro outro… que molinho! Fui salva por uma enfermeira. E após esses dois primeiros contatos dramáticos, consegui finalmente olhar pra ele com calma, enquanto dormia. “Será que a gente vai se entender, cara?”, falei ao meu pequeno serzinho em pensamento. Ele deu um suspirinho. Eu entendi que a gente já tinha virado amigo e daria tudo certo. Só precisávamos de treino tia-sobrinho. O amor em sua mais alta potência já estava lá.

Além de tia do João, também recebi a honra de batizá-lo. E quando meu irmão e minha cunhada me fizeram o convite pra ser madrinha, pensei logo que gostaria de passar a ele uma das coisas que mais me faz feliz na vida… Que me ajuda a compreender as pessoas e suas diferenças… Que faz com que eu me sinta livre e dona de mim… Eu desejo muito que ele seja destemido e tenha a certeza de que pode ganhar o mundo. Então, quando João tinha uns cinco anos, ganhou de mim um pequeno globo terrestre. Sempre que viajo tento trazer uma lembrancinha do lugar pra ele. Mostro fotos de outros países. Dei um livrinho pra aprender a falar italiano.

Quero que meu pequeno compreenda que longe não existe. Impossível é relativo. Que a gente tem que fazer por merecer. Que onde quer que ele vá, a madrinha sempre irá junto com o coração, apoiando. E enquanto seus vôos ainda são curtinhos, até no máximo a árvore cheia de acerola ali do quintal, aproveito pra enchê-lo de beijinhos e abraços. Sei que um dia a ligação pode vir lá de Londres, com um “madrinha, acabei de ver o Big Ben!”. E por mais que eu sinta saudade, serei, junto com ele e por ele, muito feliz.

Crédito da imagem: blog Casal Sem Vergonha

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2 respostas em “João, o menino que me ensinou o amor incondicional

  1. Oi Suzane!

    De fato ser tia é uma das melhores coisas que existe! É tão bom receber o carinho dos pequenos! Eu tenho uma sobrinha e vários filhos de primos que eu considero como sobrinhos. Acho uma delícia ser chamada de tia!

    Bjs,

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