Oliver, o menino que me ajudou a entender que não estou no controle

controle

“Presta atenção, heim?! Eu não posso morrer agora! Meus pais não podem passar por uma tristeza dessas, meu irmão precisa de mim!” Minha ordem era diretamente pra Deus, enquanto eu segurava firme nos braços da poltrona do avião, que chacoalhava no meio de uma tempestade. O vôo entre Veneza e Madri foi um pesadelo. E, como resposta a minha falta de educação e petulância, Ele deve ter mandando de propósito o tranco mais apavorante da viagem logo em seguida. Me redimi. Pedi desculpas. Pedi pra ser salva.

Eu nunca tive medo de avião. De uns tempos pra cá, porém, qualquer turbulência já me deixa um pouco mais tensa. Às vezes, acho que é a idade e sua possibilidade óbvia de me aproximar da morte. Mas também consigo perceber que o problema do avião é me colocar naquela famosa sensação de impotência. De não ter pra onde correr se alguma coisa der errado. De colocar, literalmente, a vida nas mãos de alguém – no caso, o piloto. E ainda ser um alguém estranho.

Mas antes do vôo ir parar no meio de nuvens que pareciam anunciar o fim do mundo (do meu, pelo menos), meu foco na viagem era Oliver, um menininho espanhol, de uns cinco anos. Oli (como era chamado carinhosamente pelo pai, com quem viajava) estava impaciente. Não queria trocar a bermuda pela calça de moletom que o pai insistia que ele usasse pra não sentir frio. Pra protestar, resolveu chutar fortemente o assento em sua frente. O meu. Eu estava bem de mau humor com a birra do pequeno, que choramingava e chutava minhas costas. Dei uma olhada pra trás atravessada, pra ver se o pai tomava providência. Ele mandou o filho ficar quietinho, com uma voz amorosa. Achei fofo e até me arrependi de ter ficado com raiva da situação. Oli, finalmente, se comportou.

Veio a tempestade. Copos recolhidos. Pessoas de olhos fechados, mãos travadas, segurando firme. Oli e o pai, que brincavam com um joguinho, ficaram em silêncio. O avião todo ficou quieto. Faltava uma hora ainda pra chegar em Madri. Uma hora longa, que parecia bem incerta. Então, Oli quebra o medo. “Papi, no me gusta como esta el plano. Pero, tenemos que descansar mientras el piloto trabaja. No podemos hacer nada ahora. ¿Vamos a jugar otra vez?” Ao convidar o pai para brincar com ele novamente, do alto de sua inocente e doce sabedoria infantil, Oli mostrou para os adultos assustados a única verdade daquele momento: não dava pra fazer nada. No fundo, quando é que temos o controle real das coisas?

Temos planos. Projetos de curto, médio e longo prazo. Isso é saudável. Ajuda a construir e organizar a vida. Mas é tudo apenas um espectro dos nossos desejos. Não sabemos se eles vão se realizar de fato. Simplesmente, não temos o controle porque ações nossas estão interligadas a de outros seres humanos, suas vontades, responsabilidades, compromissos. Claro, ninguém deve se acomodar por aí, muito menos aproveitar pra culpar terceiros por suas dificuldades. Mas a gente precisa relaxar. Procurar fazer o melhor – sabendo que “melhor” nem sempre é “perfeição”, mas “suficiente”. Viver o presente com todo amor e alegria possíveis, sem precisar dar a última palavra sempre, sabendo quando nem todas as verdades precisam ser ditas. E tanta coisa a gente pode deixar pra lá…

O pequeno Oli, em meio ao meu temor, me chamou pra realidade que mais importa: o agora. É aqui que a vida está acontecendo. Amanhã já foi. O futuro? A gente planeja, sim. Mas não controla. Então, que nosso mantra seja com base no que diz mais ou menos a foto aqui do post: “A vida é uma ousadia ou nada”. Oli ousou ao continuar brincando e rindo com o pai numa atmosfera tensa. Acho mesmo que qualquer um precisa da ousadia de baixar expectativas pra ser mais sereno, mais feliz. E saber brincar até durante a tempestade.

Crédito da imagem: Quark Expeditions

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2 respostas em “Oliver, o menino que me ajudou a entender que não estou no controle

  1. Oi Suzane!
    Tinha tempos que eu não lia seu blog. Amei esse texto! Sabe que eu vivi uma situação bem parecida… Eu estava num voo de Paris para Barcelona, e tinha uma família nas poltronas ao lado da minha. O avião começou a chacoalhar, eu segurei firme (como se fosse adiantar alguma coisa!) e a menininha que estava ao meu lado começou a gargalhar! Ela ria, e dizia que parecia uma montanha russa, e na mesma hora eu comecei a relaxar um pouco. Do mesmo jeito que aconteceu com você, não tinha nada a ser feito naquela situação, e aquela criancinha me ensinou uma lição naquele dia! Eu tento sempre lembrar dela quando estou no meio de turbulências, tento ouvir a sua gargalhada para amenizar a situação! E acho que cada vez mais devemos jogar nas tempestades, devemos rir das turbulências e devemos viver agora, porque é a única coisa que de fato temos!

    Um beijo,

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