Essa mania que a gente tem de se vitimar

medoxsonhos

“Você não pode achar também que tudo é machismo…” Ouvi a frase de um amigo querido, depois de almoçarmos num restaurante no fim de semana. Fiquei uns segundos quieta. Tentei argumentar. Mas dessa vez eu realmente não tinha os melhores argumentos. Pra mim, o garçom servira os pratos numa hierarquia injusta. Na minha percepção, ele havia servido as pessoas na mesa pela segunda vez dando preferência aos homens, baseado na ideia de que homem come mais ou algo do gênero. Não foi bem assim. Eu peguei a ação dele no meio do caminho – quando atendera outras mulheres antes. E olha, tenho muitos defeitos… Admito que ainda preciso evoluir razoavelmente como ser humano. Mas uma qualidade da qual me orgulho é saber ouvir e parar pra refletir se meu julgamento está errado ou não.

A chamada de atenção me fez pensar se eu, que luto tanto contra preconceito de todo tipo, não acabei sendo preconceituosa. Na verdade, não é incomum pessoas que foram vítimas de preconceito no passado se tornarem carrascas no futuro. É um meio de sobrevivência emocional, muitas vezes inconsciente. Mas o exagero de enxergar uma ofensa em qualquer atitude cria uma espécie de efeito contrário, botando lenha na fogueira pra que novos preconceitos ganhem força e intolerâncias se perpetuem. Há quem opte até por viver apenas entre “iguais” e evitar ao máximo o contato com aqueles que não sejam da sua tribo. Tudo para grupos se fortalecerem e se defenderem. É compreensível e justificável. Não pode, porém, se tornar mais uma arma social, um meio de segregação dentro da sociedade.

Curiosamente, semana passada conheci um novo autor no mestrado, que aborda justamente a hostilidade daqueles que confundem e/ou interpretam comportamentos alheios com eternos olhos de vítima. O sociólogo búlgaro (naturalizado francês) Tzvetan Todorov afirma no livro “O homem desenraizado” que há quem prefira renunciar à autonomia como indivíduo para se “pensar sistematicamente como não-responsável por seu próprio destino”. Ele lembra que todo mundo tem pelo menos um parente que se faz de vítima. Diz que “um membro da família se ocupa do papel de vítima porque, a partir deste fato, ele pode atribuir aos que o cercam um papel bem menos vantajoso, o de culpado. Ter sido vítima lhe dá o direito de se lamentar, de protestar e de reclamar o dia inteiro; se não romperem toda a ligação com a pessoa, os outros são obrigados a atender seus pedidos”.

O que espanta Todorov é que essa atenção que a vítima em família consegue assegurar entre os seus de maneira torta ganha espaço nos dias atuais com o tal papel de vítima sendo “reivindicado em praça pública”. É claro que a pessoa submetida a um preconceito tem o direito a compensações. A autopiedade, contudo, não deve ser colocada clandestinamente no lugar da justiça. Muitos são aqueles que, com medo de humilhações racistas, xenofóbicas, machistas, entre outros preconceitos, se fecham em grupos, adotando perigosos comunitarismos. Porque aí não é impossível a troca do ideal de integração, que é um dos fatores que transformam a sociedade em um meio igualitário, pelo de segregação. Encontrar-se entre os seus, entre aqueles que viveram as mesmas experiências, traz segurança. Não é saudável, no entanto, que a identificação estabeleça apartheids culturais.

O status, por assim dizer, de vítima, a chance de trocar ideias e sentimentos com quem viveu o mesmo que você e de denunciar sofrimentos impostos cruelmente, são aquisições da democracia. E elas devem ser aplaudidas e festejadas. Mas o desejo de se enclausurar no passado para justificar as dores que permanecem não ajuda muito a ir adiante. O cotidiano se torna limitado. E o que era pra ser símbolo de reparação pode desembocar em ainda mais agressão.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

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2 respostas em “Essa mania que a gente tem de se vitimar

  1. Ola, acho que por ai mesmo..preconceito existe mesmo, mas precisamos saber medir, pois existe o preconceito inconsciente.
    Acho que depende muito do sentido da gente , porque quanto mais analisamos uma atitude mais profunda ela se torna, portanto muitas vezes melhor eh esvaziar a mente e ficar em paz. So se manifestar quando o preconceito eh direto e reto, com nome e sobrenome.
    Infelizmente a vitima existe, realmente eh bem mais facil ser uma de imediato, mas acho que eh mais facil ainda assumir as responsabilidades e partir para a outra, porque a vida eh muita bela, o tempo eh curto e as descobertas nos esperam.
    Suzane sempre bom refletir em segundas feiras naum eh mesmo? Gosto muito de refletir com vc, beijos
    Marcelo

    • Esse é o caminho, Marcelo. E obrigada por refletir junto comigo às segundas-feiras!
      É sempre bom ouvir/ler mais olhares sobre os temas…
      Também tem post quartas e sextas, tá? :o)
      Bjão e bom dia!

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