Uma perda de identidade coletiva

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A primeira disciplina que frequentei no mestrado foi Fundamentos de Sociologia, indispensável para quem não vem da área de ciências sociais (minha formação é em comunicação). Em Fundamentos aprendi mais sobre as teorias dos fundadores da sociologia, os considerados clássicos: o francês Émile Durkheim e os alemães Max Weber, Karl Marx e Friedrich Engels. Apesar de minha maior empatia com os ideais de Weber (que um dia explico aqui pra vocês), é inegável que o contato com as teses marxistas são essenciais e fascinantes pra quem deseja compreender a sociedade. Mesmo que muito do que ele tenha escrito já seja revisto e complementado por novos cenários da contemporaneidade. Marx foi pioneiro ao descrever a situação dos trabalhadores na Inglaterra – e mostrou o quanto o mundo do trabalho poderia ser cruel e injusto com a predominância da exploração de uns em detrimento do enriquecimento de outros.

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que acredito profundamente que aqueles que se esforçam no trabalho, dão duro, fazem a diferença, são criativos, determinados, inovadores e dispostos a realizar o melhor merecem sim usufruir de seu empenho. Merecem sim ganhar mais que aqueles que trabalham sem vontade, são encostados, só fazem mais do mesmo e têm no bater ponto a preocupação exclusiva. Merecem abrir seus próprios negócios e prosperarem muito. Isso não significa que empresas tenham o direito de tratar seres humanos como apenas mais um número, mais um mero detalhe de um processo macro.

Ninguém é inocente de achar que o desejo principal de um empresário não seria o lucro. E seu desejo é legítimo. Mas será mesmo que ele pode sugar a vida de seus colaboradores para não mexer em seus ganhos? Se aproveitar daqueles que são apaixonados pelo que fazem para os encarcerarem 12, 14 horas por dia, ou além, dando a eles a falsa ideia de que são tão bons e por isso só ganham mais e mais responsabilidades – quando na real o objetivo é fazer o sujeito acumular tarefas para não contratar mais funcionários e, assim, manter de forma equilibrada a divisão das atividades? Quão ordinária não é a inversão de um jogo que justifica para um profissional que a perda de sua qualidade de vida está diretamente ligada ao seu sucesso?

Esse é o drama de quem permanece numa companhia depois de muitas demissões. Ele sobrevive aos cortes. Mas se for minimamente sensível passa a se perguntar: por quê? O profissional que não entra no facão fica confuso sobre seu valor. Arrasado ao ver colegas indo embora. Aliviado por manter seu ganha pão. Acuado com a impossibilidade de não mais poder questionar, debater e exigir melhores condições de trabalho. Sua identidade é esfacelada. Porque a profissão é sempre parte da imagem que projetamos no mundo. Quando, porém, viramos reféns da oscilação (e queda) da área que escolhemos, quem somos nós?

A perda de identidade é coletiva. Atinge os que permanecem na empresa, sem saber o dia de amanhã. Atinge os que foram expulsos dos quadros de empregados, sem saber quando e se uma nova colocação será possível. Em profissões como jornalismo, que enfrenta uma de suas maiores crises, sem saber bem para onde correr diante das novas tecnologias, a perda de identidade coletiva está acontecendo agora, neste exato momento. Somos milhares vendo o mercado minguar, em busca de planos B (e C e D e o que aparecer). Observamos com tristeza que aquela reportagem bem feita, aquele texto bem escrito e o reconhecimento pelo trabalho bem executado já é quase coisa de outsider, de veículo alternativo, que a gente faz por prazer, pra preservar algo da nossa essência. Mas amor sozinho não paga contas…

Vejo amigos jornalistas completamente perdidos. Não são mais o João da Silva da revista tal ou Antônio Santos do jornal x. Sentem como se tivessem ficado sem parte do sobrenome. Percebem que toda a beleza de durante anos se prepararem para refletir e informar sobre os acontecimentos sociais não mais importa. É valor sem espaço pra ser valorizado. O trabalho dignifica o homem?! Sou obrigada a dizer que os atuais rumos do mercado de trabalho, especialmente em jornalismo, não me parecem ser dignos… O que há em formação é uma coleção de homens de alma danificada.

Crédito da imagem: Oleg Dou (Cultura Inquieta)

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