Recuperando a fé na humanidade

fé nas pessoas

Não tá fácil, não. Acreditar no ser humano anda um tremendo desafio. Muito egoísmo, falta de generosidade, de educação, intriga pra lá e pra cá, um festival de arrogâncias. Tem por aí também um pessoal com caráter, digamos, elástico, sabe? Nem tudo, porém, está perdido. Como eu sempre digo: tem muito pilantra no mundo, mas também tem muita gente bacana. Tem quem seja do bem e cultive o desejo sincero de passar essa boa vibe pra frente. E consegue fazer isso, inclusive, com gestos simples, daqueles que pela delicadeza embutida acabam surpreendendo, emocionando.

Na noite de terça-feira, quando a temperatura despencou em São Paulo e veio acompanhada de uma chuva constante, decidi desistir de uma baladinha pra ficar no conforto quentinho do lar. Era perto das 22h. Maroon 5 tocava no meu note. De repente, recebo um bilhete por baixo da porta da sala. Dizia assim: “Você ouve música um pouco alto a noite. Mas não nos importamos porque a seleção musical é sempre muito bonita e sensível. Obrigada!! Apt. Tal”. O casal vizinho, do apê ao lado do meu, mandou o recadinho. Eles poderiam ter batido na minha porta e me xingado. Ou terem me entregado pra síndica. Ao invés de criarem picuinha, optaram pela classe com uma pitada de doçura.

Estamos tão desacostumados com gentilezas e tão acostumados com reações completamente desmedidas das pessoas que são contrariadas, que uma atitude assim impressiona. Coloquei na minha timeline do Facebook o conteúdo do bilhetinho: 102 curtidas e 32 comentários de amigos admirados e felizes por descobrirem que partir para a ignorância não é a vontade de todos nós. Que há sim quem se preocupe em ser cuidadoso com seus atos, de um maneira que não venha a ferir o outro.

A boa notícia é que esse é apenas um exemplo de tantos. Percebemos pouco porque quase sempre estamos imersos num stress se fim, prontos pra reclamarmos da vida mais do que contemplarmos o que e quem ela nos presenteia de positivo. Acabei lembrando de outra coisa que vem me chamando a atenção. Praticamente em frente ao meu prédio tem uma faixa de pedestres. Não há semáforo. Logo, quem deseja passar por ali precisa contar com a boa vontade do motorista. E notei, de um ano pra cá, que ao apenas colocar o pé na faixa muitos carros já diminuem a velocidade, vão parando para as pessoas passarem. Numa cidade dominada pelos carros chega a ser a glória.

É verdade que agora tem a história da lei que multa o motorista que não parar para quem estiver na faixa e também o poder que os pedestres ganharam ao “brecarem” veículos em geral com apenas um movimento do braço. Só que eu nunca fiz esse movimento de braço pra atravessar na faixa em frente ao prédio. E nunca tem fiscal de trânsito na minha rua. Significa que se o sujeito não parar pra mim, ele não vai levar multa. É conscientização realmente. Vou mais longe: é um desejo sincero das pessoas diminuírem um pouco a tensão diária de uns com os outros.

Ainda não se convenceu? Bom, olhe ao redor. Duvido que você não encontre gente educada, simpática, amigável, cuidadosa, até mesmo com um estranho, que se esforça em manter a “atmosfera” um pouco mais leve. E seja você também capaz de gestos que suavizam a convivência entre as pessoas. Pra inspirar, eis um link que adorei de um site americano com 21 imagens que restauram nossa fé na humanidade: http://www.buzzfeed.com/expresident/pictures-that-will-restore-your-faith-in-humanity. Porque eu acredito que sempre tudo pode ser melhor. As pessoas também.

Crédito da imagem: blog Casal Se Vergonha

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Das coisas que eu amo na vida

coisas que amo

O post passado foi sobre umas tantas coisas e atitudes que existem por aí que me tiram do sério. Hoje, resolvi listar aquelas atitudes e situações que eu amo! Que fazem meus dias mais felizes e me ajudam a recuperar alguma fé na humanidade. Porque tem muito mala e salafrário nesse mundo. Mas também tem muita gente boa e momentos especiais… 🙂

Gente que torce pela gente
Gente que vem ajudar
Gente capaz de dizer o que pensa sem ferir ou desrespeitar a crença do outro
Gente que sabe a hora de parar de discutir – mas que sabe quando enfrentar uma boa briga
Gente que te entende pelo olhar
Gente que elogia
Gente que sabe a hora de ficar junto, só pra dizer “tô aqui”, sem sermão
Gente que dá sermão quando é inevitável e pelo meu bem
Gente que quer se explicar
Gente que sabe ouvir
Gente que admite não entender alguma coisa – mas se dispõe a aprender
Gente que quer melhorar como ser humano
Gente que entende que não existe um só tipo de inteligência
Gente que compreende a importância da inteligência emocional
Gente que se emociona
Gente que se permite questionar tudo o que viveu até aqui
Gente que não tem medo de tentar
Gente que admite que não conseguiu, e tudo bem. É da vida
Gente que pede desculpas
Gente que se perdoa
Gente que diz “obrigada”, “por favor” e “bom dia” (adoro “bom dia”, mais do que “boa tarde” ou “boa noite”)
Gente que sorri com os olhos
Gente que dá sorriso largo quando cumprimenta
Gente que chora junto quando vê quem gosta chorar
Gente que diz “já chega, para de chorar!”
Gente que é sem vergonha entre quatro paredes

Abraço da mãe
Sorriso que o pai abre quando vai me buscar na rodoviária
Os olhinhos do meu sobrinho quando me vê chegando e a exclamação cheia de emoção “madrinha!!!”
Amigos que dirigem e me dão carona
Amigos que entendem tudo de tecnologia e me ajudam com isso
Amigos que aturam quando meu mau gênio sai da lâmpada
Café
Comida
Meu arroz
Viajar
Planejar roteiros de viagem (mesmo que eles demorem pra acontecer)
Travesseiro da Nasa
Edredon
Meia fofinha
Calcinha de algodão
Cheiro de grama molhada
Cheiro de goiaba
Maresia
Andar na praia
Boa conversa
Boa companhia
Boas notícias
Rapazes de barba
Música
Dançar na sala
Livros
Cinema
Shows em estádio
Caminhar pra colocar os pensamentos em ordem
Yoga
Lua cheia
Sol se pondo
Tom de azul do céu quando o dia vai virando noite
Bicho de pé (o docinho rosa, claro)
Sopa em noite fria
Uma noite bem dormida (dependendo da época, uma raridade pra mim)
Uma noite bem acompanhada
Ficar altinha depois de beber vinho (acho graça em tudo)
Entrevistas
Escrever
Estudar
Ouvir quem pensa diferente de mim
Dinheiro pra ter conforto, segurança e realizar sonhos
Minha tatuagem e o significado dela: Liberté
Ser neo-ruiva
Assistir tempestades da janela da minha sala
Minha capacidade de sempre acreditar que vai melhorar, que vai dar certo

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

Das coisas que eu detesto na vida

bichinho bravo

Tem muita gente legal no mundo. Mas como tem gente chata, arrogante, com atitudes duvidosas também! Fora aqueles detalhes do cotidiano que irritam. Tipo, correr atrás do ônibus, sabe? E eu, que adoro fazer listas, preparei essa das coisas que eu detesto na vida. Depois vai ter uma das coisas que eu gosto! Por enquanto, vejam se concordam com a lista do que me tira do sério!!!

Gente que acha que sinceridade é grosseria
Gente que se acha engraçada contando piada machista/racista/preconceituosa
Gente que acha sua verdade absoluta
Gente intransigente
Gente ingrata
Gente que não tem um mínimo de sangue correndo forte pela veia e diz amém pra tudo
Gente que se acha a maior vítima do universo e que todo mundo tem sorte, menos ela
Gente que usa as dificuldades que já enfrentou pra ficar reclamando para o resto da vida
Gente que usa um passado de problemas como desculpa pra comportamentos hostis no presente
Gente que não faz o trabalho como deveria e atrapalha o trabalho dos outros
Gente que tira onda quando eu digo que gosto e acredito em astrologia
Gente sem palavra, fofoqueira e manipuladora
Gente consumista que gasta dinheiro com bobagem e depois fica de olho grande quando o outro compra um apê, faz uma viagem legal, etc.
Gente que fica de cara amarrada e faz picuinha por qualquer coisa
Gente que para pra pensar pra que lado vai no alto da escada rolante do metrô – com uma multidão vindo atrás
Gente que não para pra pedestre que tá atravessando na faixa

Dar aquela corridinha ridícula pra alcançar o ônibus
Caixa de supermercado com cara de impaciente segurando seu cartão com a nota fiscal, quase te expulsando dali, enquanto você ainda ajeita as compras
Chegar na aula depois de enfrentar um baita trânsito e descobrir que o professor não vai porque tá gripado
Descobrir que meu batom preferido vai sair do mercado
Esfriar no meio da madrugada e lembrar que o edredon tá lá no alto do armário, no lugar mais difícil de alcançar
Ficar sem café de manhã
Ficar sem café após o almoço
Jejum de 12 horas pra exame de sangue
Dermatologistas que insistem que a única salvação depois dos 30 são procedimentos tipo botox
Comida fria
Pouca comida
Sentir fome e não ter nada pra tapear o estômago
Dar aquela topada com o dedão no pé da cama (eu sempre faço isso)
Dar aquela topada com o dedinho no sofá (eu sempre faço isso)
Dar com a cabeça no armário da cozinha (eu faço isso dia sim, dia não)
Ter que explicar pela milhonésima vez para meus amigos tecnológicos que não me sinto uma pária da sociedade por não ter um smartphone de última geração
Porteiro interfonando errado pra meu apê, principalmente quando é antes das 10h da manhã
Minha corriqueira incapacidade de ativar o cérebro antes de ativar a língua quando tô brava
Gastar dinheiro com remédio
O mau humor da atendente da biblioteca onde retiro livros
Meu joelho ruim
Meu sono perturbado
Porta giratório de banco e seu detector de metais que só detecta moeda, guarda-chuva e afins (se eu tivesse armada duvido que me paravam, juro!)
Errar a senha e bloquear o cartão
Sapato que machuca o pé
Tempo seco e poluído
Internet e TV a cabo fora do ar
O preço absurdo que se paga por internet e TV a cabo no Brasil e o serviço ruim que é oferecido
Começar aquela tempestade quando tô no meio da rua sem guarda-chuva e de sandália
Passar roupa

Nem é tanta coisa, vai? 🙂

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Crédito da imagem: Quark Expedition

Garotas, cuidem-se. Saúde vem antes de vaidade

saúde modigliane

Corpo em cima, unhas feitas, cabelos sedosos, pele com o mínimo de sinais do tempo, e por aí vai. Ser vaidosa (sem exageros e neuroses) é saudável e desejável. Mas eu ando meio preocupada com a mulherada… Vejo umas tantas amigas e conhecidas minhas em busca de uma aparência bonita. Muitas delas, porém, cuidam tanto do lado de fora que esquecem de como anda o organismo em geral. Não passam seis meses sem a visita ao dermatologista. Passam até anos sem a consulta com o ginecologista – e isso é grave.

Observei quantas meninas compartilharam nas redes sociais a notícia sobre a atriz Angelina Jolie, que se submeteu a uma dupla mastectomia, a retirada das mamas para evitar um câncer. O lado bom é que chamou a atenção para o tema. O lado ruim é saber que ainda é necessário uma celebridade do porte de Angelina tomar uma atitude assim para as pessoas se interessarem. E só talvez se cuidarem de fato. O caso da atriz, como destacou a mídia semana passada, é raro. A cirurgia foi preventiva e é realizada apenas quando o risco de câncer é altíssimo. A possibilidade de Angelina desenvolver a doença caiu de 87% para 5%. Mas milhares de mulheres mundo afora enfrentam um câncer, simplesmente, porque não se preocuparam com exames básicos como deveriam. Nem mesmo estavam em grupos de alto risco.

Aí, o que era cura certa pode se transformar num problema grave. Às vezes, um pequeno nódulo no seio, por exemplo, pode dobrar de tamanho em dois anos e exigir um tratamento difícil, sofrido. Um apenas incômodo corrimento vaginal pode levar a uma séria infecção. E quantas de nós continuam sem compreender que após iniciada a vida sexual o teste papanicolau, capaz de detectar o risco de câncer de colo de útero, é indispensável?

Não estou falando de mulheres desinformadas, não. Nunca esqueço a bronca que dei numa amiga que só se submeteu pela primeira vez a uma série de exames ginecológicos já quase com 30 anos, meses antes de se casar. Moça pós-graduada. Minhas amigas de 20 e poucos anos dizem que esquecem a época certa das consultas. Minhas amigas de 30 e poucos anos dizem que andam sem tempo, estão trabalhando muito, a vida tá corrida – aquela ladainha. Em determinada ocasião, tentei a duras penas convencer minha manicure de que ela deveria sim marcar no laboratório o ultrassom transvaginal, conforme pedido médico. A recusa em relação ao procedimento, disse ela, era porque não se sentiria bem em saber que alguma coisa foi colocada lá dentro. “Naquele lugar? E se meu marido desconfiar de mim, achar que andei com outro homem?” Eu insisti que aquilo era uma bobagem, impossível. Não adiantou.

Preconceitos ou a clássica ideia do “comigo não vai acontecer” são perigosos demais quando se trata de saúde. Me espanta que, com tanto conhecimento disponível, tanta tecnologia, os tabus ainda estejam tão presentes.

Talvez seja porque minha avó materna tenha morrido de um câncer que começou na mama. Ou porque escrevi sobre saúde durante um bom tempo como jornalista (e acabei aprendendo muita coisa). Ou porque minha mãe também sempre foi atenta à saúde dela e tive esse comportamento como exemplo. Mas não consigo imaginar um ano da minha vida sem uma bateria de exames. Não tem nada a ver com hipocondria. Aliás, até onde posso, evito ao máximo tomar remédio. Sei, no entanto, que algumas patologias são silenciosas. Dos exames anuais não abro mão. São eles que indicam que algo vai mal – ou justamente se você pode ficar em paz, com tudo indo bem.

Garotas, cuidem-se. Não falo aqui do esmalte da moda. Nem do cosmético que vai descamar seu rosto até o espelho te garantir que você aparenta dez anos a menos. De novo, com parcimônia, vaidade é super válida. Mas a saúde vem antes. Beleza nenhuma vale tanto a pena se uma patologia limitar o que realmente importa: disposição para aproveitar cada minuto dos seus dias na companhia daqueles que você ama.

Crédito da imagem: Amedeo Modigliane (Cultura Inquieta)

A arte de compreender relacionamentos aos 30

eles elas 30

Relacionamento a dois não é fácil. Por mais que se goste, por mais que se aprenda o tal do ceder, se relacionar de um modo saudável, me parece, é uma arte para poucos. Sim, namoros e casamentos podem ser muito felizes! Eu acredito nisso fortemente porque vejo casais amigos meus, bem próximos, que estão genuinamente contentes e serenos com a escolha que fizeram. Mas se você chegou aos 30 e está solteiro, lamento dizer, terá que encarar uma profusão de desejos confusos. Tanto por parte dos homens como por parte das mulheres.

Porque 30 anos, eu descobri, pode ser a mais angustiante das fases sentimentais da vida de alguém. É verdade que, a essa altura, você já aprendeu aquilo que NÃO quer mais. E, cá entre nós, é um tremendo adianto ter certeza das situações/tipos de pessoas com as quais não se espera mais conviver. Mas dependendo de como conduziu seu caminho até aqui, você ainda não sabe realmente o que deseja, como dizem por aí, para o resto dos seus dias (o que me soa tempo demais, inclusive, caso eu chegue aos 100 anos).

Não bastassem dúvidas como “caso ou dou a volta ao mundo sozinho(a)”, “me torno pai/mãe ou continuo com um foco único na carreira pra ganhar dinheiro e fazer o que eu bem entender”, ainda temos que lidar com as fragilidades alheias. E as fragilidades femininas e as masculinas divergem horrores nessa fase. Comecei a conversa “o que eles querem, o que elas querem” com um amigo num almoço de domingo, que se estendeu num outro dia por telefone e acabou numa partida de sinuca numa noite depois do expediente. Temos teorias diferentes sobre o assunto, mas complementares.

Ele acredita que na casa dos 30, especialmente os caras separados (e são uns tantos) precisam de “espaço”. Querem ter alguém, mas não o tempo todo. Enquanto isso, a mulherada de 30 quer provar para o sujeito que pode amá-lo (em curto espaço de tempo!) mais do que sua própria mãe. Permear TODAS as horas do dia dele. Eu concordo que a situação descrita seja bem corriqueira, com destaque para parte (atenção para a palavra “parte” no contexto) das mulheres que se dedicaram nos últimos anos exclusivamente à carreira e a se realizarem individualmente. Mesmo que inconsciente, o desejo de ter alguém pra compartilhar os dias se torna urgente. Nem sempre pra casar e ter filhos. Mas pelo prazer único que é amar alguém e que andou em segundo plano. De ter companhia nas lutas que estão por vir – porque enfrentar tudo sozinha uma hora enche o saco e você quer sim um ombro mais forte que o seu pra deitar um pouquinho.

Como contrapartida, a outra parte das mulheres que optaram pela realização individual antes de pensar se realmente se encaixam no padrão família margarina é que PRECISA do tal espaço (que meu amigo julgou ser uma exclusividade masculina). Não é regra, não. E essa mulher não entende quando é atropelada pelos desejos de caras que querem sim casar, ter filhos, a família margarina – mas desde que seja do jeito deles. Amigo, essa moça não vai aceitar sem debate suas imposições. Ela foi dona de si até aqui, querido. Você acha mesmo que ela vai trocar automaticamente o estilo de vida dela pelo seu sem concessões? Não vai. E ela pode até chorar uns dias quando vocês romperem pela divergência de ideias. Mas em seguida estará planejando uma viagem pra Ibiza com as amigas.

Uma coisa a gente concordou nas nossas conversas: homens de 30, no fim, graças à insegurança e à preguiça, acabam preferindo meninas bem mais jovens, no começo dos 20 anos. Palavras dele: “Elas são muito mais fáceis de impressionar, têm menos experiência. Se eu te contar da minha última viagem pra Londres não vai ser nada incrível pra você. Tenho que te contar alguma coisa do tipo ‘a última vez que estive no Nepal’.” Significa que eles, bobinhos, temem não serem páreo pra nós em termos de experiências. Não entendem que levamos em consideração muitas outras coisas legais, como caráter, atenção e disposição de aprenderem junto com a gente infinitas possibilidades que o mundo tem a oferecer.

Independente da idade e da crise sentimental em que se está mergulhado, uma regra nunca deve ser esquecida: relação boa é relação saudável. Amor rima com dor só em caderno de poeta. Na vida real, amor tem que ser gostoso e leve. Eu acho. Do contrário, sempre cabe aqui o clássico “antes só do que mal acompanhado”.

Crédito da imagem: Casal Sem Vergonha

Nem sempre o discurso contempla a realidade

atualmente

O dito e o sentido. O que falamos e o que realmente gostaríamos de dizer. O ser humano tem uma mania estranha de dissimular as próprias palavras pra esconder suas fragilidades e seus defeitos. Você deve estar aí pensando: “Lógico, Suzane! Quem, numa sociedade na qual as aparências são tão simbólicas, vai admitir que não é tão forte assim, tão bem-sucedido assim, tão feliz assim?” Minha mãe sempre diz pra gente não se basear nas alegrias e conquistas alheias, não. Mais ainda em tempos de redes sociais. Porque a vida de ninguém é perfeita. Problema todo mundo tem. Alguns só disfarçam melhor e jogam uma tinta cor de rosa em cima das dúvidas pra deixar pra lá – só que uma hora o caldo entorna, é bom avisar.

Ontem eu participei de um seminário internacional sobre migrações, trabalho e cidadania. Em determinado momento das palestras, uma professora disse uma frase curiosa: “Nem sempre o discurso contempla a realidade”. Ela abordava a questão da xenofobia, citando uma pesquisa com a segunda geração de bolivianos que já nasceu aqui no Brasil. São os filhos dos imigrantes que, em sua maioria, vieram para São Paulo trabalhar em confecções, se rendendo a regimes escravos.

As crianças de família boliviana são hoje as principais vítimas de bullying nas escolas que frequentam. Muitas, criadas na língua espanhola, têm dificuldade para aprender o português. Seus costumes e mesmo aparência também são motivo de chacota, assim como a forma que seus pais ganham o sustento. Não se trata de um preconceito de classe. O patamar social dos alunos é semelhante. É pelo que o outro tem de diferente e pela condição de ter que se submeter a um trabalho “indigno” e explorador que é feita a distinção cruel.

Apesar do bullying sofrido pelos estudantes bolivianos, pais e alunos brasileiros que convivem com eles, ao serem entrevistados, não reconhecem em si traços xenófobos. Não se diziam nem um pouco preconceituosos. Apenas não queriam “misturar os filhos com gente que não se sabe direito de onde vem, o que faz, porque estão aqui”, como disse uma mãe entrevistada.

A pesquisa montou o cenário para levantar o debate de como a famosa simpatia do brasileiro pelo estrangeiro é mito. A história do receber de braços abertos é válida quando o imigrante é qualificado. Mas chutamos sem dó nem piedade, humilhamos (mesmo que apenas num olhar) e nos achamos infinitamente melhores do que os imigrantes que chegam para trabalhos menos qualificados. Não importa, inclusive, se a qualificação é similar. Então, nosso discurso de “olha como a gente é legal com gringo” só serve quando é um estrangeiro que confira algum status às nossa relações pessoais e profissionais. Da “escória” queremos distância. Mas claro, não verbalizamos isso. Pelo contrário. Nosso “discurso” nos transforma quase sempre em seres humanitários. Ele só não contempla a realidade.

O estudo com os pequenos bolivianos e nossas reações em relação aos imigrantes pobres serve de exemplo pra mostrar como somos dissimulados. Estamos sempre manipulando a nós mesmos (discursos, hábitos, escolhas) para parecermos demais. Até guardamos em segredo aquilo que achamos o correto (como não humilhar um imigrante) apenas para não sermos excluídos de grupos. Pesa a consciência. Mas não pesa o risco de deixar de pertencer a círculos sociais que julgamos adequados. Tem quem ache que vale a pena…

O discurso também não contempla a realidade nas nossas atuais relações pessoais e profissionais. Empresas dizem que todos os processos que estão sendo implantados são para dinamizar o ambiente de trabalho, oferecer um produto/serviço melhor a seus clientes e bla bla bla. A precarização do trabalho só transforma trabalhadores em pessoas sobrecarregadas e infelizes. O resultado é queda na qualidade do que chega às mãos dos consumidores. No amor, quanto não é comum a gente querer dizer uma coisa, ir lá e falar outra completamente oposta pra não dar o braço a torcer, por exemplo? Ou quantas vezes nos sabotamos, com medo do futuro, só pra mantermos o controle de uma situação? Ou melhor, imaginarmos que estamos mantendo o controle (porque a gente nunca tá).

O dito e o sentido. O que falamos e o que gostaríamos de dizer. Discursos há anos luz do que acontece concretamente – e internamente. Dissimulados. Manipulados. No fundo, na verdade, somos apenas uns coitados…

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

O defeito que sustenta sua melhor qualidade

qualidade x defeito

Durante muito tempo fui uma menina tímida pra dar opiniões. Era cheia de ideias em mente, mas poucas vezes verbalizava o que eu pensava. Principalmente, tinha dificuldade com enfrentamentos, com debates nos quais precisava organizar minhas teorias pra que tivessem sentido. Os anos se passaram e fui aprendendo que a gente tem sim que dizer o que acha pra se defender, pra se impor, pra ganhar respeito. Não se trata de uma simples imposição de crenças, de fazer valer minha vontade acima de tudo. Mas eu entendi que existia um poder na palavra capaz de mudar o rumo das coisas, de transformar pensamentos, de instigar reflexões. De voltar olhos pra mim – que acabava sendo um voltar de olhos para a tese que eu abraçava. Percebi, ainda, que o muito que eu tinha a dizer ecoava na cabeça e no coração de muito mais gente. Como costumo brincar, descobri que eu tinha turma – e ela não é pequena, não.

Encantada pelo poder que havia encontrado em mim, cai num extremo bem chato: fiquei panfletária. Eu defendia o que eu acreditava. E defendia muito. Com unhas e dentes. Sim, eu sempre soube ouvir. Mas em geral era só pra juntar munição e rebater de novo. Muitas vezes eu sabia que a teoria do meu interlocutor fazia mais sentido do que a minha. A última palavra, porém, era eu quem dava. Passa mais um tempo e a maturidade ensina que não basta desejar que a minha verdade seja absoluta. Ser uma observadora do mundo, com capacidade de absorver todos os lados de uma questão pra colocá-los na balança da sensatez e daí expressar uma ideia, era muito mais importante. A frase de Voltaire, lembrada outro dia por um amigo, define bem onde eu consegui chegar: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.”

Eu sou crítica. E por mais que minhas convicções não agradem há umas tantas pessoas por aí, tenho muito orgulho disso. Aliás, o desagradar uns tantos torna tudo mais divertido e interessante. Não busco fazer inimigos – mas não temo fazê-los. Minha crítica, quando excede, pode ser meu maior defeito. Mas eis que é também minha maior qualidade. É o “mal” que sustenta o meu melhor. Porque observar, debater e opinar sobre os mais diversos assuntos construiu uma parte fundamental da minha personalidade. Com o que eu aprendi ao longo da vida, bastante graças à profissão de jornalista e agora com o mestrado em sociologia, compreendi existir uma capacidade de enxergar nas entrelinhas. Às vezes, é algo bem óbvio até. Mas que só com alguma sensibilidade e perspicácia é possível notar.

Ser crítica talvez tenha seu preço, mesmo quando se aprende a equilibrar esse “dom”, digamos assim. Ouvi esses dias que se eu quiser casar e ter filhos não posso ter tanta opinião sobre tudo. Marido nenhum, no fundo, gostaria de parceira cheia de opinião. É assustador uma mulher ouvir algo desse naipe nos dias de hoje. Mas eu prefiro acreditar que raciocínio claro e boa conversa são mais inspiradores para um relacionamento do que a obviedade da relação dominação/submissão. Graças a Deus e a Darwin, recebi apoio dos amigos. Rapazes que dizem fugir de mulher submissa e burra como o diabo foge da cruz. Que preferem ser instigados pelas ideias e observações da mulher com quem escolhem estar. Pediram, por favor, pra eu não abandonar jamais meu lado crítico – e lembraram que esse é justamente um dos meus lados mais fascinantes.

Então, quando alguém apontar o seu pior defeito, não deixe de refletir a respeito com humildade. Desenvolva um pensamento reverso, um contra espelho, e tente entender como o seu pior sustenta o seu melhor. Não pra usar como desculpa e dizer o clássico “quem quiser que goste de mim do jeito que eu sou”. É uma postura pobre a de quem imagina não precisar evoluir nem um pouquinho. A gente sempre pode melhorar. Mas pra sacar em que momento a qualidade se transmuta em defeito é necessário algum desprendimento e um ego menos inflado. A linha é tênue. Não é impossível, no entanto, acertá-la.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta