Pensar a curto prazo e suas consequências desastrosas

tudo no tempo

Semana passada compartilhei no meu Facebook uma notícia sobre a desativação de uma ciclovia em Santos, litoral de São Paulo. A ideia é desafogar o congestionamento crescente na entrada da cidade. Com pouco mais de meio milhão de habitantes, a previsão é de que até 2016 o maior e mais rico município da Baixada Santista bata em 1,5 milhão de moradores – muita gente em pouco tempo, só pra frisar. A atração principal é a história do pré-sal, que levou a Petrobrás a criar uma base na região. E de onde ainda nada foi explorado de fato.

Já deixo bem claro aqui que não sou nem um pouco contra o progresso, antes que algum desavisado me chame de retrógrada. Pelo contrário. Se é para beneficiar a vida da população, trazer mais empregos, possibilidades de crescimento pessoal e chances de maior qualidade de vida, que venha o progresso! Mas será mesmo que os benefícios alcançarão todos nós ou apenas meia dúzia de interessados? Será que vamos usufruir ou arcar com as consequências de pensamentos a curto prazo, com o deslumbramento de “viver” numa cidade “moderna”?

Junto com a notícia compartilhada, coloquei um comentário dizendo que eu achava aquilo triste e burro. Era um ir na contramão do incentivo que o mundo tem dado ao uso das bikes como meio de transporte em áreas urbanas. Tanto para melhorar a mobilidade das pessoas, o ir e vir de cada um, permitindo mais tempo livre para ser investido em coisas bacanas, como estar com amigos e família, quanto por uma questão de consciência ambiental. Nunca tivemos tantos seres humanos alérgicos por causa de poluição, por exemplo. Na capital paulista, quando o ar está carregado, estatísticas mostram que o número de infartos também aumenta.

Mas enfim, acrescentei no meu Face que em breve Santos seria uma São Paulo com praia. Eu sou santista. E há mais ou menos um ano tenho me assustado bastante quando chego na região e percebo quanto o trânsito piorou. Logo meu post foi questionado. Teve quem perguntasse se eu não sabia ler, veja só, porque a matéria informava também que aquela ciclovia foi desativada, mas outra foi construída como compensação. Maravilha! O problema é que a desativação acontece para melhorar um crescente fluxo de carros. Isso não é progresso, minha gente!

Tem um slogan aí que diz que brasileiro é apaixonado por carro. Só que brasileiro é apaixonado por carro muito porque automóvel e a patetice do status estão intrinsecamente ligados. Até numa cidade como Santos, agradável pra caminhar e andar de bike (quando não é alto verão, admito), sei de gente que vai na esquina dirigindo pra desfilar o carro! Ai, para! Não! O desejo de comprar um carro, claro, não é culpa de quem está governando a cidade. Mais gente vai morar lá pelas perspectivas. Mais gente hoje tem condições de comprar um automóvel. Mas a necessidade de TER o carro, custe o que custar, pra desfilar onde quer que se vá, carrega um componente de falha na educação das pessoas. Óbvio que temos o direito de comprar um veículo. No entanto, temos e utilizamos o carro por motivos errados.

Suponhamos que quem deseja seu carrinho o adquira, mas também use a bicicleta como meio de transporte quando for possível. Que esse seja um hábito cultivado desde a infância. Será mesmo que existiria a necessidade de desativar uma ciclovia para descongestionar a entrada do município? Será que se a gente brigasse mais por transporte público decente e vias mais seguras para pedestres e ciclistas, mais ciclovias, o trânsito estaria pesado? Eu acredito que não. Nosso erro é achar que uma vida melhor é uma vida de ostentação. Quando vida melhor é aquela que te dá qualidade, que te estressa menos e permite tempo para estreitar relações.

Não precisa ser muito esperto pra compreender que pensar a curto prazo leva a consequências desastrosas. Em tudo. No dinheiro que você não economiza um pouco para eventualidades, no sexo sem camisinha porque acha que tá apaixonado(a), no cair na balada até de manhã esquecendo que tem que apresentar um projeto importante no trabalho, em não dar a mínima de contratar um plano de saúde, entre outras coisas. Agora, todo mundo aplaude a decisão de desativar um trecho de ciclovia pra dar espaço aos automóveis. Quero ver se daqui uns cinco anos, eu e você, pra marcarmos um encontro em algum canal de Santos, não seremos obrigados a ir de bike graças a um trânsito parado e infernal. Talvez até estejamos lamentando a diminuição do número de ciclovias. Porque tudo tem seu tempo certo pra aparecer – inclusive as (más) escolhas com base no imediatismo.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

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