O defeito que sustenta sua melhor qualidade

qualidade x defeito

Durante muito tempo fui uma menina tímida pra dar opiniões. Era cheia de ideias em mente, mas poucas vezes verbalizava o que eu pensava. Principalmente, tinha dificuldade com enfrentamentos, com debates nos quais precisava organizar minhas teorias pra que tivessem sentido. Os anos se passaram e fui aprendendo que a gente tem sim que dizer o que acha pra se defender, pra se impor, pra ganhar respeito. Não se trata de uma simples imposição de crenças, de fazer valer minha vontade acima de tudo. Mas eu entendi que existia um poder na palavra capaz de mudar o rumo das coisas, de transformar pensamentos, de instigar reflexões. De voltar olhos pra mim – que acabava sendo um voltar de olhos para a tese que eu abraçava. Percebi, ainda, que o muito que eu tinha a dizer ecoava na cabeça e no coração de muito mais gente. Como costumo brincar, descobri que eu tinha turma – e ela não é pequena, não.

Encantada pelo poder que havia encontrado em mim, cai num extremo bem chato: fiquei panfletária. Eu defendia o que eu acreditava. E defendia muito. Com unhas e dentes. Sim, eu sempre soube ouvir. Mas em geral era só pra juntar munição e rebater de novo. Muitas vezes eu sabia que a teoria do meu interlocutor fazia mais sentido do que a minha. A última palavra, porém, era eu quem dava. Passa mais um tempo e a maturidade ensina que não basta desejar que a minha verdade seja absoluta. Ser uma observadora do mundo, com capacidade de absorver todos os lados de uma questão pra colocá-los na balança da sensatez e daí expressar uma ideia, era muito mais importante. A frase de Voltaire, lembrada outro dia por um amigo, define bem onde eu consegui chegar: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.”

Eu sou crítica. E por mais que minhas convicções não agradem há umas tantas pessoas por aí, tenho muito orgulho disso. Aliás, o desagradar uns tantos torna tudo mais divertido e interessante. Não busco fazer inimigos – mas não temo fazê-los. Minha crítica, quando excede, pode ser meu maior defeito. Mas eis que é também minha maior qualidade. É o “mal” que sustenta o meu melhor. Porque observar, debater e opinar sobre os mais diversos assuntos construiu uma parte fundamental da minha personalidade. Com o que eu aprendi ao longo da vida, bastante graças à profissão de jornalista e agora com o mestrado em sociologia, compreendi existir uma capacidade de enxergar nas entrelinhas. Às vezes, é algo bem óbvio até. Mas que só com alguma sensibilidade e perspicácia é possível notar.

Ser crítica talvez tenha seu preço, mesmo quando se aprende a equilibrar esse “dom”, digamos assim. Ouvi esses dias que se eu quiser casar e ter filhos não posso ter tanta opinião sobre tudo. Marido nenhum, no fundo, gostaria de parceira cheia de opinião. É assustador uma mulher ouvir algo desse naipe nos dias de hoje. Mas eu prefiro acreditar que raciocínio claro e boa conversa são mais inspiradores para um relacionamento do que a obviedade da relação dominação/submissão. Graças a Deus e a Darwin, recebi apoio dos amigos. Rapazes que dizem fugir de mulher submissa e burra como o diabo foge da cruz. Que preferem ser instigados pelas ideias e observações da mulher com quem escolhem estar. Pediram, por favor, pra eu não abandonar jamais meu lado crítico – e lembraram que esse é justamente um dos meus lados mais fascinantes.

Então, quando alguém apontar o seu pior defeito, não deixe de refletir a respeito com humildade. Desenvolva um pensamento reverso, um contra espelho, e tente entender como o seu pior sustenta o seu melhor. Não pra usar como desculpa e dizer o clássico “quem quiser que goste de mim do jeito que eu sou”. É uma postura pobre a de quem imagina não precisar evoluir nem um pouquinho. A gente sempre pode melhorar. Mas pra sacar em que momento a qualidade se transmuta em defeito é necessário algum desprendimento e um ego menos inflado. A linha é tênue. Não é impossível, no entanto, acertá-la.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

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2 respostas em “O defeito que sustenta sua melhor qualidade

  1. Me encaixo na sua turma perfeitamente, Suzane! Mas a vida tem me ensinado, aos pouquinhos e a curtos passos, a expor minhas opiniões e ideias e também a reivindicar os meus direitos. Parabéns pelo blog e obrigada por mais uma vez expor meus sentimentos de forma tão clara e, mais do que isso, obrigada por me guiar sobre como lidar com esse “poder crítico” sobre o qual talvez eu venha a perder o controle em breve, rs. Abraço!

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