O que nos salva da vida

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O post de hoje está atrasadíssimo. Antes de tudo, peço desculpas por escrever somente agora, a essa hora. Mas os últimos dias foram de imersão em mim mesma. Um exercício por vezes tão necessário. Não, não andei procurando respostas para mil dúvidas. E olha que no momento eu tenho tanta coisa pra questionar e resolver… Optei por parar só pra sentir um pouco os dias passarem. Pra sentir o que eu sentia ao conversar com as pessoas. Pra sentir barulho de silêncio, sabe? Eu, que penso em tudo o tempo todo, me dei de presente uma espécie de não pensar. Uma tentativa de, pelo menos… E quando a gente precisa descolar do mundo, ser salvo da vida, tem que entrar numa outra dimensão.

Em geral, escolho a arte pra me salvar da vida. Costumo ir por esse caminho… Pode ter ficção. Ou histórias reais que carregam aquela beleza/tragédia/graça que as transformam em algo a ser apreciado. Então, essa semana fui ao cinema três vezes: comédia, romance e drama – um choque de oscilação de humores pra ficar esperta. Deixei as horas pra trás em duas tardes na livraria, perdida entre os livros. Andei também separando três obras pra ler, completamente distantes da sociologia, que vem sendo minha leitura constante por causa do mestrado. Enquanto a multidão corria na rotina, parei pra contemplar uma exposição de fotografia.

Não, eu não entendo de arte. Eu gosto. Bastante. Mas minha avaliação é sempre pela emoção. Gosto ou não gosto. Me emociona ou não. Me causa estranheza ou não. Me faz refletir ou não. Claro, por acompanhar e vez por outra ler sobre o assunto, dá pra aprender, entender, fazer conexões, reconhecer estilos… Mas a técnica, em si, é o que menos me importa. Me vejo feliz diante daquilo que me tira por algumas horas da agressividade cotidiana, que me permite sonhar acordada…

Tempos atrás uma amiga minha ouviu a mãe dela cochichar com a irmã mais nova: “Ela ter tantos livros só serve como fuga da realidade”. E quem disse que não é? E quem disse que não é bom fugir dela, a realidade? Acho até que é justamente quem se permite escapar do real eventualmente que encara o dia a dia com mais equilíbrio.

Mesmo que aquilo que nos salva da vida traga uma momentânea melancolia é preciso encarar o desafio. Sentir os sentimentos. Sentir as sensações. Sentir as emoções. Mergulhar na fantasia pra emergir na realidade. Depois, seguir em frente com mais tranquilidade. Talvez, até, com mais coragem. No meu caso, parece ter dado certo…

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

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Afeto x afinidade

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“Às vezes esqueço que minha paisagem favorita no mundo é a minha cidade iluminada à noite, vista da Imigrantes. Ali na estrada, olhando a cidade lá embaixo, deixo aparecer um sorriso afetuoso em meus lábios. Lembro de amores e dissabores, penso na vida que tive e a que sonhei ter. Então, com um brilho nos olhos, sigo em frente. São Paulo me aguarda.
A saudade da cidade natal toma conta de mim. A saudade das pessoas que lá deixo, só faz crescer. Meu corpo estremece com as possibilidades infinitas que o futuro me guarda na ponta desta estrada. É interessante como a Imigrantes é mais do que uma estrada. Para mim, ela não liga duas cidades, liga o passado e o futuro. Andar por ela é uma viagem que leva do retorno às raízes, a quem eu sou e quem eu posso ser.”

Não fui eu quem escreveu o trecho acima. Mas eu gostaria de ter escrito. E talvez não conseguisse me expressar melhor em relação a um sentimento que é tão presente pra mim. O autor, Vitor Sampaio, é psicólogo (e futuro escritor, apesar dele não me levar a sério quando digo isso). É amigo de uma amiga querida. Agora, amigo também. Com ele tive a oportunidade recente de travar boas conversas e parar pra pensar em como a vida chegou do jeito que chegou até aqui. Gente que ensina sem nem perceber que tá ensinando.

A amiga querida em comum e em questão é a Nara. Ela fez parte de um dos momentos mais doces dos meus 34 anos, quando por mais de uma década fizemos balé juntas e nosso maior problema era qual sapatilha escolher. Me formava em jornalismo quando ela ingressava na mesma faculdade. Passamos anos distantes. E no reencontro (viva as redes sociais!) foi como se a despedida tivesse acontecido ontem. Entre gargalhadas escandalosas e muitas histórias num restaurante numa das últimas vezes que a gente se viu, há mais ou menos um mês, eu entendi que o afeto, independentemente do tempo e da distância, não muda. Como escreveu Vitor, o passado também é responsável por quem a gente é e quem podemos ser. Por isso, o carinho pelo que ficou pra trás deve ser valorizado. Ajuda a gente a se reencontrar no mundo.

Mas, pra minha alegria, não só o afeto pela minha amiga permanece. Também a afinidade. E foi Nara quem, numa frase simples, me levou a perceber uma verdade óbvia, mas não tão clara no nosso cotidiano: “Afeto e afinidade nem sempre andam juntos”. A gente caminhava, depois do almoço indiano, em direção a Avenida Paulista. Eu nunca tinha me dado conta como sim, você pode continuar a sentir afeto por muita gente, mesmo que desejos e horizontes entrem em conflito. A saída para preservar essas relações é ser mais… tolerante. Saber se colocar no lugar do outro. Compreender que aquilo que é essencial pra você não tem o menor sentido pra outras pessoas. E tudo bem.

Tudo bem, principalmente, porque, como a Narita me disse numa segunda ocasião, afeto casado com afinidade é “uma coisa tão rara, mas tão rara que eu considero um tesouro. Não é que Narciso acha feio o que não é espelho. Mas é você poder partilhar sua vida e visão de mundo com pessoas que realmente compreendem e te fazem pensar além do que você via e sob a sua ótica”.

E é com a filosofia da minha amiga que eu entendo e aceito que, às vezes, as pessoas te ofendem e te machucam, simplesmente, porque elas só podem oferecer aquilo que conhecem. Pra contrabalançar, a vida dá de presente gente que além de querida, te compreende. Os afetos me recordam quem eu sou, de onde vim. Os afetos com afinidade me mostram sempre quem eu posso ser. E quanto eu me tornei melhor do que os limites que me foram colocados.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

Verdades que a gente esquece

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Ninguém é forte o tempo todo
Demonstrar fraqueza não significa ser fraco
Promessas tendem a não ser cumpridas. Não crie expectativas
Quem faz propaganda de uma vida perfeita é digno de desconfiança
Não adianta pedir pra enxergar além a alguém que nunca testa os próprios limites e prefere uma enfadonha realidade
Simpatia demais pode ser disfarce de maldade
Tem gente que desperta o seu pior – você não é de fato ruim
Às vezes, a única saída é se afastar
Às vezes, a única saída é chorar muito
Gente intransigente vai ser assim sempre (os psicólogos podem me questionar, mas é o que eu vejo por aí)
Não espere gratidão. Ela até existe, mas a ingratidão é mais constante
Nem sempre mudar o status no Facebook para “relacionamento sério” significa que a relação é de fato importante para ambos os envolvidos
Sua história pode dar uma guinada pra pior a qualquer momento (e depois melhora de novo)
Confie mais em quem tem dúvida e se dedica a ela pra compreender algumas coisas do que nos cheios de certezas
Nunca negue uma conversa para esclarecer uma situação. Pode ser a última de fato. Pode ser o aparar de arestas que falta pra dar certo
Pedir desculpas nem sempre cura o sofrimento causado
Laços rompidos podem nunca mais serem fortemente atados
Sim, as pessoas vão te machucar e te decepcionar. Você pode ou não carregar isso pra sempre
Falta de coragem de tentar é puro ego
Falta de coragem de tentar mais uma vez pode ser cansaço
Pessoas vão e vêm. Poucas permanecem – e geralmente são as que compensam
Acreditar sempre que todo mundo é bom só faz a gente quebrar a cara com mais frequência (essa eu tenho que repetir em voz alta mais vezes pra ver se eu aprendo, sabe…)
No fundo, a gente sempre sabe a resposta
A vida acaba. E pode ser num piscar de olhos…

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

O direito de me sentir confusa

cartaz

Eu deveria descer a serra hoje rumo à Baixada Santista. Minha família mora lá. Mas meus pais pediram que eu não vá pra região agora. Ontem, o que era pra ser protesto na cidade de São Vicente, se transformou numa noite aterrorizante, a pior desde os ataques do PCC, em 2006. Teve toque de recolher às 16h. Saques, espancamentos, arrastão, ônibus incendiados. O que se sabia era o que aparecia em redes sociais. A programação local ficou boa parte do tempo suspensa enquanto as tevês transmitiam protestos em capitais do país. As pessoas se trancaram em casa, inclusive em municípios próximos. Ninguém sabe bem no que vai dar. Não dá pra ter certeza se é exagero tanto cuidado. Se eu deveria ir ou não. De longe, fico apreensiva, triste e preocupada.

Não mudei de lado. Continuo favorável às manifestações que se espalharam pelo Brasil. Me emocionei com o que vi em São Paulo na noite de segunda-feira, com as ruas tomadas por milhares de pessoas cansadas da maneira como o país foi conduzido até aqui. Gente que paga impostos altos e não vê retorno em benefícios. Que sempre tem que arcar com mais aumento disso e daquilo. E surtiu sim efeito. Em resposta aos protestos “deputados vão discutir projetos que poderiam ser de agrado dos manifestantes e pretendem travar propostas polêmicas por algum tempo, como a PEC 37, que limita o poder de investigação criminal do Ministério Público, e o da ‘cura gay’, como ficou conhecido o projeto que permite a psicólogos ‘tratar’ a homossexualidade”, diz matéria do jornal O Estado de S. Paulo (http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,em-resposta-a-protestos-deputados-avaliam-travar-pec-37-e-cura-gay,1044770,0.htm). Pode ser “manobra” pra arrefecer os ânimos? Pode. Consciência? Nenhuma. Mas duvido que não tenha algum temor. E não acho ruim eles terem medo e sentirem que são pressionados.

Desde o início, sempre disse que sou absolutamente contra o vandalismo. Mas juro que me perguntei quanto a decisão dos nossos parlamentares não foi de fato influenciada só depois do quebra-quebra, infelizmente… Na noite de ontem, enquanto acompanhava a violência que corria solta em alguns dos protestos de várias cidades e as ideias dos amigos no Facebook, me senti uma histérica. Mudei de opinião sobre tudo e todos umas vinte vezes. Tinha hora que eu pensava “quebra mesmo” e, minutos depois, eu implorava “para com essa porra A-GO-RA”.

Fiquei confusa. Isso não significa que eu concorde com vocês, reaças de plantão, que só reclamavam o direito de ir e vir, que afirmavam ser tudo uma grande bobagem, que era baderna, que nada mudaria. O curioso é que, pelo menos na minha timeline do Face, quem mais se mostra contra esse momento histórico é gente que justamente sonega imposto, dirige embriagado, paga propina pra se livrar de polícia após infringir lei, tem cargo público e não pensa duas vezes antes de dar uma maquiada em documento pra tirar três meses de férias, entre outras ações que estão muito longe da cidadania. Então, não me venham com um idiota “eu avisei”.

Fiquei confusa porque, na nossa gana por melhorar, esquecemos que parte considerável da humanidade é estúpida demais e se acha dona da verdade. E que ainda vivemos num país com altos índices de criminalidade (fora aquilo que nem entra em estatística e não é pouca coisa).

Em tempo: ser apartidário não é desejar o fim dos partidos. Lembra do AI-5? Então…

Do Rio, recebi as mensagens no Facebook de duas amigas. Ambas têm razão e são pessoas de paz:

“Acho fundamental para o desenvolvimento de nosso país a união do povo e o desejo de mudança explícito em ações de cobrança como as que estão acontecendo. A história mostra que isso funciona e a maior parte dos países que admiro passou por algo parecido para conseguir avançar. O problema é que, infelizmente, nem todas as pessoas são boas. Destruir patrimônio público, queimar carros, ferir outros, quebrar e saquear lojas, para mim, mostra o quanto a sociedade ainda precisa evoluir. Alguns falam que até isso é culpa do governo, que peca em prover educação de qualidade, mas acho difícil de acreditar, ainda mais depois de descobrir que um dos vândalos que atacaram a prefeitura de SP é estudante de arquitetura e urbanismo de uma boa faculdade. Para mim, esse cidadão é prova de que alguns problemas vão existir para sempre. Só espero que eles passem a ser uma minoria marginalizada, bem distante do poder.”

“Hoje de fato fui às ruas e jurei que estava exercendo meu direito a toda prova! O que vi e vivi nos momentos que sucederam a minha tentativa de voltar pra casa foi de extremo pavor! Pareciam que tinham declarado guerra, o choque surgiu de todas as direções jogando bombas, tanto de efeito moral e gás lacrimogêneo, atirando pra todos os lados. Num primeiro momento pensei em não correr, afinal não sou bandido, sou cidadã de bem e que defende causas justas, mas me vi entre bombas e o Choque encurralando, leia-se: en-cur-ra-lan-do mesmo! E eu me vi em desespero no meio de uma polícia despreparada sem saber o que eles poderiam fazer comigo, diante do conhecimento de toda maldade que eles ja fizeram e são capazes de fazer. O jeito foi correr procurando uma saída no meio daquele labirinto minado. Foi de tamanha covardia o ato deles, não tenho palavras pra descrever (…) vi a nossa impotência diante desses porcos imundos, e meu sentimento de revolta ainda é tão latente que consegui supor o que leva alguém a badernar ou mesmo depredar. Não estou justificando, mas a raiva que senti foi muito grande. Claro quando não daria a eles esse gosto, mas pra mim vandalismo maior é saber que eles que saem às ruas e afrontam o meu respeito e minha dignidade todos os dias (…) O ato que eu participei foi pacífico, a repressão da polícia não”.

Culpo os excessos que surgiram de todos os lados. Sei que minha conclusão não resolve nada. Me sinto como se estivesse numa ressaca depois de tomar o mais barato dos vinhos. Já consigo abrir os olhos, enxergar melhor umas coisas… Mas não consigo pensar direito ainda…

Meu afeto pelo Starbucks (e como isso me ajudou a superar a lembrança de uma escolha errada)

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Sei que o Brasil tá fervendo, mais Brasil do que nunca. Que tem muita coisa importante e fundamental acontecendo pelo país afora. Hoje, porém, eu vou pedir a vocês permissão pra declarar meu amor a uma empresa americana. Lá não tem o melhor café tirado (e pra quem gosta de café, como eu, deveria ser imperdoável). É caro, bem caro (se bem que tudo parece bem caro atualmente). Mas entrar num Starbucks, pra mim, é mais do que entrar numa cafeteria. O Starbucks me salvou da saudade e de um coração em dúvida. Me ajudou a aprender outro idioma e a compreender novas realidades. Tudo numa das épocas mais especiais da minha vida. Há exatamente onze anos. E cada vez que eu peço meu “caffe latte tall”, acompanhado de uma torta de maçã com nozes, a sensação é de que uma hora as coisas se ajeitam. É o conforto do café quente e a doçura da torta que me freiam daquele um passo que a gente às vezes fica da amargura.

Meu primeiro Starbucks foi o da Montrose Boulevard, em Houston, Texas, onde eu fazia intercâmbio. Era no meio do caminho entre a universidade e a casa de família na qual eu morava. Não curti o café. Mas gostei do ambiente. As pessoas estudando nas poltronas, as mesinhas baixas de apoio. Por aqui, ainda não tinha visto esse conceito de decoração pra um local público. Pelo menos não que eu me lembre. Também ainda não morava em São Paulo. Só tinha passado uma temporada de três meses na cidade. Bom, pra mim era novidade. E era aconchegante, amigável.

Passei a estudar na loja da Montrose quase todas as tardes. Os funcionários já me conheciam – e ajudaram muito, com paciência e simpatia, na melhora do meu inglês. Entre um latte e outro, o namoro daqui começou a perigar graças a uma paixonite platônica por um amigo italiano. O primeiro latte derrubei todo na perna esquerda, acabando com minha calça jeans. Inesquecível – porque tava quente demais! Lá de dentro vi chuva, ventania, pensei na vida, me protegi do calor texano no ar condicionado, comecei a escrever minhas primeiras crônicas e artigos (que nunca publiquei em lugar nenhum e nem vou publicar), sem saber que seria agora uma escrita tão essencial pra mim. Quantas das minhas risadas entre amigos de nacionalidades tão diversas o Starbucks da Montrose registrou? Muitas. Quase infinitas. Até o sabor do café melhorou…

O Starbucks continua sendo um dos lugares onde gosto de sentar pra conversar com gente querida. Mas, principalmente, ele me acolhe na minha tristeza. Parece que tem um “deixa a menina sossegada um pouco” no ar. Proteção. Ontem lá fui eu, numa das lojas que fica na região da Avenida Paulista. Todas as poltronas ocupadas. “Caffe latte tall” (agora, acrescento canela) e torta de maçã com nozes em mãos. Sentei num banquinho alto, de frente pra uma bancada. Tinha um espelho. Tive que me encarar, emoldurada pelo cabelo vermelho, recordando que há cerca de um ano fiz uma escolha errada na vida. A gente tem mania de arrumar bode expiatório pra tudo que acontece de controverso. Mas tem hora que a realidade é única: a culpa foi sua. Uma escolha errada, por birra, orgulho e vaidade. Por não ter coragem. Por acreditar em bobagem. Por não arriscar. Às vezes, a vida dá chance de arrumar. Não é sempre. Quase nunca, talvez…

Por sorte, eu tinha as garfadas da torta ao meu alcance pra amenizar a lembrança amarga. O latte me ajudando a pensar, praticamente sussurrava um “tudo se renova”. Serenidade. Fica a lição. Outras escolhas virão, afinal. Que o Starbucks me inspire com café e doce pra acertá-las.

Crédito da imagem: Suzane G. Frutuoso

Orenda!!!

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A gente é bom pra se reunir em dia de jogo de Copa do Mundo e vestir a camisa da Seleção. A gente é bom pra se reunir na hora de brincar o Carnaval e usar fantasia. E eu espero que a gente continue fazendo tudo isso com o entusiasmo que nos é peculiar. Mas hoje pode ser o dia que a gente se reuniu também pra mostrar que não é só por R$ 0,20, não. Que R$ 0,20 foi a gota d’água que faltava pra mover um mar de pessoas inconformadas com transporte público ineficiente, saúde precária, educação fraca, impostos altos que não se revertem em benefícios, corrupção, entre outros problemas que o brasileiro enfrenta há décadas. Incluímos aí a violência, a falta de segurança. E a ação daqueles que deveriam ser agentes de proteção e optam pela brutalidade.

Em iroquês (língua dos índios iroqueses, de origem norte-americana), a palavra “orenda” é a magia, o poder místico, o desejo humano. Não há nada na natureza que não tenha “orenda”. Não há pessoa que não tenha “orenda”. É a força presente em todos nós, que nos capacita a afetar o mundo ou efetuar mudança em nossas vidas. Eu não conhecia essa palavra. Descobri ontem graças à imagem que vocês estão vendo aí acima do post. Fui pesquisar e achei demais! Perfeita para o dia de hoje!

Como as manifestações ganharam um novo caráter, duvido que você não se sinta atingido de alguma maneira por um dos motivos pelos quais se protestam agora. Nossa inércia até o momento só serviu pra reclamarmos da vida no corredor do escritório, na mesa do bar, no almoço de domingo. Quando uma população inteira entra no movimento é mais difícil os governantes (e os reaças de plantão) questionarem e classificarem milhares de pessoas de baderneiras.

Então, quem puder ir pra rua hoje, vai! Sem violência e vandalismo, focando na força maior que temos juntos pra melhorar a sociedade. Sei que muita gente tem medo de participar dos protestos. E é legítimo. Eu tenho um pouco, mas vou. Mas quem realmente teme pode se vestir de branco durante o dia ou amarrar um lenço branco na janela de casa, na antena do carro. É pra marcar posição! É pra mostrar a quem tá no poder que se continuar fazendo tudo do jeito que bem entende, sem consultar a população e repassando a ela apenas o ônus social, a gente vai gritar, sim.

Vai, Brasil! Me dá essa alegria?

Abaixo, como você pode se manifestar neste 17 de junho de 2013. Também coloco um texto sobre orientações jurídicas que está na página do Facebook do Movimento Passe Livre pra quem for participar das manifestações. Chamo a atenção para o último parágrafo do texto: “E lembrem-se: uma luta séria, sem violência, sem destruição de patrimônio público, nos dá mais força. FORTALECE O MOVIMENTO. Não seja violento, para não legitimar a violência policial.”

Orenda!!!

– Quinto grande ato contra o aumento das passagens: concentração no Largo da Batata, aqui em São Paulo, às 17h. Leve seu smartphone ou câmera fotográfica pra registrar desde a beleza do movimento até qualquer tipo de abuso da polícia
– #vemprajanela: amarre um lenço/fronha/toalha/pano de prato, qualquer tecido branco, na sua janela hoje. Se não puder sair às ruas, vem pra janela!!
– Segunda-feira Branca/White Monday: vista-se de branco. Pode ser só a camiseta/camisa/blusa. Mas marque seu protesto com a cor da paz

ORIENTAÇÕES JURÍDICAS PARA QUEM FOR NA MANIFESTAÇÃO:

1. A polícia PODE te deter, por alguns minutos, para “averiguação”. Ou seja, para verificar se você está carregando bombas, armas, drogas, etc. A polícia NÃO PODE te prender para averiguação, te jogar em um camburão, e te levar para a delegacia;

2. Se você for pego cometendo algum crime (independente das razões para isso), você poderá ser preso. Se você estiver portando drogas, bombas, armas, ou estiver depredando o patrimônio público, a polícia PODE te prender e te levar para a delegacia;

3. Você tem o direito de permanecer calado diante de qualquer pergunta, de qualquer autoridade. Você também tem direito, na delegacia, de contar com o auxílio de um advogado. Se você for preso, levado para a delegacia, e quiserem tomar o seu depoimento, EXIJA um advogado presente. Se não permitirem a presença de um, dê como declaração o seguinte: “PERMANECEREI EM SILÊNCIO, PORQUE ME FOI NEGADO O DIREITO DE TER UM ADVOGADO ACOMPANHANDO ESTE ATO”. Isso tem que ficar documentado no papel. Se o delegado ou o agente da polícia civil se negar a colocar isso no papel, NÃO ASSINE NADA!

4. Na delegacia, LEIA TUDO ANTES DE ASSINAR! Se o que estiver escrito não for a realidade, ou se você não disse alguma coisa que está escrita, NÃO ASSINE;

5. Se você for preso, não adianta discutir com o policial. Não reaja. Anote o nome de todos. Grave-os na sua memória. Se você vir alguém sendo preso, FILME! E, se souber o nome de quem está sendo preso, colete outros nomes ao redor, com telefone para contato, que poderão no futuro servir de testemunhas. Após, entre em contato com a pessoa que foi presa e repasse as informações.

6. Qualquer revista da polícia, em você ou em mochilas, DEVE SER FEITA NA PRESENÇA DE TODOS. A polícia NÃO PODE pegar a sua mochila e ir verificá-la longe dos olhos de todos.

7. Se você estiver machucado, EXIJA ATENDIMENTO MÉDICO IMEDIATO, mesmo antes de ir para a delegacia. A sua saúde deve ser mais importante do que a sua prisão.

8. Alguém foi preso ou está precisando de auxílio de algum advogado, entre em contato pela página “Habeas Corpus Movimento Passe Livre Manifestação 17/6”. Já somos mais de 4000 dispostos a te ajudar, gratuitamente.

9. E o mais importante: viu alguém sofrendo qualquer tipo de abuso? FILME! A polícia levou a mochila para revistar, sem o acompanhamento de ninguém? FILME! Viu alguém sendo preso por portar coisas legais, como vinagre ou máscaras, FILME! Anote o nome dos policiais que abusarem. Se ele não estiver portando alguma identificação, TIRE UMA FOTO! Depois buscaremos, com esses dados e com essas provas, a responsabilização do Estado e do policial que cometer os abusos.

E lembrem-se: uma luta séria, sem violência, sem destruição de patrimônio público, nos dá mais força. FORTALECE O MOVIMENTO. Não seja violento, para não legitimar a violência policial

Aplausos para a incapacidade

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Polícia com síndrome do pequeno poder. Polícia que se esconde atrás de escudo. Polícia truculenta e violentíssima contra a liberdade de expressão (atacando, inclusive, jornalistas que estavam trabalhando). Governo que não sabe vir a público explicar decisões e nem conversar com o cidadão. Tá errado.

Manifestante escondendo o rosto na camiseta. Manifestante depredando o patrimônio público. Manifestante tocando fogo em ônibus. Tá errado.

População em pânico. Tá errado.

O meu lado rebelde está em festa. Temos que ir para as ruas, lutar contra abusos e opressões. Mais vezes e por muitos outros motivos. Eu apoio a manifestação contra a tarifa do transporte público ineficiente de São Paulo. R$ 3,20 é caro sim para ônibus sujos, desconfortável, dirigido com violência por motoristas despreparados e estressados com uma cidade que se torna um desafio maior a cada dia. Pra todos nós. Ônibus, metrô e trem que lotam, que quebram, que falham sem explicação. Um sistema que não abrange um município de tamanho monstruoso. Um lugar onde somos reféns do trânsito. Eu apoio o aumento se me provarem que o transporte público vai melhorar anos-luz do que temos hoje – e assim se manter.

O meu lado sensato tem que ponderar. Na hora que a luta por algo legítimo vira queda de braço, a verdadeira razão se perde. Os ânimos se exaltam e há até quem se esqueça o que o motivou a estar lá, brigando conscientemente por uma causa que é maior. Vira excesso. É dar aos críticos cegos de plantão munição pra encherem a boca com o discurso de que é tudo moleque mimado que não tem o que fazer. Que é vândalo, baderneiro. Sempre tem. Não é maioria. Só que a pecha, depois, fica difícil de tirar. Luta-se por algo que vai impactar o bolso do povo causando prejuízo?

Mas eis que até o quebra-quebra fica em segundo plano quando assistimos a ação de uma polícia com sangue nos olhos. Brutos. Despreparados. Mal pagos. Que espalham medo, não segurança. Agem com base em seus instintos primitivos, acreditando que têm poder absoluto ao vestirem a farda. O ataque da polícia à imprensa e às pessoas que estavam paradas numa calçada observando a movimentação é a prova de que eles, simplesmente, não sabem o que estão fazendo. Não têm treinamento eficiente e nem estado emocional pra estarem ali, naquela função. As polícias do mundo que dão certo conseguem identificar e mobilizar quem passa do limite sem bater. A nossa, na dúvida, bate em quem aparecer pela frente.

O momento ajuda a lembrar que a ação policial vista no coração da cidade (Avenida Paulista e imediações) é o que acontece todo dia na periferia paulistana. Ficou horrorizado com o “atira antes pra depois perguntar” da polícia em meninos e meninas universitários que poderiam ser seus filhos? Não se engane. Não é ato isolado. É isso que famílias de bairros pobres enfrentam no cotidiano: uma polícia que chega tocando o terror, mata inocente por confundir com bandido e mostrar serviço. Tem chacina diariamente nessa cidade, Brasil. A diferença é que quando o cenário é um cartão postal fica evidente.

Já você, revoltadinho com a “bagunça” porque-vinte-centavos-não-faz-falta-pra-ninguém, olhe além do seu egoísmo. Vinte centavos é uma diferença razoável para o brasileiro que conta moeda. Pra quem calcula exatamente o que pode gastar num supermercado – e não são poucas as pessoas que, infelizmente, precisam fazê-lo. Ah, você é dos que acusam o manifestante de ser playboy desocupado? Talvez você tenha razão. Mas sabe por que é o playboy desocupado que tá lá gritando pra mudar alguma coisa? Porque boa parte da população que sofre de verdade com nossas mazelas públicas é tão acostumada a se ver fragilizada nos seus direitos, que não sabe que pode brigar. Tem medo. A outra parte (incluindo você), com algum poder de crítica, prefere focar no seu micro-mundo medíocre, incapaz de compreender que quanto mais a sociedade é igualitária, melhor ela será também para você viver. Consciência coletiva.

Mas aí a polícia prefere espancar, o manifestante prefere quebrar, o governo prefere não conversar, e o paulistano classe média acomodado prefere fingir que não é com ele. Aplausos para a nossa incapacidade que transformou um protesto democrático numa violência sem fim.

P.S.: As autoridades esquecem que hoje em dia existe um aparelhinho chamado smartphone, que vem com câmera, e o YouTube, pra gente ver tudo depois sem edição: http://www.facebook.com/photo.php?v=658874737474532&set=vb.100000560353308&type=2&theater