Pra você, mulher machista

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Eu tenho horror a machismo. É um antigo mal da nossa sociedade que perdura em tempos modernos. Já melhorou muito, é verdade. Mas a ideia de que o homem pode mais do que a mulher (inclusive pressionar, controlar e ameaçar) e ela tem mais é que obedecer (nem que seja à força) ainda é fortemente presente graças a um conservadorismo que se diz baseado em “respeito” – e que pra mim é o ponto alto do desrespeito. Lembrando que não é nada incomum se transformar em violência.

Mas nada me tira mais do sério do que machismo partindo de mulher. Ontem eu perdi a paciência ao ler uma reportagem (em tom de deboche, ainda bem) mostrando os ensinamentos de uma “heart hunter” sobre como conseguir um “partidão”. A bizarra cartilha da conquista da psicóloga, que oferece o “treinamento” por R$ 1 mil, basicamente, afirma que feminilidade e submissão andam juntas. Eu sou independente há anos, tenho opinião e personalidade – e isso jamais me fez ser menos feminina. Se algum homem acredita que características assim são empecilhos para relacionamentos, meu caro, você é um inseguro que não merece minha mínima atenção.

Enfim, entre as pérolas da teoria da tal heart hunter (ainda faz marketing cafona!) estão:

– chamar um garçom num restaurante é “desafiar” o cara que tá me acompanhando
– falar do meu trabalho durante o jantar com ele não é recomendado pra que o sujeito não se sinta “inferiorizado”
– andar de rasteirinha não conquista ninguém e mulher feminina usa é salto alto

O curso ensina a mulher a ser “magnética”. Eu acho que magnetismo só vem de gente interessante – e não de quem diz amém pra tudo. Se meu acompanhante se sente ameaçado pelas minhas conquistas ou por um simples gesto, como chamar o garçom, é melhor mesmo ele não me acompanhar nunca mais. Não falo aqui de extremos. Não acho bacana quando uma moça acredita que só consegue se colocar, opinar, com agressividade. Mas isso não é questão de gênero. Homem também não tem que ser agressivo. Ninguém tem esse direito.

O que me deixa irada é que esse tipo de mentalidade “mulher boa é a mulherzinha” e “homem bom é provedor e tem que ser respeitado” ecoa muito mais do que a gente imagina! E isso é repassado para as novas gerações! Eu fico pensando quantas meninas não estão escutando agora, nesse momento, que pra serem “aceitas” devem ser “femininas” no pior sentido. São ensinadas que o certo é serem tão mas tão frágeis que acabam sem saber o que fazer quando um ordinário enfia a mão na cara delas, ameaça…

Garotas, magnetismo vem de inteligência, simpatia, gentileza, bom humor, carinho. Se alguém disser que você deve ameaçar sua integridade, seus valores, para ser aceita, pra conquistar namorado, não acredite! Porque um cara que vale a pena sempre vai desejar muito mais do que uma mulher-enfeite.

Ah! E pra quem se interessar, por R$ 500, eu e umas amigas minhas aí ensinamos você a ser poderosa usando até All Star! Muito mais negócio!! 😉

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O texto abaixo foi publicado em janeiro aqui no blog. Fala de como nosso comportamento cotidiano reforça o machismo e a violência produzida por ele. É meio longo, mas acho um dos posts mais importantes do blog até hoje.

O machismo nosso de cada dia

Pra mim, beira o inacreditável e me revolta. Espero que a vocês também. Segundo dados do Mapa da Violência 2012, produzido pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (CEBELA), e divulgados esta semana, de 1980 a 2010 foram assassinadas no País cerca de 91 mil mulheres, 43 mil só na última década. Com uma taxa de 4,4 homicídios em 100 mil mulheres, o Brasil ocupa um vergonhoso sétimo lugar entre 84 países. Esses assassinatos foram provocados por maridos, namorados, companheiros, pais, irmãos.

Outros dados da Agência Patrícia Galvão, criada em 2009 para divulgar notícias sobre os direitos femininos, mostram que 91% dos homens consideram que bater em mulher é errado em qualquer situação. Mas isso não deve deixar ninguém tranquilo. Significa que 9% dos homens ainda acham que é sim razoável ser violento com uma mulher.

Uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido alguma vez algum tipo de violência por parte de algum homem. É fundamental lembrar que humilhações, terror psicológico, também é caracterizado como violência. Eu já sofri isso. Muitas (eu disse MUITAS) amigas e conhecidas minhas também. E não é porque somos fracas, ignorantes, desinformadas sobre nossos direitos. Simplesmente, às vezes, a situação toma uma proporção complexa demais, da qual não se sabe mais como sair.

Em geral, quando os primeiros sinais de machismo aparecem, estamos apaixonadas. O ciúmes dele parece só uma prova de amor, de preocupação. Não é. Possessividade, controlar cada passo que você dá, achar que você está sempre mentindo. Nada disso é cuidar, querer bem, também estar apaixonado. Manipular, fazer parecer que é sempre você a culpada pelos problemas da relação, também não.

Quando vem um grito, achamos que, talvez, ele tenha ficado um pouco nervoso só. Ele promete que aquilo não vai se repetir. Mas se repete. Primeiro, espaçadamente. Depois, com frequência. Até que se torna corriqueiro. E você já está fragilizada e com medo das ameaças, que tanto podem ser um “eu vou te matar se você me deixar, vou te arrebentar se contar para alguém”, ou “você não é boa em nada, não é nem bonita, não é competente, você faz tudo errado, vai achando que você vai encontrar alguém que te aguente como eu”, entre outras tantas bizarras justificativas.

Lembrando que não precisa ser um tapa na cara pra caracterizar violência física. Empurrões, apertar o braço até deixar roxo, te puxar a força, entre outras coisas, é tudo violência. E não adianta a gente dizer que basta a mulher sair de casa ou colocá-los pra fora. Para muitas, especialmente mulheres que vivem na pobreza, a questão financeira pesa. Com salários ainda mais baixos do que os dos homens ou sem qualificação e experiência profissional, a saída é mais difícil de ser encontrada.

A pergunta é: o que leva esses caras a imaginarem que têm autoridade, esse direito de fazerem sua vontade e opinião valerem à força? Nós. Somos nós, com nossas pequenas atitudes machistas do dia a dia, que reforçamos uma consciência coletiva de que eles são superiores, podem mais.

Somos nós, que rimos de piadinhas machistas. Que aceitamos ganhar menos por funções iguais. Que fazemos o prato de um marmanjo e lavamos suas cuecas até o dia que ele sai de casa pra casar. Ou aceitamos continuar lavando a roupa que ele leva no fim de semana mesmo depois de ir morar sozinho. Que damos o pedaço de bife maior ou deixamos eles almoçarem primeiro. Que temos orgulho do filho pegador – e ai da filha que for “galinhar”! Que acreditamos ainda piamente que meninos devem usar azul e meninas, rosa. Que meninos não podem dançar balé e que meninas não podem jogar futebol. Que homem que defende uma opinião com firmeza é “assertivo” e mulher que defende opinião com firmeza é “histérica”. Que homem com namorada mais jovem é natural e mulher com namorado mais jovem é uma velha sem noção. Que homem que chega a um doutorado é um gênio e mulher que também carrega esse título não tem vida pessoal e enfia a cara nos livros. Que mulher realizada é aquela que acha marido – e aqui cabe um sonoro “antes só do que mal acompanhada”.

Quantos não são os homens, muitos bem jovens, que ainda acreditam que merecem mais prazer do que uma mulher na cama? Ou que ela nem merece e está ali só pra satisfazer sua vontade? Ah, sim… Mulher que gosta tanto ou mais de sexo do que homem não vale nada. Se ela usa uma saia curta, maquiagem, salto alto, é amiga de rapazes só pode ser uma vagabunda. Mulher que viaja sozinha pelo mundo? Só pode ser vadia.

Homens que agem assim (ou pior) são escrotos, babacas, no fundo um bando de inseguros que não botam fé em si mesmos. Mulheres que agem assim são recalcadas. E, por isso, reforçam o machismo pra que outras não possam viver tudo aquilo que, lá no fundo, nos seus desejos mais secretos, elas também gostariam de viver. Ah, você só sai com cara que tem carro? As primeiras perguntas que você faz pra sua amiga que começa a namorar é “qual o carro dele”, “qual o cargo dele”, “ele paga toda a conta”? São esses os requisitos que te fazem sair com alguém? Ah, você condena a prostituição??? Puxa… Então, tá…

Outro dia uma amiga me contou de uma conhecida que diz para a filha de 15 anos: se sair com um cara que não aceitar pagar toda a conta do restaurante é pra ligar pra ela, a mãe, ir buscá-la. Isso, minha cara. Ensine sua filha a trocar o corpo por um jantar. Não há problema algum em aceitar gentilezas. O problema é fazer isso parecer a regra do bom relacionamento. Fazer parecer que isso é valorizar uma mulher. Aí, você vê um bando de garotas com namorado/marido pagando tudo e sem nenhuma voz de decisão, de escolha, na relação. Aceitando as humilhações que facilmente acontecem a partir daí. Vale acrescentar que nem todos os relacionamentos em que a mulher não trabalha são desiguais. E isso pode acontecer por mil motivos, inclusive a opção do casal de que é o melhor para a criação dos filhos. Mas quem entra numa relação acreditando que o homem banca tudo porque é sua obrigação ou mulher não tem que trabalhar porque ela não foi feita pra isso, pode se dar muito mal (ambas as partes).

Machismo masculino é inaceitável. Machismo feminino é inaceitável e constrangedor. Para eles, existe a Lei Maria da Penha. Para elas, é sempre tempo de tomar vergonha na cara – e ser a mulher que sempre quis ser de verdade.

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8 respostas em “Pra você, mulher machista

  1. Parabéns por esse post ! Como é saudável ler pessoas que se portam nessa linha de amor e compreensão ao outro como a sua.Eu nunca fui agredida por um homem ,mas vi a minha mãe ser.Ela também me dizia que era difícil se libertar dessa prisão.Quando contava as pessoas o meu desespero de ver minha mãe naquela situação , muitos diziam que ela só não se saia porque não queria.Hoje , ela se libertou daquele homem perverso , graças a Deus.
    Outro dia , li em um blog o posicionamento machista ( que eu considero anti humano) vindo de uma mulher.Ela protestava sua indignação contra o dia internacional da mulher, dizendo que uma mulher em sã consciência não comemora esse dia ,pois , na opinião dela, uma mulher não pode trabalhar e tem que procurar o seu lugar e para de competir com os homens.Como é horrível e como dói ler isso de uma mulher.Sabe, eu vejo o quanto o ser humano precisa amar mais uns aos outros.Ninguém é inferior ou superior a ninguém.Homens e mulheres são diferentes no sexo que possuem ,mas são iguais em dignidade e sentimentos.As nossas diferenças devem nos completar em um patamar de igualdade social e de direitos como seres humanos, independente de ser mulher ou homem.
    A mulher durante século foi vista como um ser sub humano , assim como o nazismo via as pessoas que não fossem pertencentes da raça considerada “superior” pelos nazistas, como sub humanas , como bichos , como coisas…o preconceito é o ápice e ponto mais desmascarado da perversidade e da falta de amor em um coração.
    Devemos muito ao feminismo e as mulheres que foram as ruas lutar por todas.Porém, hoje eu percebo que o feminismo está ficando muito radical em alguns setores.Noto que há algumas mulheres começando a cometer o mesmo erro de agressividade e superioridade de sexo que os homens cometeram e ainda cometem contra as mulheres.Noto que tem algumas mulheres feministas que tem aversão ao sexo masculino e ódio.Sei que o machismo nessa sociedade traumatizou e traumatiza ainda as mulheres , mas não podemos nos rebaixar aos homens que foram machistas , cometendo a mesma postura de agressividade , superioridade e domínio sobre determinado sexo. Ou não gosto em nada do machismo , pois em tudo ele maltrata e despreza a mulher.Deve ser abolido completamente da nossa sociedade. E eu gosto do feminismo,mas um feminismo que lute apenas pelos direitos das mulheres e não um feminismo radical e que propaga ódio ao masculino.Pois , antes de sermos homens e mulheres, somos pessoas.Devemos nos repeitar em igual medida e dignidade.Sem nem o homem se sobrepor sobre a mulher e nem a mulher sobre o homem.Onde um ajuda com o desenvolvimento do outro e colabora para que ambos cresçam de mãos dadas e sendo ,acima de tudo , companheiros um do outro.É essa a sociedade feita de mulheres e homens que eu quero ver.

    • Amanda, obrigada pelo comentário! Compartilho completamente da sua opinião e fico muito feliz em saber que mais pessoas conseguem enxergar a situação dessa maneira. Agressividade, independente de onde venha, de quem pratica, não é, nunca será, aceitável. Mas eu tenho esperanças de que um dia as pessoas alcancem algum equilíbrio em relação a isso. E sim, machismo é um mal arraigado e que vai demorar a desaparecer. Principalmente com mulheres o reforçando. Que mais gente venha a público contar suas histórias de sofrimento pra, quem sabe, a sociedade refletir de fato sobre a gravidade. Bjão e bem-vinda ao blog!

  2. hoje pra mim foi o cúmulo do machismo ouvir coisas que ouvi. Estava eu conversando com a minha mãe quando meu padrasto liga e diz que a casa esta uma bangunça e que ela não faz nada. Poxa, ele tem mão, não tem? Sabe que ela esta trabalhando e ainda quer que ela pare o trabalho pra ir pra casa? E o pior, ela não reclama e eu digo: mas mãe isso só acontece pq você deixa. Ela me respondeu: um dia quando você casar vai descobrir isso!
    Depois disso que ela me disse eu tenho mais nojo ainda de mulher machista, são puramente elas que querem ser assim. Gostei muito do seu texto, e depois de ouvir o que ouvi tive que vir procurar saber se existem mulheres que não se submetem dessa fora… Fiz um post até no meu blog pra desabafar por que não aguentava mais! Muito bom tudo que você escreveu!

    • Maysa, pode ter certeza que muitas de nós pensam como você. Infelizmente, talvez não seja na nossa geração que absurdos assim mudem… Mas vamos fazendo nossa parte, denunciando e criticando o machismo. Colocando no debate pra tentar fazer com que as pessoas ganhem alguma consciência sobre o assunto. Bjão

  3. * “Ensine sua filha a trocar o corpo por um jantar. Não há problema algum em aceitar gentilezas. O problema é fazer isso parecer a regra do bom relacionamento. Fazer PARECER que isso é VALORIZAR A MULHER.”
    Esse paragrafo me fez pensar em muita coisa, principalmente da minha adolescência, a maioria das minhas amigas agiam dessa forma, como uma regra a ser seguida ao pé da letra. Contrariar isso pra que? Nem passava pela cabeça delas fazer diferente.

    Hoje temos as opiniões mais variadas sobre o que significa “valorizar uma mulher”, infelizmente nenhuma delas envolve o seu papel na sociedade ou seus valores positivos e sim a marginalização de seu corpo. De alguma forma sua valorização esta ligada a mostrar ou não seu decote.

    Ótimo post. Eu realmente desejo que mais textos assim sejam produzidos

    • Oi, Dany! Obrigada!! Ainda temos muito pelo que lutar pra que as mulheres sejam de fato respeitadas.
      E essa conscientização vem também de uma mudança de pensamentos das próprias mulheres.
      Porque muitas delas são vergonhosamente algozes das outras.
      Mas eu ainda acredito no melhor, que as coisas serão melhores.
      Boa semana! Bjão, Suzane

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