Sim, eu sou feminista – e você também deveria ser

feminista

Juro que eu esperava mudar de assunto no post de hoje. Mas é impossível. Nas duas últimas semanas assisti uma sequência de notícias que provam o quanto o machismo é arraigado na nossa sociedade. Uma perigosa verdade tanto para homens como para mulheres. Teve estudo dizendo que eles acham moças tatuadas mais “fáceis”. Aumento de 37% nos índices de estupro contra a população feminina na cidade de São Paulo. Apareceu uma fulana se autointitulando “heart hunter”, cuja função é ensinar as mulheres a serem mais “femininas” por meio de lições que as transformam, na real, em submissas sem poder de decisão (olha o post de quarta-feira).

Pra coroar o espetáculo da ignorância surge o absurdo Estatuto do Nascituro, que dá à mulher que engravida após ser violentada o “direito” de receber pensão alimentícia. Há quem diga que se trata de um benefício e seja um meio de proteção. Não é. É um vil instrumento de pressão para que a mulher não exerça seu direito de abortar em casos de estupro, como já prevê a lei. E ainda me pergunto como ninguém se deu conta do quanto essa decisão só reforça a ideia de que o homem pode, sim, agir violentamente contra uma mulher, que pode subjugá-la, já que o Estado se responsabilizará pela consequência do seu ato. Como bem lembrou um amigo meu, o jornalista Victor Farinelli, a partir daí não é impossível que um estuprador consiga absolvição alegando que a atrocidade que ele cometeu não gera inconveniente à mulher caso engravide. Afinal, receberá a pensão. A interpretação será de um juiz – que, antes de tudo, é um ser humano que não está livre de carregar seus preconceitos.

Na quarta-feira a noite, ainda sem saber bem da cruel novidade mascarada de benefício, eu tentava argumentar com um colega na aula do mestrado sobre como temos assistido ao retrocesso de direitos individuais. Claro que ao longo de décadas contabilizamos centenas de vitórias que melhoraram muito a vida das pessoas. Mas numa sociedade que vem se mostrando bem intolerante como a atual nossas conquistas acabam sendo cíclicas. Volta e meia elas são novamente ameaçadas – e lá vamos nós brigar para mantê-las. Caímos, então, no debate machismo x feminismo. E aí, minha gente, eu fui obrigada a riscar o fósforo.

Primeiro, ele disse não ser machista. Que “ajuda” a esposa em casa e se pudesse colocaria três empregadas pra ela. Eu disse que a ideia de “ajudar” era vaga e que deveria ser substituída por igualdade de tarefas. Se a casa é dos dois, ambos cuidam. Existe, é verdade, uma dificuldade feminina de querer tomar conta de cada detalhe e achar que o cara nunca vai fazer direito. Uma mentalidade a ser modificada urgentemente. Mas eu nem bem tinha dito isso quando ele solta a pérola: “Quando você casar vai entender como funciona”.

Ele parte do princípio de que para eu compreender uma relação a dois e a divisão de tarefas sou, antes de tudo, obrigada a casar – nada mais machista! Eu disparei um chocado “como é que é?” e senti o sangue subindo. Ele perguntou se eu era feminista. Eu disse que não me considerava feminista, mas sensata o suficiente pra exigir equilíbrio e dignidade quando se aborda a questão de gênero no Brasil. Uma colega logo afirmou que era feminista, sim. Ele: “Se você é feminista eu posso ser machista!” Antes que todas as mulheres da sala tentassem falar ao mesmo tempo pra quebrar o argumento dele, nossa professora fez a observação mais genial da discussão: “Não, senhor. Machismo é preconceito. Feminismo é uma luta.”

O feminismo cego também pode virar preconceito. Mas ele só surgiu como um movimento de protesto pra livrar as mulheres da opressão, da violência, do desrespeito, de serem tratadas como seres de segunda categoria por homens que agiam como bem entendiam. Sem dúvida, o começo do feminismo foi radical. Não havia outra saída. Não poderia ser suave para ser ouvido. As primeiras feministas precisavam chamar a atenção. Conseguiram com certa agressividade em suas exigências e atos como queimar sutiãs em praça pública.

Hoje, vejo muitas de nós dizendo “ah, não fui eu quem queimou sutiã, não”. Pois você, minha cara, deveria ter um orgulho enorme dessas mulheres. Elas enfrentaram todo um sistema engessado pra que atualmente você não só trabalhe fora de casa e seja reconhecida como um ser pensante. Mas controle quando deseja ter filhos, escolha se quer menstruar ou não, saia sozinha com suas amigas numa sexta-feira a noite, possa ir e vir sem uma constante presença masculina (marido, pai, irmão), viaje pelo mundo, deixe pra trás um relacionamento infeliz, desfrute de uma sexualidade plena cheia de orgasmos, tenha o prazer de comprar seu próprio apartamento. De comprar seu próprio anel de brilhantes como símbolo do seu sucesso!! Graças a elas podemos encontrar parceiros que nos respeitam, nos amam e sentem orgulho de nós justamente pelas nossas conquistas individuais que moldam nossa personalidade.

Portanto, SUA FÚTIL, mais respeito com aquelas que são responsáveis por muito do que você aproveita agora!

Voltando ao meu colega de mestrado (que depois disse que não era machista coisa nenhuma), ele é o exemplo de como muitos homens não percebem que, sim, eles são machistas. Nem sempre acho que é má fé do cara. Ele só reproduz aquilo que aprendeu como verdade a vida inteira e fica sem saber como agir. A educação brasileira é machista. Quantas de nós, ainda meninas, não fomos chamadas para ajudar nossas mães na cozinha, enquanto nossos irmãos mal aprenderam a lavar uma louça? Então, rapazes, até dou a vocês um refresco. Mas não os desculpo. Porque informação tem. E ninguém precisa ser tão esperto assim pra saber que pressionar, controlar, humilhar, agir com superioridade e violência (inclusive verbalmente) é errado. É machista.

No fim, tanta revolta essa semana serviu pra que eu enxergasse uma parte importante da minha identidade: sim, eu sou feminista. Nunca tinha me compreendido dessa maneira. Mas eu sou porque há muito tempo brigo pra que meus direitos e de todas as mulheres sejam mantidos em segurança. Não porque eu quero que os homens percam os direitos deles. Nada disso. A ideia do feminismo moderno não é ser superior ao homem, não é agredir. Não desejo ser algoz de quem um dia fui vítima. Quero o direito de igualdade nos deveres pra que as oportunidades e as recompensas estejam ao alcance de todos nós. Por isso, você, homem ou mulher, também deveria ser feminista. Não é uma questão de gênero. É uma questão de melhorar todas as relações que nos cercam. De vivermos num saudável equilíbrio.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

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4 respostas em “Sim, eu sou feminista – e você também deveria ser

  1. Boa reflexão, Su…
    Pensei que todos os atributos que nosso colega disse na sala de aula se referissem a mim, que disse claramente que ele era um machista.

    Falando ainda sobre os direitos das mulheres, li um texto super interessante esta semana que diz: “Direito ao aborto vai além da questão de saúde pública, é respeitar a autonomia da mulher sobre seu próprio corpo”. É do Sakamoto (que, inclusive, é professor da faculdade de jornalismo da PUC).

    Vale a pena dar uma lida: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/06/06/estatuto-do-nascituro-mulheres-sao-apenas-um-vaso-de-planta/

    • Oi, querida! Eu li esse texto do Sakamoto. É bem por aí, mesmo.
      Quanto ao colega, não se preocupe. O desrespeito ali foi generalizado, infelizmente. Inclusive com a professora, que obviamente lutou pelo feminismo num tempo em que era muito mais difícil do que pra nós hoje. Mas é bom que venham à tona essas discussões acaloradas pra forçar mesmo uma reflexão.
      Bom dia! Bjão

  2. Adorei o texto! Tbem me descobri há pouco, feminista. Mas ainda estou em construção, estou lendo, derrubando preconceitos e paradigmas enraizados. Me sinto super feliz de ser consciente disso e de estar me tornando quem desejo ser. 🙂

    • Essa construção é muito boa, Andreia! Descobrir nosso lugar no mundo, a sensação de estar se encontrando e compreendendo nossa essência é especial. Parabéns!! Obrigada pelo comentário! Bjão

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