Pela lei do aborto

aborte machismo

Não, eu não sou a favor do aborto. Eu, Suzane, não faria. Mas essa é uma decisão absolutamente pessoal, que não deve servir de exemplo pra ninguém. Porque sou a única pessoa que conhece de fato a minha própria vida. Sei quais são minhas possibilidades e minhas limitações. Sei, acima de tudo e antes de tudo, que sou uma mulher livre pra decidir o que fazer ou não com o meu corpo. E por ter tal direito, acredito que as outras mulheres também devem exercê-lo, independentemente de classe social. Somos brasileiras e é a semelhança que me basta pra exigir que nossos direitos sejam iguais. E o que elas fazem ou não com base na vida que levam, nas dificuldades que enfrentam, e que só elas conhecem, não é da minha conta. Nem da sua. Nem de nenhuma religião. Nem do Estado. Esse último tem apenas que garantir nossa segurança e nosso pleno exercício de cidadania. Permitir o aborto é parte de um pacote maior que mantém a integridade física e mental feminina.

Antes que você resolva parar de ler este texto pra me excomungar e me chamar de anticristo, te convido a acompanhar duas histórias. Respire fundo e o faça de coração aberto. Tente, por poucos minutos, deixar de lado todos os seus “pré-conceitos”, suas opiniões baseadas num cotidiano em que mais valem as aparências do que a essência e a verdade. Coloque-se no lugar do outro. Empatia. Tente se imaginar no lugar das mulheres a seguir, gente de bem que encontrei pelo meu caminho como jornalista. Nenhuma delas era mau caráter, insensível ou irresponsável. Pelo contrário. São mulheres que se viram em encruzilhadas e pensaram naqueles que amavam, mais do que nelas, na hora de abortar. Os depoimentos vão entre aspas. É pra que vocês, antes de se acharem com alguma razão de enfiar o dedo na cara de uma mulher e chamá-la de criminosa num momento de extremo sofrimento, tentem relembrar como pode ser essa dor.

“Eu moro na região metropolitana de São Paulo. Sempre tentei tomar a pílula. Mas a que eu pegava de graça no posto de saúde perto de casa volta e meia não chegava. A moça do posto dizia que ficava em falta. Um mês tomava, outro mês não. Nem funcionava direito desse jeito, né? Já tinha cinco filhos quando fiquei grávida do sexto. Sou diarista e isso era um problema. Cada gravidez atrapalhava o serviço. Meu corpo sofria muito e nem todo patrão entendia. Amo meus cinco filhos. Mas se eu pudesse escolher tinha só dois. Quando soube do sexto na barriga, caí no choro. Não de alegria, não. Mas de desespero. Eu queria tentar criar os outros bem e nem conseguia. O que seria do sexto? Eu não quis engravidar. Sexo nem nunca foi uma coisa boa pra mim. Não sinto nada de bom. Meu marido me machuca. Ele me força a fazer… Não adianta eu dizer pra ele que não. Homem é meio bicho pra essas coisas mesmo… Quer e acabou e eu que faça. Foi assim que fui engravidando. Tentei evitar com a pílula, mas pra comprar não dava. Era cara demais pra quem tem dinheiro contado pra dar de comer pra família. Tinha que ser a do posto. Resolvi abortar o sexto. Falei pra meu marido e ele disse que não se importava. Só não me queria ‘estragada’ depois porque ele queria continuar com o sexo. Foi só com isso que ele se importou. Tomei um remédio e lá se foi meu sexto bebê. Foi terrível, uma dor terrível. Uma vizinha me ajudou. Fui depois no hospital pra acabar com os restos do bebê que ficaram dentro de mim. Demorou seis horas pra eu ser atendida. Perdi minha faxina do dia. Um padre disse uma vez que apesar de tão minúsculo o bebê já tem alminha. Se o meu tinha, que bom. A alminha voltou pro céu pra voltar num corpinho do bebê de uma família que vai poder cuidar dele. É o que eu acredito.”

“Minha mãe morreu de câncer há dois anos. Meu pai sofre de Mal de Parkinson. Estou desempregada e vivemos com a aposentadoria dele. Eu queria ter feito faculdade, mas só consegui o curso técnico de auxiliar administrativo. Não consigo emprego aqui perto de casa que pague um salário pra me ajudar com as contas da casa e a pagar um cuidador para meu pai. Somos só eu e ele agora e temo arrumar um trabalho longe e demorar três horas pra ir e três pra voltar, como acontece com a maioria das pessoas que vivem aqui no extremo da zona leste. Trem, ônibus, é tudo precário, não funciona direito. Não posso deixar meu pai tanto tempo sozinho. Só consigo pagar eventualmente uma vizinha pra dar uma olhada nele algumas horas do fim de semana pra fazer alguma compra. Uma vez pedi pra ela ficar um pouco com ele pra que eu pudesse dar uma chegadinha no aniversário de uma outra vizinha. Lá estava um rapaz que sempre me olhava. Ele chegou pra conversar comigo e se ofereceu pra me acompanhar em casa. Mas na hora que saí do carro, ele me pressionou contra o muro da lateral de casa, uma rua escura. Disse que seria rápido, levantou minha saia. Eu chorava, fiquei paralisada. Ele foi rápido. Não chegou a me machucar. Mas me senti suja. Fiquei pensando o que o levou a imaginar que podia fazer aquilo comigo, qual era a minha culpa. Ele disse que se eu contasse pra alguém ficaria falada no bairro. Pouco mais de um mês e comecei a me sentir mal. Estava grávida. Consegui encontrá-lo pra contar, mas ele disse que não era problema dele e que eu deveria ter me cuidado. Me desesperei. Como eu cuidaria de uma criança e do meu pai? Tínhamos dívidas. Eu quis um dia ser mãe. Mas não solteira. As pessoas julgam. Tinha medo que elas passassem a tratar mal meu pai, não sei. Tirei o bebê numa clínica clandestina com dinheiro de um empréstimo. Não me trataram mal, não. Mas era tudo muito frio, como se eu tivesse lá pra tratar uma gripe. Ainda não sei se me arrependo. Às vezes. Mas eu não seria boa mãe. Sempre tive episódios de depressão. O que seria da criança com meu pai doente e quando eu estivesse deprimida? Sinceramente, não era justo um ser humano ser criado no meio da tristeza que já era a minha vida.”

Antes de ser contra a legalização irrestrita do aborto, lembre:
– Homens ainda acreditam que mulheres podem ser forçadas a manterem relações sexuais com eles. O nome disso é estupro e acontece muito
– Educação sexual de qualidade é algo absolutamente distante da realidade das escolas e um tabu entre famílias
– A distribuição regular de antincocepcionais e preservativos em postos de saúde para retirada gratuita falha até em bairros de cidades grandes como São Paulo. Imagine no interior do país
– Não adianta igreja (seja lá qual for a a religião) distribuir enxoval quando o bebê nasce e uma cesta básica por mês pra família. Criação vai muito além disso. Não tapem o sol com a peneira de maneira tão cruel e egoísta
– Quem tem dinheiro aborta em clínicas limpas, confortáveis, minimizando ao máximo os riscos. Quem não tem coloca a vida em perigo
– Reflita, por favor, sobre a questão do aborto com um olhar real, não idealizado. Com um olhar abrangente, não elitista de quem tem tudo ao alcance quando precisar. Uma parte considerável da população ainda não tem o mínimo para sobreviver
– A história de cada um é única. Não julgue situações que são apenas hipóteses em sua cabeça. Você só imagina como poderia enfrentar um problema. Não tem certeza absoluta. Então, cuidado ao massacrar uma mulher cuja decisão já é suficientemente dolorosa
– O Estatuto do Nascituro é uma das coisas mais medievais e manipuladoras que presenciei na nossa sociedade até os dias de hoje

Crédito da imagem: blog Casal Sem Vergonha

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