Aplausos para a incapacidade

cidademuda

Polícia com síndrome do pequeno poder. Polícia que se esconde atrás de escudo. Polícia truculenta e violentíssima contra a liberdade de expressão (atacando, inclusive, jornalistas que estavam trabalhando). Governo que não sabe vir a público explicar decisões e nem conversar com o cidadão. Tá errado.

Manifestante escondendo o rosto na camiseta. Manifestante depredando o patrimônio público. Manifestante tocando fogo em ônibus. Tá errado.

População em pânico. Tá errado.

O meu lado rebelde está em festa. Temos que ir para as ruas, lutar contra abusos e opressões. Mais vezes e por muitos outros motivos. Eu apoio a manifestação contra a tarifa do transporte público ineficiente de São Paulo. R$ 3,20 é caro sim para ônibus sujos, desconfortável, dirigido com violência por motoristas despreparados e estressados com uma cidade que se torna um desafio maior a cada dia. Pra todos nós. Ônibus, metrô e trem que lotam, que quebram, que falham sem explicação. Um sistema que não abrange um município de tamanho monstruoso. Um lugar onde somos reféns do trânsito. Eu apoio o aumento se me provarem que o transporte público vai melhorar anos-luz do que temos hoje – e assim se manter.

O meu lado sensato tem que ponderar. Na hora que a luta por algo legítimo vira queda de braço, a verdadeira razão se perde. Os ânimos se exaltam e há até quem se esqueça o que o motivou a estar lá, brigando conscientemente por uma causa que é maior. Vira excesso. É dar aos críticos cegos de plantão munição pra encherem a boca com o discurso de que é tudo moleque mimado que não tem o que fazer. Que é vândalo, baderneiro. Sempre tem. Não é maioria. Só que a pecha, depois, fica difícil de tirar. Luta-se por algo que vai impactar o bolso do povo causando prejuízo?

Mas eis que até o quebra-quebra fica em segundo plano quando assistimos a ação de uma polícia com sangue nos olhos. Brutos. Despreparados. Mal pagos. Que espalham medo, não segurança. Agem com base em seus instintos primitivos, acreditando que têm poder absoluto ao vestirem a farda. O ataque da polícia à imprensa e às pessoas que estavam paradas numa calçada observando a movimentação é a prova de que eles, simplesmente, não sabem o que estão fazendo. Não têm treinamento eficiente e nem estado emocional pra estarem ali, naquela função. As polícias do mundo que dão certo conseguem identificar e mobilizar quem passa do limite sem bater. A nossa, na dúvida, bate em quem aparecer pela frente.

O momento ajuda a lembrar que a ação policial vista no coração da cidade (Avenida Paulista e imediações) é o que acontece todo dia na periferia paulistana. Ficou horrorizado com o “atira antes pra depois perguntar” da polícia em meninos e meninas universitários que poderiam ser seus filhos? Não se engane. Não é ato isolado. É isso que famílias de bairros pobres enfrentam no cotidiano: uma polícia que chega tocando o terror, mata inocente por confundir com bandido e mostrar serviço. Tem chacina diariamente nessa cidade, Brasil. A diferença é que quando o cenário é um cartão postal fica evidente.

Já você, revoltadinho com a “bagunça” porque-vinte-centavos-não-faz-falta-pra-ninguém, olhe além do seu egoísmo. Vinte centavos é uma diferença razoável para o brasileiro que conta moeda. Pra quem calcula exatamente o que pode gastar num supermercado – e não são poucas as pessoas que, infelizmente, precisam fazê-lo. Ah, você é dos que acusam o manifestante de ser playboy desocupado? Talvez você tenha razão. Mas sabe por que é o playboy desocupado que tá lá gritando pra mudar alguma coisa? Porque boa parte da população que sofre de verdade com nossas mazelas públicas é tão acostumada a se ver fragilizada nos seus direitos, que não sabe que pode brigar. Tem medo. A outra parte (incluindo você), com algum poder de crítica, prefere focar no seu micro-mundo medíocre, incapaz de compreender que quanto mais a sociedade é igualitária, melhor ela será também para você viver. Consciência coletiva.

Mas aí a polícia prefere espancar, o manifestante prefere quebrar, o governo prefere não conversar, e o paulistano classe média acomodado prefere fingir que não é com ele. Aplausos para a nossa incapacidade que transformou um protesto democrático numa violência sem fim.

P.S.: As autoridades esquecem que hoje em dia existe um aparelhinho chamado smartphone, que vem com câmera, e o YouTube, pra gente ver tudo depois sem edição: http://www.facebook.com/photo.php?v=658874737474532&set=vb.100000560353308&type=2&theater

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2 respostas em “Aplausos para a incapacidade

  1. Texto incrível, ideias bem colocadas e claras, adorei! Vc soube colocar em palavras a exata razão de tudo isso, a incapacidade de todos nós brasileiros. Será que ainda estamos no caminho perdido entre a Ditadura e a Democracia, como estudamos na faculdade há mais de 13 anos? Não sei, mas confesso que estou com medo, revoltada e triste, muito triste!

    • Carmem, eu acredito que a sociedade brasileira gosta muito de posar de democrática. Mas nos últimos tempos assistimos (e muito graças à internet, redes sociais) a uma série de ações/depoimentos/posições que comprovam que, se der uma mínima chance, ditadura volta sim. Não sou a favor de anarquia. Ordem é necessária para as coisas funcionarem. Mas na hora que a liberdade de se expressar é atacada com violência, e uma parte das pessoas acha isso certo, assim como acham um absurdo alguém brigar por centavos, o sinal de alerta tem que ser dado. Por isso, debater, opinar, tentar enxergar a culpa de todos os lados é necessário pra gente conseguir encontrar saídas equilibradas. Compreender a importância de deveres sim, mas manter direitos assegurados também – porque não são poucas as vezes em que eles são pressionados neste país. Não de hoje. Desde sempre. Compartilho do seu temor… Bjão

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