O direito de me sentir confusa

cartaz

Eu deveria descer a serra hoje rumo à Baixada Santista. Minha família mora lá. Mas meus pais pediram que eu não vá pra região agora. Ontem, o que era pra ser protesto na cidade de São Vicente, se transformou numa noite aterrorizante, a pior desde os ataques do PCC, em 2006. Teve toque de recolher às 16h. Saques, espancamentos, arrastão, ônibus incendiados. O que se sabia era o que aparecia em redes sociais. A programação local ficou boa parte do tempo suspensa enquanto as tevês transmitiam protestos em capitais do país. As pessoas se trancaram em casa, inclusive em municípios próximos. Ninguém sabe bem no que vai dar. Não dá pra ter certeza se é exagero tanto cuidado. Se eu deveria ir ou não. De longe, fico apreensiva, triste e preocupada.

Não mudei de lado. Continuo favorável às manifestações que se espalharam pelo Brasil. Me emocionei com o que vi em São Paulo na noite de segunda-feira, com as ruas tomadas por milhares de pessoas cansadas da maneira como o país foi conduzido até aqui. Gente que paga impostos altos e não vê retorno em benefícios. Que sempre tem que arcar com mais aumento disso e daquilo. E surtiu sim efeito. Em resposta aos protestos “deputados vão discutir projetos que poderiam ser de agrado dos manifestantes e pretendem travar propostas polêmicas por algum tempo, como a PEC 37, que limita o poder de investigação criminal do Ministério Público, e o da ‘cura gay’, como ficou conhecido o projeto que permite a psicólogos ‘tratar’ a homossexualidade”, diz matéria do jornal O Estado de S. Paulo (http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,em-resposta-a-protestos-deputados-avaliam-travar-pec-37-e-cura-gay,1044770,0.htm). Pode ser “manobra” pra arrefecer os ânimos? Pode. Consciência? Nenhuma. Mas duvido que não tenha algum temor. E não acho ruim eles terem medo e sentirem que são pressionados.

Desde o início, sempre disse que sou absolutamente contra o vandalismo. Mas juro que me perguntei quanto a decisão dos nossos parlamentares não foi de fato influenciada só depois do quebra-quebra, infelizmente… Na noite de ontem, enquanto acompanhava a violência que corria solta em alguns dos protestos de várias cidades e as ideias dos amigos no Facebook, me senti uma histérica. Mudei de opinião sobre tudo e todos umas vinte vezes. Tinha hora que eu pensava “quebra mesmo” e, minutos depois, eu implorava “para com essa porra A-GO-RA”.

Fiquei confusa. Isso não significa que eu concorde com vocês, reaças de plantão, que só reclamavam o direito de ir e vir, que afirmavam ser tudo uma grande bobagem, que era baderna, que nada mudaria. O curioso é que, pelo menos na minha timeline do Face, quem mais se mostra contra esse momento histórico é gente que justamente sonega imposto, dirige embriagado, paga propina pra se livrar de polícia após infringir lei, tem cargo público e não pensa duas vezes antes de dar uma maquiada em documento pra tirar três meses de férias, entre outras ações que estão muito longe da cidadania. Então, não me venham com um idiota “eu avisei”.

Fiquei confusa porque, na nossa gana por melhorar, esquecemos que parte considerável da humanidade é estúpida demais e se acha dona da verdade. E que ainda vivemos num país com altos índices de criminalidade (fora aquilo que nem entra em estatística e não é pouca coisa).

Em tempo: ser apartidário não é desejar o fim dos partidos. Lembra do AI-5? Então…

Do Rio, recebi as mensagens no Facebook de duas amigas. Ambas têm razão e são pessoas de paz:

“Acho fundamental para o desenvolvimento de nosso país a união do povo e o desejo de mudança explícito em ações de cobrança como as que estão acontecendo. A história mostra que isso funciona e a maior parte dos países que admiro passou por algo parecido para conseguir avançar. O problema é que, infelizmente, nem todas as pessoas são boas. Destruir patrimônio público, queimar carros, ferir outros, quebrar e saquear lojas, para mim, mostra o quanto a sociedade ainda precisa evoluir. Alguns falam que até isso é culpa do governo, que peca em prover educação de qualidade, mas acho difícil de acreditar, ainda mais depois de descobrir que um dos vândalos que atacaram a prefeitura de SP é estudante de arquitetura e urbanismo de uma boa faculdade. Para mim, esse cidadão é prova de que alguns problemas vão existir para sempre. Só espero que eles passem a ser uma minoria marginalizada, bem distante do poder.”

“Hoje de fato fui às ruas e jurei que estava exercendo meu direito a toda prova! O que vi e vivi nos momentos que sucederam a minha tentativa de voltar pra casa foi de extremo pavor! Pareciam que tinham declarado guerra, o choque surgiu de todas as direções jogando bombas, tanto de efeito moral e gás lacrimogêneo, atirando pra todos os lados. Num primeiro momento pensei em não correr, afinal não sou bandido, sou cidadã de bem e que defende causas justas, mas me vi entre bombas e o Choque encurralando, leia-se: en-cur-ra-lan-do mesmo! E eu me vi em desespero no meio de uma polícia despreparada sem saber o que eles poderiam fazer comigo, diante do conhecimento de toda maldade que eles ja fizeram e são capazes de fazer. O jeito foi correr procurando uma saída no meio daquele labirinto minado. Foi de tamanha covardia o ato deles, não tenho palavras pra descrever (…) vi a nossa impotência diante desses porcos imundos, e meu sentimento de revolta ainda é tão latente que consegui supor o que leva alguém a badernar ou mesmo depredar. Não estou justificando, mas a raiva que senti foi muito grande. Claro quando não daria a eles esse gosto, mas pra mim vandalismo maior é saber que eles que saem às ruas e afrontam o meu respeito e minha dignidade todos os dias (…) O ato que eu participei foi pacífico, a repressão da polícia não”.

Culpo os excessos que surgiram de todos os lados. Sei que minha conclusão não resolve nada. Me sinto como se estivesse numa ressaca depois de tomar o mais barato dos vinhos. Já consigo abrir os olhos, enxergar melhor umas coisas… Mas não consigo pensar direito ainda…

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