Afeto x afinidade

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“Às vezes esqueço que minha paisagem favorita no mundo é a minha cidade iluminada à noite, vista da Imigrantes. Ali na estrada, olhando a cidade lá embaixo, deixo aparecer um sorriso afetuoso em meus lábios. Lembro de amores e dissabores, penso na vida que tive e a que sonhei ter. Então, com um brilho nos olhos, sigo em frente. São Paulo me aguarda.
A saudade da cidade natal toma conta de mim. A saudade das pessoas que lá deixo, só faz crescer. Meu corpo estremece com as possibilidades infinitas que o futuro me guarda na ponta desta estrada. É interessante como a Imigrantes é mais do que uma estrada. Para mim, ela não liga duas cidades, liga o passado e o futuro. Andar por ela é uma viagem que leva do retorno às raízes, a quem eu sou e quem eu posso ser.”

Não fui eu quem escreveu o trecho acima. Mas eu gostaria de ter escrito. E talvez não conseguisse me expressar melhor em relação a um sentimento que é tão presente pra mim. O autor, Vitor Sampaio, é psicólogo (e futuro escritor, apesar dele não me levar a sério quando digo isso). É amigo de uma amiga querida. Agora, amigo também. Com ele tive a oportunidade recente de travar boas conversas e parar pra pensar em como a vida chegou do jeito que chegou até aqui. Gente que ensina sem nem perceber que tá ensinando.

A amiga querida em comum e em questão é a Nara. Ela fez parte de um dos momentos mais doces dos meus 34 anos, quando por mais de uma década fizemos balé juntas e nosso maior problema era qual sapatilha escolher. Me formava em jornalismo quando ela ingressava na mesma faculdade. Passamos anos distantes. E no reencontro (viva as redes sociais!) foi como se a despedida tivesse acontecido ontem. Entre gargalhadas escandalosas e muitas histórias num restaurante numa das últimas vezes que a gente se viu, há mais ou menos um mês, eu entendi que o afeto, independentemente do tempo e da distância, não muda. Como escreveu Vitor, o passado também é responsável por quem a gente é e quem podemos ser. Por isso, o carinho pelo que ficou pra trás deve ser valorizado. Ajuda a gente a se reencontrar no mundo.

Mas, pra minha alegria, não só o afeto pela minha amiga permanece. Também a afinidade. E foi Nara quem, numa frase simples, me levou a perceber uma verdade óbvia, mas não tão clara no nosso cotidiano: “Afeto e afinidade nem sempre andam juntos”. A gente caminhava, depois do almoço indiano, em direção a Avenida Paulista. Eu nunca tinha me dado conta como sim, você pode continuar a sentir afeto por muita gente, mesmo que desejos e horizontes entrem em conflito. A saída para preservar essas relações é ser mais… tolerante. Saber se colocar no lugar do outro. Compreender que aquilo que é essencial pra você não tem o menor sentido pra outras pessoas. E tudo bem.

Tudo bem, principalmente, porque, como a Narita me disse numa segunda ocasião, afeto casado com afinidade é “uma coisa tão rara, mas tão rara que eu considero um tesouro. Não é que Narciso acha feio o que não é espelho. Mas é você poder partilhar sua vida e visão de mundo com pessoas que realmente compreendem e te fazem pensar além do que você via e sob a sua ótica”.

E é com a filosofia da minha amiga que eu entendo e aceito que, às vezes, as pessoas te ofendem e te machucam, simplesmente, porque elas só podem oferecer aquilo que conhecem. Pra contrabalançar, a vida dá de presente gente que além de querida, te compreende. Os afetos me recordam quem eu sou, de onde vim. Os afetos com afinidade me mostram sempre quem eu posso ser. E quanto eu me tornei melhor do que os limites que me foram colocados.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

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