O amor não é o que faz o mundo girar. É o que faz o giro valer a pena

dia dos namorados

Feliz Dia dos Namorados! Não tá namorando? Não faz mal… Porque tem aquela história de que Dia dos Namorados é só data comercial. Você pode focar nisso… Mas eu prefiro ser otimista e acreditar que é um momento especial sim, pra celebrar e relembrar os momentos bons com a pessoa amada. Menos pela troca de presentes, mais pela troca de olhares apaixonados – que devem ser diários, claro! Mas, por que não, fazê-los bem neste meio da semana mais intensos, aproveitando a comemoração, recordando aquilo que te fez amar o outro?! Se eu tivesse namorando o presente ideal seria uma conversa doce, olhos nos olhos, elencando tudo o que foi vivido de bom até ali. Fortalecer o afeto pelas palavras sinceras. Eis um presente que deveria ser obrigatório no dia de hoje… 🙂

“Tô de bode! Não tenho pessoa amada agora, Suzane!” Não faz mal, não! Você vai ter. Não importa se ainda não teve, se acabou de perder… Porque, nessa hora, a gente acha que nunca vai amar de novo, que nunca vai encontrar alguém especial que ame a gente pelo que somos… Mas você vai. Basta não se fechar para os encontros que a vida reserva. Se fechar em amores platônicos, amores impossíveis… Isso aí não é bom, não. É atraso de vida.

Amor feliz é amor leve. É gostoso. Te faz sorrir – não chorar de tristeza, preocupação, decepção, angústia. Tá junto para o que der e vier. É parceria. É amizade. Te ouve e te conta. Conversa. De tudo um pouco. Então, se é sozinho(a) que você passa a data, sugiro humildemente que cuide do seu amor-próprio, aquele que te deixa pronto(a) pra encontrar um amor de verdade – não um problemático. Que dê ao seu cotidiano essa leveza especial que só o amor bom permite.

“Suzane, você nem tá namorando agora! Como pode acreditar tanto no amor?” Ah, eu acredito… Acredito no amor pra todas as coisas e relações. No amor em todas as formas. Em fazer o que deve ser feito sempre com amor. Tem uma frase que conheci esse ano e meio que virou um mantra, sabe? É o título aí acima, que resume exatamente o motivo principal pelo qual a gente não deve desacreditar num sentimento tão grande: “O amor não é o que faz o mundo girar. É o que faz o giro valer a pena.” Quer definição melhor?! É ele, o amor, que dá graça e brilho a todo o resto – o amor saudável, não custa reforçar.

Feliz Dia dos Namorados! Feliz Dia do Amor-próprio! E Feliz Dia daquilo que faz a vida ter sentido…

Crédito da imagem: Um Milhão de Beijos

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Pela lei do aborto

aborte machismo

Não, eu não sou a favor do aborto. Eu, Suzane, não faria. Mas essa é uma decisão absolutamente pessoal, que não deve servir de exemplo pra ninguém. Porque sou a única pessoa que conhece de fato a minha própria vida. Sei quais são minhas possibilidades e minhas limitações. Sei, acima de tudo e antes de tudo, que sou uma mulher livre pra decidir o que fazer ou não com o meu corpo. E por ter tal direito, acredito que as outras mulheres também devem exercê-lo, independentemente de classe social. Somos brasileiras e é a semelhança que me basta pra exigir que nossos direitos sejam iguais. E o que elas fazem ou não com base na vida que levam, nas dificuldades que enfrentam, e que só elas conhecem, não é da minha conta. Nem da sua. Nem de nenhuma religião. Nem do Estado. Esse último tem apenas que garantir nossa segurança e nosso pleno exercício de cidadania. Permitir o aborto é parte de um pacote maior que mantém a integridade física e mental feminina.

Antes que você resolva parar de ler este texto pra me excomungar e me chamar de anticristo, te convido a acompanhar duas histórias. Respire fundo e o faça de coração aberto. Tente, por poucos minutos, deixar de lado todos os seus “pré-conceitos”, suas opiniões baseadas num cotidiano em que mais valem as aparências do que a essência e a verdade. Coloque-se no lugar do outro. Empatia. Tente se imaginar no lugar das mulheres a seguir, gente de bem que encontrei pelo meu caminho como jornalista. Nenhuma delas era mau caráter, insensível ou irresponsável. Pelo contrário. São mulheres que se viram em encruzilhadas e pensaram naqueles que amavam, mais do que nelas, na hora de abortar. Os depoimentos vão entre aspas. É pra que vocês, antes de se acharem com alguma razão de enfiar o dedo na cara de uma mulher e chamá-la de criminosa num momento de extremo sofrimento, tentem relembrar como pode ser essa dor.

“Eu moro na região metropolitana de São Paulo. Sempre tentei tomar a pílula. Mas a que eu pegava de graça no posto de saúde perto de casa volta e meia não chegava. A moça do posto dizia que ficava em falta. Um mês tomava, outro mês não. Nem funcionava direito desse jeito, né? Já tinha cinco filhos quando fiquei grávida do sexto. Sou diarista e isso era um problema. Cada gravidez atrapalhava o serviço. Meu corpo sofria muito e nem todo patrão entendia. Amo meus cinco filhos. Mas se eu pudesse escolher tinha só dois. Quando soube do sexto na barriga, caí no choro. Não de alegria, não. Mas de desespero. Eu queria tentar criar os outros bem e nem conseguia. O que seria do sexto? Eu não quis engravidar. Sexo nem nunca foi uma coisa boa pra mim. Não sinto nada de bom. Meu marido me machuca. Ele me força a fazer… Não adianta eu dizer pra ele que não. Homem é meio bicho pra essas coisas mesmo… Quer e acabou e eu que faça. Foi assim que fui engravidando. Tentei evitar com a pílula, mas pra comprar não dava. Era cara demais pra quem tem dinheiro contado pra dar de comer pra família. Tinha que ser a do posto. Resolvi abortar o sexto. Falei pra meu marido e ele disse que não se importava. Só não me queria ‘estragada’ depois porque ele queria continuar com o sexo. Foi só com isso que ele se importou. Tomei um remédio e lá se foi meu sexto bebê. Foi terrível, uma dor terrível. Uma vizinha me ajudou. Fui depois no hospital pra acabar com os restos do bebê que ficaram dentro de mim. Demorou seis horas pra eu ser atendida. Perdi minha faxina do dia. Um padre disse uma vez que apesar de tão minúsculo o bebê já tem alminha. Se o meu tinha, que bom. A alminha voltou pro céu pra voltar num corpinho do bebê de uma família que vai poder cuidar dele. É o que eu acredito.”

“Minha mãe morreu de câncer há dois anos. Meu pai sofre de Mal de Parkinson. Estou desempregada e vivemos com a aposentadoria dele. Eu queria ter feito faculdade, mas só consegui o curso técnico de auxiliar administrativo. Não consigo emprego aqui perto de casa que pague um salário pra me ajudar com as contas da casa e a pagar um cuidador para meu pai. Somos só eu e ele agora e temo arrumar um trabalho longe e demorar três horas pra ir e três pra voltar, como acontece com a maioria das pessoas que vivem aqui no extremo da zona leste. Trem, ônibus, é tudo precário, não funciona direito. Não posso deixar meu pai tanto tempo sozinho. Só consigo pagar eventualmente uma vizinha pra dar uma olhada nele algumas horas do fim de semana pra fazer alguma compra. Uma vez pedi pra ela ficar um pouco com ele pra que eu pudesse dar uma chegadinha no aniversário de uma outra vizinha. Lá estava um rapaz que sempre me olhava. Ele chegou pra conversar comigo e se ofereceu pra me acompanhar em casa. Mas na hora que saí do carro, ele me pressionou contra o muro da lateral de casa, uma rua escura. Disse que seria rápido, levantou minha saia. Eu chorava, fiquei paralisada. Ele foi rápido. Não chegou a me machucar. Mas me senti suja. Fiquei pensando o que o levou a imaginar que podia fazer aquilo comigo, qual era a minha culpa. Ele disse que se eu contasse pra alguém ficaria falada no bairro. Pouco mais de um mês e comecei a me sentir mal. Estava grávida. Consegui encontrá-lo pra contar, mas ele disse que não era problema dele e que eu deveria ter me cuidado. Me desesperei. Como eu cuidaria de uma criança e do meu pai? Tínhamos dívidas. Eu quis um dia ser mãe. Mas não solteira. As pessoas julgam. Tinha medo que elas passassem a tratar mal meu pai, não sei. Tirei o bebê numa clínica clandestina com dinheiro de um empréstimo. Não me trataram mal, não. Mas era tudo muito frio, como se eu tivesse lá pra tratar uma gripe. Ainda não sei se me arrependo. Às vezes. Mas eu não seria boa mãe. Sempre tive episódios de depressão. O que seria da criança com meu pai doente e quando eu estivesse deprimida? Sinceramente, não era justo um ser humano ser criado no meio da tristeza que já era a minha vida.”

Antes de ser contra a legalização irrestrita do aborto, lembre:
– Homens ainda acreditam que mulheres podem ser forçadas a manterem relações sexuais com eles. O nome disso é estupro e acontece muito
– Educação sexual de qualidade é algo absolutamente distante da realidade das escolas e um tabu entre famílias
– A distribuição regular de antincocepcionais e preservativos em postos de saúde para retirada gratuita falha até em bairros de cidades grandes como São Paulo. Imagine no interior do país
– Não adianta igreja (seja lá qual for a a religião) distribuir enxoval quando o bebê nasce e uma cesta básica por mês pra família. Criação vai muito além disso. Não tapem o sol com a peneira de maneira tão cruel e egoísta
– Quem tem dinheiro aborta em clínicas limpas, confortáveis, minimizando ao máximo os riscos. Quem não tem coloca a vida em perigo
– Reflita, por favor, sobre a questão do aborto com um olhar real, não idealizado. Com um olhar abrangente, não elitista de quem tem tudo ao alcance quando precisar. Uma parte considerável da população ainda não tem o mínimo para sobreviver
– A história de cada um é única. Não julgue situações que são apenas hipóteses em sua cabeça. Você só imagina como poderia enfrentar um problema. Não tem certeza absoluta. Então, cuidado ao massacrar uma mulher cuja decisão já é suficientemente dolorosa
– O Estatuto do Nascituro é uma das coisas mais medievais e manipuladoras que presenciei na nossa sociedade até os dias de hoje

Crédito da imagem: blog Casal Sem Vergonha

Sim, eu sou feminista – e você também deveria ser

feminista

Juro que eu esperava mudar de assunto no post de hoje. Mas é impossível. Nas duas últimas semanas assisti uma sequência de notícias que provam o quanto o machismo é arraigado na nossa sociedade. Uma perigosa verdade tanto para homens como para mulheres. Teve estudo dizendo que eles acham moças tatuadas mais “fáceis”. Aumento de 37% nos índices de estupro contra a população feminina na cidade de São Paulo. Apareceu uma fulana se autointitulando “heart hunter”, cuja função é ensinar as mulheres a serem mais “femininas” por meio de lições que as transformam, na real, em submissas sem poder de decisão (olha o post de quarta-feira).

Pra coroar o espetáculo da ignorância surge o absurdo Estatuto do Nascituro, que dá à mulher que engravida após ser violentada o “direito” de receber pensão alimentícia. Há quem diga que se trata de um benefício e seja um meio de proteção. Não é. É um vil instrumento de pressão para que a mulher não exerça seu direito de abortar em casos de estupro, como já prevê a lei. E ainda me pergunto como ninguém se deu conta do quanto essa decisão só reforça a ideia de que o homem pode, sim, agir violentamente contra uma mulher, que pode subjugá-la, já que o Estado se responsabilizará pela consequência do seu ato. Como bem lembrou um amigo meu, o jornalista Victor Farinelli, a partir daí não é impossível que um estuprador consiga absolvição alegando que a atrocidade que ele cometeu não gera inconveniente à mulher caso engravide. Afinal, receberá a pensão. A interpretação será de um juiz – que, antes de tudo, é um ser humano que não está livre de carregar seus preconceitos.

Na quarta-feira a noite, ainda sem saber bem da cruel novidade mascarada de benefício, eu tentava argumentar com um colega na aula do mestrado sobre como temos assistido ao retrocesso de direitos individuais. Claro que ao longo de décadas contabilizamos centenas de vitórias que melhoraram muito a vida das pessoas. Mas numa sociedade que vem se mostrando bem intolerante como a atual nossas conquistas acabam sendo cíclicas. Volta e meia elas são novamente ameaçadas – e lá vamos nós brigar para mantê-las. Caímos, então, no debate machismo x feminismo. E aí, minha gente, eu fui obrigada a riscar o fósforo.

Primeiro, ele disse não ser machista. Que “ajuda” a esposa em casa e se pudesse colocaria três empregadas pra ela. Eu disse que a ideia de “ajudar” era vaga e que deveria ser substituída por igualdade de tarefas. Se a casa é dos dois, ambos cuidam. Existe, é verdade, uma dificuldade feminina de querer tomar conta de cada detalhe e achar que o cara nunca vai fazer direito. Uma mentalidade a ser modificada urgentemente. Mas eu nem bem tinha dito isso quando ele solta a pérola: “Quando você casar vai entender como funciona”.

Ele parte do princípio de que para eu compreender uma relação a dois e a divisão de tarefas sou, antes de tudo, obrigada a casar – nada mais machista! Eu disparei um chocado “como é que é?” e senti o sangue subindo. Ele perguntou se eu era feminista. Eu disse que não me considerava feminista, mas sensata o suficiente pra exigir equilíbrio e dignidade quando se aborda a questão de gênero no Brasil. Uma colega logo afirmou que era feminista, sim. Ele: “Se você é feminista eu posso ser machista!” Antes que todas as mulheres da sala tentassem falar ao mesmo tempo pra quebrar o argumento dele, nossa professora fez a observação mais genial da discussão: “Não, senhor. Machismo é preconceito. Feminismo é uma luta.”

O feminismo cego também pode virar preconceito. Mas ele só surgiu como um movimento de protesto pra livrar as mulheres da opressão, da violência, do desrespeito, de serem tratadas como seres de segunda categoria por homens que agiam como bem entendiam. Sem dúvida, o começo do feminismo foi radical. Não havia outra saída. Não poderia ser suave para ser ouvido. As primeiras feministas precisavam chamar a atenção. Conseguiram com certa agressividade em suas exigências e atos como queimar sutiãs em praça pública.

Hoje, vejo muitas de nós dizendo “ah, não fui eu quem queimou sutiã, não”. Pois você, minha cara, deveria ter um orgulho enorme dessas mulheres. Elas enfrentaram todo um sistema engessado pra que atualmente você não só trabalhe fora de casa e seja reconhecida como um ser pensante. Mas controle quando deseja ter filhos, escolha se quer menstruar ou não, saia sozinha com suas amigas numa sexta-feira a noite, possa ir e vir sem uma constante presença masculina (marido, pai, irmão), viaje pelo mundo, deixe pra trás um relacionamento infeliz, desfrute de uma sexualidade plena cheia de orgasmos, tenha o prazer de comprar seu próprio apartamento. De comprar seu próprio anel de brilhantes como símbolo do seu sucesso!! Graças a elas podemos encontrar parceiros que nos respeitam, nos amam e sentem orgulho de nós justamente pelas nossas conquistas individuais que moldam nossa personalidade.

Portanto, SUA FÚTIL, mais respeito com aquelas que são responsáveis por muito do que você aproveita agora!

Voltando ao meu colega de mestrado (que depois disse que não era machista coisa nenhuma), ele é o exemplo de como muitos homens não percebem que, sim, eles são machistas. Nem sempre acho que é má fé do cara. Ele só reproduz aquilo que aprendeu como verdade a vida inteira e fica sem saber como agir. A educação brasileira é machista. Quantas de nós, ainda meninas, não fomos chamadas para ajudar nossas mães na cozinha, enquanto nossos irmãos mal aprenderam a lavar uma louça? Então, rapazes, até dou a vocês um refresco. Mas não os desculpo. Porque informação tem. E ninguém precisa ser tão esperto assim pra saber que pressionar, controlar, humilhar, agir com superioridade e violência (inclusive verbalmente) é errado. É machista.

No fim, tanta revolta essa semana serviu pra que eu enxergasse uma parte importante da minha identidade: sim, eu sou feminista. Nunca tinha me compreendido dessa maneira. Mas eu sou porque há muito tempo brigo pra que meus direitos e de todas as mulheres sejam mantidos em segurança. Não porque eu quero que os homens percam os direitos deles. Nada disso. A ideia do feminismo moderno não é ser superior ao homem, não é agredir. Não desejo ser algoz de quem um dia fui vítima. Quero o direito de igualdade nos deveres pra que as oportunidades e as recompensas estejam ao alcance de todos nós. Por isso, você, homem ou mulher, também deveria ser feminista. Não é uma questão de gênero. É uma questão de melhorar todas as relações que nos cercam. De vivermos num saudável equilíbrio.

Crédito da imagem: Cultura Inquieta

Pra você, mulher machista

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Eu tenho horror a machismo. É um antigo mal da nossa sociedade que perdura em tempos modernos. Já melhorou muito, é verdade. Mas a ideia de que o homem pode mais do que a mulher (inclusive pressionar, controlar e ameaçar) e ela tem mais é que obedecer (nem que seja à força) ainda é fortemente presente graças a um conservadorismo que se diz baseado em “respeito” – e que pra mim é o ponto alto do desrespeito. Lembrando que não é nada incomum se transformar em violência.

Mas nada me tira mais do sério do que machismo partindo de mulher. Ontem eu perdi a paciência ao ler uma reportagem (em tom de deboche, ainda bem) mostrando os ensinamentos de uma “heart hunter” sobre como conseguir um “partidão”. A bizarra cartilha da conquista da psicóloga, que oferece o “treinamento” por R$ 1 mil, basicamente, afirma que feminilidade e submissão andam juntas. Eu sou independente há anos, tenho opinião e personalidade – e isso jamais me fez ser menos feminina. Se algum homem acredita que características assim são empecilhos para relacionamentos, meu caro, você é um inseguro que não merece minha mínima atenção.

Enfim, entre as pérolas da teoria da tal heart hunter (ainda faz marketing cafona!) estão:

– chamar um garçom num restaurante é “desafiar” o cara que tá me acompanhando
– falar do meu trabalho durante o jantar com ele não é recomendado pra que o sujeito não se sinta “inferiorizado”
– andar de rasteirinha não conquista ninguém e mulher feminina usa é salto alto

O curso ensina a mulher a ser “magnética”. Eu acho que magnetismo só vem de gente interessante – e não de quem diz amém pra tudo. Se meu acompanhante se sente ameaçado pelas minhas conquistas ou por um simples gesto, como chamar o garçom, é melhor mesmo ele não me acompanhar nunca mais. Não falo aqui de extremos. Não acho bacana quando uma moça acredita que só consegue se colocar, opinar, com agressividade. Mas isso não é questão de gênero. Homem também não tem que ser agressivo. Ninguém tem esse direito.

O que me deixa irada é que esse tipo de mentalidade “mulher boa é a mulherzinha” e “homem bom é provedor e tem que ser respeitado” ecoa muito mais do que a gente imagina! E isso é repassado para as novas gerações! Eu fico pensando quantas meninas não estão escutando agora, nesse momento, que pra serem “aceitas” devem ser “femininas” no pior sentido. São ensinadas que o certo é serem tão mas tão frágeis que acabam sem saber o que fazer quando um ordinário enfia a mão na cara delas, ameaça…

Garotas, magnetismo vem de inteligência, simpatia, gentileza, bom humor, carinho. Se alguém disser que você deve ameaçar sua integridade, seus valores, para ser aceita, pra conquistar namorado, não acredite! Porque um cara que vale a pena sempre vai desejar muito mais do que uma mulher-enfeite.

Ah! E pra quem se interessar, por R$ 500, eu e umas amigas minhas aí ensinamos você a ser poderosa usando até All Star! Muito mais negócio!! 😉

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O texto abaixo foi publicado em janeiro aqui no blog. Fala de como nosso comportamento cotidiano reforça o machismo e a violência produzida por ele. É meio longo, mas acho um dos posts mais importantes do blog até hoje.

O machismo nosso de cada dia

Pra mim, beira o inacreditável e me revolta. Espero que a vocês também. Segundo dados do Mapa da Violência 2012, produzido pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (CEBELA), e divulgados esta semana, de 1980 a 2010 foram assassinadas no País cerca de 91 mil mulheres, 43 mil só na última década. Com uma taxa de 4,4 homicídios em 100 mil mulheres, o Brasil ocupa um vergonhoso sétimo lugar entre 84 países. Esses assassinatos foram provocados por maridos, namorados, companheiros, pais, irmãos.

Outros dados da Agência Patrícia Galvão, criada em 2009 para divulgar notícias sobre os direitos femininos, mostram que 91% dos homens consideram que bater em mulher é errado em qualquer situação. Mas isso não deve deixar ninguém tranquilo. Significa que 9% dos homens ainda acham que é sim razoável ser violento com uma mulher.

Uma em cada cinco mulheres consideram já ter sofrido alguma vez algum tipo de violência por parte de algum homem. É fundamental lembrar que humilhações, terror psicológico, também é caracterizado como violência. Eu já sofri isso. Muitas (eu disse MUITAS) amigas e conhecidas minhas também. E não é porque somos fracas, ignorantes, desinformadas sobre nossos direitos. Simplesmente, às vezes, a situação toma uma proporção complexa demais, da qual não se sabe mais como sair.

Em geral, quando os primeiros sinais de machismo aparecem, estamos apaixonadas. O ciúmes dele parece só uma prova de amor, de preocupação. Não é. Possessividade, controlar cada passo que você dá, achar que você está sempre mentindo. Nada disso é cuidar, querer bem, também estar apaixonado. Manipular, fazer parecer que é sempre você a culpada pelos problemas da relação, também não.

Quando vem um grito, achamos que, talvez, ele tenha ficado um pouco nervoso só. Ele promete que aquilo não vai se repetir. Mas se repete. Primeiro, espaçadamente. Depois, com frequência. Até que se torna corriqueiro. E você já está fragilizada e com medo das ameaças, que tanto podem ser um “eu vou te matar se você me deixar, vou te arrebentar se contar para alguém”, ou “você não é boa em nada, não é nem bonita, não é competente, você faz tudo errado, vai achando que você vai encontrar alguém que te aguente como eu”, entre outras tantas bizarras justificativas.

Lembrando que não precisa ser um tapa na cara pra caracterizar violência física. Empurrões, apertar o braço até deixar roxo, te puxar a força, entre outras coisas, é tudo violência. E não adianta a gente dizer que basta a mulher sair de casa ou colocá-los pra fora. Para muitas, especialmente mulheres que vivem na pobreza, a questão financeira pesa. Com salários ainda mais baixos do que os dos homens ou sem qualificação e experiência profissional, a saída é mais difícil de ser encontrada.

A pergunta é: o que leva esses caras a imaginarem que têm autoridade, esse direito de fazerem sua vontade e opinião valerem à força? Nós. Somos nós, com nossas pequenas atitudes machistas do dia a dia, que reforçamos uma consciência coletiva de que eles são superiores, podem mais.

Somos nós, que rimos de piadinhas machistas. Que aceitamos ganhar menos por funções iguais. Que fazemos o prato de um marmanjo e lavamos suas cuecas até o dia que ele sai de casa pra casar. Ou aceitamos continuar lavando a roupa que ele leva no fim de semana mesmo depois de ir morar sozinho. Que damos o pedaço de bife maior ou deixamos eles almoçarem primeiro. Que temos orgulho do filho pegador – e ai da filha que for “galinhar”! Que acreditamos ainda piamente que meninos devem usar azul e meninas, rosa. Que meninos não podem dançar balé e que meninas não podem jogar futebol. Que homem que defende uma opinião com firmeza é “assertivo” e mulher que defende opinião com firmeza é “histérica”. Que homem com namorada mais jovem é natural e mulher com namorado mais jovem é uma velha sem noção. Que homem que chega a um doutorado é um gênio e mulher que também carrega esse título não tem vida pessoal e enfia a cara nos livros. Que mulher realizada é aquela que acha marido – e aqui cabe um sonoro “antes só do que mal acompanhada”.

Quantos não são os homens, muitos bem jovens, que ainda acreditam que merecem mais prazer do que uma mulher na cama? Ou que ela nem merece e está ali só pra satisfazer sua vontade? Ah, sim… Mulher que gosta tanto ou mais de sexo do que homem não vale nada. Se ela usa uma saia curta, maquiagem, salto alto, é amiga de rapazes só pode ser uma vagabunda. Mulher que viaja sozinha pelo mundo? Só pode ser vadia.

Homens que agem assim (ou pior) são escrotos, babacas, no fundo um bando de inseguros que não botam fé em si mesmos. Mulheres que agem assim são recalcadas. E, por isso, reforçam o machismo pra que outras não possam viver tudo aquilo que, lá no fundo, nos seus desejos mais secretos, elas também gostariam de viver. Ah, você só sai com cara que tem carro? As primeiras perguntas que você faz pra sua amiga que começa a namorar é “qual o carro dele”, “qual o cargo dele”, “ele paga toda a conta”? São esses os requisitos que te fazem sair com alguém? Ah, você condena a prostituição??? Puxa… Então, tá…

Outro dia uma amiga me contou de uma conhecida que diz para a filha de 15 anos: se sair com um cara que não aceitar pagar toda a conta do restaurante é pra ligar pra ela, a mãe, ir buscá-la. Isso, minha cara. Ensine sua filha a trocar o corpo por um jantar. Não há problema algum em aceitar gentilezas. O problema é fazer isso parecer a regra do bom relacionamento. Fazer parecer que isso é valorizar uma mulher. Aí, você vê um bando de garotas com namorado/marido pagando tudo e sem nenhuma voz de decisão, de escolha, na relação. Aceitando as humilhações que facilmente acontecem a partir daí. Vale acrescentar que nem todos os relacionamentos em que a mulher não trabalha são desiguais. E isso pode acontecer por mil motivos, inclusive a opção do casal de que é o melhor para a criação dos filhos. Mas quem entra numa relação acreditando que o homem banca tudo porque é sua obrigação ou mulher não tem que trabalhar porque ela não foi feita pra isso, pode se dar muito mal (ambas as partes).

Machismo masculino é inaceitável. Machismo feminino é inaceitável e constrangedor. Para eles, existe a Lei Maria da Penha. Para elas, é sempre tempo de tomar vergonha na cara – e ser a mulher que sempre quis ser de verdade.

Mudar por fora. Mostrar por dentro

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Quando eu tinha sete anos ganhei minha primeira Barbie. Eu não lembro bem quem me deu. Acho que foi uma das minhas tias. Aquele presente foi marcante. Não simplesmente por ser uma boneca tão desejada pelas meninas. Mas porque a minha Barbie era muito mais legal do que as outras. Não era uma Barbie festa, com vestido de princesa, não. Nada disso! A minha era pilota de corrida! Vinha de macacão, carregava um capacete e… era ruiva. Enquanto todas as Barbies das minhas amigas eram loiras, a que me pertencia tinha cabelos de fogo e personalidade diferente. Me encantei.

Tantos anos depois, cá estou eu, ruiva. Sem dirigir, é verdade – muito menos carro de corrida. Praticamente, porém, com a mesma sensação de encantamento quando olho a cor dos meus cabelos no espelho. Me perdoem o narcisismo. Mas completando um mês hoje de ruivice, sinto que mudar o tom das madeixas foi muito mais significativo do que eu imaginava. Serviu pra marcar o fim de um período tenso e intenso de mais de um ano. Serviu pra expressar ao mundo aquilo que eu sinto como sendo quem sou. Além de me tornar ponto de referência: “Onde?”; “Ali, do lado da menina ruiva.”

Fios vermelhos, diz pesquisa no Google (com respaldo de uma amiga psicóloga, que eu fui dar uma perguntada), indica modernidade, independência, obstinação, temperamento forte, segurança, determinação, certeza do que se quer. E impõe um curioso respeito. Já tinha percebido algo nessa direção quando tive uma professora ruiva no mestrado. Baixinha (não deve alcançar nem 1,60m de altura), a presença dela era absolutamente marcante. A gente até prestava mais atenção. E, claro, ela é ruivíssima.

Não significa que ser ruiva espante as fraquezas, as tristezas, as incertezas, as preocupações. Afinal, sou ruiva, mas continuo sendo bem humana e cheia de defeitos. Os cabelos vermelhos, no entanto, me ajudam a lembrar que dentro de mim permanecem as características que preciso pra seguir em frente, não importa quão difícil seja o momento. Me recorda que, sim, eu posso ser bem forte.

Me descobrir uma ruiva inconsciente desde sempre (e agora de fato) me fez parar pra pensar como às vezes precisamos de um empurrão exterior pra mostrar aquilo que vai na alma, no coração, no pensamento. Mudar por fora e vir à tona o que está lá dentro. Tem quem faça isso com um novo corte de cabelo. Deixando a barba crescer. Outros, numa diferente maneira de se vestir. Até de se maquiar. Só não pode ser uma coisa fake. Não pode querer representar aquilo que não é só pra se “encaixar”. Acho grave quando a mudança exterior é pra manter, por exemplo, um status sem ser de fato a representação dos sentimentos, das crenças, dos desejos sinceros. A pessoa corre o risco de deixar de se reconhecer, de saber quem ela é e cair numa crise de identidade. É achismo meu. Nada científico. Mas não sei… Repara se não é assim.

Junto com o tom avermelhado do cabelo também decidi começar a pintar as unhas em cores além do vinho, do ameixa e do rosa claro, até então minhas opções constantes. Ando apaixonada pelo laranja. Hoje estou com um esmalte azul escuro. É como quando você escolhe a roupa, de acordo com o estado de espírito. E sempre achei que cor, no jeito de vestir, de se enfeitar, de decorar a casa, traz movimento e alegria pra vida. Ver coloridos intensos emoldurando meu rosto e destacando minhas unhas, no fim, tem me ajudando não só a expressar minha identidade, mas a encontrar meu lugar no mundo. E, por que não, a enfrentá-lo.

Crédito da imagem: Suzane G. Frutuoso