Como prejudicar sua filha para o resto da vida

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“O passo mais importante na vida de uma mulher, sem dúvida nenhuma, o matrimônio. Nem mesmo a realização profissional supera as expectativas do sonho de um bom casamento. Enfim, a ideia do ‘felizes para sempre’ é o sonho de toda Princesa.”

Li mais de uma vez o parágrafo acima. Li pra ver se eu tinha entendido direito. A afirmação está no site de uma empresa que se intitula Escola de Princesas. É parte de um conjunto de características que toda candidata a “princesa” deve ter. Me arrepiaram palavras como “matrimônio”, “bom casamento”, e fui pesquisar pra saber exatamente o público-alvo: meninas de 4 a 15 anos. No fim de semana, um jornal de São Paulo já publicara uma matéria sobre o assunto. Não achei que poderia ser pior do que a reportagem indicava. Pode. E o conceito “escola de princesas” é mais tendência do que a gente imagina. Há jogos online e aulas de Norte a Sul do país que se encaixam no modelo.

Não acreditei que encontraria alguma coisa mais machista pra me tirar do sério do que o surgimento recente de uma “heart hunter”. Ela afirma ensinar as mulheres a serem femininas. Mas feminilidade, pra ela, significa ser submissa. Do tipo não-fale-do-seu-trabalho-no-jantar-porque-isso-é-tarefa-dele, entre outros absurdos. Basicamente, a ideia é transformar a mulher numa pessoa sem voz de decisão só pra garantir marido. Em junho escrevi um post sobre o assunto: https://faleaomundo.wordpress.com/2013/06/page/2/ .

O problema na Escola de Princesas, porém, me parece muito mais grave porque é voltado a crianças. Meninas que desde tenra idade são educadas para acreditarem que o objetivo maior da vida de uma mulher é o casamento, como se a ela fosse proibido se deliciar com conquistas individuais. Como se uma opção que não inclua o casamento ou o jogue bem lá pra frente a torne um ser egoísta e até de menor valor diante da sociedade.

A escola promete “formar” as meninas dentro de “princípios morais, sociais, de etiqueta e de comportamento”. O “morais” aqui já me incomoda. Porque, pra mim, nada pode ser mais imoral do que alguém definir que uma criança precisa ser preparada pra suprimir parte de suas potencialidades no futuro e, assim, ser “aceita” dentro de um padrão.

O curso também enfoca habilidades de etiqueta que darão às meninas “confiança para lidar com qualquer situação”. Isso eu até concordo. Situações assim surgirão, muitas em que a gente nem entra por querer, como almoços e jantares de trabalho. E sacar algumas regras de etiqueta podem ajudar. Mas se um dia eu tiver filhos (meninos também podem aprender, óbvio) acredito que poderei ensiná-los em uma hora o básico da etiqueta que importa. Mais: deixar bem claro que gentileza, simpatia e bom senso são infinitamente mais fundamentais do que saber quais são os talheres para peixe.

As aulas também contemplam tarefas domésticas, como arrumar a cama. Afinal, como diz o site “toda princesa um dia será rainha e precisa aprender a cuidar do seu próprio castelo”. E por que raios o “castelo” não pode ser só dela? Por que ela não pode aprender que cuidar da casa é legal pra ELA se sentir bem no ambiente que vive – e não posar de mulherzinha perfeita seja lá pra quem for? E gente: pais precisam colocar uma menina numa escola dessas pra pequena aprender a arrumar a cama? Se são incapazes de ensinar algo tão simples, tem que ver essa paternidade/maternidade aí…

Não sou contra o casamento. Não sou contra que meninas divirtam-se de maneira lúdica e brinquem com fantasias. Nem mesmo que gostem de rosa e de se vestirem de princesas por acharem bonito. Mas acho grave que ainda hoje acreditem que uma mulher deva ser moldada de tal maneira pra atingir expectativas tão superficiais. Vamos perpetuando, então, a ideia de que manter as aparências é um valor essencial. E que sem isso a outra única alternativa é ser excluída e nunca verdadeiramente amada.

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O parto normal de Kate

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Já não é de hoje que me intriga ver tantas amigas minhas que ganharam seus bebês por meio de cesarianas. Foram nove nos últimos dois anos. Apenas uma delas realmente optou pela cesárea por temer a dor do parto. E eu não julgo de jeito nenhum. Fiz o maior escândalo por causa de uma tatuagem de exatos sete minutos. Mas as outras esperavam, sim, dar à luz num parto normal. Uma delas se dedicou até ao pilates pra facilitar o trabalho de parto. Todas, sem exceção, ouviram de seus médicos que, por diferentes motivos, o parto normal estaria fora de cogitação.

As explicações eram técnicas: bebê grande demais, data além da prevista para ele nascer, uma estrutura óssea da mulher que colocaria em risco mãe e filho, entre outras coisas. Obviamente, nenhuma delas desacataria, diante de informações que seriam cruciais para a saúde de suas crianças, ir contra a decisão do profissional que as acompanhou.

O problema é carregarem até hoje uma dúvida: foi mesmo necessário? Elas nunca saberão se seus filhos vieram ao mundo de cesariana porque era imprescindível ou porque são parte de uma indústria de cirurgias que coloca o Brasil no topo do ranking de um procedimento que deveria ser emergencial – e não a regra. Segundo o Ministério da Saúde, no Sistema Único de Saúde (SUS) os partos normais representam 63,2% do total. Na rede particular, o número despenca para menos de 20%. Muitas gestantes optam pela cesárea por acharem conveniente (e de novo não julgarei escolhas pessoais). Muitas outras, porém, encontram uma enxurrada de empecilhos num jogo sujo dos convênios médicos (e isso precisa ser questionado e impedido).

Não é difícil perceber que algo vai bem errado na decisão de obstetras e dos hospitais brasileiros quando comparamos com dados e exemplos estrangeiros. A duquesa de Cambridge, Kate Middleton, deu à luz ao príncipe George Alexander Louis, seu primeiro filho com o príncipe Willian (futuro rei da Inglaterra), em Londres, há uma semana. Kate enfrentou dez horas de trabalho de parto. Saiu da maternidade esplendorosa, feliz e caminhando tranquila, com seu bebê no colo, no dia seguinte. Por lá, 92% das mulheres fazem parto normal. Na França, são 80%. Na Argentina, 78%. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que as cesáreas não ultrapassem 15% do total de partos em um país. Significa que nosso quadro é alarmante.

No Brasil é pouco difundida a importância do parto normal tanto para a mãe quanto para o bebê. Os riscos de infecções para ambos são menores, assim como a recuperação é melhor e mais rápida. A gestante que desde o pré-natal se dedica a caminhadas, alongamentos e massagens facilita o parto normal, diminuindo inclusive a dor. A produção de hormônios que preparam o corpo para a amamentação é mais uma vantagem.

Mulheres submetidas à cesariana têm 3,5 vezes mais risco de morte e cinco vezes mais probabilidade de infecção genital. Bebês prematuros nascem mais em partos agendados. Até o vínculo pode ser afetado. Pesquisas já indicaram que quando a criança é acolhida rapidamente pela mãe nos braços, o laço afetivo também se forma logo. Após a cirurgia, pegar o bebê no colo é dolorido e ele pode passar um tempo na observação antes de chegar aos braços da mãe. Demora mais para fortalecer o vínculo – justamente um dos gatilhos nos casos de depressão pós-parto.

Conheço mais uma moça que optou pela cesariana recentemente. Mas por um motivo vergonhoso. Ela trabalhou por um tempo no hospital da cidade onde mora, com menos de 100 mil habitantes. Viu de perto como as mulheres eram mal tratadas e hostilizadas na hora do parto normal. Escolheu o outro hospital local, no qual o médico que cuidou dela realizava partos. Mas ele logo avisou que só faria a cesariana. Se não bastasse terem lhe arrancado a chance de escolha do hospital em que sua filha nasceria por medo do tratamento, também foi vetada a ela a forma mais natural possível de parto. Porque o que deveria ser um momento especial, simplesmente, se transformou em negócio.

O tempo não para. Mas a gente parte

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Há algum tempo eu venho repetindo pra mim mesma que somos finitos e que não vale a pena esperar pra dizer o que a gente sente, fazer o que se tem vontade, agradecer e dizer a alguém o quanto essa pessoa nos inspirou, inspira, é importante na nossa história… Enfim, não esperar pra fazer do amor o nosso melhor hábito. E mesmo com essa certeza no meu coração, acabei de receber uma notícia muito triste… Percebendo que, infelizmente, esqueci de agradecer a uma pessoa muito importante na minha vida.

A professora Terezinha Ayub, que foi minha professora de sociologia na faculdade de jornalismo da Unisantos, faleceu essa manhã. A aula dela foi das melhores que tive. Aproveitei longas conversas com Terezinha após as aulas, quando aprendia ainda mais… Eu ainda nem desconfiava o quanto sociologia seria fundamental nos meus dias de hoje, o quanto faria sentido pra mim… Mas ali, ouvindo em sala Terezinha apresentar Marx, Weber, Durkheim, percebia, sentia, que algo maior era “gestado” de certa maneira pro meu futuro.

Desde que entrei no mestrado em Ciências Sociais, com foco em sociologia, há mais de dois anos, repetia sempre pra mim: “Preciso uma hora encontrar a professora e dizer a ela que tô no mestrado de sociais, agradecer a inspiração…” Fui deixando. E agora não dá mais tempo… E lamento tanto não só porque foi graças a ela que me interessei por sociologia. Mas também porque foram os bons professores, Terezinha aí incluída, que passaram pelo meu caminho que me despertaram o desejo de um dia ser como eles e enfrentar todas as adversidades pra tentar preparar para o mundo quem vem chegando…

Deixo a ela meus melhores pensamentos… À família, os meus mais sinceros sentimentos. Espero, professora, onde a senhora estiver, que ouça/sinta o meu “muito obrigada”. E pra nós, que ainda estamos aqui (por tempo determinado), que a gente não esqueça de dizer, declarar, demonstrar amor, afeto, amizade, respeito, gratidão. O tempo não para. Mas a gente parte…

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Minha fé em “rehab”

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Juro que o post de hoje é apenas coincidência. Não foi a chegada do Papa Francisco ao Brasil que me motivou a escrever sobre fé. Há alguns dias eu já me preparava pra falar sobre esse que é um tema delicado e, pra mim, atualmente confuso. Mas confesso que ver a comoção das pessoas nas ruas, como se o pontífice fosse um astro (ou é e por isso é pop?), me ajudou a pensar em que momento minhas crenças ficaram abaladas. Senti uma pontinha de inveja dos jovens que enxergavam no evento uma renovação de esperanças. Me emocionei com as mães e pais que acreditaram que, após uma benção papal, seus bebês, de agora em diante, seriam mais protegidos do que nunca. Desejei um pouco o brilho nos olhos que o otimismo de estar tão próximo a uma forte e carismática figura institucional provocava em milhares.

Digam o que for, Francisco tem um ar de bondade sincera. E quem de nós não sente algum conforto em saber que ainda existe gente boa no mundo? Claro, importante lembrar sempre que não é religião que torna alguém melhor ou pior. Conheço muito ateu de bom coração e verdadeiramente solidário, que não faz o bem porque, do contrário, vai parar no purgatório (ou inferno, ou umbral, ou afins). É do bem por acreditar ser o correto. Enquanto isso, também não falta gente que ora, que pede, que agradece a todo tipo de entidade, mas não pensa duas vezes antes de ser maledicente, de prejudicar o próximo. Nada de transformar, portanto, religião em sinônimo de caráter.

Mas é inegável que a crença de que há uma força maior, de que não estamos sozinhos quando assim parece, que as dificuldades são ensinamentos que nos preparam para tempos mais felizes, traz alento. E, às vezes, só essa sensação de paz de que nem tudo está sob nosso controle já ajuda muito a seguir em frente com mais determinação. Os azedos vão dizer que é jogar a responsabilidade das nossas escolhas no além. É verdade que ninguém provou cientificamente que Deus tá aí. Mas ninguém também conseguiu provar que Ele não tá.

E quase todo mundo tem uma história pessoal de um acontecimento que a razão não explica: uma doença incurável curada, uma ajuda inesperada (caída do céu?) quando tudo parecia perdido, uma ligação forte com outra pessoa e que “adivinhamos” quando ela precisa de auxílio… Assim vai… Sim, pode ser a intuição atuando. E quem disse que a intuição não é obra de Deus, que usa nossa mente pra nos comunicar o que ainda não compreendemos? Não sou eu quem vou dizer nem que sim e nem que não. Só sei que a minha funciona feito uma antena parabólica. Abençoada? Quem sabe…

Quando a vida pesa, me parece, vamos aos extremos: ou nos agarramos à fé com todas as forças, rezando a anjos e santos, ou a perdemos de vez, acreditando mais no que é racional, concreto, paupável. Por motivos pessoais, precisei acreditar muito na capacidade da ciência recentemente. E era tanta coisa pra entender, tanta coisa pra questionar e achar resposta certeira, que fui deixando minha fé de lado. As atitudes de algumas pessoas também reforçaram meu distanciamento das crenças positivas. Aliás, o comportamento da sociedade em geral não anda ajudando muito a gente a acreditar no melhor.

Mas enquanto eu proclamava aos quatro ventos que, sinceramente, o que me valia era acreditar em mim, amigos muito espiritualizados me ouviam com paciência e sempre diziam “vou rezar por você”, entre outras palavras de apoio. Ficava meio brava. Entendia como um minimizar dos meus problemas, como se com magia eles pudessem ser resolvidos. Agora que tudo vai entrando nos eixos, humildemente perguntei a esses amigos se, nesses meses todos, eles rezaram por mim de fato. “Todos os dias.” “Claro, Su!” “Coloquei seu nome toda semana na caixinha de passes”. Amigos católicos, evangélicos, kardecistas, budistas… Eles se preocuparam em enviar pra mim carinho e bons ventos em forma de oração. Como perder de vez a fé? Será que não é Divino encontrar tanta gente generosa no meu caminho? Gente que tanto me quer bem?

Enfim, continuo batendo boca com Deus. Mas já menos do que antes. Voltei a agradecer ao meu anjo da guarda – porque olha, eu faço ele trabalhar, viu? Minha fé, acho, tá numa espécie de “rehab”. Percebo que a frase que vivem me dizendo “tudo acontece no tempo de Deus” vai ganhando sentido de novo. A ver… De qualquer maneira, sou obrigada a agradecer muito (a Ele, a Darwin, ao universo) as boas pessoas que sempre cruzam meu destino, crentes ou não.

Crédito da imagem: Max Brum

A rotina, seu valor, seus pequenos prazeres

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Dia desses eu escrevi aqui num dos posts que nos últimos três anos minha vida passou por incessantes mudanças – tensas, intensas e variadas. Sempre fui mais a favor da transformação constante do que da rotina, cuja ideia me parecia um tanto antiquada pra quem é curioso e quer ver o que mais o mundo tem pra oferecer. Mas desde o ano passado compreendi melhor como a rotina pode ser de grande valor. Não significa se acomodar. É disciplinar com alguma sabedoria as exigências do cotidiano justamente pra ganhar mais horas de descanso, lazer, diversão, estar entre os queridos.

No geral, eu sempre fui organizada, só que mais preocupada em finalizar as obrigações e aí encaixar no que “sobrava” o lado bom. Não deixava de fazer nada, nem o dever e nem a farra. Mas pra dar conta de tudo tinha que viver como ligada numa tomada. E um dia a saúde, física e emocional, cobra o preço. Aproveitei o empurrão que enfrentei quando o jornal que eu trabalhava fechou as portas pra tirar uns meses só viajando, estudando e passando mais tempo com família e amigos. Aprendi que muitas vezes o suficiente já tá ótimo e perfeição é um dos maiores mitos da humanidade. A gente vai falhar, sabe? E tudo bem.

Com mais tempo pra mim, “reprogramei” minha rotina. Avaliei os hábitos que deveriam permanecer e os que deveriam finalmente partir. Incluí pequenos prazeres diários. Volta e meia a danada da culpa aparecia – porque eu não estava sendo “produtiva” como sempre fui. Ela ainda me assombra eventualmente. Mais na TPM! Hormônios… Mas já não tem a força de antes, não. E por que eu tô aqui brindando o “slow life” ao qual me dei direito? Porque uma hora a agenda cheia de compromissos retorna. Ela voltou desde março. E lá fui eu criar uma nova rotina. Agora, porém, consigo com muita tranquilidade equilibrar trabalho e hedonismo.

Em tempos influenciados pela rapidez da tecnologia e da modernidade, que acabam influenciando também nossos comportamentos, minha decisão é um desafio. Causa algum estranhamento pra parte das pessoas dizer que paro tudo o que tô fazendo no final da tarde pra ver o sol se pôr aqui da janela, por exemplo. Hoje, trabalho de casa – e há quem considere a falta de vínculo com uma empresa específica (e até o estresse) um retrocesso profissional. Eu nunca acreditei que a rotina de bater cartão e ter mesa num lugar faria de mim uma jornalista mais ou menos competente. Liberdade.

“Home office” é uma tendência, especialmente em metrópoles como São Paulo, onde existem sérios problemas de mobilidade, trânsito, transporte público deficiente. E justamente por enfrentar menos vezes na semana os complexos deslocamentos pela cidade, dá pra ser eficiente com o trabalho em menos horas e preencher muitas outras com o que a gente gosta. A tal qualidade de vida. Claro, como a única certeza da nossa existência é a mudança, as coisas podem… mudar. Mas enquanto isso não acontece, vou curtindo minha rotina mais leve e feliz depois de anos mergulhada numa eterna ansiedade. Quando a transformação chegar novamente será recebida por uma Suzane mais em paz com sua história. Espero que você também consiga se sentir um dia assim. Como diz uma frase que li recentemente: “De reviravolta em reviravolta a alma chega a um destino interessante”.

Crédito da imagem: CSV

Observe as entrelinhas

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Tenho a mania de sempre acreditar, logo de cara, no melhor de cada um. Pra mim, as pessoas são boas até que provem o contrário. Há quem canse de dizer que minha postura deveria ser justamente a inversa: ninguém é confiável até que prove o contrário. Mas ainda não consigo. E nessas eu acabo me decepcionando umas tantas vezes. Porque se tem uma coisa que a vida já provou é que existe um tanto de gente por aí com o que eu batizei de “caráter elástico”.

É o sujeito muito legal – desde que a situação seja constantemente favorável a ele, por exemplo. É também o indivíduo que se diverte em dar alfinetada disfarçada de elogio, que não dá a mínima em passar por cima nem de amigo pra conquistar algo e mostrar pra si mesmo o quanto é demais (e aqui ele aparece todo camarada, minimizando a importância da situação). Ah! Ele também minimiza os seus problemas, dizendo que tudo vai se resolver logo – e não perde um minuto sem contar vantagem, ignorando suas dores. Seria o famoso “duas caras”?

A insensibilidade dessa pessoa, no fundo, sempre esteve lá, da hora que você a conheceu até a última conversa que tiveram, mensagem que trocaram. É bem impulsionada pela vaidade. É bem baseada em insegurança. É um forte disfarce para a inveja. Mas tudo isso sempre esteve lá. Faça um breve retrospecto de momentos em que você teve uma leve sensação de mal estar com uma postura ou algo que a pessoa disse. Sem neuras. Também detesto gente com mania de teoria da conspiração.

Mas o que eu falo aqui é de uma atitude egoísta constante, mas camuflada com maestria por uma falsa simpatia. Observe nas entrelinhas. Porque não há ninguém verdadeiro que seja feliz, vitorioso e calmo o tempo todo. Alguma coisa tá errada. Olha bem… Tem um quê de falta de naturalidade, sabe? Tem a ganância (de dinheiro, poder, status) disfarçada de ambição saudável de quem corre atrás. Buscar reconhecimento e prosperidade é legítimo. Considerar todo e qualquer meio e método, embora duvidosos, pra chegar lá, não.

Eu ainda prefiro o devagar e sempre, o dormir com a consciência tranquila, o torcer genuinamente pela felicidade dos outros. Qualquer coisa construída desconsiderando o caráter é um castelo de cartas. E pra um castelo assim cair basta uma leve e certeira brisa.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

Começos, recomeços

recomeço

Esta não me parece uma segunda-feira qualquer. É, coincidentemente (ou não?), um início de semana com começos e recomeços pra muita gente que conheço – inclusive pra mim. Dei o primeiro passo num novo projeto profissional. Tenho dois amigos que estão no primeiro dia de trabalho nas empresas em que acabam de chegar. Uma amiga realiza o sonho da primeira viagem internacional. Outra está se matriculando no francês. Sei de um casal, depois de anos juntos e com um filhinho de uns cinco anos, que comemora hoje o primeiro dia de recém-casados. E tem ainda um casal de amigos que reatou o namoro após meses separados.

Quantas vezes a gente começa, recomeça, retoma, tenta outra vez, tenta um novo caminho… É pra perder as contas. Cheguei a dar uma reclamadinha semana passada, enquanto tomava chá com minha melhor amiga, que tem horas que eu canso um pouco dessa sensação de sempre começar novamente. Nos últimos três anos foi um movimento constante demais na minha vida. Sim, tem o lado bom do desafio, da conquista, do colocar a criatividade pra funcionar, do encanto de ver algo nascer/renascer! Mas junto com a novidade vem a insegurança do desconhecido. E de ter que se esforçar pra fazer dar certo. No trabalho, no amor, nos planos em geral. O problema, pra mim, nem é a batalha em si pra concretizar projetos e desejos. Isso é fascinante. Mas em tempos em que tudo é líquido, rápido e fugaz como nunca fica mais complexo que a duração das coisas ganhe força. O longo prazo é cada vez mais etéreo e incerto.

A saída é se adaptar e tentar lidar com a ansiedade do saber-até-determinado-limite. Talvez seja justamente a hora de – empurrados pelos recomeços constantes – aprendermos a curtir mais o presente, o que a vida oferece agora. Como eu sempre gosto de lembrar quando piro demais em algum “querer”: somos finitos. Claro, pensar no futuro é essencial. Não dá pra viver como se não existisse amanhã, que amanhece sempre cheio de responsabilidades. Mas lembrar nosso prazo de validade torna aquilo que temos em mãos no momento uma preciosidade.

No fim, apesar de um coração por vezes cansado e uma mente por vezes desgastada, começar de novo desperta o prazer de sentir nossa capacidade em toda sua potência. É perceber a chance de reescrever nossa história, de imaginá-la mais colorida e feliz.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna