Mais médicos. E ética, respeito, bom senso

médicocubano

Há uns sete anos, entrevistei um médico que era professor de uma importante faculdade de medicina da cidade de São Paulo. Ele andava preocupado. Dizia que pelo menos metade de seus alunos desejava se especializar em dermatologia ou cirurgia plástica. Nunca, afirmava o doutor, tantos futuros médicos lhe pareciam mais interessados em ganhar dinheiro do que de fato exercer a medicina para salvar vidas. Claro, as especialidades que ele citou também cuidam de doenças, como câncer de pele, e acidentes, como os que resultam em queimaduras graves. Mas não era o objetivo, não. Longe disso. Lembro dele ter dito: “Em geral, querem abrir clínicas de luxo”.

Era o auge do turismo médico no Brasil. Estrangeiros desembarcavam no país para se submeterem a plásticas. Também a fama da toxina botulínica e de preenchimentos faciais disparava. A promessa da juventude nunca fora tão fácil. E com a demanda em alta, nada como cobrar caro pelos serviços. Realmente, as especialidades pareciam as mais promissoras financeiramente.

Nada errado em um médico escolher a área que prefere atuar. Menos ainda que seja muito bem remunerado por isso. O problema é que a conversa com o professor, já há sete anos, deixava claro que parte considerável dos formados em medicina hoje enxergam na profissão mais status do que compromisso com a saúde. Não precisa ser um gênio, então, pra concluir por que é tão, mas tão difícil que médicos aceitem trabalhar nos rincões do país.

Também é verdade que os que aceitam atender em periferias e locais afastados enfrentam condições de trabalho precárias e até violência urbana. O dia a dia de muitos dos médicos brasileiros não é fácil. Especialmente na saúde pública. Sem leitos, eles têm que escolher qual paciente será atendido ou não. Sem material e equipamentos adequados, são obrigados a fecharem diagnósticos mais na intuição do que na certeza. Receitam remédios que, muitas vezes, sabem que as pessoas não poderão pagar ou não encontrarão gratuitamente. Pra quem se comprometeu a curar, imagino a angústia diária. Inclusive por saberem que ao serem impedidos de realizar o trabalho como deveriam a consequência é a morte daqueles que estão em suas mãos.

Mas sim, faltam médicos. Talvez não formados. Mas faltam profissionais que encarem um cotidiano distante dos confortos e facilidades que as metrópoles oferecem. Falta gente disposta a mudar seu estilo de vida de classe média alta pra atender quem precisa de socorro. Não é segredo pra ninguém que estudantes das faculdades de medicina, em sua maioria, vêm de famílias abastadas. Porque o vestibular é dos mais difíceis. E passa quem teve a chance de se preparar nas melhores escolas particulares.

Pra quem ainda acha que não precisa de médico de fora, dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) indicam a batalha que é atrair e fixar profissionais em municípios do interior brasileiro. Dos 287.832 médicos cadastrados nessa base, até 2011, apenas 13% estão em cidades de até 50 mil habitantes (que correspondem a quase 90% das cidades brasileiras e contêm 64 milhões de pessoas). Na imensa maioria dos municípios, a quantidade de médicos disponíveis é considerada baixa (menos de 2,5 médicos por 1 mil habitantes), segundo os critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS). A média Brasil é de 1,5, mais baixa ainda.

Aí, você pode dizer que eles ganham mal. Pode ser. Mas não é a regra. Muitos recebem bons salários, disponíveis também nas cidades pequenas. O problema é que a remuneração acaba sendo pouca perto do trabalho desgastante, que envolve a responsabilidade de lidar com o ser humano somada às condições inadequadas de trabalho, mais plantões que ultrapassam em muito o limite de horas aceitável porque… faltam médicos.

Ao invés da classe médica se unir para brigar por melhores condições de trabalho, de lutar contra a corrupção que suga verbas da saúde para o bolso de gente mau caráter, de ir às ruas exigir mudanças no sistema cruel que não atende a todos, preferiu cometer crimes nos últimos dias.

O primeiro foi o de omissão de socorro. João Batista Gomes Soares, presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), anunciou na quinta-feira, 22, o seguinte, segundo o jornal Estado de Minas: “Vou orientar meus médicos a não socorrerem erros de colegas cubanos.”

Já na noite de segunda-feira, 26, cerca de 50 médicos hostilizaram os profissionais estrangeiro, a maioria cubanos, que desembarcavam em Fortaleza, Ceará. Eles passaram por uma espécie de corredor, ladeados por manifestantes que aos gritos os chamavam de escravos. Preconceito e xenofobia são crimes.

Nossos médicos exigem que os estrangeiros se submetam à prova de conhecimentos para validar o diploma dos estrangeiros, conhecida como Revalida. A princípio, eles estão passando apenas por cursos de adaptação, principalmente de idioma. Sim, podemos colocar tal discussão na mesa. Mas existem dispositivos na lei que permitem contratações em caráter de emergência. E quem tem coragem de dizer que a situação da saúde no país não é uma emergência?

Sobre o acordo firmado entre os governos de Cuba e do Brasil, em que os médicos cubanos receberão seus honorários por meio de seu país de origem, depois do repasse do dinheiro pelas autoridades brasileiras, não é uma ideia que me agrada. Particularmente. Não conheço Cuba e enquanto não conhecer de perto a realidade da ilha de Fidel até evito tecer comentários. Porque tudo o que ouço costuma ser radical. Ou absurdamente a favor ou absurdamente contra. A princípio, não me sinto confortável em saber que um governo restringe a liberdade de expressão, o acesso à informação e o direito de ir e vir de seus cidadãos.

Mas seria burrice minha xingar de escravo um médico que vem de lá, como se ele não soubesse do que se trata o acordo. Esquecemos sempre que realidades são diversas. E não vou duvidar da capacidade dos profissionais cubanos. O sistema de saúde deles é reconhecido no mundo. A formação deve ser melhor do que de muita faculdade particular de medicina que encontramos por aqui.

Por fim, pra quem chama a decisão do governo brasileiro de eleitoreira, acredito que é justamente o contrário. A decisão é bem impopular. Bate de frente com uma classe poderosa e influente. A história mostra que governantes não preocupados em fazer o jogo do agrada a todos, mesmo que isso tenha lhes custado caro no presente, tendem a acertar, deixando bons legados no futuro.

Admiro profundamente a medicina e seus profissionais. Torço pelos médicos, brasileiros e estrangeiros, para que exerçam seu trabalho com humanismo e condições adequadas. Que recebam devidamente pelos seus esforços. Principalmente, porém, que não esqueçam o juramento que fizeram de socorrer a todos nós. Que não esqueçam ser parte do trabalho também ética, respeito e bom senso.

Crédito da imagem: Jarbas Oliveira

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Difícil exercício para compreensão da banalidade do mal

siria

Pensei muito se colocaria a foto acima no post de hoje. É de um cortar de coração… É de um desacreditar tão grande no ser humano… A gente quase desiste de achar que paz, bondade, fraternidade podem um dia predominar. Olhar as fotos das vítimas de mais um massacre na Síria, um dos piores em dois anos de guerra civil, desta vez resultado do uso de armas químicas, é ter a certeza de que parte das pessoas são de fato ruins. É o que diz a emoção e o caráter da maioria de nós quando se depara com uma imagem assim. Mas será que a maldade é uma característica de apenas alguns? Ou dependendo do contexto e da nossa crença de poder em determinada situação poderíamos também deixar emergir o nosso pior ao extremo?

Antes da notícia do ataque na Síria, eu já vinha há alguns dias pensando sobre a velha história de que ninguém é totalmente bom e nem totalmente ruim. Só que é bem difícil achar que um sujeito sem escrúpulos, que não pensa duas vezes antes de prejudicar o outro, tem algo bom. O que dizer, então, de um indivíduo que ordena a ação que matará centenas de inocentes, inclusive crianças? É duro processar a ideia, mas ele pode realmente acreditar que a atitude é a correta. A crença de “direito” de um ditador, me parece, é baseada numa educação, num pensamento, de que suas ações são legítimas com foco num “bem” maior. No nosso micro mundo, quantas vezes não fomos irascíveis ao determinarmos que a razão era nossa e tão somente nossa? Quantos pais não educam seus filhos para serem tiranos absolutos em suas verdades?

Veja, não estou defendendo, em momento algum, um ditador que mata pra se manter no poder. Só estou me entregando ao difícil exercício para compreensão do mal, algo cada vez mais corriqueiro. No sábado, fui ao cinema assistir o filme “Hannah Arendt”. Conta a história da filósofa alemã, criadora do termo “banalidade do mal”. A ideia surgiu quando Hannah escreveu para a revista The New Yorker cinco artigos sobre um dos julgamentos mais emblemáticos do século 20, o do nazista Adolf Eichmann.

Refugiada nos Estados Unidos com o marido, após fugir de um campo de concentração, ela mostra nos artigos que nem todos que cometeram crimes de guerra eram monstros. Eram burocratas que enxergavam suas tarefas como cumprimento de ordens. E relata também como alguns judeus ajudaram na matança de seus iguais. Parte da sociedade se voltou contra Hannah na época. Mas hoje seu trabalho é considerado um dos mais geniais do nosso tempo.

Uma das melhores cenas do filme é aquela em que a filósofa dá uma espécie de “aula-explicação” aos alunos da Universidade de Chicago, na qual lecionava, sobre a ideia que defendeu nos artigos. Para ela, ficou claro durante o julgamento que Eichmann era um ser limitado, pouco capaz de pensar por si, e que enxergava na lealdade em cumprir ordens seu maior valor. Um ser terrivelmente normal. Não um poço de maldade. Polêmico. Fiquei tão desconcertada que me remexi umas vinte vezes na poltrona do cinema, com aquela afirmação ecoando na minha cabeça e sem forças para discordar de Hannah.

Recorri, então, à psicologia pra entender bem x mal. Troquei uma série de mensagens com um amigo meu que é psicólogo, em busca de luz e alento. Consegui a luz. O alento, não. De cara, ele me explicou que os conceitos de bom e mau dependem da época histórica e do contexto cultural. Segundo, se alguém tem condutas desviadas, que prejudicam os demais, trata-se de patologia. Não significa, disse ele, que um indivíduo que praticou atrocidades é inocente porque é doente. Mas só consegue praticar tais atos por não enxergar outras possibilidades. A “banalidade do mal” da qual fala Hannah é justamente o não conseguir dar um rosto para o mal. O não definir de deuses e de demônios.

Ainda assim, eu insisto na minha incapacidade. Compreendo que há sentido para que maldades tenham justificativas. Desde as enormes, como as provocadas por ditadores, até as menores, como as praticadas no cotidiano, como por quem senta ao nosso lado no escritório, por exemplo. Mas… como é difícil aceitar. Talvez, seja a minha limitação dentro da minha terrível normalidade. Ao olhar de novo a imagem acima, de corpos infantis enfileirados, meu único desejo é que o responsável pague muito caro. Por que não, com a própria vida. Talvez, esse meu sentimento, de desejar a morte de uma pessoa, seja a prova de que tenho meu lado “perverso”. Quem não tem?

Tudo o que a Madonna me ensinou

madonna

55 anos. É a idade, desde semana passada, de uma das mulheres mais marcantes e polêmicas do nosso tempo. Eu diria, também, uma das figuras de maior importância do feminismo moderno. Ela namora caras cerca de 25 anos mais jovens, pega geral sem ter que dar satisfação pra ninguém, construiu um império, se reinventa com criatividade e ousadia. Madonna, além de tudo isso, se tornou uma das principais referências dos séculos 20 e 21 quando o assunto é liberdade. Não só sexual, como a maioria gosta de enxergar. Mas de escolhas. Quando parte do mundo a chamava de promíscua pra baixo, uma perdida, Madonna foi lá e se tornou mãe aos 39 anos. E boa mãe, daquelas que sabem educar e preservar a prole como muitas mulheres que “nasceram pra casar e ter filhos” são incapazes de fazer.

14 anos. Foi a idade que consegui assistir ao filme “Na cama com Madonna” escondida dos meus pais, num dia que todo mundo saiu e eu disse que ficaria em casa pra estudar. Era pensando em entender alguma coisa de sexo que dei o golpe. Mas o filme me ajudou não só a perceber que era legal uma mulher curtir o próprio corpo, ter prazer, como também mostrava uma estrela que carregava dúvidas, tristezas, conquistas. Igual a qualquer um. Tinha as cicatrizes e seguia em frente, poderosa. Igual ao que eu poderia ser se assim quisesse.

Compreendi que seria dona dos meus desejos, sem as culpas que o colégio de freiras que estudei me fez acreditar que seriam minhas se eu “saísse da linha”. Madonna, ainda por cima, era católica (na época do filme). Rezava. Agradecia a Deus. E ela tinha sucesso. Era amada por multidões. Logo, pensei eu na ocasião, Deus não tá nem um pouco incomodado com o que ela faz. É a hipocrisia humana que tá. Por muito menos, Ele não iria me castigar. Se eu exercesse minha sexualidade de forma plena quando me sentisse pronta, tivesse opinião sobre o mundo, fosse atrás do que eu acreditava, a ira divina jamais seria direcionada pra mim. Deus, simplesmente, tem mais o que fazer.

De alguma maneira, foi a partir daí que comecei a perceber que as escolhas sexuais dos outros não indicavam nenhum desvio de caráter, ao contrário do que a sociedade até então dizia. Que o que cada um faz entre quatro paredes, e com quem, não determina se a pessoa é melhor ou pior. Muito menos indica alguma patologia. Que erotismo e pornografia são bons sim – e podem ser os elementos que faltam pra muita gente desfrutar de uma vida sexual saudável, segura, divertida. Ninguém precisa dar mais do que chuchu na serra como a Madonna. Mas é inegável que sexo gostoso e sem medos equilibra nossa vida.

Mais do que cantora, Madonna é ícone para uma legião de meninas que confiaram em poder serem melhores e maiores do que aquilo que o mundo dizia que a elas estava reservado. Madonna teve que chocar, passar dos “limites”, pra mostrar que o desejo feminino e o ser dona de si eram legítimos. Se você continua a considerando apenas uma senhora piriguete, lembre das vezes que pode dormir com namorado, perdeu a virgindade antes de casar… Aprendeu que existe orgasmo!! Aprendeu que ele também que se esforce pra te satisfazer!! A diva abriu demais esses caminhos, meu bem. Ela colocou em pauta nosso prazer. Goste ou não, pelo menos respeito a ela você deve. Madonna já é símbolo de algo muito maior do que uma simples putaria. E se tem um ditado que eu gosto é o que diz: “Mulheres comportadas raramente fazem história”.

P.S.: E pra animar e inspirar a semana, “Erotica” (http://www.youtube.com/watch?v=WyhdvRWEWRw)
Sem medo de ser feliz, Brasil… 😉

Crédito da imagem: CSV

Feliz Dia do Solteiro! \o/

diadosolteiro

A gente dorme esparramado numa cama de casal. A gente arruma companhia se quiser dormir na cama de casal brincando de casal. Não entramos em acordo com ninguém sobre o que comprar ou não no supermercado. Nem sobre qual filme escolher no cinema. Nem qual será o roteiro da viagem. O controle remoto é só nosso. Saímos com amigos do sexo oposto sem ter que lidar com uma constrangedora cena de ciúmes depois. Não damos satisfação de horário. Nem de por que não resistimos a mais um sapato na vitrine ou por que vamos jogar mais uma partida de videogame.

Temos liberdade pra fazer o que queremos, quando, como e com quem. E pronto.

Sim, eu sei que namorar tem vantagens e é gostoso. Mas ser solteiro também tem! E acho importante que uma fase considerável da nossa trajetória seja assim: sozinho. O que não significa solitário. Vai ser o período das conquistas individuais, de construção de um enorme orgulho se si mesmo. Nada a ver com individualismo. É saber até onde mais dá pra chegar e curtir os resultados.

Acredito de verdade que a fase dos 20 anos é aquela em que a vida é só pra você. Descobertas, erros, experiências, mais erros, diversão, maturidade em desenvolvimento – e pique pra tudo isso e ainda trabalhar muito. Aí, quando chegam os 30, é a hora de aproveitar o cotidiano de um jeito mais leve. Você já sabe o que de fato tem valor. Desencana de ideias estapafúrdias do tipo “o que será que vão pensar?”. Como você se matou de trabalhar entre uma balada e outra, também tem mais dinheiro em caixa. E viaja quando quer e começa a realizar sonhos maiores, como uma casa. As baladas, inclusive, não são mais tantas – mas melhores! Bem capaz de começar a trabalhar menos. Você tira do seu convívio, sem dó nem piedade, quem não te traz nada de bom. Saca que é bobagem prolongar relações que não levam a nada ou só te consomem. Sabe como nunca a importância do amor próprio.

Como eu ainda tenho apenas 34 não poderei descrever aqui os prazeres da solteirice após tal idade. 🙂

Mas tem uma coisa fundamental que desejo acrescentar. Vou aproveitar o Dia do Solteiro pra tentar fazer o mundo compreender que é ridículo a sociedade considerar ok um homem ser “solteiro convicto” e tachar uma mulher que faça também a opção de não casar e ter filhos de “solteirona”. É indelicado e ignorante alguém, nos anos 2000, se achar no direito de julgar de maneira tão rasa o outro. A solteirice, vejam só, entra na mira do machismo nosso de cada dia. Ali, à espreita. Tá na hora da gente ser um pouquinho mais evoluído, gente. Um pouquinho menos limitado na nossa percepção sobre possibilidades. E, quem sabe, ser menos recalcado, né? Porque eu acho que só se preocupa demais com a vida dos outros e insiste em mostrar que as escolhas alheias são equivocadas quem tá muito infeliz com as próprias opções.

Claro, uma hora a maioria dos solteiros quer sim namorar, ou casar, ou juntar. E vai. E é bom que seja assim. Como eu disse antes, é tão gostoso! Parceria é bacana! Quem aproveitou a solteirice, porém, leva uma enorme vantagem: a capacidade de entrar em relações mais saudáveis sem se anular. Já sabemos nosso valor. Aprendemos a fazer as escolhas inteligentes, as que somam. Jamais deixaremos que alguém tente suprimir uma parte do que nos torna especial.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

Método de um pai pra ensinar sua menina a ser valente

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Eu tinha seis anos. Minha bicicleta era uma Ceci dourada, com cestinho branco. Quase consigo lembrar a força com que agarrava o guidão, com medo, mas cheia de vontade de pedalar pela primeira vez sem as rodinhas. Comecei. Meu pai atrás, segurando a garupa, correndo pra me dar impulso e segurança. Ganhei velocidade, aquele vento no rosto, e comecei a gritar: “Não me solta, pai! Não me solta!” E ele: “Tô segurando, tô segurando…” Mas o “tô segurando” foi ficando distante, e distante… Pedalando rápido, dei uma olhada ligeira por cima do ombro. Ele já não estava ali. Pela primeira vez, andava sozinha de bicicleta. Fui parar, brequei mal, me estatelei no chão. Não chorei. Porque ele veio correndo me levantar, sorrindo e dizendo um orgulhoso “você conseguiu”. Toda ralada, sorri de volta, também orgulhosa de mim.

Mesmo meio sem saber, mesmo que mais na intuição do que na certeza, meu pai me ensinou a intimidar a vida. Desde muito cedo, quando parecia que algo poderia me assustar ou dar errado, ele simplificava a situação. Não por desdém. Mas pra mostrar que a gente não pode fazer a tempestade maior do que o copo e que pra tudo se dá um jeito. Então, não tem que temer. Tem que tentar. Se deu certo, ótimo. Se não, tenta de novo. Sem grandes dramas. Na praticidade.

Ele me colocava junto com meu irmão pra nadar na piscina olímpica do clube quando eu mal tinha começado a aprender. Falava: “Segura na borda e bate as perninhas. Agora, solta um pouco um braço. Agora, troca de braço.” E lá fui eu… Quando vi, já me arriscava a ficar longe da beira da piscina – sempre sob o olhar dele. A gente também fazia caminhada, trilha. E andava, e andava… Sentava numa pedra pra descansar. Um pouquinho de água. Continuava. Nada de desistir. Andava. A personalidade era forjada. A sensação de que aos poucos, mas constantemente, dá pra conseguir, dá pra alcançar, dá pra chegar lá.

Os anos foram passando. Brigamos algumas vezes justamente porque eu queria testar a força que ele me ensinou a ter. Porque eu desejava ultrapassar o limite que ele mesmo disse que era possível. Mas, no geral, conto nos dedos as vezes que meu pai se intrometeu nas minhas decisões finais. Sabia bem como tinha me criado. Sabia que podia confiar em mim. Aliás, não podia esperar nada diferente de um cara que cuidava de mim bebê, trocava fralda, me botava pra dormir, me dava mamadeira enquanto minha mãe fazia faculdade a noite. O que há bem pouco tempo se tornou o padrão da paternidade moderna, meu pai já fazia na virada dos anos 70 para os 80. Meu velho é vanguarda.

Já moça, aos 24 anos, fui morar fora graças a uma bolsa de estudos. No aeroporto, comecei a chorar, meio apavorada, meio com saudade antecipada, meio atordoada por conseguir de fato realizar um sonho de muitos anos. Ele olhou pra mim sério e disse: “Por que você tá chorando tanto? Não era o que você queria? Se não for bom, se você não gostar, volta. É só voltar. Não tem que chorar.” Parei de soluçar. Prendi a respiração. Abracei ele, agradeci, embarquei. E foi um dos períodos mais felizes da minha vida.

O método do meu pai de ensinar a filha a ser valente é tão vivo na minha memória por ser absolutamente claro na mulher que me tornei. Não há lugar que eu imagine não poder chegar. Não há nada que eu acredite não poder tentar. Não porque acho que vou ganhar sempre. Porque sei, porém, que se não ganhar dessa vez, tudo bem. É natural. O recado foi, principalmente, de que o mundo é cheio de oportunidades.

Crédito da imagem: Photography

Não peça desculpas

desculpas

Não, não é o que vocês estão pensando. Não sugiro aqui que deixemos de lado a educação e sejamos insensíveis a partir de hoje. Pelo contrário. É justamente para a sensibilidade que eu apelo. Aquela, capaz de evitar mágoas, dores, dissabores. Porque, claro, todo mundo tem o direito de errar, enfiar os pés pelas mãos, machucar sem querer. Nem sempre dá pra fazer o “certo”. Às vezes, a gente vai partir um coração, falar sem pensar, sumir sem explicar. Talvez até, por nervoso, maltratar. Ninguém está livre de perder a compostura, não… Mas se puder evitar…

Acho a imagem acima bem didática. Ferir ou ofender uma pessoa terá o mesmo efeito do copo que cai no chão. Uma vez quebrado é difícil consertar. Ou nem dá. Não significa que, se você errou, não deva se redimir e ir lá pedir perdão. Deve sim! Sabendo, porém, que as coisas podem nunca mais serem as mesmas… Que quando algo despedaça é em pedacinhos tão pequenos que não dá mais pra colar. Principalmente o que é subjetivo, o que é emoção… Admiração, confiança, respeito, cumplicidade… Fica um vazio no coração, um vácuo de decepção…

Não peça desculpas. Não tenha que pedir desculpas. Não crie uma situação em que a única saída é botar a mão na consciência, se arrepender e se desculpar. São tantos os momentos e as ocasiões em que o sofrimento poderia nunca existir – e também o pedido de desculpas na sequência. Tem horas que não dá, eu sei… Vai ter que dizer o pior, a verdade sem cor… E dói. Pra quem ouve e pra quem fala. Mas aí é da vida. É assim que é.

Fora isso, fora o sofrimento absolutamente inevitável, não machuca. Não estraçalha uma alma, principalmente de quem te quer bem. Porque quase sempre é para as pessoas importantes da nossa vida que direcionamos nosso pior. Como se o bem querer estivesse atrelado a aguentar desaforo. Não tá. E ninguém tem que aturar. Então, procure economizar pedidos de desculpas. Não por arrogância. Por cuidado e delicadeza.

Crédito da imagem: Kit Básico da Mulher Moderna

Viajando no quintal

Masp

Quando eu ainda era bem menina criei uma regra pra minha vida: conhecer pelo menos um lugar novo todo ano. Claro, quando a gente é adolescente e dependente da família, o campo de ação fica limitado. Por um bom tempo, chegava só até onde minha bicicleta me levava. Com 12 anos fui liberada pra andar de ônibus – e não parei mais quieta. Então, explorava as cidades da região onde morava mesmo. Conhecia todos os museus. Todas as partes históricas. Tudo quanto era bairro. Se tinha novidade, eu ía lá ver. Até que aquele mundo se esgotou um tanto…

Depois de determinar que muita coisa inédita por aí me esperava minha providência foi ganhar dinheiro. Com 16 anos comecei a dar aulas de balé para crianças. Foi também nesse ano que visitei pela primeira vez outro país, os Estados Unidos. Viagem paga pelos meus pais. Mas parte da grana que levei pra gastar consegui com as aulas.

Diante da constatação “dinheiro pode me levar mais longe” resolvi sempre guardar parte do que recebia. Nascia o meu “fundo viagem”. Foi graças a ele que coloquei os pés em boa parte dos estados brasileiros e em 15 países até hoje. Os planos não acabam nunca. Quem começa a viajar vicia. O melhor vício que pode existir. Não para nunca mais. Porque sempre tem mais um lugar. Sabe AQUELE lugar? Parece que é o próximo. Aí, você vai lá, conhece, curte. Mas nem a atual viagem acabou e você já se pega imaginando o destino seguinte. Viajante é assim.

Só que a vida é imprevisível. Tem hora que a situação financeira aperta. A gente tem que fazer outras escolhas. Planejar outras conquistas que também requerem gastos. Quando acontece, minha opção são roteiros mais próximos. Parar jamais! Viajar, a essa altura, já é praticamente sinônimo de respirar. Quando, porém, nem os roteiros curtos conseguem ser encaixados, eu lembro da minha sabedoria infantil de ir mais perto… Bem pertinho mesmo.

Eis a vantagem de morar na maior e mais rica cidade do país. Cheia de defeitos, é verdade. Mas repleta de atrações! E o pertinho pra mim inclui alguns dos melhores museus e centros culturais do Brasil (muitos deles gratuitos). Um centro histórico fascinante e com bastante construção bonita restaurada. Bairros que representam algumas das culturas que aqui fincaram raízes. Cinemas passando filmes que vão do “cult” ao “blockbuster”. Restaurantes pra todos os gostos. Eu poderia estender a lista do melhor de São Paulo quase que infinitamente.

Sou obrigada, então, a fazer um mea-culpa. Porque ultimamente briguei tanto com a metrópole, aborrecida com seus entraves, que andei esquecendo o quanto ela me ajudou a fazer vir à tona minha personalidade real. Quem eu sou e sempre quis ser. Inclusive como viajante, já que São Paulo foi a primeira grande cidade da minha vida e a prova de que existia de fato muito mais pra ver. No fim, num momento em que minhas felizes idas ao aeroporto diminuíram, me vejo redescobrindo a cidade que me adotou. E até conhecendo lugares onde nunca nem estive. Afinal, tô firme no conceito “pelo menos um lugar novo todo ano”! Vou viajando no quintal pra manter a curiosidade em movimento.

Crédito da imagem: Museu de Arte de São Paulo (Masp)