Viajando no quintal

Masp

Quando eu ainda era bem menina criei uma regra pra minha vida: conhecer pelo menos um lugar novo todo ano. Claro, quando a gente é adolescente e dependente da família, o campo de ação fica limitado. Por um bom tempo, chegava só até onde minha bicicleta me levava. Com 12 anos fui liberada pra andar de ônibus – e não parei mais quieta. Então, explorava as cidades da região onde morava mesmo. Conhecia todos os museus. Todas as partes históricas. Tudo quanto era bairro. Se tinha novidade, eu ía lá ver. Até que aquele mundo se esgotou um tanto…

Depois de determinar que muita coisa inédita por aí me esperava minha providência foi ganhar dinheiro. Com 16 anos comecei a dar aulas de balé para crianças. Foi também nesse ano que visitei pela primeira vez outro país, os Estados Unidos. Viagem paga pelos meus pais. Mas parte da grana que levei pra gastar consegui com as aulas.

Diante da constatação “dinheiro pode me levar mais longe” resolvi sempre guardar parte do que recebia. Nascia o meu “fundo viagem”. Foi graças a ele que coloquei os pés em boa parte dos estados brasileiros e em 15 países até hoje. Os planos não acabam nunca. Quem começa a viajar vicia. O melhor vício que pode existir. Não para nunca mais. Porque sempre tem mais um lugar. Sabe AQUELE lugar? Parece que é o próximo. Aí, você vai lá, conhece, curte. Mas nem a atual viagem acabou e você já se pega imaginando o destino seguinte. Viajante é assim.

Só que a vida é imprevisível. Tem hora que a situação financeira aperta. A gente tem que fazer outras escolhas. Planejar outras conquistas que também requerem gastos. Quando acontece, minha opção são roteiros mais próximos. Parar jamais! Viajar, a essa altura, já é praticamente sinônimo de respirar. Quando, porém, nem os roteiros curtos conseguem ser encaixados, eu lembro da minha sabedoria infantil de ir mais perto… Bem pertinho mesmo.

Eis a vantagem de morar na maior e mais rica cidade do país. Cheia de defeitos, é verdade. Mas repleta de atrações! E o pertinho pra mim inclui alguns dos melhores museus e centros culturais do Brasil (muitos deles gratuitos). Um centro histórico fascinante e com bastante construção bonita restaurada. Bairros que representam algumas das culturas que aqui fincaram raízes. Cinemas passando filmes que vão do “cult” ao “blockbuster”. Restaurantes pra todos os gostos. Eu poderia estender a lista do melhor de São Paulo quase que infinitamente.

Sou obrigada, então, a fazer um mea-culpa. Porque ultimamente briguei tanto com a metrópole, aborrecida com seus entraves, que andei esquecendo o quanto ela me ajudou a fazer vir à tona minha personalidade real. Quem eu sou e sempre quis ser. Inclusive como viajante, já que São Paulo foi a primeira grande cidade da minha vida e a prova de que existia de fato muito mais pra ver. No fim, num momento em que minhas felizes idas ao aeroporto diminuíram, me vejo redescobrindo a cidade que me adotou. E até conhecendo lugares onde nunca nem estive. Afinal, tô firme no conceito “pelo menos um lugar novo todo ano”! Vou viajando no quintal pra manter a curiosidade em movimento.

Crédito da imagem: Museu de Arte de São Paulo (Masp)

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2 respostas em “Viajando no quintal

  1. Su, mais um de seus textos primorosos. Bem me lembro da pequenina desbravando o quintal! Que alegria vê-la desbravando o mundo e a si própria. Receba meu beijo “viajante”!

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