Método de um pai pra ensinar sua menina a ser valente

pai mão

Eu tinha seis anos. Minha bicicleta era uma Ceci dourada, com cestinho branco. Quase consigo lembrar a força com que agarrava o guidão, com medo, mas cheia de vontade de pedalar pela primeira vez sem as rodinhas. Comecei. Meu pai atrás, segurando a garupa, correndo pra me dar impulso e segurança. Ganhei velocidade, aquele vento no rosto, e comecei a gritar: “Não me solta, pai! Não me solta!” E ele: “Tô segurando, tô segurando…” Mas o “tô segurando” foi ficando distante, e distante… Pedalando rápido, dei uma olhada ligeira por cima do ombro. Ele já não estava ali. Pela primeira vez, andava sozinha de bicicleta. Fui parar, brequei mal, me estatelei no chão. Não chorei. Porque ele veio correndo me levantar, sorrindo e dizendo um orgulhoso “você conseguiu”. Toda ralada, sorri de volta, também orgulhosa de mim.

Mesmo meio sem saber, mesmo que mais na intuição do que na certeza, meu pai me ensinou a intimidar a vida. Desde muito cedo, quando parecia que algo poderia me assustar ou dar errado, ele simplificava a situação. Não por desdém. Mas pra mostrar que a gente não pode fazer a tempestade maior do que o copo e que pra tudo se dá um jeito. Então, não tem que temer. Tem que tentar. Se deu certo, ótimo. Se não, tenta de novo. Sem grandes dramas. Na praticidade.

Ele me colocava junto com meu irmão pra nadar na piscina olímpica do clube quando eu mal tinha começado a aprender. Falava: “Segura na borda e bate as perninhas. Agora, solta um pouco um braço. Agora, troca de braço.” E lá fui eu… Quando vi, já me arriscava a ficar longe da beira da piscina – sempre sob o olhar dele. A gente também fazia caminhada, trilha. E andava, e andava… Sentava numa pedra pra descansar. Um pouquinho de água. Continuava. Nada de desistir. Andava. A personalidade era forjada. A sensação de que aos poucos, mas constantemente, dá pra conseguir, dá pra alcançar, dá pra chegar lá.

Os anos foram passando. Brigamos algumas vezes justamente porque eu queria testar a força que ele me ensinou a ter. Porque eu desejava ultrapassar o limite que ele mesmo disse que era possível. Mas, no geral, conto nos dedos as vezes que meu pai se intrometeu nas minhas decisões finais. Sabia bem como tinha me criado. Sabia que podia confiar em mim. Aliás, não podia esperar nada diferente de um cara que cuidava de mim bebê, trocava fralda, me botava pra dormir, me dava mamadeira enquanto minha mãe fazia faculdade a noite. O que há bem pouco tempo se tornou o padrão da paternidade moderna, meu pai já fazia na virada dos anos 70 para os 80. Meu velho é vanguarda.

Já moça, aos 24 anos, fui morar fora graças a uma bolsa de estudos. No aeroporto, comecei a chorar, meio apavorada, meio com saudade antecipada, meio atordoada por conseguir de fato realizar um sonho de muitos anos. Ele olhou pra mim sério e disse: “Por que você tá chorando tanto? Não era o que você queria? Se não for bom, se você não gostar, volta. É só voltar. Não tem que chorar.” Parei de soluçar. Prendi a respiração. Abracei ele, agradeci, embarquei. E foi um dos períodos mais felizes da minha vida.

O método do meu pai de ensinar a filha a ser valente é tão vivo na minha memória por ser absolutamente claro na mulher que me tornei. Não há lugar que eu imagine não poder chegar. Não há nada que eu acredite não poder tentar. Não porque acho que vou ganhar sempre. Porque sei, porém, que se não ganhar dessa vez, tudo bem. É natural. O recado foi, principalmente, de que o mundo é cheio de oportunidades.

Crédito da imagem: Photography

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6 respostas em “Método de um pai pra ensinar sua menina a ser valente

  1. Aprender assim com um pai tão presente na sua vida é um presente mesmo. Um brinde á tudo de bom que pai lhe ensinou, adorei compartilhar amiga

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