Difícil exercício para compreensão da banalidade do mal

siria

Pensei muito se colocaria a foto acima no post de hoje. É de um cortar de coração… É de um desacreditar tão grande no ser humano… A gente quase desiste de achar que paz, bondade, fraternidade podem um dia predominar. Olhar as fotos das vítimas de mais um massacre na Síria, um dos piores em dois anos de guerra civil, desta vez resultado do uso de armas químicas, é ter a certeza de que parte das pessoas são de fato ruins. É o que diz a emoção e o caráter da maioria de nós quando se depara com uma imagem assim. Mas será que a maldade é uma característica de apenas alguns? Ou dependendo do contexto e da nossa crença de poder em determinada situação poderíamos também deixar emergir o nosso pior ao extremo?

Antes da notícia do ataque na Síria, eu já vinha há alguns dias pensando sobre a velha história de que ninguém é totalmente bom e nem totalmente ruim. Só que é bem difícil achar que um sujeito sem escrúpulos, que não pensa duas vezes antes de prejudicar o outro, tem algo bom. O que dizer, então, de um indivíduo que ordena a ação que matará centenas de inocentes, inclusive crianças? É duro processar a ideia, mas ele pode realmente acreditar que a atitude é a correta. A crença de “direito” de um ditador, me parece, é baseada numa educação, num pensamento, de que suas ações são legítimas com foco num “bem” maior. No nosso micro mundo, quantas vezes não fomos irascíveis ao determinarmos que a razão era nossa e tão somente nossa? Quantos pais não educam seus filhos para serem tiranos absolutos em suas verdades?

Veja, não estou defendendo, em momento algum, um ditador que mata pra se manter no poder. Só estou me entregando ao difícil exercício para compreensão do mal, algo cada vez mais corriqueiro. No sábado, fui ao cinema assistir o filme “Hannah Arendt”. Conta a história da filósofa alemã, criadora do termo “banalidade do mal”. A ideia surgiu quando Hannah escreveu para a revista The New Yorker cinco artigos sobre um dos julgamentos mais emblemáticos do século 20, o do nazista Adolf Eichmann.

Refugiada nos Estados Unidos com o marido, após fugir de um campo de concentração, ela mostra nos artigos que nem todos que cometeram crimes de guerra eram monstros. Eram burocratas que enxergavam suas tarefas como cumprimento de ordens. E relata também como alguns judeus ajudaram na matança de seus iguais. Parte da sociedade se voltou contra Hannah na época. Mas hoje seu trabalho é considerado um dos mais geniais do nosso tempo.

Uma das melhores cenas do filme é aquela em que a filósofa dá uma espécie de “aula-explicação” aos alunos da Universidade de Chicago, na qual lecionava, sobre a ideia que defendeu nos artigos. Para ela, ficou claro durante o julgamento que Eichmann era um ser limitado, pouco capaz de pensar por si, e que enxergava na lealdade em cumprir ordens seu maior valor. Um ser terrivelmente normal. Não um poço de maldade. Polêmico. Fiquei tão desconcertada que me remexi umas vinte vezes na poltrona do cinema, com aquela afirmação ecoando na minha cabeça e sem forças para discordar de Hannah.

Recorri, então, à psicologia pra entender bem x mal. Troquei uma série de mensagens com um amigo meu que é psicólogo, em busca de luz e alento. Consegui a luz. O alento, não. De cara, ele me explicou que os conceitos de bom e mau dependem da época histórica e do contexto cultural. Segundo, se alguém tem condutas desviadas, que prejudicam os demais, trata-se de patologia. Não significa, disse ele, que um indivíduo que praticou atrocidades é inocente porque é doente. Mas só consegue praticar tais atos por não enxergar outras possibilidades. A “banalidade do mal” da qual fala Hannah é justamente o não conseguir dar um rosto para o mal. O não definir de deuses e de demônios.

Ainda assim, eu insisto na minha incapacidade. Compreendo que há sentido para que maldades tenham justificativas. Desde as enormes, como as provocadas por ditadores, até as menores, como as praticadas no cotidiano, como por quem senta ao nosso lado no escritório, por exemplo. Mas… como é difícil aceitar. Talvez, seja a minha limitação dentro da minha terrível normalidade. Ao olhar de novo a imagem acima, de corpos infantis enfileirados, meu único desejo é que o responsável pague muito caro. Por que não, com a própria vida. Talvez, esse meu sentimento, de desejar a morte de uma pessoa, seja a prova de que tenho meu lado “perverso”. Quem não tem?

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