Mais médicos. E ética, respeito, bom senso

médicocubano

Há uns sete anos, entrevistei um médico que era professor de uma importante faculdade de medicina da cidade de São Paulo. Ele andava preocupado. Dizia que pelo menos metade de seus alunos desejava se especializar em dermatologia ou cirurgia plástica. Nunca, afirmava o doutor, tantos futuros médicos lhe pareciam mais interessados em ganhar dinheiro do que de fato exercer a medicina para salvar vidas. Claro, as especialidades que ele citou também cuidam de doenças, como câncer de pele, e acidentes, como os que resultam em queimaduras graves. Mas não era o objetivo, não. Longe disso. Lembro dele ter dito: “Em geral, querem abrir clínicas de luxo”.

Era o auge do turismo médico no Brasil. Estrangeiros desembarcavam no país para se submeterem a plásticas. Também a fama da toxina botulínica e de preenchimentos faciais disparava. A promessa da juventude nunca fora tão fácil. E com a demanda em alta, nada como cobrar caro pelos serviços. Realmente, as especialidades pareciam as mais promissoras financeiramente.

Nada errado em um médico escolher a área que prefere atuar. Menos ainda que seja muito bem remunerado por isso. O problema é que a conversa com o professor, já há sete anos, deixava claro que parte considerável dos formados em medicina hoje enxergam na profissão mais status do que compromisso com a saúde. Não precisa ser um gênio, então, pra concluir por que é tão, mas tão difícil que médicos aceitem trabalhar nos rincões do país.

Também é verdade que os que aceitam atender em periferias e locais afastados enfrentam condições de trabalho precárias e até violência urbana. O dia a dia de muitos dos médicos brasileiros não é fácil. Especialmente na saúde pública. Sem leitos, eles têm que escolher qual paciente será atendido ou não. Sem material e equipamentos adequados, são obrigados a fecharem diagnósticos mais na intuição do que na certeza. Receitam remédios que, muitas vezes, sabem que as pessoas não poderão pagar ou não encontrarão gratuitamente. Pra quem se comprometeu a curar, imagino a angústia diária. Inclusive por saberem que ao serem impedidos de realizar o trabalho como deveriam a consequência é a morte daqueles que estão em suas mãos.

Mas sim, faltam médicos. Talvez não formados. Mas faltam profissionais que encarem um cotidiano distante dos confortos e facilidades que as metrópoles oferecem. Falta gente disposta a mudar seu estilo de vida de classe média alta pra atender quem precisa de socorro. Não é segredo pra ninguém que estudantes das faculdades de medicina, em sua maioria, vêm de famílias abastadas. Porque o vestibular é dos mais difíceis. E passa quem teve a chance de se preparar nas melhores escolas particulares.

Pra quem ainda acha que não precisa de médico de fora, dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) indicam a batalha que é atrair e fixar profissionais em municípios do interior brasileiro. Dos 287.832 médicos cadastrados nessa base, até 2011, apenas 13% estão em cidades de até 50 mil habitantes (que correspondem a quase 90% das cidades brasileiras e contêm 64 milhões de pessoas). Na imensa maioria dos municípios, a quantidade de médicos disponíveis é considerada baixa (menos de 2,5 médicos por 1 mil habitantes), segundo os critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS). A média Brasil é de 1,5, mais baixa ainda.

Aí, você pode dizer que eles ganham mal. Pode ser. Mas não é a regra. Muitos recebem bons salários, disponíveis também nas cidades pequenas. O problema é que a remuneração acaba sendo pouca perto do trabalho desgastante, que envolve a responsabilidade de lidar com o ser humano somada às condições inadequadas de trabalho, mais plantões que ultrapassam em muito o limite de horas aceitável porque… faltam médicos.

Ao invés da classe médica se unir para brigar por melhores condições de trabalho, de lutar contra a corrupção que suga verbas da saúde para o bolso de gente mau caráter, de ir às ruas exigir mudanças no sistema cruel que não atende a todos, preferiu cometer crimes nos últimos dias.

O primeiro foi o de omissão de socorro. João Batista Gomes Soares, presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), anunciou na quinta-feira, 22, o seguinte, segundo o jornal Estado de Minas: “Vou orientar meus médicos a não socorrerem erros de colegas cubanos.”

Já na noite de segunda-feira, 26, cerca de 50 médicos hostilizaram os profissionais estrangeiro, a maioria cubanos, que desembarcavam em Fortaleza, Ceará. Eles passaram por uma espécie de corredor, ladeados por manifestantes que aos gritos os chamavam de escravos. Preconceito e xenofobia são crimes.

Nossos médicos exigem que os estrangeiros se submetam à prova de conhecimentos para validar o diploma dos estrangeiros, conhecida como Revalida. A princípio, eles estão passando apenas por cursos de adaptação, principalmente de idioma. Sim, podemos colocar tal discussão na mesa. Mas existem dispositivos na lei que permitem contratações em caráter de emergência. E quem tem coragem de dizer que a situação da saúde no país não é uma emergência?

Sobre o acordo firmado entre os governos de Cuba e do Brasil, em que os médicos cubanos receberão seus honorários por meio de seu país de origem, depois do repasse do dinheiro pelas autoridades brasileiras, não é uma ideia que me agrada. Particularmente. Não conheço Cuba e enquanto não conhecer de perto a realidade da ilha de Fidel até evito tecer comentários. Porque tudo o que ouço costuma ser radical. Ou absurdamente a favor ou absurdamente contra. A princípio, não me sinto confortável em saber que um governo restringe a liberdade de expressão, o acesso à informação e o direito de ir e vir de seus cidadãos.

Mas seria burrice minha xingar de escravo um médico que vem de lá, como se ele não soubesse do que se trata o acordo. Esquecemos sempre que realidades são diversas. E não vou duvidar da capacidade dos profissionais cubanos. O sistema de saúde deles é reconhecido no mundo. A formação deve ser melhor do que de muita faculdade particular de medicina que encontramos por aqui.

Por fim, pra quem chama a decisão do governo brasileiro de eleitoreira, acredito que é justamente o contrário. A decisão é bem impopular. Bate de frente com uma classe poderosa e influente. A história mostra que governantes não preocupados em fazer o jogo do agrada a todos, mesmo que isso tenha lhes custado caro no presente, tendem a acertar, deixando bons legados no futuro.

Admiro profundamente a medicina e seus profissionais. Torço pelos médicos, brasileiros e estrangeiros, para que exerçam seu trabalho com humanismo e condições adequadas. Que recebam devidamente pelos seus esforços. Principalmente, porém, que não esqueçam o juramento que fizeram de socorrer a todos nós. Que não esqueçam ser parte do trabalho também ética, respeito e bom senso.

Crédito da imagem: Jarbas Oliveira

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2 respostas em “Mais médicos. E ética, respeito, bom senso

  1. Querida, Su, nunca te dei os parabéns pelo teu blog. E faço isso agora, porque nunca é tarde. E prometo prestar mais atenção nele. Fico orgulhosa de ter conhecido você, sua inteligência e doçura, naquela linda Berlim. Deixo um beijo, direto de Fortaleza. Ah, como vi que você respeita bastante os autores das imagens que publica aqui, essa foto é de um fotógrafo cearense muito talentoso chamado Jarbas Oliveira. Beijão da Raquel.

    • Que delícia receber esse recadinho tão querido!!! Obrigada, minha amiga!! O carinho e as boas lembranças são recíprocas! Espero que um dia a gente ainda se encontre no caminho SP-Ceará!! 🙂
      E agradeço pelo nome do fotógrafo! Vou mudar já! Saudade grande!! Bjokas

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