Estranho/Estrangeiro

estrangeiro

Já contei pra vocês que faço mestrado em ciências sociais, mais especificamente em sociologia. O tema da minha dissertação é o impacto de voltar a viver numa cidade como São Paulo (com seus prós e contras) depois de anos no exterior. Entre as entrevistas que realizei até aqui, com brasileiros que desde 2008 fizeram esse movimento de retorno, uma observação se repete. Um elemento no qual eu pensava como secundário pra explorar no estudo. Talvez não seja. É a sensação que essas pessoas têm de, nunca mais, se sentirem pertencentes a apenas um lugar. Não significa não dar valor às raízes, ao país de origem, à família. Mas é uma maneira de enxergar o mundo do tamanho que ele é. Grande. Com a possibilidade de uma vida que pode ser realizada em qualquer espaço onde a gente encontre afinidade de princípios, desejos.

Conversando com amigos que gostam muito de viajar e já conheceram vários países, o sentimento aparece de novo. Eles voltam pra casa, mas sempre sabendo que no mapa existem outras rotas a serem traçadas. Sabendo que, com certeza, aquela viagem não foi a última. Que seu local de origem é um aconchego no retorno. Não é, porém, o único possível pra ser feliz, pra existir. Pra amar, ter amigos e até família. Pra planejar, pra estudar, pra trabalhar. O viajante compreende a imensidão que a viagem lhe permite ter em mãos. Assim, ele conhece muito mais sobre relações e suas variedades. Aceita mais a diversidade. Respeita o diferente e peculiar de cada cultura e de cada um.

O lado ruim de se tornar tão entendedor de dimensões mais vastas é se sentir um estranho em seu próprio ninho. Um estrangeiro. Aliás, “estranho” e “estrangeiro” vêm de uma mesma raiz. Se completam. Desconhecido. Forasteiro. E quando a gente ganha “olhos de estrangeiro”, não mais viciados nas obviedades cotidianas e nos padrões que nos fizeram acreditar como sendo únicos, inquestionáveis, igualmente “bons” e “ideais” pra todos nós, há um desencaixe. Há uma inquietação constante que se reflete na nossa maneira de interagir na sociedade.

Digo “lado ruim” porque tal desencaixe pode se tornar um sofrimento pra alguns. Você, viajante, se torna mais crítico e observador do que não vai bem por aí. Também consegue enxergar cada indivíduo como um ser único, nem totalmente bom, nem totalmente mau. Percebe as nuances. Age com bom senso na hora de se colocar. Aprendeu o equilíbrio possível entre as opiniões que estão em oposição. Mas, então, percebe que a maioria daqueles que não se arriscaram fora de seu perímetro não consegue pensar como você. Te julga. Te vê como um excêntrico – na melhor das hipóteses.

Não fica triste e chateado, não. O lado bom do desencaixe é descobrir que tem muito desencaixado por aí que nem você. Que nem a gente. 😉 Temos turma e ela não é pequena. Em metrópoles como São Paulo, onde a diversidade de grupos e pensamentos é maior, fica mais fácil encontrar ressonância em outros. Se você não mora numa cidade grande, não desanime. Ser estranho/estrangeiro é saber que o mundo inteiro nos pertence. E que o conhecimento que adquirimos nas nossas andanças por ele ainda servirão pra fazer do nosso ninho um lugar melhor e interessante.

Crédito da imagem: CSV

Anúncios

2 respostas em “Estranho/Estrangeiro

  1. Oi Suzane!
    Quanto tempo, né?! Ando sumida daqui, mas sempre que venho dar uma olhadinha adoro!
    Eu me encaixo perfeitamente no texto de hoje! Acho que eu sou uma estrangeira no meu próprio país, e sempre achei que a música dos Titãs reflete um pouco da minha vida: “eu não sou brasileiro, eu não sou estrangeiro, sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum”… Sou uma mineira, nascida no Maranhão, já morei na Bahia, em Manaus, passei a infância em Goiás, a adolescência em Minas, e desde que terminei a faculdade estou em SP 🙂 Viajo sempre que posso e todas as vezes que volto tenho a sensação de que preciso mais e mais! Eu conto no mundo quantos países eu já estive, quais os próximos a conhecer e quantos ainda faltam! Adoro saber que o mundo é grande, que existem muitos lugares, culturas, pessoas, e por outro lado, adoro saber que as distâncias estão cada vez mais curtas e que está cada vez mais fácil conhecer esse mundão 🙂 Eu sou uma total “desencaixada” e gosto de ser assim! Afinal, a vida é muito curta pra ficarmos em um lugar só! Tem tanta coisa legal por aí que, na minha opinião, é um desperdício não colocar a mochila nas costas e sair por aí!
    E a minha dica pra quem não quer sair por aí é: arrisque-se! Se quiser comece devagar, conhecendo outro bairro, um canto da cidade onde nunca tenha estado, logo logo, as possibilidades vão se abrindo e quando você percebe já está indo pro Japão!
    Um beijo grande e muitos “desencaixes”!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s