A cruel exigência de que eles sejam fortes demais

homem sensível

A lágrima caiu. Misturou ao café na pequena xícara. Olhos marejados. O choro maior que ele não queria deixar vir à tona era segurado. Engoliu em seco e continuou. Meu amigo, que eu já não encontrava há alguns anos, tem 33. Casado. Um filhinho de dois anos. Trabalha no mercado financeiro. Disse que acompanha o blog desde o começo e pediu pra gente conversar. Achou que eu poderia ajudá-lo a dar significado pra tudo o que vem enfrentando. Me senti até lisonjeada. Bom saber que alguém confia na gente nessa proporção. De auxiliar a clarear ideias. Não sou psicóloga, claro, mas amigo é pra essas coisas. E acho sempre verdadeira aquela história de que quem enxerga de fora pode ver o que no fundo não desejamos.

Ele está no limite. Físico e mental. Vive um efeito sanfona de engorda-emagrece. Agora, me pareceu magro demais. Tem gastrite, insônia, ansiedade. Sua luta é pra manter o padrão de vida que sempre quis. E alcançou. O preço anda alto. Odeia o que faz. Diz que vive pesados embates profissionais diários. Competitividade ao extremo. Ninguém desconfia, diz. “Não quero que as pessoas percebam o quanto me sinto fraco e inútil”. Depois dessa frase, o choro contido (talvez de anos) veio de uma vez. Quase chorei junto. Fiquei firme pra tentar explicar que aquilo que ele sentia era legítimo, um direito. “Ao homem isso não é permitido, Su…”

Infelizmente, não tenho como discordar do meu amigo que a fragilidade dele é mal vista na nossa sociedade. Já melhorou muito. Mas a clássica ideia de que homem não chora persiste. Especialmente quando o ambiente de trabalho pede decisões duras. A cruel exigência de que eles sejam fortes demais é tão machista quanto a ideia de que mulheres devem ser submissas pra serem “valorizadas”, “escolhidas”, “amadas”.

Dias antes, um outro amigo que mora fora me contou como a saudade, a distância de pessoas importantes, tem feito ele sofrer e questionar decisões anteriores. Profissional de humanas, da escrita, encontra mais facilidade em demonstrar seus sentimentos. Não teme falar sobre o assunto. Mas ele ainda não é maioria. Ao homem é quase proibido lidar com um problema emocional. E essa é uma das nossas maiores falhas. Separar. Em gêneros, classes, etnias, idade. Somos todos seres humanos à mercê de dores, batalhas. A resiliência não depende de estar ou não encaixado em determinado grupo. Depende de ajuda. De autoconhecimento. De nos libertarmos de estereótipos, sermos mais generosos e menos preocupados com o “parecer” pra impressionar. Pobre de nós, que precisamos da aprovação alheia, e corremos constantemente atrás disso, mesmo que nossa alma esteja em frangalhos.

Aos meus amigos meninos, pedi, antes de tudo, calma. As tempestades passam. Para o amigo que eu não via há anos, recomendei, a partir da minha humilde compreensão do mundo e com base na amizade sincera, que ele abra o coração para a família. Depois, que procure ajuda de um terapeuta e passe por uma bateria de exames. Por fim, que não permaneça paralisado pelo medo de mudar. Claro, com pessoas que dependem dele, a mudança não pode ser radical. Mas por fases, um passo após o outro, e ele vai conseguir. Temos o direito de viver com mais suavidade. Tanto homens quanto mulheres. Que bom será quando a tristeza e a delicadeza forem permitidas a todos nós.

Crédito da imagem: CSV

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2 respostas em “A cruel exigência de que eles sejam fortes demais

  1. que situação horrível a do seu amigo. Tomara que ele consiga mudar, em vez de tentar arranjar forças pra continuar desse jeito. Ninguém merece ser tão infeliz…
    Vc conhece o site menos.vc (assim mesmo, sem .com, sem .br)? Tem vários textos curtos que poderiam ajudá-lo, creio. Dá uma lida e vê se é o caso.
    E, a propósito, tô com saudade 🙂

    Bjo

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